


O MEU FILHO NICK

Danielle Steel



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Me ...

Conheci um milho de pessoas Mas nunca ningum como tu Muitos dos meus amigos so especiais Mas 
ainda no consigo entender Como podes ser to maravilhosa A melhor me do mundo Sempre me amaste 
e ajudaste Mesmo quando eu no tinha razo Desculpa ter-te magoado Desculpa ter-te feito chorar Farei o 
meu melhor para que te orgulhes de mim Prometo que vou tentar Todos vem o infortnio E todos sentem 
a dor E se algum souber que s tu e eu O Sol brilhar atravs da chuva Deste-me tanto Que as palavras 
no so suficientes Para dizer quanto te amo Estou a tentar e  difcil Sem ti no existiria Acreditaste em 
mim desinteressadamente Os meus braos esto sempre abertos Prometo que nunca se fecharo Tenho 
mais respeito por ti Do que por outra mulher viva E o meu ombro est sempre aqui Se algum dia 
precisares de chorar Tudo acabar em bem Porque sempre te amarei At Ao dia em que morrer

Nick Traina
Agosto de 1996

PRLOGO

Este no  um livro fcil de escrever, mas h muito para dizer, nas minhas palavras e nas do meu filho. E 
por mais doloroso que isso possa ser, vale a pena faz-lo, se servir de ajuda para algum.  E difcil 
encerrar um ser, um ser muito especial, uma alma, um sorriso, um rapaz, um enorme talento, um corao 
imenso, uma criana, um homem, numa srie de pginas. Porm, tenho de tentar, por ele, por mim, por 
vs. E tenho a esperana de que, Ao faz-lo, compreendereis quem  que ele foi, e o que significava para 
aqueles que o conheciam. Esta  a histria de um rapaz extraordinrio, com um esprito brilhante, um 
corao de ouro e uma alma torturada.  a histria de uma doena, uma luta pela vida, uma corrida contra 
a morte. Para mim, porm, ainda  cedo. Ele faleceu h pouco tempo. Ainda sinto uma dor no corao. Os 
dias parecem interminveis. Ainda choro Ao ouvir o seu nome. Entro no quarto dele e ainda sinto o seu 
cheiro familiar. As suas palavras ainda ecoam nos meus ouvidos. Ainda h poucos dias, h poucas 
semanas, ele estava vivo... h to pouco tempo, e todavia est morto. Ainda me  impossvel digerir ou 
entender a situao. Ainda me custa aceitar. Olho para as suas fotografias, e no consigo imaginar que 
toda aquela vida, aquele amor, aquela energia desapareceram. Mas ser que aquele rosto divertido e 
gracioso, aquele sorriso radioso, o corao que conheci melhor que o meu, o melhor amigo que ele se 
tornou para mim, desapareceram realmente? Eles s vivem na memria? Mesmo agora, isso est para 
alm dos limites da minha compreenso, e, por vezes, para alm daquilo que  suportvel. Como  que 
tudo aconteceu? Como  que o perdemos? Como  possvel termos-lhe dedicado tanto esforo, tanto 
carinho, tanto amor, e mesmo assim t-lo perdido? Se s o amor o tivesse conseguido manter vivo, ele 
teria chegado aos trezentos anos. Mas, por vezes, mesmo amando do fundo do corao, da alma, do 
esprito, no  suficiente. Infelizmente, no foi suficiente para Nick.
Se tivesse trs desejos, um seria que ele nunca tivesse sofrido de doena mental, o outro seria 
naturalmente que ele estivesse vivo, mas o terceiro seria que algum me tivesse informado, num dado 
momento, que a sua doena - psicose manaco-depressiva - poderia mat-lo. Talvez isso tenha acontecido. 
Talvez me tenham dito de uma forma subtil. Talvez a inferncia estivesse a, e eu no quisesse saber. Mas 
ouvi com ateno tudo o que me disseram Ao longo dos anos, analisei todas as doenas, e segui todos os 
conselhos, o melhor que sabia e as foras permitiam. Por aquilo que me lembro, ningum me disse nada. 
Pelo menos, abertamente. E era uma informao que eu esperava desesperadamente. No estou certa de 
que teramos feito as coisas de modo diferente, mas, pelo menos, eu teria sabido, teria sido avisada de qual 
poderia ser o pior cenrio.
A doena matou-o com a mesma certeza que um cancro o teria feito. Quem me dera ter sabido, ter sido 
avisada, de como era grande o risco. Talvez tivesse ficado mais bem preparada para aquilo que viria a 
acontecer mais tarde. No sei se nas mentes das pessoas  evidente que a psicose manaco-depressiva  
potencialmente fatal. Nem sempre, certamente, mas na maioria dos casos. Suicdio e acidentes parecem 
ser as maiores causas de morte para os manaco-depressivos. Nem so casos raros. Se me tivessem dito 
que ele sofria de um cancro num rgo importante, teria ficado a saber que o risco era grande. Talvez 
tivesse compreendido que a sua vida poderia ser curta e que as consequncias poderiam ser trgicas. Estou 
certa que teria lutado exactamente com o mesmo empenho, durante o mesmo tempo, com a mesma 
perspiccia, mas teria ficado mais bem preparada para o que veio mais tarde. A derrota talvez no tivesse 
sido to chocante, embora fosse igualmente devastadora.
O propsito deste livro  prestar homenagem a Nick e quilo que ele conseguiu durante a sua curta 
existncia. Nick era um ser humano extraordinrio, alegre e inteligente, com uma percepo 
extraordinariamente profunda e astuta dele prprio e dos outros. Encarava a vida com coragem, 
desenvoltura, paixo e humor. Fazia tudo "em grande", melhor e com mais empenho. Amava com ardor, 
ria muito, e fazia-nos rir, chorar, e tentava salvar-se desesperadamente. Nenhum daqueles que o 
conheciam podia ficar insensvel  sua dor. Era impossvel conhec-lo e no lhe dar importncia. Ele fazia 
com que gostssemos, sentssemos e quisssemos ser como ele. Era muito grande. Era o maior.
Escrevi este livro para lhe prestar homenagem e para o recordar. Mas tive ainda um outro propsito ao 
faz-lo. Quero partilhar a histria, a dor, a coragem, o amor, e aquilo que aprendi ao passar por isso. 
Quero que a vida de Nick no seja apenas uma terna recordao para ns, mas uma ddiva para os outros. 
H muito a aprender aqui, no s acerca de uma vida, mas acerca de uma doena que aflige entre dois e 
trs milhes de americanos, um tero dos quais, cr-se, morrem dela, possivelmente dois teros. E uma 
estatstica aterradora. As estatsticas so algo "brandas" na questo das vtimas, porque geralmente a 
morte  atribuda a outras causas: por exemplo, mais a "overdose acidental" do que a suicdio, que  
determinado mais pela efectiva quantidade de substncias fatais ingeridas do que por uma razo clara.
E discutvel se aqueles que morreram poderiam ter sido salvos, ou se aqueles que iro morrer o podero 
ser. Ento, e aqueles que vivero e que ainda vivem? Como  que os ajudamos? Que podemos fazer? 
Infelizmente, ningum, e certamente nem eu, tem as respostas mgicas para resolver o problema. H uma 
srie de opes, solues e formas de encarar a questo. Mas, primeiro, temos de analisar o problema. 
Temos de compreender aquilo com que estamos a lidar, para sabermos que mais do que uma simples dor 
de barriga, trata-se aqui de um cancro de fgado. Temos de entender que o que estamos a enfrentar  srio, 
importante... e potencialmente fatal.
Algures por a, em apartamentos, casas, hospitais, em empregos e vidas vulgares, e no apenas em 
enfermarias psiquitricas, esto pessoas a enfrentar uma luta terrvel dentro delas. E junto a elas h 
pessoas que sabem e que as adoram. Gostaria de aqui estender os meus braos, e oferecer esperana e as 
realidades com que vivemos. Quero fazer a diferena. A minha esperana  que algum seja capaz de 
aproveitar o que aprendemos, e que salve uma vida. Talvez possais fazer a diferena, embora eu no 
tivesse conseguido. Se  verdade que um tero dos manaco-depressivos morrem desta doena, e das suas 
sequelas, ento dois teros vivero. Dois teros podem ser ajudados, e podem viver uma existncia til. E, 
se possvel, gostaria que a histria e a vida de Nick os ajudassem, os servissem, e que aprendessem com os 
nossos erros e as nossas vitrias.
As maiores lies que aprendi foram a coragem, o amor, a energia, a ingenuidade e a persistncia. Nunca 
desistimos, nunca desvimos a cabea para o lado, nunca nos virmos contra ele, nunca o abandonmos, 
at ele nos deixar, porque j no conseguia manter a luta por muito mais tempo. No s lhe foi feita a 
ressuscitao cardiopulmonar quando tentou suicidar-se, como tentmos manter a sua alma viva de todas 
as maneiras possveis, de modo a continuar a luta ao nosso lado. E a verdadeira vitria para ele, e para 
ns, foi o facto de lhe termos dado uma qualidade de vida que ele de outro modo nunca teria tido. 
Conseguiu prosseguir a carreira naquilo que adorava: a msica. Conseguiu vitrias que s algumas 
pessoas conseguem, com o dobro da sua idade, ou com uma vivncia muito maior. Conhecia o prazer e a 
emoo do sucesso, alm de tambm conhecer melhor que ningum o preo que pagou por isso. Tinha 
amigos, uma vida, uma famlia, uma carreira, divertimento, alegria e tristeza. Passou os ltimos anos de 
vida com surpreendente graciosidade, apesar das deficincias com que nasceu. E ficmos extremamente 
orgulhosos dele, como homem, msico e ser humano. Era um jovem brilhante e talentoso que carregava 
uma doena. Mas a doena no o impediu de ser quem era, nem nos impediu de o amar como ele era.
Em retrospectiva, penso que foi uma das melhores prendas que lhe demos. A aceitao de como ele era e o 
amor incondicional. Aos nossos olhos, pelo menos, a doena era apenas uma das suas facetas, no era ele 
como um todo. Escusado ser dizer que  extremamente difcil amar algum com psicose manaco-
depressiva. H alturas em que vos apetece chorar, dias em que pensais que j no conseguis fazer nada, 
semanas em que no fazeis a diferena e quem vos dera pod-la ter feito, momentos em que vos apetece 
virar as costas. O problema  deles, no  vosso, e todavia ele torna-se vosso se amardes a pessoa que 
sofre da doena. No tendes outra escolha. Tendes de ficar junto deles. Fostes apanhados numa armadilha, 
da mesma forma que o doente certamente o foi. E, por vezes, detestareis essa armadilha, detestareis aquilo 
que ela faz  vossa vida, aos vossos dias, ao vosso equilbrio mental. Mas, detesteis ou no, estais l, e 
custe o que custar, tendes de fazer o vosso melhor.
S vos posso contar o que fizemos, o que tentmos, o que resultou e o que falhou. Podeis aprender com o 
que tentmos atingir, e desenvolver melhores caminhos que resultem convosco. Experimentmos um sem-
nmero de coisas, e algum do tempo passmo-lo sentados. No existem livros de regras, nem manuais, 
nem folhas de instrues, nem normas. S tendes de tactear o caminho no escuro e fazer o melhor que 
puderdes. No conseguis fazer mais que isso. E se tiverdes muita sorte, o que estiverdes a fazer resultar. 
Se no tiverdes, no resultar, e ento tentareis outra coisa. Tentareis tudo o que puderdes at ao fim, e 
ento a nica coisa que vos restar  saberdes as dificuldades que sentistes. Nick sabia. Nick sabia as 
dificuldades que sentamos para ajud-lo, e ele tambm tentava ultrapass-las. rRespeitava-nos bastante 
por isso. Nutramos um grande amor um pelo outro porque tnhamos passado por muita coisa juntos. 
ramos efectivamente muito parecidos, mais do que aquilo que pensmos durante muitos anos. Ele 
acabou por me dizer isso. Fez-me rir. Fez-me sorrir. No era apenas o meu filho, mas o meu melhor 
amigo. Estou a escrever este livro por ele, para o homenagear, e para ajudar aqueles que precisam de saber 
o que aprendemos, o que fizemos, o que deveramos ou no ter feito. E se isso ajudar algum, ento  
porque vale a pena reviver tudo, e partilhar as alegrias e a agonia de Nick. No fao isto para o expor, ou 
para me expor, mas para vos ajudar.
Voltaria a fazer tudo de novo? Sem dvida. De imediato. No trocaria estes dezanove anos por nada deste 
mundo. No renunciaria  dor, ao tormento,  pura frustrao ou  tristeza ocasional, porque a alegria e a 
felicidade estavam sempre presentes. No havia nada melhor na vida do que saber que as coisas estavam a 
correr-lhe bem. No perderia um instante dos que passei com ele. Ensinou-me mais acerca do amor, da 
alegria, da coragem, do amor pela vida, da maravilhosa imoderao do que algo ou algum me ensinar 
alguma vez. Ofereceu-me as ddivas de amor, compaixo, compreenso, aceitao, tolerncia e pacincia, 
envoltas em gargalhadas, vindas do fundo do corao.O amor  para ser partilhado, a dor para ser aliviada. 
Se eu puder partilhar a vossa dor, e alivi-la com o amor de Nick partilhado por todos ns, ento a vida 
dele ser uma nova ddiva, desta vez no s para mim e a sua famlia, mas tambm para vs.Foi Nick que 
fez com que valesse a pena lutar por tudo isto. F-lo por ns, e por ele prprio, e ns por ele. Foi uma 
dana de amor do princpio ao fim. Foi uma vida que valeu a pena viver, independentemente das 
dificuldades e desafios. Penso que ele concordaria com isso. No tenho a menor dvida. No sinto 
qualquer arrependimento, por mais duro que tivesse sido. No teria dispensado um segundo dos que passei 
com ele. E o que aconteceu no fim foi o seu destino. Como diz a cano: "Destino... dana comigo, meu 
destino." E como era doce a msica. O seu som perdurar eternamente, tal como Nick, e o nosso amor por 
ele.Ele foi uma ddiva inestimvel. Ensinou-me tudo o que merecia a pena saber acerca da vida e do amor. 
Que Deus o abenoe e o guarde, e sorria com ele, at nos voltarmos a encontrar. E que Deus te ampare na 
tua viagem.
D. S.

A VIAGEM COMEA

Conheci o pai de Nick no dia do seu trigsimo primeiro aniversrio, num dia soalheiro de Junho. Bill era 
inteligente, estava empregado e tinha um ar de Jean-Paul Belmondo. Era extremamente atraente, culto, 
bem-educado, muito inteligente, provinha de uma famlia respeitvel e tinha uns pais formidveis. Possua 
tudo para ter uma boa vida, mas tambm tinha um passado cheio de altos e baixos. Era algo a que ele se 
referia superficialmente, sem se deter em pormenores.
Era produto de uma educao jesuta, frequentara a universidade, jogara futebol, e formou-se em 
Psicologia pouco depois de nos conhecermos. Na sua juventude, metera-se nas drogas, mas h muito que 
as abandonara. Quando nos conhecemos, nem se drogava nem bebia. Nem pouco mais ou menos. Fiquei 
impressionada com isso, pois eu no bebia na altura, e nem agora bebo, e toda a minha vida me tenho 
mantido afastada das drogas e das pessoas que as consomem.
H algumas coisas que ainda desconheo acerca dele, outras, esqueci, ou talvez tenha preferido perd-las 
algures. Confesso que durante duas dcadas s passou alguns momentos na minha vida. Mas agora, ao 
rever todos os instantes da vida de Nick, e os dias que lhe deram origem, ao escolher as fotografias e ao 
mergulhar no passado, relembro coisas que h muito preferira esquecer. As suas muitas qualidades. O seu 
charme. A atraco que exercia nas mulheres. No partilhmos as nossas vidas durante muito tempo, mas 
deixou-me uma impresso indelvel. E quando os nossos caminhos se cruzaram de novo por causa de 
Nick, voltei a aperceber-me da boa pessoa que ele era, e ainda . De certa forma, a pessoa que ele  agora 
no s restaurou a minha f nele, como em mim mesma. Aos trinta e um anos, era um homem calmo, 
adorava a vida ao ar livre, adorava pescar, e era um pouco tmido. Possua muitas qualidades, algumas das 
quais vi em Nick mais tarde. Tinha a sorte de ter o apoio de pais dedicados, que achavam que ele no 
poderia fazer nada de errado, e, tal como eu, era filho nico. No fao ideia se as coisas teriam alguma vez 
resultado entre ns em condies normais.
 difcil de dizer. Carregava fardos que eu no conhecia, e sofria com os seus prprios demnios. No sei 
se o gene manaco-depressivo veio dalgum ramo da sua rvore genealgica, ou da minha, no h maneira 
de saber isso. E a nica evidncia de algo estranho do lado de Bill foi o seu vcio pelas drogas, que s 
descobri mais tarde.
Sempre acreditei que em muitos casos, se no mesmo em todos, o vcio da droga  efectivamente uma 
questo de automedicao das pessoas, embora no saiba se isso foi o caso de Bill. No sei se algum sabe 
como  que estas coisas acontecem, ou por que razo.
Soube pouca coisa da sua histria nesses primeiros dias depois de nos conhecermos, e se calhar no fui 
suficientemente inteligente ou sofisticada para compreender tudo o que via. J havamos sido casados 
anteriormente, e eu tinha uma filha de nove anos do primeiro casamento, a minha filha mais velha, 
Beatrix. Sei agora quais devem ter sido as minhas esperanas ou suspeitas ento: Bill era um homem recto 
e carinhoso. A vida levara-o a atravessar uma profunda agonia, mas a alma conseguira, de certa forma, 
sobreviver; acredito que seja uma boa pessoa e, desde a morte de Nick, tornmo-nos amigos.
Comemos a namorar nesse Vero e, seis semanas depois de nos conhecermos, fiquei grvida, o que, 
escusado ser dizer, foi uma surpresa. No importa agora discutir se foi ou no o momento adequado. 
Ainda era extremamente jovem na altura, tendo casado aos dezoito anos a primeira vez. Mas j tinha idade 
suficiente para saber o que fazia. Em retrospectiva, mais tarde, um pouco mais madura e mais reticente 
relativamente a mim mesma, interroguei-me se, secretamente, desejara outro filho. Ou talvez tivesse sido 
apenas o destino. De qualquer forma, a percepo do que acontecera atingiu-nos como uma bomba. 
Nenhum de ns estava preparado para pensar em casamento, e seguiram-se ento um ou dois meses 
traumatizantes, enquanto agonizvamos a pensar no que fazer.
Pelo que me lembro, Bill foi bastante correcto relativamente ao problema, embora compreensivelmente 
desalentado. Numa relao de seis semanas, a gravidez  uma coisa de que no se est  espera. Do ponto 
de vista religioso, opunha-me a fazer um aborto, embora, admito, tenha ponderado a hiptese, atendendo 
s circunstncias. Vivia sozinha, sem qualquer inteno de casar com Bill, tinha uma criana para 
sustentar e ainda no ganhava por a alm. Sustentar um beb ia ser um grande desafio, e no pedi nem 
esperei que Bill o fizesse, nem ele tinha condies para o fazer, na altura.
Isso ps-me perante um dilema moral e social. Vivia num mundo em que uma criana nascida fora dos 
laos do matrimnio no seria bem vista. E para complicar ainda mais as coisas, embora no tivssemos 
vivido juntos durante muitos anos, ainda no tinha sido pronunciada a sentena do meu divrcio anterior. 
Por isso, mesmo que eu e Bill quisssemos casar imediatamente, no poderamos. Alm disso, estava 
preocupada com o exemplo que daria  minha filha, e com o que ela pensaria depois. A falta de 
discernimento que demonstrei ento no  um exemplo que eu queira dar a qualquer um dos meus filhos, 
mesmo agora.
No entanto, apesar dos problemas bvios, resolvi ir em frente e ter o beb. Bill e eu concordmos em viver 
separados, mas continuar a vermo-nos. Tnhamos a esperana de que as coisas entre ns dessem certo, 
mas no era de modo nenhum uma certeza. J nessa altura me apercebi de problemas na relao, e Bill e 
eu ramos muito diferentes. No contei aos meus pais, que viviam a quatro mil e oitocentos quilmetros 
de distncia. Via-os raramente, e sabia que uma notcia deste gnero iria, compreensivelmente, ser 
encarada com horror. Eu vinha de um mundo em que bebs acidentais, ou filhos ilegtimos, no eram 
recebidos calorosamente. Os meus pais, e particularmente o meu pai, no iam ficar contentes. Nem eu. Foi 
um srio esforo, e sei que, dessa altura em diante, a minha vida ia ser ainda mais dura do que tinha sido 
at a. Eu ganhava a vida, mas as coisas estavam difceis, e quase todas as pessoas que conhecia iam ficar 
chocadas. Imaginei-me uma pria social, provavelmente sozinha at ao resto da vida, sem marido e com 
dois filhos para sustentar. Se vasculhar nas lembranas desse tempo, lembro-me com extrema facilidade 
que fiquei com um medo de morte, e completamente baralhada. Mas senti que tinha de dar o melhor de 
mim, pelo bem da minha filha e do meu filho por nascer. Por aquilo que me era dado ver, tinha  minha 
frente uma estrada solitria, longa e difcil.
Miraculosamente, a poucos dias de tomar a deciso de ter o beb, ofereceram-me um projecto de escrita 
que cobriria, literalmente at ao ltimo penny, aquilo que eu imaginava que custaria ter o beb: mdicos, 
fraldas, hospital, roupa. A quantia que me foi oferecida era exactamente aquilo de que precisava para me 
orientar. Foi um obstculo que ultrapassei, mas sabia que muitos mais se seguiriam. Tinha cerca de sete 
livros escritos na altura, mas s dois tinham vendido. Ganhava a vida a escrever anncios, a fazer 
tradues, a ensinar ingls e escrita criativa, e at em empregos ocasionais em lojas. O novo projecto 
significava que poderia escrever a tempo inteiro. Um grande milagre para mim, na altura.
O obstculo seguinte a ser ultrapassado foi o ter de dizer  minha filha que ia ter um beb, um dilema 
moral que me trazia em agonia, um exemplo excepcional do "faz o que eu digo, no faas o que eu fao". 
No queria que ela cometesse os mesmos erros quando crescesse (e no cometeu). Uma pessoa deve 
apaixonar-se, casar e depois ter um filho, e no engravidar, manter-se solteira e envolver-se com algum 
que mal se conhece e que s se v de tempos a tempos. Era o que eu no queria para ela, ou para mim. E, 
nessa altura, julgo que Bill e eu compreendemos que a nossa ligao no era a mais perfeita. Ele tinha 
outros prazeres na vida, dos quais eu no sabia ainda nada, tnhamos interesses e vidas diferentes. Se 
tivssemos namorado, sem a presso de um beb, o romance j teria provavelmente fracassado, e a tenso 
nervosa teria sido certamente menor. Com um beb prestes a nascer, sentamos uma grande presso sobre 
ns, quer individual quer conjuntamente. Foram tempos muito difceis.
A minha filha foi extraordinria e, em vez de demonstrar choque, desaprovao ou embarao perante a 
confisso dolorosamente sincera que lhe fiz, abraou a novidade com emoo, entusiasmo, de braos 
abertos. Estava exultante. Sempre desejara um irmo, e sentia uma embaraante felicidade por este ir ser 
"o nosso beb", e no o termos de partilhar com mais ningum. Foi, efectivamente, uma forma optimista 
de encarar a situao, e deixou-me imensamente feliz. Criou um lao estreito entre ns que nunca 
diminuiu. Mesmo aos nove anos, ela nunca me criticou e deu-me sempre um infinito apoio.
Curiosamente, o problema da hereditariedade nunca me passou pela cabea nessa altura. No sei se era eu 
que era apenas uma ingnua, ou se estvamos simplesmente numa poca em que as pessoas no se 
preocupavam muito com isso. Nunca me deu para perguntar com ar srio: "Quem  este homem? Quem  
o pai do meu beb?" Via o beb como uma entidade separada de cada um de ns. Mas mesmo que tivesse 
percebido perfeitamente a potencial bomba-relgio da hereditariedade, no teria feito as coisas de maneira 
diferente. Sentia que no tinha qualquer alternativa que no fosse ter a criana e desenvencilhar-me o 
melhor que pudesse depois.
Nos meses que se seguiram, Bill e eu encontrmo-nos regularmente e, quando fiz seis meses de gravidez, 
ele resolveu mudar-se para minha casa para ver se resultava. Concordei, embora ficasse nervosa com o 
facto, mas tive a impresso de que isso se ficou a dever mais ao beb. Falvamos vagamente de 
casamento, embora no acredite que nos tivssemos casado se no estivesse grvida. (Nessa altura, os 
meus pais ainda no sabiam que estava grvida, e receava dar-lhes a notcia.)
Porm, alguns dias depois da mudana, Bill comeou a afastar-se. Desaparecia durante horas e dias, 
comportava-se de forma estranha quando voltava, e parecia algo diferente daquilo que era quando nos 
conhecemos. No era violento ou agressivo, era sobretudo esquivo. OO seu aspecto passou de impecvel 
para desalinhado, e as suas desaparies tornaram-se mais frequentes e prolongadas. Eu no sabia onde  
que ele estava, nem com quem, nem o que andava a fazer. s vezes, chegava a casa  uma ou duas da 
manh e voltava a sair ainda antes de eu me levantar. A sua vida era mais que nunca um mistrio para 
mim. Assim como as suas desaparies. Alis, como quase tudo nele era. A coisa mais importante que eu 
sabia acerca de Bill era que ia ter um filho seu. O que no sabia, e no compreendia, era que ele voltara 
discretamente ao consumo de drogas, e eu no fazia a menor ideia. Como estava pouco familiarizada com 
esse mundo, no reconhecia os sinais.
Estava eu com sete meses de gravidez, quando Bill apanhou hepatite, o que complicou ainda mais a vida a 
mim e a Beatrix. Tratei dele at recuperar. Passado algum tempo, quando se ps novamente de p, as 
desaparies recomearam, e teve um acidente quando conduzia o meu carro. Foi nessa altura que 
compreendi finalmente o que acontecera, e o tipo de caos que as drogas estavam a causar  vida de Bill, e 
causariam  minha, se deixasse que isso acontecesse. Era um dilema terrvel. Era um mundo que eu no 
queria para mim nem para os meus filhos.
Estava ento com oito meses de gravidez, e finalmente falei do beb aos meus pais por telefone. Instalou-
se um silncio interninvel, uma pausa que durou uma eternidade, e depois a voz glida do meu pai. Ele s 
queria uma coisa: que nos casssemos. Era impossvel explicar-lhe que se passavam dias em que no 
punha a vista em cima de Bill e que, quando isso acontecia, ele passava por minha casa como um comboio 
expresso. Eu mal tinha tempo de lhe dizer "ol" antes de ele voltar a sair, sem nunca discutir a questo do 
casamento. E como poderia eu casar com algum na situao de Bill? Por um lado, eu queria legitimar a 
criana, por outro, estava aterrada com os problemas que viria a encontrar. No contei  minha famlia a 
histria de Bill com as drogas. Por fim, apesar das reservas que tinha, pareceu-me no haver alternativa a 
no ser casar. A sentena do divrcio anterior foi entretanto pronunciada, e o casamento foi efectivamente 
uma opo. Infelizmente, foi um perodo de muita ansiedade, e no um perodo que relembre com ternura.
Bill andou desaparecido a maior parte do tempo e nunca se disponibilizou para comprar o anel ou para 
tratar da licena de casamento. Acabmos por casar com uma "licena especial". E como resultado das 
suas desaparies e do stress por aquilo que estava a acontecer, tive literalmente um ataque de histeria 
quando ele finalmente apareceu na noite antes do casamento. Casmo-nos no dia seguinte, numa pequena 
cerimnia, e almomos com amigos num restaurante. Nessa noite, Bill voltou a desaparecer. Faltava uma 
semana para a data prevista para o parto. A nica consolao foi o meu pai ficar aliviado por termos 
casado, e eu tinha a esperana de que as coisas com Bill estabilizassem na devida altura.
Foram tempos de pesadelo. A minha filha ficou com o pai durante duas semanas at o beb nascer, e eu 
fiquei sozinha a maior parte do tempo. Por qualquer razo, Bill reapareceu na noite antes de o beb nascer. 
Passou a noite comigo, levou-me at ao hospital, esperou algum tempo e depois desapareceu outra vez. 
stava com pior aspecto que eu quando se foi embora. Seriamente viciado na altura, ele tinha de cuidar 
das suas prprias necessidades. Fiquei sozinha com uma amiga durante as longas horas de trabalho de 
parto, enquanto Bill entrava e saa.
Durante as doze horas seguintes, o tempo que durou o trabalho de parto, Bill reapareceu e voltou a 
desaparecer. Infelizmente, tambm o meu obstetra desapareceu. Foi chamado para uma emergncia e 
deixou-me ao cuidado dos seus colegas, enquanto o destino me punha perante uma situao impossvel, 
alguns artifcios cruis e um torturante trabalho de parto. A criana pesava mais de quatro quilos e meio, e 
eu sou uma pessoa de pequena estatura. Em termos concretos, o beb estava entalado, o que me propiciou 
uma experincia de propores to horrveis que me provocou problemas temporrios de corao, 
pulmes, asma e uma srie de outras complicaes. Suportei dores terrveis durante doze horas, entregue a 
internos e a diferentes equipas de enfermeiras e mdicos que no me conheciam.
Para mim, seria um verdadeiro milagre eu e o beb no morrermos. Uma cesariana de emergncia foi 
finalmente realizada pelo meu prprio mdico, doze horas depois de eu chegar ao hospital. E fiquei 
surpreendida por ter sobrevivido. Foi o parto mais difcil que alguma vez tive, principalmente devido ao 
tamanho da criana.
A coisa mais extraordinria que aconteceu no parto, e de que toda a gente falava, foi o facto de o beb ter 
chorado quando fizeram a primeira inciso, o que  muito raro. A mim, pareceu-me um sinal de felicidade, 
uma nsia de vida, e um bom pressgio. Era o primeiro de Maio, um dia para festejar.
O beb, um rapaz, com quatro quilos e meio, era to grande que foi posto numa incubadora, pois, segundo 
parece, por vezes, os bebs grandes so dbeis. Ele parecia-me enorme, com olhos muito grandes e 
cabelos escuros. Parecia j ter seis meses e era to bonito que valeram a pena todas as dores por que 
passei. Conquistou o meu corao desde o momento em que pousei os olhos nele. Parecia perfeito em 
todos os aspectos. E fiquei to satisfeita por ele no ter sofrido nada no parto que estava mais que disposta 
a ignorar o facto deste ter sido doloroso e traumtico.  possvel que o longo trabalho de parto possa ter 
provocado alguns danos neurolgicos e dificuldades de aprendizagem, que descobrimos mais tarde. Mas 
no h maneira de sabermos isso. Os problemas que Nicholas viria a ter mais tarde eram, em grande parte, 
genticos, julgamos ns, mas os sugeridos danos neurolgicos e as dificuldades de aprendizagem podem 
ter sido causados ou agravados pelo trauma do nascimento. Nunca foi uma linha de pensamento que 
segussemos ou censurssemos algum por seguir mais tarde. Estvamos mais preocupados com o facto 
de ele ser manaco-depressivo. Mas, naquela altura, quem imaginava o que viria mais tarde? A nica coisa 
que sabia, e com que me preocupava, era que este beb h muito esperado chegara finalmente, e parecia 
um querubim nos meus braos. Estava agradecida por ter sobrevivido e por levar o meu filho para casa 
comigo. A sua chegada fora extraordinariamente traumtica, mas valera a pena.
Bill apareceu horas mais tarde para nos levar para casa e, como era de prever, desapareceu de novo uma 
hora depois. Chorei bastante. Beatrix chegou a casa e ficou instantaneamente apaixonada pelo irmo. O 
meu pai faleceu dez dias depois, sem nunca ter visto o beb, mas aliviado por eu estar finalmente casada. 
Chamei o meu advogado no dia a seguir ao parto e tentei anular o casamento, ou, pelo menos, iniciar o 
processo de divrcio, mas deixei de falar no assunto durante algum tempo, acabando mais tarde por 
avanar com o processo, depois de os problemas se tornarem demasiados para mim.
Bill apareceu e desapareceu durante um breve perodo depois de Nick nascer. Fez uma tentativa frustrada 
de desintoxicao, quando o filho tinha quatro semanas, e outra mais tarde. A sua vitria final sobre as 
drogas levou muitos anos a ser alcanada, e Nick e eu j h muito que estvamos fora da vida dele quando 
a alcanou.
O que se seguiu ao nascimento de Nick, para Bill, foi uma queda de dezanove anos num abismo do qual 
s saiu depois da morte de Nick. Desapareceu das nossas vidas to depressa como entrara. No importa se 
eram boas ou no as suas intenes, e eu creio que eram, s que a fora da sua dependncia era to 
poderosa que no conseguia domin-la; era como uma onda gigantesca que quase o afogou, e que, 
felizmente para ele, acabou por no o fazer.
No fim, foi mais triste para ele do que para ns, porque acabmos por conseguir reconstituir as nossas 
vidas. E foi tanto o que perdeu. Perdeu tudo, uma vida inteira. Nunca conheceu o filho, embora 
regressasse depois da morte de Nick, de boa sade de novo, e em recuperao, para oferecer um pouco de 
amizade e conforto tanto a mim como aos irmos de Nick. E eu estou-lhe muito grata pelo apoio que me 
deu.
Na altura Beatrix e eu ficmos sozinhas com Nicholas, uma ddiva miraculosa nas nossas vidas. Ele era 
uma criana saudvel, gordinha, feliz, bonita e adorada. Bill fora  sua vida. Beatrix e eu ficmos 
sozinhas, com o "nosso" beb, o nosso amado Nicky. Era o beb mais feliz, mais gordinho e mais doce 
que alguma vez vramos.

"SOU INCRVEL!"

Pouco depois do nascimento de Nick, acordei da anestesia da cesariana, e uma enfermeira perguntou-me 
se j vira o beb, e eu abanei a cabea. "No viu?", indagou, parecendo pasmada, e como se eu estivesse a 
preparar-me para uma grande surpresa, rematou: "Vai ver quando o vir!" Falou da mesma maneira que as 
pessoas falam de uma estrela de cinema que est a regressar de um lugar qualquer, que toda a gente est 
ansiosa por ver. Lanou-me um sorriso, desapareceu apressadamente, voltou minutos depois com um beb 
agasalhado nos braos e pousou-o suavemente nos meus, enquanto eu o mirava maravilhada.
Nunca esquecerei a sua pura beleza, a emoo que senti, aquela carinha delicada, e os enormes olhos fixos 
nos meus. Parecia a criana perfeita, e era to grande que mais parecia ter meses de idade em vez de horas. 
E no primeiro instante que olhei para ele, apercebi-me de que j nada me doa. Abracei-o carinhosamente 
quando ele fechou os olhos e aconcheguei-o para que adormecesse nos meus braos, grata por ele ser meu. 
Nunca sentira tanta felicidade nem tanta sorte na vida.
Nicky era o tipo de beb que as pessoas paravam para admirar para onde quer que se fosse. Era to 
grande, to bonito e tinha um ar to saudvel que as pessoas viam-se obrigadas a parar e a fazer perguntas 
acerca dele. E quando Beatrix e eu empurrvamos o carrinho, fazamo-lo com muito orgulho. Levvamo-
lo para toda a parte, s compras,  mercearia,  igreja, e at ia  escola, onde era um enorme sucesso com 
as raparigas do quarto ano.
Tinha um apetite devorador desde o princpio, e eu estava determinada a amament-lo. O pediatra 
chamava-lhe na brincadeira "o tubaro", no havia nada que o satisfizesse, e quanto mais leite bebia, mais 
queria. Era insacivel, e, ao fim de duas semanas, deixei de lhe dar mama. Foi uma batalha que no 
consegui ganhar. Pusemo-lo a leite em p, e mesmo esse parecia no o satisfazer, e tivemos de lhe 
misturar farinha ao fim dos primeiros dias. Comia sem parar, e quando j tinha algumas semanas de idade, 
abri mais o buraco de uma tetina e pus farinha num bibero. Por uma qualquer razo desconhecida, toda a 
gente me dizia que era uma m ideia, mas era a nica maneira de o satisfazer e de o pr a dormir. Comia 
com voracidade, o que, por mais estranho que possa parecer, foi tpico dele durante a maior parte da sua 
vida. Era como se os "reguladores" do seu "tanque de combustvel" no fizessem o registo de forma 
correcta, e ele prprio nunca soubesse quando  que estava cheio. J rapaz, mais tarde, s vezes comia at 
se sentir maldisposto (que era a face manaca dele). De qualquer forma, ele consumia aquilo que comia. 
Embora fosse gorducho quando era beb, e extremamente rolio no seu primeiro ano, logo que comeou a 
andar por todo o lado, tornou-se nervoso e magro, e assim ficou durante toda a sua vida. Mas em beb, 
Nick era enorme.Ria e sorria muito, dormia menos do que aquilo que eu achava que devia, e acordava 
sempre  noite, uma vez, s vezes duas, para comer. Parecia um pequeno Buda quando comeou a sentar-
se, a rir e a gargalhar, e sempre ansioso para andar de um lado para o outro, a explorar o mundo que o 
rodeava.Ele no era s o "meu" beb, era tambm o de Beatrix. Ela  que o vestia, o sentava entre as suas 
bonecas e brincava com ele durante horas juntamente com as suas amigas. E  noite, quando acordava, 
mal tinha tempo de chorar antes de eu e Beatrix nos precipitarmos para o seu quarto, separadamente, e s 
vezes empancvamos uma na outra, meio endorminhadas, ao entrar. E discutamos por instantes sobre de 
quem era a vez de tomar conta dele. Era a luz das nossas vidas, e eu adorava t-lo ao colo, numa cadeira 
de balouo, enquanto lhe dava o bibero, ou lhe cantava depois de o tomar, enquanto olhava pela janela 
para a Lua no cu negro. Eram noites maravilhosas, horas preciosas, momentos de solido e ternura, o tipo 
de coisas de que so feitas as recordaes, e tenho muitas. Costumava ficar assim sentada durante horas, a 
sentir o calor dele apertado contra mim, a cabea tombada sobre o meu ombro quando adormecia, os 
bracitos rechonchudos  volta do pescoo.Os primeiros meses pareceram passar a correr, e eu andava 
numa roda-viva com ele. Aos seis meses, j se sentava e ria constantemente; parecia uma criana de um 
ano. Dava a impresso de estar a fazer uma espcie de corrida, gatinhava por todo o lado, e parecia 
desesperado para andar. Comprmos um andarilho, um pequeno assento com um tabuleiro redondo em 
toda a volta sobre rodinhas, que lhe permitia tocar o cho com as pontas dos dedos dos ps e mover-se 
livremente. Mal o pusemos no andarilho, desatou a andar por todo o lado e foi o caos completo. Ia que 
nem um raio de uma ponta  outra da casa, a ateno fixa perigosamente nas escadas (pusemos cancelas!), 
passando a toda a velocidade por todos os quartos. A sua maior proeza era ir contra a mesa da cozinha, 
que eu punha primorosamente de quando em quando. Agarrava numa ponta da toalha e puxava-a, fugindo 
a toda a velocidade no seu andarilho, e levandoa toalha e tudo o que estava em cima dela com ele. O 
barulho de tudo a cair no cho divertia-o, muito mais do que a mim.
Nicky era uma criana que nos fazia rir. Tnhamos de sorrir ao olhar para ele, e olhava-me sempre como 
se me quisesse dizer algo, e conseguiu-o por volta dos sete ou oito meses. Falava com ele em espanhol a 
maior parte do tempo, tal como Romelia, a minha governanta guatemalteca. Ela adorava-o e tagarelava 
com ele durante horas. Beatrix falava-lhe em ingls, e Romelia e eu falvamos-lhe em espanhol, contra o 
conselho de toda a gente. Disseram-me que dar uma educao bilingue a uma criana, especialmente um 
rapaz, atrasaria enormemente a fala. Avisaram-me que ele poderia no dizer nada inteligvel durante anos. 
Mas esse no seria o caso de Nick. Nada o detia.
Nick explodiu para a vida de um modo que era tpico nele, e comeou a falar ao mesmo tempo que 
comeou a andar. Deu os seus primeiros passos aos oito meses, perambulando perigosamente pela casa, e, 
praticamente ao mesmo tempo, comeou a falar. E de um modo inteligente, pelo menos para ele, dizia 
palavras em ingls para Beatrix, e em espanhol para Rome e para mim. Conhecendo Nick como conheci 
mais tarde, isso fazia sentido. Falar duas lnguas no provocou nenhum atraso no seu desenvolvimento. E 
nunca mais parou um minuto a partir da. Corria por toda a casa, explorando o seu mundo, j livre do 
andarilho, a palrar sem parar, conforme lhe dava na veneta, em ingls ou em espanhol.
Com um ano de idade, j construa frases, o que era extraordinrio para toda a gente, embora eu saiba 
agora que foi um primeiro sinal de perigo. Se bem que nem todos os bebs que comeam a falar cedo se 
tornem manaco-depressivos, a maioria dos manacodepressivos comeam efectivamente a falar cedo. Tal 
como ele. Mas eu na altura no sabia nada desses sintomas e estava compreensivelmente orgulhosa dele. 
As pessoas falavam-lhe, depois viravam-se para mim e diziam: "Ele  incrvel!" Elas diziam isto tantas 
vezes que acho que ele ficou confuso e pensava que era o seu nome.
Quando o levava no carrinho de beb, como ainda fazia, e as pessoas paravam para o admirar, ele 
comeava a falar-lhes, e quando elas lhe perguntavam o nome, ele esboava um largo sorriso e respondia: 
"Sou Incrvel!" E era, sem qualquer sombra de dvida. Tnhamos longas conversas enquanto eu 
empurrava o carrinho, e estou certa de que, se as pessoas me vissem a curta distncia, pensariam que eu 
estava maluca, a conversar com uma criana da forma que o fazia. Mas ele adorava tagarelar comigo.
Havia muitas coisas que Nick adorava: a irm, os brinquedos, andar no carrinho e msica. Tinha gostos 
musicais engraados para uma criana, e desenvolveu uma paixo pela msica disco, que na altura ainda 
estava na moda, e eu tambm gostava. A sua cano favorita era I Will Survive, da Gloria Gaynor, e 
danava sem parar quando eu punha discos no meu quarto. Conhecia aqueles que gostava e dava-mos 
imperiosamente: "Este, mam!" A nossa primeira discusso sria surgiu enquanto planevamos o seu 
primeiro aniversrio, quando ele anunciou que queria um palhao e msica disco, estranhos pedidos para 
uma criana de um ano, embora parecesse mais ter dois ou trs, com o seu corte de cabelo " holands", 
que eu prpria lhe fizera, e uma excelente coordenao que lhe permitia mover-se com facilidade. 
Tambm adorava escrever na minha mquina de escrever.
As coisas de que ele gostava eram invulgares para uma criana da sua idade, mas ainda mais invulgar era 
o facto de ele as conseguir articular e mesmo defender o seu ponto de vista. Tentei explicar-lhe que o 
palhao no era uma grande ideia, porque muitos dos seus amigos da sua idade tinham medo deles e no 
se sentiriam to atrados pela msica disco como ele. Eu imaginara uma festa com bebs nascidos na 
mesma altura, a irm, naturalmente, alguns amigos meus e talvez Bill.
No entanto, Nicky e eu discutimos veementemente os planos do primeiro aniversrio. Ele queria pr a 
tocar o meu disco da Gloria Gaynor. E acabou por o pr, e deixmos o palhao para outro ano.
Ele era extraordinariamente precoce para uma criana da sua idade, e uma excelente companhia, embora 
continussemos a discordar da sua escolha musical. Certa noite, pus a tocar um disco que ele no gostava, 
o que o exasperou. Queria que eu o tirasse e pusesse outro e, porque no o fiz, como j ia a caminho do 
banho e andava a correr nu pelo quarto, parou e fez chichi para cima da aparelhagem com um ar de gozo 
estampado no rosto. Ele marcou o seu ponto, e eu desatei a rir perante a afronta. Foi uma coisa  Nicky.
O outro ultimato que ele me deu naquela altura teve a ver com o bero onde dormia. No quis dormir mais 
nele quando completou exactamente um ano, e fez uma enorme birra com isso. Queria dormir na velha 
cama de casal que eu pusera no seu quarto, onde eu dormia quando ele precisava ou quando estava doente. 
Mas eu sentia-me mais descansada com ele a dormir no bero. Como tinha comeado a andar cedo, era 
extremamente independente nas suas perambulaes pela casa, e eu tinha medo de que, se o deixasse a 
dormir numa cama, ele fizesse travessuras durante a noite ou antes de eu acordar de manh. J naquela 
altura Nick no dormia muito. Acordava frequentemente a altas horas da noite, muito antes do alvorecer. 
O bero era uma fonte de conforto e segurana para mim, se no mesmo para ele. Mas, como viria a 
acontecer ao longo de toda a sua vida, Nick era tudo menos fcil de convencer quando se lhe metia uma 
coisa na cabea. E comeou uma batalha nocturna. Ele resolveu-a de forma muito simples, tomando 
balano como um atleta olmpico numa competio de salto em comprimento ou de salto  vara, e atirava-
se com desenvoltura por sobre a parte lateral do bero, depois sentava-se todo contente no cho do seu 
quarto, a ganhar flego por instantes antes de se precipitar para fora do quarto. Mais que tudo, eu tinha 
medo que ele partisse o pescoo ao saltar do bero, mas ele era to grande e to forte que aquilo era uma 
faanha fcil para ele. E levou a dele avante, naturalmente.
Deixou o bero e, com um ano de idade, mudou-se para a sua cama, e eu, pelo seguro, pus uma proteco 
para bebs  porta do quarto dele, que se provou no ser um grande obstculo. Aprendeu rapidamente a 
desmont-la, com a mesma facilidade com que eu a montei, e, tal como receara antes de ele abandonar o 
bero, comeou a vaguear pela casa durante a noite, e muitas vezes, de manh, dava com ele na minha 
cama.
Depois da batalha por causa do bero, este era o "segundo assalto". Ele entendia a cama apenas como um 
porto de escala, um local de descanso antes de tomar a minha cama, que era o objectivo que ele tinha em 
mente. Queria dormir comigo no meu quarto.
Desta vez, porm, fui firme com ele. Tinha de dormir na sua prpria cama. E assim foi. Seguiram-se 
meses de batalhas e longas noites em claro. "Vai para a tua cama, Nicky", dizia-lhe eu com firmeza. E ele 
l ia, com ar cabisbaixo. Ficava na cama entre dois e cinco minutos, depois voltava, a suplicar que o 
deixasse dormir comigo. Eu tinha uma cama enorme que no partilhava com ningum, e deve ter-lhe 
parecido ridculo que eu no estivesse disposta a partilh-la com ele, e que seria egosmo da minha parte. 
S que eu poderia querer partilhar a minha cama com algum mais adulto, um dia, e no achava que fosse 
boa ideia habituar-me a deix-lo dormir comigo.
Ele perdeu o ponto. Acabmos por chegar a um "compromisso", isto , Nick ganhava, mas deixava-me 
salvar a face indo para a cama, mesmo que no fosse para dormir, na sua cama, e deixando-me ir 
decorosamente para a minha dormir. Nunca mais discutiu comigo, nem me acordou para perguntar se 
podia vir para a minha cama. Limitava-se a meter-se sorrateiramente ao meu lado na cama, enquanto eu 
dormia, e quando eu acordava de manh, l estava ele, a sorrir para mim. Foi bom para os dois, julgo, e a 
verdade  que eu adorava t-lo comigo. Adorava estar com ele, perto dele, abra-lo, e atirar-lhe 
framboesas  barriga e sentir os cabelos sedosos cortados  tigela no meu queixo. Era uma criana 
deliciosa, irresistvel, cheia de alegria, amor e ideias luminosas. Com um ano e meio, ou para ser mais 
precisa, bem antes disso, era evidente que ele era extremamente brilhante, e com o tempo comemos a 
suspeitar que ele tinha um QI de propores impressionantes. Fazia coisas que era suposto no saber e 
dizia coisas que nenhum rapaz de dezoito anos dizia. Dizia coisas que faziam sentido, divertidas, e toda a 
gente o estimava. Nick era adorado por todos, especialmente por Beatrix e por mim. Havia uma coisa nele 
que me preocupava. Nunca dormia, pelo menos o suficiente. Muito antes de fazer dois anos, cheguei  
concluso de que no lhe poderia dar uma palmada. Se o fizesse, significava que ele ficaria a p toda a 
noite, at muito depois de eu me ir deitar, e eu trabalhava at altas horas. Mas no parecia precisar de 
dormir muito. Outro sinal de aviso. Os manaco-depressivos no dormem  noite, e com o tempo isso 
tornou-se o infortnio da sua existncia que o haveria de perseguir at ao resto da sua vida. Mas, naquela 
idade, ningum entendia isso como algo invulgar. Eu achava que era uma caracterstica dele. Era 
naturalmente diferente da irm. Com a idade dele, ela dormia durante horas todas as tardes, por volta dos 
seis anos. Mas no Nick. Ele parecia precisar incrivelmente de pouco sono.  noite, adormecia depois de 
mim, e acordava antes do alvorecer, abrindo-me os olhos e espreitando para dentro deles, enquanto eu 
resmungava qualquer coisa. "J ests acordada, mam?". "J", murmurava eu. A Rua Ssamo tomou-se 
um instrumento vital na manuteno da minha sanidade mental. Falava com ele durante umas horas,  
espera que o programa comeasse, e depois deixava-o cair em frente do televisor, de modo que eu 
conseguia dormir mais um pouco. Dormir o suficiente, mesmo em adulto, era um desafio para Nicky.
Houve outro sinal de aviso, embora no seja sempre uma indicao de perigo: as suas reaces  
medicao. Costumvamos ir para uma casa alugada numa praia prxima, mas, para l chegar, tnhamos 
de fazer uma estrada insuportavelmente tortuosa, e Nicky enjoava sempre. Experimentei todos os trajectos 
possveis, curtos, longos, a estrada da montanha, a estrada tortuosa mais prxima da praia. Nada resultava; 
finalmente decidi dar-lhe Dramamine e tentar l chegar o mais depressa que podia. Parecia ser a nica 
soluo.
O pediatra avisou-me que o medicamento p-lo-ia muito provavelmente a dormir, e p-lo-ia pela certa, 
mas disse que no faria qualquer mal a Nick, por isso fiz a experincia um fim-de-semana, antes de 
partirmos para a praia. E em vez de o pr a dormir, transformou-o num estonteante dervixel mesmo  
minha frente. Ficou a carburar a uns 240 quilmetros por hora, falava o mais rpido que podia, e 
amarinhava praticamente pelas paredes acima. O medicamento teve o efeito exactamente oposto do 
descrito, e fiquei preocupada. Quando chamei o mdico, foi-me dito que isso s vezes acontecia. E voltou 
a acontecer, mais tarde, com um medicamento de venda livre para crianas desta idade com 
constipao/gripe. A mesma coisa. Em vez de ficar calmo, Nick ficou inacreditavelmente acelerado. 
Chama-se a isto reaco paradoxal, e  mais uma caracterstica de pessoas que sofrem de psicose manaco-
depressiva. Essa reaco com alguns medicamentos acompanhou-o durante a maior parte da sua vida. 
Muitos dos medicamentos para a constipao, - dariam sonolncia a qualquer pessoa, excitavam Nick. O 
caf, durante anos, at comear a tomar medicamentos para o equilbrio quase o punha a dormir. Eu tinha 
extremo cuidado com os medicamentos que lhe dava, e, escusado ser dizer, deixei de lhe dar o 
Dramamine e acabei com a casa de praia.
Nick tinha uma personalidade forte e ideias extremamente definidas. Como muitas crianas da sua idade, 
detestava andar vestido, adorava andar a correr todo nu. Tenho um monto de fotografias dele, com o seu 
rabito nu virado para mim enquanto brincava em cima da minha cama ou a correr pelo quarto. Por outro 
lado, tal como acontecia com as crianas que comeavam a dar os primeiros passos, detestava que algum 
o vestisse ou lhe mudasse de roupa. Era uma das raras coisas que o faziam chorar furiosamente. Ouvia-se 
a milhas. Havia qualquer coisa de angustiante com o, vestir ou o mudar de roupa. E cada vez com mais 
frequncia, mesmo ao ano e meio, e certamente por volta dos dois, ele tinha opinies firmes acerca da 
roupa que ia vestir. "No vou vestir isso!", dizia ele com ar irado. Aos doze ou catorze ou quinze, ou 
mesmo aos sete, isso parece ser compreensvel. Mas aos dezoito meses, parecia ridculo estar a discutir 
com Nicky por causa de umas jardineiras de veludo azul-plido. E quando ele dizia "No visto isso!", no 
vestia mesmo.
Geralmente, eu vestia Beatrix e Nick da mesma forma, com roupas condizentes. Ela era uma criana 
impecvel, e vestia quase tudo o que eu escolhia. O mesmo no acontecia com Nick. Cada pea de roupa 
era motivo para uma grande negociao. Eu ainda vivia um perodo um pouco precrio do ponto de vista 
financeiro, embora as coisas estivessem lentamente a melhorar com os meus escritos. Mas adorava 
comprar roupa para os dois, s vezes com desenhos de girafas, flores ou coelhos da Pscoa. Nick olhava 
para elas com horror. "Queres que vista isso, com uma girafa?!!!", gritava-me ele, horrorizado, com um ar 
de pessoa que se sente profundamente insultada. Eu pedia-lhe para me fazer a vontade, e a maioria das 
vezes fazia, mas s depois de debatermos o assunto durante uma hora com a mais arrebatada paixo. Nick 
teve ideias definidas acerca de tudo, muito cedo, as roupas entre elas, e no tinha vergonha de me dizer o 
que pensava sobre qualquer assunto.
Com ano e meio, Nick era uma pessoa completa, com opinies, gostos, desejos, peculiaridades e hbitos 
algo entrincheirados. No havia qualquer dvida de que ele era extraordinrio, mas tambm era muito 
diferente. Diferente das crianas das outras pessoas, diferente at da prpria irm. Era mais esperto que 
ningum, mais brilhante, mais rpido, possua mais energia do que qualquer outra criana que eu alguma 
vez vira, e tinha um modo de me olhar que me fazia pensar que ele era um homem adulto no corpo de uma 
criana. Parecia estar constamtemente a olhar para mim, como que procurando as pistas de um mistrio, e 
quando os seus olhos encontravam os meus, via uma pessoa sbia neles. E embora s vezes me sentisse 
encantada, e sentisse contnuo orgulho nele por ser to extraordinrio e to brilhante, havia tambm alturas 
em que isso me preocupava.
Lembro-me de uma vaga sensao de mal-estar quando olhei para ele um dia. Envergava um pijama 
felpudo amarelo com ps, estava com um ar adorvel, mas havia algo no seu olhar que me preocupou 
terrivelmente quando os nossos olhos se encontraram, e pela primeira vez, aos dezoito meses, interroguei-
me se no haveria algum problema com ele, j que era to diferente das outras crianas. Senti-me culpada 
por me atrever a pensar nisso, e assustei-me. Quando expus o problema ao pediatra pouco tempo depois, 
ele sossegou-me. Nick era apenas uma criana extraordinariamente brilhante, com muita ateno centrada 
nele, o que parecia explicar muitas coisas. Alm disso, como  que se podia ser to inteligente, to esperto, 
to brilhante? Em retrospectiva,  fcil ver que em muitos aspectos ele tinha os sintomas clssicos do 
"distrbio de dfice de ateno". Mas, na altura, nem os mdicos viam isso com clareza. Disseram-me que 
90 por cento das crianas que manifestam os mesmos comportamentos de Nick deixam de os ter, o que faz 
com que os pediatras e os psiquiatras tenham relutncia em fazer esse diagnstico. Muitas das crianas 
deixam de os ter. Nick no. Eu prpria achava ridculo preocupar-me com ele.
Nicky era invulgarmente inteligente e extremamente avanado, e com aquele tipo de inteligncia era de 
esperar alguns comportamentos estranhos e algumas coisas que eram diferentes. Senti-me ridcula e 
ingrata por pr em questo dons como os de Nick, e, aliviada, deixei de pensar no assunto. Que problema 
poderia haver com uma criana como Nick?

CASANOVA

Sair com algum, com Nick em casa, era um pesadelo. H muito que ele ocupava grande parte do meu 
tempo, e juntamente com Beatrix eram o ponto focal da minha existncia. Entre o trabalho e os meus 
filhos, eu no tinha tempo, nem energia, para sair com algum, nem sequer interesse. Finalmente, comecei 
a arranjar espao na minha vida para outras pessoas. Bili partira h muito, e eu passara por um perodo 
difcil a tomar conta de Beatrix e Nick sozinha. Estava disposta a arranjar um companheiro na minha vida, 
mesmo que apenas numa base ocasional.
Porm, Nick tinha-me por sua conta, completamente apaixonado por mim e Beatrix, e no via qualquer 
necessidade particular de. ter um estranho por perto. E fez-me saber isso em termos precisos.
Aos dois anos, Nick articulava bastante bem as palavras, tanto em espanhol como em ingls. Ficou 
bilingue durante toda a vida, e falvamos muitas vezes em espanhol. O francs  a minha lngua materna, 
e tentei acrescent-la ao repertrio de Nick, particularmente porque Beatrix e eu falvamos mais francs 
que ingls. Ela passara os seus Veres em Frana, durante toda a vida, com a famlia, falava com fluncia, 
e era mais cmodo para mim falar-lhe em francs. Mas mesmo sendo uma criana pequena, Nick 
detestava francs e recusava-se a aprend-lo ou a fal-lo. Ao longo da vida, gozava comigo quando eu o 
falava, exagerando na pronncia e fazendo uma imitao algaraviada. Eu metia-me com ele porque ele 
tinha um sotaque espanhol quando me imitava em francs. Ele resolveu cedo a questo: fossem quais 
fossem as minhas origens, era uma lngua ridcula e recusou-se terminantemente a aprend-la ou a deixar-
me fal-la  vontade quando estava perto.
No entanto, fosse qual fosse a lngua que os meus pretendentes falassem, ele levava a melhor sobre eles 
com facilidade, e dava um espectculo interminvel. Eu contratava baby-sitters para ele e Beatrix quando 
saa  noite, e tinha uma governanta salvadorenha, Lucy, que chegou pouco depois do primeiro aniversrio 
de Nick. Ainda est comigo e adorava Nick. Eu esperava que as baby-sitters pusessem as crianas na cama 
a uma hora decente. A minha esperana quando regressava a casa era encontrar Nick enroscado como um 
querubim na sua cama. Eu olh-lo-ia com ar temo da entrada. Era uma autntica fantasia que no tinha 
qualquer relao com a realidade durante os meus anos de sadas especiais. Quando eu chegava a casa, 
Beatrix dormia profundamente, a baby-sitter dormitava em frente do televisor, e Nick estava  minha 
espera e dava um pulo para a porta no momento em que ouvia a chave a rodar na fechadura. Confesso que 
o corao quase deixou de bater mais de uma vez, quando abria a porta cautelosamente e o encontrava a 
olhar para mim com ar de maarico, um brilho perverso nos olhos e a olhar apreciativamente para o meu 
acompanhante, que no fazia qualquer ideia do que Nick lhe reservava.
Mandava Nick para a cama, e geralmente tinha de ser eu a lev-lo e a aconcheg-lo, admoestando-o para 
no sair de l. Depois, acordava a baby-sitter, pagava-lhe e acompanhava-a at  porta, enquanto o meu 
insuspeito acompanhante tomava uma bebida. Depois de me despedir da baby-sitter, Nick reaparecia com 
o seu pijama com ps, e oferecia-se para mostrar os brinquedos ao meu acompanhante, embora ele 
geralmente desse ao convite um tom sofisticado e atraente. A um amigo que era conhecedor de armas 
raras, Nick ofereceu-se para lhe mostrar a sua coleco de armas, e o meu acompanhante achou-o to 
irresistvel e adorvel que desapareceu pelas escadas acima de mos dadas com Nick, enquanto eu sperava 
no sof, a rezar para que Nick o libertasse o mais depressa possvel, mas naturalmente isso no acontecia. 
Quando Nick o deixava finalmente vir para baixo, tal como a baby-sitter, eu estava a dormir 
profundamente em frente do televisor, e j era uma hora ou duas da manh. A maioria das vezes, os meus 
acompanhantes achavam-no encantador. s vezes, ele irritava-me mesmo, e quase podia jurar que ele o 
fazia de propsito.
A minha vida amorosa, com Nick em casa, era inexistente. Ele nunca ia dormir, era impossvel mant-lo 
na cama, agia como se os homens da minha vida estivessem a visit-lo a ele e no a mim, e s vezes acho 
que tinha razo. Aqueles com quem continuo a manter relaes de amizade ainda recordam ternamente as 
longas conversas nocturnas com Nick.
Nick tambm estava absolutamente enamorado das mulheres. E tal como eu j achara anteriormente, 
parecia um homem adulto num corpo de criana. A sua paixo por mulheres bonitas era extrema. Ele 
tocava, abraava, fazia festas, e quem  que suspeitaria que uma criana de dois anos tivesse outros 
intentos que no o de ser carinhoso? Eu suspeitava. Conhecia-o melhor. Mesmo com dois anos, Nick era 
um Dom Juan em formao.
Ele costumava espreitar a minha governanta, gatinhava para baixo da saia dela e dava-lhe palmadinhas no 
rabo, depois ria provocadoramente. Era o riso que o denunciava. Fazia-me lembrar o meu pai, que tambm 
era um verdadeiro Casanova, e a minha av queixara-se de que ele, j em criana, andara atrs de 
mulheres bonitas. Tal como Nick.
Quando o levava  casa de gelados vizinha a comprar um cone, ficava invariavelmente na fila com um ar 
inocente, procurava uma boa posio e apalpava o rabo de uma mulher. Certa vez, deixei-o ir comprar o 
gelado com um amigo, que voltou com um ar um pouco envergonhado, enquanto Nick babava com ar 
inocente o fato-macaco de gelado de chocolate e hortel-pimenta. Aparentemente, ele dera a apalpadela do 
costume, e a mulher da sua escolha virara-se enfurecida, pensando que o homem que acompanhava Nick  
que a apalpara, e descompusera-o aos gritos. Ele ficou de tal modo embaraado que nem sequer tentou 
acusar o verdadeiro perpetrador do crime: Mr. Nick. Quem  que acreditaria que fora uma criana de dois 
anos a fazer aquilo?
E quando amos para a casa de praia que ainda alugvamos naquela altura, ele sugeria alegremente que 
fssemos para a praia "dar abraos s senhoras". Adorava mulheres! Sempre adorou! Era uma situao 
que, com o tempo, piorou em vez de melhorar. Era infinitamente fascinante, dava vontade de abraar, era 
adorvel, e as mulheres rodearam-no durante toda a sua vida. Era irresistvel, tinha um encanto inocente e 
um magnetismo tal que as mulheres se sentiam atradas por ele do mesmo modo que as abelhas so 
atradas pelo mel. Tenho de admitir que 'muitas das vezes isso me divertia. ( muito diferente ser me de 
um filho do que de uma filha.)
Ele costumava contar-me histrias interessantes quando era pequeno. As vezes, passava horas a falar de 
coisas. Dvamos passeios, amos at ao parque, ou ento ficvamos sentados na pequena varanda do 
quarto dele ou no jardim. Foi durante uma dessas conversas que, um dia, ele olhou para mim com ar 
pensativo e comeou o que ia a dizer-me com: "Quando eu era grande ... " Depois, continuou e contou-me 
uma longa histria. No consegui evitar perguntar-lhe o que  que ele queria dizer com aquilo. "Que 
queres dizer com "quando tu foste grande"?"
Pareceu-me estranho, e at um pouco misterioso, uma criana dizer aquilo, e fiquei enervada, mas ele 
explicou com um ar pensativo, como se tentasse lembrar algo.
"Eu fui grande h muito tempo, e agora sou outra vez pequeno. Mas quando era grande ... " E prosseguiu, 
enquanto eu o observava, e depois olhou-me de forma estranha. "Eu estava aqui antes", disse calmamente, 
"e era grande." Parecia certamente uma coisa estranha, e no o questionei mais. Aquilo deixou-me 
bastante incomodada, tinha tocado em coisas que eu no queria saber. Mas nunca esqueci. No sei se 
estava a divagar com o seu ar pensativo e inteligente, se estava a falar de uma fantasia, ou se havia algo 
mais que isso. Porm, eu no estava, nem estou, preparada para o saber.
Em contraste com a sua extrema inteligncia e precocidade, havia, naturalmente, tambm a sua faceta de 
criana. Era amoroso, adorvel, afectuoso e muito carinhoso. Era uma criana deliciosa e, aos dois anos, 
Beatrix e eu adorvamo-lo mais que nunca. Ele sentia necessidade de companhia masculina nalgumas 
ocasies, e aproveitava alguns dos homens com quem eu saa para falar ou brincar, mas nunca mantinha 
uma ligao sria com nenhum, tal como eu. Nicky gostava de me ter a mim e Beatrix s para si. Tinha 
um pequeno mundo que rodava quase exclusivamente  sua volta. Dois anos e pouco depois do seu 
nascimento, continuava a ser a ddiva que era desde o incio. Beatrix e eu considervamo-lo uma enorme 
bno nas nossas vidas, e quando no era eu a mim-lo, a beij-lo, a acarici-lo e a dar-lhe carinho, era 
ela, ou Lucy, a minha governanta. Nicky tinha o seu pequeno harm, e todas o adorvamos.
Foi difcil habituar Nicky a ir  casa de banho. Do mesmo modo que aprendeu tudo rapidamente, parecia 
achar essa ideia chata e no lhe dava a mnima ateno. Aos dois anos e meio, ainda fazia chichi na cama 
 noite, e tambm faria na minha, s que eu punha-lhe fraldas. Embora fizesse no bacio durante o dia, 
fazia da mesma maneira que eu e a irm fazamos. No havia nenhum homem na minha vida que o 
conseguisse ensinar de outra maneira. E como era incapaz de lhe ensinar uma tcnica que eu nunca 
adquiri, comprei-lhe uma coisa chamada "alvos flutuantes": pequenos alvos de papel e naves espaciais 
que flutuavam na sanita. Nick tinha de lhes acertar e de os afundar. Deram muito bom resultado, e apesar 
de no haver nenhum homem na casa, Nick aprendeu bem a lio. Ainda tenho alguns guardados algures 
num armrio, e sorrio quando os vejo. Era um jogo engraado, mas ensinou-lhe aquilo que ele precisava 
de saber, e fazia-o rir e gritar de alegria enquanto o jogava.
Tinha uma paixo absoluta por certas coisas. Ficava obcecado com um brinquedo, uma personagem ou um 
filme. Foi a Rua Ssamo. durante uns tempos, pouco depois tornou-se o Homem-Aranha. Vivia para o 
Homem-Aranha, e tinha de fazer tudo como ele. Usava pijamas do Homem-Aranha para ir para a cama, 
sapatilhas do Homem-Aranha para ir para o parque, T-shirts do Homem-Aranha, bebia por uma chvena 
do Homem-Aranha, comia em pratos do Homem-Aranha e, naturalmente, tinha um boneco do Homem-
Aranha... bolo de aniversrio do Homem-Aranha... tudo do Homem-Aranha. E passava o tempo todo a 
fingir que era o Homem-Aranha. Foi uma paixo que se prolongou durante muito tempo, at que o 
substituiu por uma nova obsesso. Depois do Homem-Aranha veio A Guerra das Estrelas, e dez milhes 
de figurinhas de aco que coleccionou durante anos.
Nick adorava jogos em que conseguisse fantasiar, onde pudesse ser a personagem central e inventar 
coisas. Preferia isso de longe aos jogos em grupo, onde tinha de seguir regras e submeter-se  forma de 
jogar de outra pessoa. Uma coisa desse gnero aborrecia-o instantaneamente e no dava qualquer ateno. 
Mais tarde, quando nos apercebemos das suas dificuldades de aprendizagem, que eram difceis de 
imaginar naquela altura, interroguei-me se, pelo facto de ele no conseguir efectivamente seguir regras e 
instrues, pura e simplesmente no as ignoraria. A sua vida de fantasia era rica.
Tal como quando era mais novo, Nick possua ideias muito definidas quando tinha dois anos e meio e, se 
no queria fazer alguma coisa, era difcil convenc-lo. Ficava agressivo, zangado e teimoso. Se no 
gostava de algo que se planeava fazer, era quase impossvel conseguir que aceitasse a ideia. Era difcil 
lev-lo a alguns stios, porque, se no gostava do que estava a acontecer, fazia-nos a vida um inferno. s 
vezes, isso preocupava-me. Era fcil dizer que estava mimado, que era o que o pediatra dizia quando eu 
falava nisso. Nick era to teimoso nalgumas ocasies que me deixava apreensiva.
O pediatra era uma pessoa experiente e inteligente, e reconheo agora que muitas destas primeiras 
diferenas surgiam com pouca importncia. Pareciam todas to triviais e relativamente normais! S 
posteriormente  que conseguimos ver ao que conduziram. Ao princpio,  muito fcil no dar importncia 
a essas coisas, aligeir-las ou at explic-las. Mas j nessa altura eu tinha a torturante sensao de que 
Nick era diferente, e de tempos a tempos ganhava coragem para dizer isso a um amigo. Era sempre 
reconfortante para mim quando os sinais de aviso que eu referia eram explicados. Mas, apesar das 
explicaes aceitveis, a torturante sensao de mal-estar mantinha-se. S esperava estar enganada, e que 
ele fosse to normal como eu queria que ele fosse.
Nick vivia num mundo em que ele era o constante centro de ateno. Duas mulheres e uma rapariga 
apaixonadas por ele. No se vislumbrava um homem regular que tivesse mo firme nele, no na 
verdadeira acepo da palavra, mas que usasse uma voz severa de vez em quando e o impressionasse um 
pouco. Todas as suas venetas eram ordens para ns, e adorava-o tanto e achava-o to nico e maravilhoso 
que estava completamente dominada pelo seu feitio, tal como todos os que o conheciam. Ainda era 
"incrvel!" aos dois anos e meio, e toda a gente que o conhecia dizia isso. Era fcil dizer que estava 
mimado, e os ocasionais acessos "difceis" eram facilmente atribudos ao facto de ser extremamente 
amado por demasiadas mulheres e no ter a figura do pai no seu mundo.
Por volta dessa altura, John Traina entrou romanticamente na minha vida. Era um homem bonito, 
elegante, fogoso, que me deslumbrou com a sua simpatia, boa aparncia, charme e sofisticao, e por 
quem me apaixonei profundamente. Tinha-se separado h pouco, depois de um casamento de dezasseis 
anos. Era muito socivel, muito mais que eu, tinha dois rapazes pequenos, e durante o casamento foi 
obviamente um bom pai para eles, como eu verificara durante anos enquanto ramos simples amigos. Eu 
estivera sozinha durante muito tempo, e a minha vida fora uma luta. Os meus casamentos anteriores 
tinham sido decepcionantes. As minhas recentes incurses no mundo do namoro eram espordicas e no 
tiveram qualquer significado para mim. Mas depois do trauma que tivera com Bill, depois de tocar, se bem 
que perifericamente, um mundo que me assustava, o mundo so e elegante de John parecia ser um lugar 
seguro e maravilhoso para mim. Era o Prncipe Encantado com que sonhara.
John arrebatou-me completamente e, depois de namorarmos durante seis semanas, pediu-me em 
casamento, no Dia de So Valentim. No nos conhecemos to bem como devamos ter conhecido, e 
acabmos por pagar um preo por isso. Mas, durante longos anos, partilhmos um mundo seguro e feliz, 
onde os sonhos pareciam tornar-se realidade.
Foi tambm muito importante para mim o facto de ele parecer gostar dos meus filhos, e eu adorava os seus 
dois filhos, Trevor e Todd, que conhecera durante anos atravs da minha filha, e que tinham vindo brincar 
muitas vezes com Beatrix e Nicky, Formavam um quarteto perfeito. Era uma famlia recm-formada, e eu 
adorava o facto de John querer mais filhos. Eu tambm queria.
John parecia gostar muito de Nick, embora expressasse cautelosamente uma ou duas vezes que Nicky no 
era uma criana fcil, o que na altura era atenuar a verdade dos factos. Lembro-me de certa vez, quando 
namorvamos, que John nos levou a passear de cabriol no cais e Nick fez uma birra tremenda. John 
esforava-se por agradar-lhe, mas Nick protestava de tal maneira que fiquei envergonhada. Tive vontade 
de lhe pr a mo na boca para abafar as coisas horrveis que ele estava a dizer. Pensei que nunca mais 
veria John, mas fiquei aliviada quando vi que ele parecia no estar atrapalhado com a situao. Nick no 
nos facilitava as coisas. Sentindo que a nossa relao era sria, Nicky tinha uma grande desconfiana 
relativamente a ele, e no ficava embaraado de dizer o que muito bem queria quando bem entendia.
Foi um romance turbulento. Seis semanas depois de comearmos a sair, ficmos noivos, e casmos 
exactamente quatro meses depois. Fomos para o casamento com grandes esperanas e sonhos de amor. 
John parecia ser o protector que eu h muito esperava. Ansiava por uma vida longa e feliz com ele, 
rodeada pelos nossos filhos. Era evidente que o casamento seria bom para mim, bom para os meus filhos 
e, esperava, tambm bom para os filhos de John. Eu estava louca por eles, pois eram suficientemente 
simpticos para me receberem de braos abertos. E Nicky estava mais que intrigado com a perspectiva de 
ter dois irmos. Do seu mundo todo feminino, ele estava prestes a ser catapultado para uma famlia 
autntica, com dois irmos e um pai. Parecia que todos os meus sonhos se tinham tornado realidade, e 
estava feliz por todos ns. A vida dera a volta finalmente. O destino acabara por nos sorrir. E Nicky tinha 
um novo pai.
Logo aps o casamento, John e eu fomos passar uns dias a Nova Iorque, onde ambos tnhamos negcios. 
Chamei-lhe na brincadeira uma "lua-de-negcios", e encarei-a com alguma ansiedade. Era a primeira vez 
na vida de Nick que eu me separava dele, e senti um aperto no corao ao faz-lo. Estava um pouco 
preocupada com a eventualidade de ficar dividida entre John e os meus filhos. Durante toda a sua vida, 
eles tinham sido o objecto de todo o meu amor, responsabilidade e interesse. Nunca partilhara a vida com 
ningum que fosse um rival dos meus afectos, e no estava muito segura de como  que as coisas iriam 
funcionar, ou do que os meus filhos achariam, particularmente Nicky. Estava to acostumada a devotar-
me a ele, e  irm, que sabia que ia ter de me adaptar (e eles tambm) a ter um marido com quem partilhar 
a vida. E, em deferncia a isso, planemos gozar a nossa lua-de-mel cinco semanas depois e levar os trs 
filhos mais velhos connosco para a Europa. amos deixar Nicky em casa, e fiquei preocupada com isso.
Curiosamente, como veio a acontecer, nunca fomos gozar a lua-de-mel. Adoeci pouco antes de partirmos, 
e suspeitava-se que eu sofria de apendicite. Convencido de que me recomporia e de que era uma coisa sem 
importncia, John partiu para a lua-de-mel com os trs filhos mais velhos e sugeriu que eu fosse ter com 
eles mais tarde, o que nunca aconteceu. Em vez disso, fiquei em casa com Nicky, o que era, de alguma 
forma, um alvio, porque detestava deix-lo, embora ficasse desapontada por no me juntar aos outros. J 
para no falar no facto de eles terem ido gozar a minha lua-de-mel, e eu no. Fiquei em casa com Nicky.
Pouco antes de eles partirem, Nicky apareceu no nosso quarto certa manh, s com a fralda, ensopada em 
chichi. Tinha ento trs anos. Descalo, as mos nas ancas, olhou para John com ar de descontentamento e 
disse: "Mister Traina, fique a saber que eu a quero s para mim." Nick era, j ento, e sempre o foi, 
honesto consigo mesmo. No havia mal-entendidos com ele. E depois de olhar com ar furioso para o seu 
novo pai, deu meia volta para sair do quarto, lanou um olhar fulminante a John e fechou a porta 
firmemente atrs de si, enquanto fazamos um esforo enorme para no sorrir.

IRMOS E OUTRAS ALTERAES

Com a exactido possvel neste tipo de coisas, posso dizer com grande margem de segurana, e muitas 
vezes pensei no assunto, que concebemos Samantha na semana que se seguiu ao casamento. O mal-estar 
que me afastou da lua-de-mel veio-se a verificar no ser apendicite, mas Samantha. Embora esperssemos 
algum tempo para contar s crianas, ficmos bastante contentes. No foi um acidente, queramos ter um 
filho, e John ansiava por uma rapariga.
Muito pouco tempo depois de nos termos casado, para minha surpresa, o pai de Nick apareceu e quis ver 
Nicky. Fiquei preocupada com o seu contnuo estilo de vida e com os efeitos que isso poderia ter sobre 
Nicky.
Ao mesmo tempo, soube que Nick era, por uma razo misteriosa, extremamente atreito a infeces 
fortuitas. Se algum l em casa apanhava uma constipao, ele apanhava uma maior, ou pior ainda, uma 
pneumonia. Se se cortava, apanhava uma infeco. Nunca ningum soube porqu, mas, durante toda a sua 
vida, ele foi extremamente atreito a todos os tipos de infeces. E pensmos na eventualidade do seu 
sistema imunitrio no ser perfeito. Perante isso, fiquei fora de mim ao pensar que ele recebia a visita de 
algum que era um viciado em drogas. E muito mais fora de mim fiquei ao imaginar Bill a lev-lo a 
qualquer lado. Na minha opinio, ele no estava em condies de fazer isso.
Grvida de Samantha, e extremamente preocupada com Nick, fomos para o tribunal, e o tribunal mostrou-
se compreensivo em relao s minhas preocupaes. Concordaram em deixar que Bill visitasse Nick, 
mas na nossa casa, e sob a minha superviso. E, para ser franca, isso no me dava nenhum prazer. Bill 
veio visitar Nick uma srie de vezes e, quando o fazia, vamos que ele ainda no tinha resolvido os seus 
problemas. Era uma situao muito desagradvel. O seu reaparecimento no me pareceu ser um 
complemento feliz para a vida de Nick, e fiquei preocupada com o facto de ele poder confundi-lo. Nessa 
altura, Nick estava extremamente ligado a John.
Porm, ao mesmo tempo, reparei que Nick parecia andar sempre muito agitado, um pouco hiperactivo, e 
estava extremamente desgostoso com o beb. O olhar ganhou subitamente uma espcie de brilho perverso, 
como que para provar que ele era meu e eu lhe pertencia, e nada iria intrometer-se entre ns. Tentei 
sosseg-lo, mas acho que no o convenci.
Foi uma altura difcil para Nick. Mudara muita coisa na sua vida em pouco tempo. Tinha um novo 
padrasto, dois novos irmos a quem teria de adaptar-se, uma casa nova, um novo beb que vinha a 
caminho, que ele encarava como uma grande ameaa, como muitas crianas de trs anos teriam encarado, 
e o seu pai biolgico entrara de novo na sua vida, muito embora lhe fosse completamente estranho. Se 
estivesse no lugar de Nick, ter-me-ia interrogado: "Quem so todas estas pessoas?"
John era extremamente cuidadoso e gentil com Nick, e respeitava a relao que eu mantinha com ele. 
Mais tarde, ele disse que no quisera intrometer-se porque sabia, e era fcil de ver, que Nicky ficaria 
muito ressentido. Aos olhos de Nicky, eu pertencia-lhe exclusivamente, e no queria partilhar-me nem 
com John, nem com os rapazes, nem com o beb que estava prestes a nascer. Muitas vezes me senti 
dividida entre duas faces: Nick e Os Outros. Passava muito tempo com Nick, mas ele continuava 
insacivel, querendo mais de mim do que aquilo que eu tinha para dar, como que para me obrigar a 
provar-lhe quanto o amava. E amava-o mais que nunca, mas agora havia outras pessoas na minha vida e 
na dele.
Tommos uma deciso importante no que diz respeito  nossa famlia, e resolvemos que iramos educ-los 
como uma s famlia: irmos e irms. Muito simples. Nem meio-irmo, nem madrasta, nem padrasto, 
fosse l o que fosse. Eles eram os nossos filhos, sem distines de quem viera com quem, ou de qual era o 
grau de parentesco (e assim se manteve at hoje, no s connosco, mas com eles). As crianas eram 
suficientemente jovens e gostavam umas das outras para fazer isso. Beatrix, Trevor e Todd eram bons 
amigos h j alguns anos. E os rapazes eram maravilhosos com Nicky, aceitando-o como seu irmo desde 
o primeiro dia.
Quando nos casmos, Beatrix, Trevor e Todd tinham respectivamente treze, doze e onze anos de idade. 
No negmos as suas outras relaes: com o pai de Beatrix e com a me dos rapazes. O pai de Beatrix 
visitava-nos muitas vezes, conhecera John na juventude, haviam passado os Veres no mesmo stio e John 
namorara uma das irms dele. Havia uma grande intimidade. No que dizia respeito s crianas, elas 
formavam uma unidade. Era reconfortante para Beatrix, penso eu, porque o pai vivia a quatro mil e 
oitocentos quilmetros de distncia, e na Europa o resto do tempo, no estando disponvel todos os dias, e 
os rapazes dividiam o seu tempo entre ns e a me. Nesses dias, e durante muito tempo, mas mesmo 
muito, todos se sentiam muito felizes. At Nicky. Embora fosse o mais difcil de contentar e aquele que 
parecia ter mais dificuldades em adaptar-se.
As visitas de Bill acabaram em breve. Desapareceu novamente das nossas vidas, mas deixava mensagens 
para Nick no atendedor automtico, fingindo ser o Drcula. Isso tinha tanto de assustador como de 
fascinante para Nick. E ficou obcecado pelo Drcula, tal como estivera anteriormente pelo Homem-
Aranha, falando dele constantemente, no do seu pai, mas de Drcula. E ao mesmo tempo, comeou a 
fazer desenhos horrveis de pessoas a matarem-se umas s outras, espadas espetadas e sangue a pingar dos 
membros. Era um grande contraste com os desenhos de qualquer outra criana que alguma vez conhecera. 
No acho que isso tivesse alguma coisa a ver com as visitas do pai, mas os temas dos desenhos 
preocupavam-me. Discuti o assunto com um psiquiatra, que apenas me disse que ele tinha uma 
imaginao prodigiosa e que no via qualquer sintoma de algum problema. Mas sempre que ele fazia um 
desses desenhos, e fazia-o com muita frequncia, ficava assustada. Pu-los em lbuns para os mostrar a 
outro psiquiatra e, uma vez mais, foi-me dito que no tinha nada que me preocupar.
Duas semanas depois de Nick fazer quatro anos, Samantha nasceu. E Nick ficou lvido de clera, 
exasperado, sentia-se trado, e estava furioso comigo e com o beb, de uma forma desmesurada. 
Ultrapassava a rivalidade entre irmos e aproximava-se de algo que me fazia lembrar The Bad Seed. 
Estava constantemente preocupada com ele, e fiquei aborrecida por ele ter tantos cimes de Samantha.
Os desenhos pioraram, tornaram-se mais abundantes e mais negros. H mais de um ano que no fazia 
desenhos com cores alegres. S cores escuras. Tenho centenas deles. Continuava a fazer chichi na cama 
todas as noites, e estava mais difcil que nunca. Passava a maior parte do tempo encolerizado, depois o Sol 
descobria-se por entre as nuvens, e ficava subitamente terno e amoroso, por instantes, at outra tempestade 
se abater. Era uma criana colrica a maior parte do tempo, com quem era cada vez mais difcil de lidar 
em casa. Contudo, no infantrio diziam que ele era delicado, inteligente e encantador, surpreendentemente 
adulto (no era nenhuma surpresa para mim, sempre o fora), e ainda encantava todos os que o conheciam. 
Nicky era sempre incrivelmente carismtico e sedutor.
Eram as pessoas que viviam com ele que suportavam a maior parte da sua clera. Eu era extremamente 
bem sucedida na altura, escrevendo de noite e passando o tempo com os meus filhos de dia. A minha vida 
era uma corrida constante a ir levar e a buscar as crianas  escola, de actividades extra-escolares e de 
passeios com as crianas mais velhas. Adorava estar com elas.
Quatro meses depois de Samantha nascer, fiquei novamente grvida, mas ainda no dissera s crianas, 
quando a perdi dois meses e meio depois. E voltei a engravidar, desta vez de Victoria, menos de duas 
semanas depois de ter abortado. Toda a minha ateno continuava centrada nas crianas, como estivera 
durante anos, s que lia via mais. Trabalhava durante a noite, enquanto John e as crianas dormiam, e 
nunca falvamos muito acerca disso.
Por essa altura, Bill voltou a aparecer, uma vez mais a exigir o seu direito  visita. Voltmos ao tribunal, 
com base no insucesso da ltima srie de visitas, no seu carcter espordico e nos efeitos negativos que 
tinham tido sobre Nicky. Desta vez, o tribunal estabeleceu que a visita se realizasse num estabelecimento 
psiquitrico com a presena de um adulto.
Nick chorava frequentemente e pedia para no ir. Parecia traumatizado com todo o processo. No foram 
tempos fceis para Nicky e, durante esse tempo, o tribunal exigiu que Nick fosse observado por um 
psiquiatra para avaliar o seu estado, e tambm o mandmos observar por um da nossa confiana, para uma 
avaliao independente do que as visitas lhe estavam a fazer. Mas a ideia dominante na altura era a de que 
os pais biolgicos, independentemente dos danos que possam provocar, so vitais para o bem-estar de 
uma criana.
E este pareceu-me ser um momento adequado para mostrar os interminveis lbuns que eu tinha dos 
terrveis desenhos negros de Nicky, mas ningum se mostrou impressionado com eles. Estava 
profundamente preocupada e convencida de que havia algo de errado com eles, e possivelmente algum 
problema com Nicky. Aos quatro anos, ainda fazia chichi na cama, passava a maior parte do tempo 
colrico, com terrveis cimes de Samantha e aborrecido com as visitas foradas de Bill. De vez em 
quando, fazia coc na banheira. Uma vez na almofada. E, 
doutra vez, besuntou a parede com ele. Tudo isso era indicativo, estou certa, de um qualquer problema 
muito profundo. Eu continuava a acreditar que havia algum problema com Nick, no devido a foras 
exteriores, mas devido a algo profundo dentro dele. Mas os psiquiatras deram-me a mesma resposta acerca 
do seu brilhantismo, do seu gnio, de eu o mimar, e agora o trauma dos novos irmos. No cheguei a 
concluso nenhuma. Os lbuns voltaram para o armrio. No haviam impressionado ningum. Mas eu 
estava constantemente preocupada com ele. Sentia-me torturada por dentro, a sensao de que algo estava 
mal e ningum ouvia.
As visitas de Bill pararam novamente. Fora uma situao difcil para Nick, que primeiro no queria ir e 
depois parecia ficar aborrecido por ter de ir ver Bill. E quando, por uma razo qualquer, Bill deixou de 
aparecer, como algumas vezes acontecia, Nicky chegava a casa com a sensao de que fizera alguma coisa 
que o aborrecera. Ficava preocupada por Nick se sentir rejeitado, ansioso e culpado nessas circunstncias. 
Mas, quando Bill desapareceu desta vez, no voltou a aparecer. Desapareceu para os mistrios da sua 
prpria vida e no voltou a entrar na de Nick. As visitas acabaram para sempre. E por maior que a perda 
possa ter sido para cada um deles, a um nvel psicolgico profundo, fiquei aliviada para bem de Nick. Eu 
achava que as visitas eram demasiado traumticas para ele.
Nick tinha cinco anos e meio quando Victoria nasceu. Tive um parto fcil desta vez (o nico), passei s 
uma noite no hospital e vim para casa com ela na manh seguinte. Nick sofreu um forte ataque de asma 
nessa noite, e teve de ser levado para o hospital. No era o primeiro que tinha (tenho asma, tal como cinco 
dos meus sete filhos), embora nunca tivesse tido um daquelas propores. No gostava de Victoria, mas, 
com o passar do tempo, ignorou-a. O seu dio e ressentimento estavam centrados em Samantha a maior 
parte do tempo.
Era uma criana colrica, vingativa e ressentida. Era compreensvel que tivesse cimes de Samantha e de 
Victoria, e estivesse aborrecido com o novo desaparecimento de Bill, mas, apesar dessas possveis causas 
para a aparente beligerncia, as suas reaces pareciam desmesuradas. Estava constantemente a acalm-lo 
e a desculp-lo, tentando melhorar-lhe as coisas. Adorava-o tanto que detestava v-lo assim infeliz. Nick 
resistia aos esforos de toda a gente para o levar a passear. Geralmente, eu era a nica pessoa que 
conseguia tir-lo de detrs das suas muralhas, e muitas vezes tambm se zangava comigo. Afinal de 
contas, eu era a traidora que trouxera para casa os novos bebs. Mas, por mais colrico que andasse, 
continuava profundamente ligado a mim.
Eu protegia-o extremamente, estava sempre a desculp-lo e a defend-lo, e ele sabia bem. Nick confiava 
em mim, mesmo quando estava zangado comigo. Olhando para trs, era como se houvesse uma dor latente 
dentro de mim, uma dor que ele no sabia como acalmar ou tratar. No era uma criana fcil de amar ou 
lidar. Quando pensvamos que o tnhamos na mo e que havamos ganho a sua confiana, ele virava-se 
contra ns. Tambm fazia isso comigo, mas nunca entendi isso como uma questo pessoal; sempre 
consegui ver algo para alm disso. J nessa altura eu suspeitava que havia algo que o corroa, algo que 
estava para alm dos motivos evidentes para a sua clera. Eu j sabia ento, aos quatro anos, e at mesmo 
aos cinco, que havia algum problema com ele, mas no sabia como lhe chamar e, sempre que o tentava 
fazer, sentia que ningum me dava ouvidos.
Falei com um dos psiquiatras que o viu, mas disse-me que ele estava bem; a nica coisa de que precisava 
era de disciplina. Mas eu sabia que era mais do que isso. Tal como Nicky, sentia-me cercada de muralhas 
de silncio, aprisionada por aquilo que eu achava ser ignorncia da parte das pessoas. Talvez o facto de 
saber, ver e sentir o problema me tenha ligado mais a Nicky. S ns sabamos o fogo profundo que j 
comeara a consumi-lo.
Apesar de tudo, nasceu outra irm, Vanessa, quando Nick tinha seis anos e meio. Porm, ele pareceu ficar 
indiferente com esta. Continuava a atormentar Samantha. Foi um dio que perdurou durante vrios anos, 
como um fogo eterno, at que, subitamente, transformou-se num amor da mesma intensidade vrios anos 
mais tarde, quando tinha doze ou treze anos, e ela se tornou a irm a quem estava mais ligado. Adoravam-
se. Em cada instante da sua vida, Sam idolatrava-o, adorava-o e ele amava-a tanto como ela a ele. Ter-me-
ia sentido mais confortada naqueles primeiros anos se soubesse o que iria florescer entre eles: um elo de 
confiana, lealdade e paixo que ultrapassava todos os outros. Seis meses mais tarde, quando Nick tinha 
sete anos, voltmos ao tribunal, desta vez para anular os direitos de paternidade de Bill, de modo a que 
John o pudesse adoptar. Era uma coisa que Nick queria, tal como ns todos. O julgamento comeou no dia 
do stimo aniversrio de Nick. Bill j no via Nick h vrios anos, e nunca pediram a Nicky para 
comparecer no tribunal, felizmente. E o tribunal decidiu que Bill o abandonara anos antes; anularam os 
seus direitos de paternidade e John adoptou Nicky. Deve ter sido uma ocasio triste para Bill. No 
falmos. Eu detestava o que ele fizera com a sua vida, e nessa altura ainda me sentia trada por ele. Ele 
parecia estar a anos-luz de mim.Fizemos uma festa de adopo para Nick, em casa, com um grande 
nmero de amigos nossos, e Nicky parecia contente por ter sido adoptado. Os mais velhos estavam a par 
da situao, mas Nick disse que no queria que os mais novos soubessem que John no era o seu pai 
verdadeiro. Ele fora efectivamente o pai com quem Nick crescera, e Nick no queria ser diferente dos 
outros. E durante vrios anos depois disso, a adopo de Nick por John foi mantida em segredo dos seus 
irmos mais novos. Era importante para ele, e respeitmos o seu desejo relativamente ao assunto.No 
entanto, apesar da sua evidente felicidade com a adopo, continuava a fazer algumas coisas muito 
estranhas e a ser difcil de lidar: chichi na cama acabara quando tinha seis anos, ia bem na escola, mas era 
uma criana colrica e difcil, que destrua os brinquedos constantemente e parecia estar sempre a nadar 
contra a corrente. Nunca se mostrava de acordo com o que se passava  sua volta ou com o que as outras 
pessoas faziam. Se amos sair, ele queria ficar em casa. Se amos ficar em casa, queria sair. No tinha 
qualquer interesse em jogos normais, s em jogos de guerra, em brinquedos que lhe permitissem usar a 
imaginao, e os sangrentos desenhos a negro continuavam.No consigo encontrar a razo ou o incidente 
que levou a isso, mas quando estivemos no Havai, de frias com a famlia, quando Nick tinha sete anos, 
lembro-me de olhar para ele e pensar que a situao era desesperada. Eu tinha a clara sensao de que ele 
estava profundamente perturbado, apesar de muitas vezes dar a impresso, a mim e especialmente aos 
outros, de ser urna criana normal. Mas eu sabia no meu ntimo que havia algum problema com ele, e 
receava que as coisas no se alterassem. No fazia absolutamente nenhuma ideia de como o ajudar, ou de 
como modificar ou melhorar a situao.
E eu era ainda, naquela altura, a nica pessoa que via o problema. Os meus esforos para o expor ao 
pediatra ou mesmo na escola, e para arranjar ajuda da parte deles, tinham sido infrutferos. Eles 
aparentemente no viam qualquer problema. S eu o via. Embora John me tivesse dito que tinha os 
mesmos receios que eu, mas tinha medo de os expressar.
Um irmo, Maxx, nasceu quando Nick tinha oito anos e meio, e nesta altura, Nick estava umas vezes 
contente, outras, ameaador e ciumento. Tinha um rival, um irmo mais novo, embora mais tarde tivesse 
um imenso orgulho nele.
A paixo de Nick, na altura, era o basebol. Jogava-o, via-o, vivia-o e respirava-o, e comeou de uma 
maneira obsessiva a fazer registos onde inventava jogos de basebol imaginrios, com cada partida 
registada em elaborado pormenor, com a lista de todos os jogadores e das suas respectivas fichas 
estatsticas. Chegou a descrever pormenorizadamente um campeonato de basebol imaginrio. Os registos, 
que ainda guardo, so extraordinrios e brilhantes; h montes deles.
Nessa altura era tambm um apaixonado pela msica, mas j o era desde os cinco anos. Ouvia a mesma 
msica e adorava as mesmas bandas que os seus irmos mais velhos adoravam, e ia muitas vezes ter com 
os amigos deles e fazia-lhes perguntas acerca das bandas que eles ouviam. Ao princpio, pensavam que ele 
estava a gozar, depois viam que ele falava a srio e sabia do que estava a falar. Era um profundo 
conhecedor da msica deles. Foi a sua paixo de toda a vida, e que nunca se esvaneceu ou diminuiu. Era o 
que ele mais adorava, e aquilo em que era o melhor, embora fosse tambm um escritor talentoso, e eu 
disse muitas vezes, nos ltimos anos, que ele escrevia melhor do que eu. O seu sentido do ritmo e a 
maneira de desfiar uma histria eram requintados.
E quando a dana break se tomou a sua paixo, ele horrorizava os seus irmos mais velhos danando de 
forma hbil diante dos amigos deles. Tinha ento seis anos. E conquistou a assistncia no dia em que 
Trevor fez dezasseis anos. Tambm gostava de namoriscar as namoradas deles, que o achavam adorvel e 
engraado, o que compreensivelmente irritava muitas vezes os irmos.
O ltimo beb, Zara, nasceu quando Nick tinha onze anos, e desta vez Nick ficou encantado. J tinha 
idade suficiente para gostar dela e para no se sentir ameaado (nessa altura ele ainda atormentava 
Samantha).
Nick, porm, estava a comear a revelar-se. A dor que o consumira por dentro durante anos estava a 
comear a manifestar-se com mais clareza. Parecia ainda mais difcil de controlar e de lidar. Destrua as 
coisas no seu quarto, embora nunca magoasse ningum intencionalmente. s vezes, brincava com as 
crianas mais novas com demasiada violncia, mas nunca lhes batia nem magoava. Mas o que estava a ver 
cada vez mais nele preocupava-me constantemente. Estar com ele era como tentar acalmar um tornado. 
Num instante, estava impossvel, no instante seguinte j estava gentil e terno. E apesar do facto de ele 
exigir mais energia e cuidados do que os outros oito irmos todos juntos, eu sentia um elo inseparvel que 
me ligava a ele e uma necessidade constante de o proteger. Sabia instintivamente que ningum mais o 
compreendia como eu, nem percebia o sofrimento em que ele estava mergulhado. Era como uma semente 
que eu sabia ter tomado propores assustadoras, e continuava a crescer, oculta, descontrolada, 
abandonada, e no havia nada que a detivesse. Era como um drago enfurecido dentro dele, e o meu maior 
receio era que o devorasse.
Todavia, aparentemente ningum conseguia ver o problema. Ele continuava a passar com distino na 
escola, apesar de ainda ningum ter conhecimento das suas dificuldades de aprendizagem, que ainda 
passavam despercebidas. O seu Q1 era to elevado que o levava para alm dos seus limites, e ele 
conseguia compensar isso como poucos.
Todos ns enfrentmos um desafio nesse ano, quando John teve um acidente quase fatal em casa: uma 
queda que quase o levou  morte. Todas as crianas ficaram assustadas e perturbadas, tal como eu. Nick 
ficou particularmente abalado com o facto e com medo de que ele morresse; recomeou a fazer chichi na 
cama, a fazer coc na banheira, embora apenas durante um curto espao de tempo.
Porm, a sua perturbao passou algo despercebida porque os outros tambm se encontravam perturbados, 
at os mais velhos que estavam quase ou j na casa dos vinte. Mas Nick parecia estar em autntico pnico. 
Depois acalmou, quando John ficou melhor, s que aos onze anos, ele comportava-se pior que nunca, e 
sempre contra a corrente.
Quando lhe disseram para vestir calas escuras e uma camisa clara para a festa de Natal da escola, vestiu 
calas de caqui e uma camisola de gola alta preta, e eu obriguei-o a sair do palco e a mudar-se. Outras 
pessoas achavam as suas "ideias independentes" divertidas, mas eu no. Eu sabia que elas eram um sinal 
de algo muito mais profundo e muito mais perturbador. At hoje, no entendo por que razo  que as 
outras pessoas no viram isso. E difcil investigar por que motivo  que no o fizeram. Talvez no 
quisessem, ou no pudessem, ou estivessem assustadas. Mas eu sabia... oh, meu Deus, como eu sabia... e 
to assustada que estava por ele. Mesmo nessa altura, no meu corao, apesar de todos os filhos que tinha, 
ele era o meu beb... o nico que eu sabia que sofria... e que precisava de mim de forma diferente dos 
outros. Teria feito qualquer coisa para o proteger, para mudar o curso dos acontecimentos, para o aliviar 
da dor e do drago, com amor.. Porm, mesmo nessa altura, no consegui. E o drago que o devorava 
lentamente estava a ficar maior.

SEXTO ANO:
OS DEMNIOS COMEAM A MOSTRAR-SE

Nick estava com onze anos e tinha uma nova paixo: a sua prancha de skate, embora a paixo principal na 
sua vida, o seu verdadeiro amor, fosse sempre a msica. Parecia conhecer todos os conjuntos, as msicas e 
msicos do planeta, e impressionava toda a gente, sobretudo os amigos dos seus irmos mais velhos, com 
os seus conhecimentos. E para uma criana da sua idade, tinha um gosto bastante sofisticado relativamente 
 cena rock. Estava familiarizado com todas as novas bandas, alm das j conhecidas. Ao princpio, 
quando as pessoas entendidas no assunto falavam com ele, ficavam sempre a pensar que ele estava a 
"armar-se". Mas no estava. Ele sabia do assunto, geralmente muito mais que elas.
Aos onze anos, h muito que andava louco por uma amiga minha, Jo Schuman, que estava igualmente 
enamorada por ele. Ela era uma das poucas pessoas, e certamente a nica no mundo, que conhecia tanto da 
cena musical como ele, pois o primo era fundador e director de uma importante empresa discogrfica. Jo 
costumava lev-lo como convidado especial aos concertos importantes, e levava-o sempre para os 
bastidores com ela. Jo era uma das estrelas mais cintilantes no universo de Nick, e nutriram uma adorao 
um pelo outro desde o momento em que se conheceram at ao momento em que ele nos deixou.
Mas juntamente com o seu verdadeiro amor, a msica, havia sempre uma compulso suplementar: os seus 
imaginrios (e autnticos) jogos de basebol. Ele jogava, e era muito bom jogador. Tambm coleccionava 
coisas memorveis do basebol e, como tudo aquilo que ele adorava, tornou-se uma obsesso. Recolheu 
vasto material, e, como sempre, tinha conhecimentos muito adultos e sofisticados, acabando por reunir 
uma coleco notvel de bilhetes, tacos assinados e bolas de basebol. Ao princpio, eram o Homem-
Aranha e A Guerra das Estrelas. Agora eram as pranchas de skate. Ia andar de skate horas a fio, e andava 
constantemente a aperfeioar a sua prancha, comprando acessrios e fazendo-lhe alteraes. Na nossa casa 
de campo em Napa, construiu sozinho uma enorme rampa de skate e colocou-a o mais 
inconvenientemente possvel na entrada para os carros. O mundo de Nick girava sobretudo  sua volta e, 
no sexto ano, tornara-se extraordinariamente individualista, parecendo no ter qualquer interesse particular 
nas necessidades ou problemas de outras pessoas. O mundo de Nick girava exclusivamente  sua volta. 
No era uma caracterstica cativante, no o ajudando a dar-se com as outras pessoas. Na famlia, parecia 
passar por cima de toda a gente para conseguir os seus intentos. Era extraordinariamente obsessivo.
Aos onze anos, quando Nick estava no sexto ano, passei tempos mais difceis que nunca com ele, e andava 
constantemente preocupada. Havia sempre uma torturante preocupao com ele. No era como as outras 
crianas da sua idade, desse eu as desculpas que desse. Era mais brilhante, mais rpido, mais difcil, mais 
barulhento, mais intratvel quando muito bem entendia, noutras ocasies, mais doce. Tudo em Nick era de 
extremos, como se as cores com que pintava a vida fossem mais vivas e finas do que as de todos os outros. 
Era determinado quando queria fazer ou ter alguma coisa, e impiedoso nas tentativas para o conseguir.
No posso fingir agora qualquer tipo de discernimento ou omniscincia mgicos. A nica coisa que sabia 
era que Nick tinha problemas, e eu sentia uma dor constante dentro de mim, uma espcie de radar ou 
sonhar que me dizia que ele no estava bem. Mas no sabia como expor o problema. Continuava a indagar 
discretamente na escola, de tempos a tempos, se achavam que ele tinha algum problema. Ele ia bem e, 
sempre que eu sugeria que havia algum problema com ele, sentia que olhavam para mim como se fosse 
louca. No viam as coisas que ele partia, nem os ataques de fria que pareciam estar a piorar, nem tinham 
de lidar com o seu comportamento frequentemente obsessivo.
No posso dizer agora que sabia tudo o que estava a acontecer. No sabia. No acordei um dia, bati com a 
mo na cabea e disse: "Oh, meu Deus, evidentemente, o meu beb  manaco-depressivo." Naquela 
altura, no sabia nada. O que eu sentia era que havia algum problema com ele, mas no conseguia dizer o 
qu, e o que desejava mais que tudo era que ele conseguisse ultrapassar o problema. Eu acho, do fundo do 
corao, que tambm tinha a esperana de que ningum alguma vez desse com o problema. Uma vez que 
toda a gente insistia em dizer que ele era apenas brilhante e difcil, eu rezava para que as pessoas 
continuassem a v-lo assim eternamente. No queria que achassem que havia alguma coisa sria com ele, 
embora intimamente tambm fosse dessa opinio. Nem sequer ao meu marido disse. No disse a ningum. 
Tornou-se o meu segredo e, sempre que necessrio, dava inmeras desculpas por ele. "Est cansado, est 
constipado, isto  difcil para ele, as irms chateiam-no, os irmos mais velhos tm cimes dele e no o 
compreendem." Havia muitas maneiras de explicar o seu comportamento, mas apenas uma teria sido 
correcta; porm, estava encoberta por toda a nossa ignorncia, pelas minhas oraes que no a viam, e por 
aquilo que eu achava ser a contnua cegueira dos profissionais que a poderiam ter visto.
Nem o pediatra nem a escola me disseram que viam algo fora do normal em Nick, e mais tarde, durante 
muito tempo, fiquei ressentida com a escola por causa disso. Mas depois perdoei-lhes, porque, mesmo que 
tivssemos sabido, julgo que nada poderamos ter feito. A nica coisa que poderamos ter feito era dar-lhe 
medicamentos, que talvez lhe tivessem limado algumas arestas, tornando-o mais socivel, mas no o 
teriam curado.
Uma das coisas que provocou uma grande excitao em Nick nessa altura foi um concurso de playback, 
que se realizava na escola todos os anos, em Fevereiro. Era um grande acontecimento para todos os 
midos, mas muitos deles iam para as provas de seleco sem nada preparado, arranjavam uns amigos e 
discutiam durante meia hora acerca de qual a cano que fingiriam cantar. E quando o concurso 
propriamente dito chegava, eles tinham uma actuao em palco desastrada, andavam atabalhoadamente de 
um lado para o outro, faziam constantes fifias, mas tinham um ar doce e acrianado durante a actuao. 
Nick no era assim.
Para Nick, este era o seu momento de brilhar, a sua hora de glria, a sua tentativa para conquistar a 
medalha de ouro nos Jogos Olmpicos. Comeava a preparar-se meses antes, todos os dias, seleccionando 
cuidadosamente a sua "banda", escolhendo as canes, ensaiando-as regularmente, e, por fim, 
vasculhando os meus armrios  procura de cabeleiras e roupa. As minhas botas de vaqueiro 
desapareceram, assim com as minhas T-shirts de lantejoulas que nunca vestia mas que tinha guardadas, 
um velho casaco de discoteca que tambm usou quando se vestiu de Prince, uma vez, na Noite das Bruxas 
(Prince foi outra das suas muitas obsesses, tal como acontecera com Michael Jackson anteriormente, The 
Police, Sting, Nirvana, Guns and Roses e um sem-nmero de outros). Para o concurso de playback, ele 
distribua as cabeleiras que eu tinha mas nunca usava, e evidentemente quando voltavam para as minhas 
mos estavam irreconhecveis. Eu costumava resmungar: "Por que razo  que tens de fornecer guarda-
roupa e cabeleiras para metade do sexto ano?" Mas Nick s vivia para o concurso de playback. Era a sua 
oportunidade de ser uma "verdadeira" estrela de rock durante algumas horas. E quando actuava, deixava 
toda a gente deslumbrada.
Utilizava luzes, instrumentos genunos, e quando a sua "banda" passava das provas de seleco para o 
concurso propriamente dito, era como ver uma autntica banda de rock a actuar num concerto a srio. 
Deixava toda a gente de respirao suspensa, e, naturalmente, aps meses de trabalho afincado, em geral 
ganhava. Era um primeiro vislumbre da pessoa em que viria a tornar-se, mais tarde, na cena musical, do 
modo afincado com que trabalharia, da criatividade que teria, do modo firme como conduziria os outros 
msicos (por mais jovens e inexperientes que fossem) com quem trabalhava.- Nick era brilhante, e esses 
concursos de playback eram apenas um pequenssimo vislumbre do futuro, a forma como se contorcia, se 
abanava e hipnotizava a assistncia, mergulhando do palco para cima da multido, dando pulos, e 
imitando todos os pequenos traos da banda que procurava igualar. Conseguia pr-me o corao a cantar. 
Por muito que me queixasse do que ele fez s cabeleiras e s minhas botas de vaqueiro favoritas, sabia que 
tinha valido a pena. Adorava o que ele fazia. Quando o via com uma das minhas cabeleiras postas 
divertia-me pensar que, com o penteado certo, ele ficaria bastante parecido comigo. A maior parte das 
vezes achava-o parecido com o pai. A verdade era que ele no se parecia com nenhum de ns, parecia-se 
consigo prprio. Era um rapaz extremamente bonito, mesmo como criana. A aco que exercia nas 
mulheres continuou a crescer com o decorrer dos anos, nunca diminuiu. Elas adoravam-no!
Ainda era bastante atltico, embora o sexto ano possa ter sido o fim, ou melhor, o princpio do fim. Era 
um bom jogador de basebol e tnis, e um nadador poderoso e gracioso, mas comeou a achar que as 
actividades ao ar livre no eram "fixes", e preferia ficar sentado no quarto a ouvir msica, tanto no campo, 
aos fins-de-semana, como em casa. Na verdade, apercebi-me mais tarde, isto no tinha nada a ver com o 
ser "fixe", ele estava a tomar-se um solitrio.
Escreveu bastafite nesses dias, contos assustadoramente sofisticados que mostravam sempre uma 
percepo adulta das coisas subtis. Tinha um estilo elegante, um comando firme da linguagem e um 
extraordinrio sentido do ritmo. Eu costumava ler o que ele escrevia, escutava a cadncia, sentia o 
violento pulsar da fora da sua prosa, e sentia-o conduzir-me ao sabor da sua vontade. Tinha um estilo 
forte, inato, natural, uma ddiva que lhe era to natural que nem dava por isso. Adorava escrever, mas 
preferia a msica, e nunca pensava muito na escrita. As histrias eram geralmente violentas, e tinham 
sempre um trao sombrio.
Mais tarde, quando os seus demnios comearam a tomar conta de si, ele explicou-me muito 
simplesmente, um dia, que no conseguia concentrar-se mais em longos trechos de escrita (os seus 
primeiros contos eram muito longos), e era melhor para ele escrever trechos curtos e letras de canes. 
Estes eram a dimenso da sua capacidade de concentrao na escrita, nessa altura, e serviam de qualquer 
forma os seus propsitos. E tal como os seus primeiros contos, algumas das suas letras eram brilhantes, 
perspicazes, perceptvas e inteligentes. Passei uma vista de olhos por alguns dos seus contos no outro dia, 
enquanto passeava o olhar pelo seu quarto, e fiquei s uma vez espantada com a sua qualidade. E 
juntamente com os contos, escrevia um sem-nmero de dirios. Nunca os invadi, nunca os li, at agora, 
salvo um que lhe "pedi emprestado" quando ele tinha catorze anos e eu estava profundamente preocupada 
com ele, e queria ver o grau de gravidade do problema que ele enfrentava. As respostas encontradas foram 
profundamente perturbadoras.
Aos onze anos, por aquilo que leio nos dirios agora, estava ainda em muito boa forma, embora colrico a 
maior parte do tempo. Mas, no sexto ano, podamos atribuir a culpa das queixas e comportamentos 
estranhos dele ao sbito aumento de hormonas. Assim como a um monto de coisas: manchas solares, 
televiso, maus pais, irmos irritantes. Se quisermos encontrar desculpas para o seu comportamento 
estranho, se nos esforarmos, podemos encontr-las sempre.
Havia uma coisa muito estranha no seu comportamento ento. A nossa reserva de Tylenol em casa 
comeou a baixar rapidamente. Eu encontrava frascos vazios ou embalagens de comprimidos abertas por 
todo o lado e, com mais frequncia que nunca, os frascos vazios de Tylenol apareciam no seu quarto. Ele 
fingia sempre surpresa e inocncia quando os encontrava e, mesmo quando j era crescido e falvamos 
abertamente destas coisas, ele negava o "vcio" do Tylenol que eu achava que ele apanhara. Nick era 
quase sempre sincero acerca das coisas, extraordinariamente sincero, e mesmo sendo um mido admitia 
coisas que outros no admitiriam. Mais tarde, nunca escondia a verdade, e contava-me algumas coisas 
com uma franqueza tal que me fazia estremecer. Mas nunca admitiu o vcio do Tylenol, embora tenha a 
certeza de que o tomava. Penso que estava a comear a no se sentir bem na sua pele, e comeava a 
procurar alvio em todo o lado onde o poderia encontrar. No era uma substncia perigosa; por isso, 
embora estivesse preocupada e o questionasse constantemente acerca das provas que encontrava, no 
entrei em pnico. Mas fechmos a sete chaves o Tylenol e todos os outros medicamentos, de modo a 
vedar-lhe o acesso a eles.
seu passo seguinte para a automedicao foi o Sudafed. O meu marido tomava-o para a sinusite. Tnhamos 
a maior parte dos medicamentos fechados  chave, por causa dos mais novos, mas John tinha sempre 
alguns Sudafed nos bolsos. E descobri os pequenos invlucros espalhados no quarto de Nick. Quando o 
questionava acerca disso, limitava-se a responder que tinha tido uma constipao ou uma dor de cabea, 
no negava t-lo tomado. Eu prpria sou alrgica ao medicamento e, juntamente com uma reaco 
adversa, ele quase me faz saltar a pele do corpo. Muitas pessoas diro que o medicamento os excita, mas 
Nick tinha certamente as suas reaces paradoxais  medicao; por isso, aquilo que excitaria muitas 
pessoas acalm-lo-ia a ele. Penso que o Sudafed lhe fazia isso, e foi a sua primeira tentativa desajeitada 
para acalmar os demnios. J nessa altura eles no deveriam ser fceis de silenciar, a julgar pelos 
perturbadores registos no seu dirio.
Como sempre, estava preocupada com ele, e o Tylenol e Sudafed que ele estava obviamente a tomar em 
quantidades bastante apreciveis alarmou-me. Eu costumava ir a um mdico e pedi-lhe para ver Nicky. 
Nick achou a ideia uma parvoce, e ops-se a ela ao princpio, mas acabou por concordar em falar com 
ele, e ia l uma ou duas vezes por semana. Nick achava-o "porreiro" porque gostava de basebol. Estou 
certa de que falavam sobre mais coisas e, embora o meu mdico no acabasse com todos os meus receios, 
disse que no via nenhum problema obscuro com Nicky. Era um rapaz invulgar, com percepes 
extraordinariamente claras acerca dos adultos e das pessoas que o cercavam, no obstante certas 
perspectivas no muito tolerantes s vezes, mas era brilhante e perceptivo. Ainda tinha cimes de 
Samantha, e atribuamos alguns dos seus actos a rivalidade entre irmos e ao facto de ele ser quase, ou 
talvez fosse mesmo, um gnio. Nicky era apenas Nicky. Como  que se poderia descrev-lo? No havia 
certamente ningum como ele. Nem no meu mundo, nem no de muitas outras pessoas.Mesmo quando 
fugiu, Nicky fez-me rir, embora no exacto momento em que isso aconteceu eu no tenha achado piada 
nenhuma.
Pedira-lhe para trocar de sapatos para um evento familiar qualquer, e Nick recusou-se a faz-lo. Naquela 
altura, dava-lhe um prazer tremendo em ser oposio, e uma das melhores maneiras de o ser era com a 
roupa. Nunca queria vestir-se apropriadamente para qualquer ocasio; no entanto, quando finalmente o 
convencia, ficava soberbo. Mas faz-lo vestir de maneira adequada para a escola era uma batalha de 
propores olmpicas. Era sempre uma guerra todas as manhs quando discutamos por causa duma 
camisa, dum par de calas, do cabelo, dos sapatos, e ele insistia em vestir uma coisa totalmente 
inadequada, s vezes, penso eu, apenas para me ver reagir. O comportamento em si no era invulgar, mas 
o grau era. Acabava, naturalmente, por aparecer com um aspecto anglico e impecvel, e ningum teria 
imaginado a agonia que fora para o conseguir.
Somos uma famlia bastante conservadora. Quando Nicky era mais pequeno, eu adorava vestir as crianas 
com roupas bonitas, as crianas mais velhas sempre tiveram um aspecto bastante arranjado, e o meu 
marido era ento um homem extremamente conservador e elegantemente vestido. Do que Nick gostava 
mais era de nos chocar. Eu tentava manter o sentido de humor e a racionalidade, enquanto lhe dava espao 
para ser ele prprio, mas s vezes experimentava-me a tal ponto que tinha de lhe gritar para o pr na linha, 
e ento vestia-se sem qualquer problema. Era mais do que pr-me a prova, mas naturalmente no valia a 
pena apanhar uma lcera por isso. A maior parte das vezes, era a minha perspectiva que prevalecia, mas 
procurava manter-me firme. Sentia que ele, como toda a gente no conforto do nosso pequeno mundo, 
devia conformar-se com certos padres. Nick no era dessa opinio.
Assim, no dia em questo, o dia da famosa fuga, ele devia vestir um blazer, calas de flanela cinzentas, 
uma gravata e sapatos decentes para ir a uma festa familiar. Apareceu com uma vestimenta extravagante e 
tnis coados. A minha me e a minha madrasta estavam de visita, no consigo recordar qual era a 
ocasio, mas amos a um dos eventos familiares solenes que tanto o aborreciam. Pouco a pouco, pea a 
pea, discutimos toda a sua vestimenta. Concordou com tudo, libertou-se de todas as inadequadas peas de 
roupa como se fossem refns, de m vontade, mas f-lo.  excepo dos sapatos. No os queria mudar. E 
confesso que gritei com ele finalmente. Levava-me a isso s vezes, embora nunca lhe levantasse a mo, 
nem ele a mim ou a outra pessoa qualquer. Nick no era violento, mas refilo. Bastante! E quando queria, 
extremamente insultuoso. Conseguia irritar um adulto mais depressa do que qualquer mido que eu 
alguma vez vira, e geralmente punha os adultos lavados em lgrimas com a sua lngua afiada e a 
capacidade para a usar.
A questo dos sapatos manteve-se. No iria calar outros. E eu no iria ceder desta vez. Atrasou toda a 
gente, como muitas vezes fazia. Sentia que estavam todos a olhar para mim de soslaio, com o habitual ar 
acusatrio, como que perguntando: "No consegues fazer nada dele?" O facto era que conseguia, s 
vezes, mas s se Nick estivesse receptivo a isso. Caso contrrio, no tinha sorte nenhuma. Podamos ceder 
de boa vontade ou passar os dois dias seguintes a discutir com ele. Nick no cedia em nada facilmente ou 
de boa vontade, a menos que quisesse, e, se queria, fazia-nos pagar por isso, com uma atitude e uma 
veemncia que nos levava a desejar, em primeiro lugar, nunca termos entrado na disputa.
Subi ao seu quarto para ver se ele trocara de sapatos, mas tinha desaparecido. E, instantaneamente, senti 
que desta vez havia algo de diferente. No sei como soube, mas soube. Nick fugira, mas o engraado era 
que calara uns sapatos decentes para o fazer. Os tnis coados tinham sido deixados no meio do quarto 
como uma mensagem. Ele fizera efectivamente aquilo que ns queramos que ele fizesse, mas ia mostrar-
nos. Retribuio.
Procurmo-lo por todo o lado, enquanto eu entrava em pnico. Ele era, afinal de contas, um mido de 
onze anos, e devido  minha fama, ento, as crianas no podiam ir a lado nenhum sozinhas. No fazia a 
menor ideia de onde o procurar, mas espalhmo-nos e batemos as redondezas  procura dele. Telefonei 
para o 911 e comuniquei o seu desaparecimento. Um simptico polcia veio at minha casa com bastante 
rapidez, enquanto eu retorcia as mos e chorava, sentindo-me naturalmente culpada de ter feito uma 
tempestade por causa de um par de tnis. Ento, e s Deus sabe porqu, olhei pela janela.
Vivamos defronte de um parque que tinha quase a rea de quatro quarteires, e a, do outro lado da rua, 
estava Nick, sentado, com um pequeno saco castanho, a comer donuts e Hostess Twinkies. Estava com um 
ar bastante despreocupado, levemente divertido, e encontrava-se elegantemente vestido, no s de camisa, 
gravata, blazer e sapatos decentes, mas tambm envergava o seu extravagante impermevel, pois estava 
frio. Parecia um pequeno banqueiro ou advogado, sentado no parque a almoar, acabado de sair do 
escritrio. Mais tarde, ri-me disso, mas na altura fiquei lvida. Estvamos todos aflitos, tnhamos corrido 
todos os lugares durante uma hora. A minha me estava horrorizada com o pouco controlo que eu tinha 
sobre os meus filhos e no hesitou em dizer-me isso. "Isto acontece sempre? Com que frequncia  que 
ele faz isto? Devias p-lo num reformatrio." Obrigada, mam. A minha me  da velha escola e bastante 
severa. Pelo menos, achava que as crianas deviam ser vistas e no ouvidas e comportarem-se da maneira 
que costumavam, ou da maneira que eu queria que elas se comportassem. Mas, com o tempo, tal como fez 
com todos ns, Nick ensinou-lhe que as coisas com ele eram diferentes, e ela apaixonou-se pelas loucas 
cores do cabelo, as roupas rebeldes e at pelo brinco no nariz, porque sabia quem estava por trs. Era 
difcil resistir-lhe.
Fui ter com o meu pequeno renegado, acompanhada pelo polcia, que lhe deu um valente responso e 
ameaou lev-lo para um reformatrio como fugitivo. Nicky levantou os olhos para ele com ar inocente, 
ps-se de p respeitosamente, pediu desculpa, apertou-lhe a mo e ofereceu-lhe um donut. Quem  que 
podia resistir-lhe? Agradeceu ao polcia, parecendo bastante calmo, levmo-lo para casa e demos-lhe o 
sermo. Tinha-nos pregado um enorme susto. Finalmente, horas depois, todos ns, com os cabelos em 
desalinho e ar desalentado, enquanto Nick aparentava um ar calmo, frio, muito senhor de si e 
perfeitamente vestido, samos para a nossa festa familiar. Foi uma das nicas duas vezes que ele fugiu, e a 
outra foi muito mais sria que esta. Fugir no era uma coisa que Nicky fizesse. Mantinha a sua posio, e 
ficava perto de casa. Os laos do nosso amor por ele, e o dele por ns, mantinham-no sempre perto.


STIMO ANO:
EM LENTO DECLNIO

Como se pode ver agora, algumas coisas que Nick fazia eram invulgares, mas nenhuma delas era to 
extrema que se pudesse apontar um dedo e dizer "Ah! H um problema grave com este rapaz!", e depois 
diagnostic-lo. Algumas das suas travessuras eram de facto muito engraadas, outras no tanto. Notava-se 
algumas vezes uma certa rudeza nele que me deixava profundamente perturbada, mas mesmo isso era algo 
que se poderia explicar em virtude da sua idade, e certamente outros apressar-se-iam a dizer que o choque 
de ficar com cinco novos irmos noutros tantos anos, ou a minha crescente fama eram situaes que se lhe 
tornaram difceis de tolerar. Talvez me incline mais para a primeira.
Eu tinha o cuidado de manter a minha carreira afastada das crianas, todas as minhas actividades dirias 
estavam centradas  volta delas, e a escrita era algo que fazia  noite, e raramente discutia com algum. 
No dava entrevistas nem fazia viagens publicitrias. Era uma me perfeitamente normal, e era assim que 
queria ser e assim me mantive. No havia qualquer dvida de que deixar de ser o beb, a estrela, o foco de 
toda a ateno, para ser o quarto num grupo de nove, era desgastante para ele. Ainda detestava Sam nessa 
altura, e exprimia isso alto e bom som. Ela tinha ento oito anos, ele doze, e eu estava bastante preocupada 
com o dano que ele provocava  auto-estima dela. Ele estava constantemente a critic-la, e s vezes com 
bastante crueldade. Era uma tarefa extremamente difcil proteg-la da manifesta rudeza da parte dele. Era 
uma das muitas coisas que me preocupava profundamente. Mais por Samantha do que por Nicky. 
Todavia, talvez devido  sbita e radical mudana de atitude relativamente a ela e por a adorar tanto, ela 
parece ter escapado inclume. Porm, o stimo ano foi o incio de uma longa, ao princpio lenta, espiral 
descendente para Nicky. Pela primeira vez na sua vida, comeou a dar nas vistas na escola. E, acreditem, 
eles repararam nisso. A criana sobre a qual eu andara discretamente a obter informaes durante cerca de 
sete anos na mesma escola, e at no infantrio antes  disso, a criana que eu acabava por lhes sugerir 
abertamente que no era "normal" - e que me tinham asseverado ser maravilhosa -,  subitamente comeou 
a ser uma grande dor de cabea para eles.
Comecei a receber telefonemas da escola e, no stimo ano, Nick ensinou-me uma nova arte, em que iria 
especializar-me durante os restantes anos de escola. A da bajulao. Acrescentei-a ao meu repertrio de 
proezas e virtudes maternais. Inventava qualquer coisa para manter Nick na escola, e depois esperava que 
ele mudasse. Mas os telefonemas tornaram-se mais frequentes. Era "respondo" e faltava abertamente ao 
respeito aos professores. No fazia o trabalho regularmente e permitia-se liberdades de comportamento e 
atitude que eles viam com desagrado. Nick j no estava a "encaixar-se bem", e eles j no o achavam 
adorvel, inteligente ou engraado. De repente, passaram a responsabilidade para mim e comearam a 
referir que o seu comportamento era inaceitvel e muito "diferente". No era novidade para mim, mas 
pareciam estar alarmados e escandalizados, e esperavam que eu o mudasse, e que desse conta do 
descontentamento deles a Nicky. Nick achou isso extraordinariamente divertido. Nada o assustava.
A nica coisa que o impressionou foi quando o ameaaram de no participar no concurso de playback 
desse ano, o que o deixou em pnico e o acalmou durante uns tempos, at ao concurso. Mas, mais que 
tudo, eu estava ciente de que ele andava fora dos eixos na sua vida escolar. Estava a comear a ultrapassar 
os limites do quadro que eles pintavam.
E o que piorou ainda mais as coisas para ele foi o facto de haver um novo director na escola que, 
compreensivelmente, no queria que Nick arranjasse problemas. Atormentar os professores parecia ser o 
divertimento predilecto de Nick, e no demonstrava nenhum interesse em fazer qualquer concesso ao 
director. Tentei explicar-lhe que ali quem tinha de brilhar era o director, no ele. "A casa, as regras e os 
berlindes eram dele", e o director no era obrigado a atur-lo se no quisesse. Mas tal como acontecia com 
outras coisas, prprias da sua idade e da sua maneira de ser, Nick achava que era invencvel. Como disse 
acerca de si, num dos seus dirios, um registo que escreveu mais tarde: "Eu achava-me fascinante. 
Julgava-me capaz de tudo porque era especial." Escreveu isto quando tinha doze anos e andava no stimo 
ano. E era especial. Para mim, certamente que era, mas no necessariamente para os de fora, e Nick 
parecia no compreender isso. O director da escola chamava-me uma vez por semana, ou uma semana ou 
outra, mas sentia que, sempre que aparecia na escola, estavam  espera que eu apresentasse desculpas por 
ele, o que eu fazia, embora no possa dizer que era uma coisa que francamente me desse muito prazer. 
Eles tambm estavam  espera que eu mudasse o seu comportamento, o que, por mais tentativas que 
fizesse, no conseguia.
Tentei explicar-lhes que Nick era diferente, que no era um mido normal, com ideias e comportamentos 
normais. Mesmo na minha prpria famlia, ele no se encaixava nas normas ou nas regras em que todos 
ns vivamos. Nick era inegavelmente diferente, e as regras que eu estabelecera to uniformemente aos 
seus trs irmos mais velhos eram praticamente impossveis de aplicar a Nicky. Ele no se conformava 
com elas e, mais importante ainda, eu comeava a suspeitar que ele no conseguia. Ele era diferente e 
especial.
A escola recomendou um novo mdico, ao qual fomos imediatamente, e que tratou logo de investigar os 
motivos de Nick agir da maneira que agia. O mdico dirigiu a ateno para ns e para a famlia, mas os 
sinais evidentes da doena de Nick ainda no se tinham manifestado. Acho que era ainda muito cedo para 
a diagnosticar.
Nick era como um cigarro aceso atirado para a erva seca na orla de uma floresta estival. Era um fogo 
florestal  espera de ser visto, e, enquanto as chamas comeavam a devor-lo, nenhum de ns o conseguia 
ainda ver.
As coisas comearam a ficar seriamente perigosas para Nick nesse ano. Comeou a experimentar drogas. 
Outros experimentaram-nas na mesma idade, e conseguiram sair, mas, como em tudo o que fazia, Nick 
meteu-se nelas com uma certa paixo manaca. Bebia um pouco e fumava marijuana, e juntamente com 
um grupo de amigos, em finais do ano lectivo, experimentou cido (LSD). Isso ter-me-ia aterrorizado, 
tivesse eu sabido. Contou-me vrios meses mais tarde. Nick era geralmente bastante franco, e mesmo 
quando no contava as coisas voluntariamente, se eu prpria as descobria e o questionava acerca delas, ele 
prontificava-se quase sempre a contlas. Mas, quando isso aconteceu, no fazia ideia do que ele andava a 
fazer. S descobri mais tarde, quando me contou.
Tambm penso que ele se tornou sexualmente activo no stimo ano, e andava com raparigas um pouco 
mais velhas que ele, pois achava que isso lhe permitiria ir um pouco mais longe com elas. E a julgar pelas 
longas listas de nomes nos seus dirios, as vrias classificaes que lhes atribua, e as coisas que dizia que 
elas faziam com ele, a serem verdade, no se enganava a esse respeito.
Dispus-me a abordar frontalmente essa questo com ele. Fiz-lhe vrias palestras acerca da importncia de 
se ser responsvel, de no se magoar os sentimentos das pessoas, de no se ser fortuito no sexo e s se 
dormir com pessoas de quem se goste, o que,  preciso que se diga, fez-me sentir melhor, mas Nicky deve 
ter rido a bandeiras despregadas com as minhas noes romnticas. Era um jovem apanhado em plena 
exploso hormonal, e que gostava de desfrutar de tudo aquilo que pudesse levar. Mas, pelo menos, foi 
delicado enquanto me escutava e foi condescendente comigo. Tambm estabeleci a regra na nossa 
farmcia de que ele poderia comprar medicamentos profilcticos sempre que quisesse, mas nada mais. E 
se ele fizesse isso, prometia no lhe fazer perguntas, e no fazia mesmo. Praticarsexo seguro parecia-me 
mais importante do que criv-lo de perguntas,e ele acatou a mensagem e passou a usar preservativos.O 
stimo ano foi assim o advento do sexo e das drogas, e a portapara o perigo comeou a abrir-se. Era um 
rapaz bonito, admirado por todos, tanto pela sua propenso a ser provocador, correr riscos e comportar-se 
da forma que queria, como pela sua beleza e charme.Nick era o rapaz com que toda a gente queria 
parecer-se ou, pelo menos, estar. Nesse ano, foi convidado para ser modelo.Trabalhou um pouco como 
modelo, e o sucesso no lhe subiu  cabea. Penso que ele achava a actividade chata, e comeou a pensar 
em fazer representao. Foi a algumas entrevistas em Los Angeles, a que o meu marido o levou, e ficaram 
apaixonados por ele nas audies, mas as  minhas determinaes eram firmes. Ele s poderia ir para Los 
Angeles para actuar durante as frias da escola ou aos fins-de- semana, o que fazia com que fosse muito 
difcil para eles utilizarem-no. E ficou furioso comigo por isso. Esteve numa dessas audies prximo do 
final do ano lectivo, a fazer testes para um papel num espectculo de televiso previsto para esse  Vero. E 
estava ainda no avio, de regresso de Los Angeles, acompanhado de John, quando aconteceu uma tragdia 
terrvel. Um grupo de amigos seus fora a uma festa a casa de um amigo. Entre eles, encontrava-se todo o 
grupo de melhores amigos de Nick, os rapazes com quem  andava na escola e as raparigas de quem 
gostava mais. As festas mistas comearam nesse ano, e entre as raparigas estava uma  pequena 
deslumbrante com quem andara no infantrio e de quem era ntimo. Era a sua amiga mais chegada, e no 
primeiro ano escrevera para um projecto da escola: "Quero casar com a minha na  morada quando for 
grande. Trabalharemos juntos como actriz e cantor." O  que ele escreveu encontra-se ainda emoldurado na 
parede do meu escritrio, onde tem estado desde que o escreveu. Chamava-se Sarah, e era uma beleza. J 
no eram "namorada e namorado" na altura, mas  grandes amigos na verdadeira acepo da palavra, e 
confidentes. Telefonavam-se todos os dias e todas as noites, falando de  quem gostava de quem, 
arranjando namoros para os amigos e entregando-se a pequenas intrigas e romances que eram prprios da 
sua idade. Ao que parece, o grupo chegara  festa um pouco cedo de mais. "No estava l ningum", 
explicou Nick mais tarde, por aquilo que os amigos lhe contaram, o que significava que o pessoal "fixe" 
ainda l no estava. Por isso, resolveram atravessar a rua, ir at  marina, e ficar por l um bocado e depois 
voltar para a festa. Era uma prtica, pelo menos pelas minhas regras, que estava estritamente proibida. 
No se ia a lado nenhum desde que se estivesse numa festa, no se saa para lado nenhum, e nunca 
deixava os midos sair quando vinham a minha  casa. No queria ser responsvel por aquilo que lhes 
acontecesse quando no podia estar a v-los, e esta poltica era sobretudo para  o bem deles. Fosse por que 
razo fosse, o grupo "fixe" de amigos de Nick saiu da  festa.
Os midos atravessaram Marina Boulevard, que  uma rua larga e perigosa que,  neste caso, ao pr do Sol, 
conduzia veculos a grande velocidade para a Ponte  Golden Gate. Lembro-me de passar por l a vrias 
horas do dia, sendo o pr do  Sol uma delas, o sol a bater-nos nos olhos de tal maneira que  impossvel 
ver  qualquer perigo que venha na nossa direco. Talvez isso tenha acontecido ao  condutor que atingiu 
Sarah. Nunca ouvi os pormenores precisos do impacte, e  tambm no aguentaria ouvi-los.
O grupo, ao que parece, partiu-se em dois, com metade deles a atravessar na  passadeira, como lhes 
tinham ensinado desde que eram crianas pequenas, e a  outra metade a preferir no o fazer. Sarah estava 
entre estes ltimos, com os  seus longos cabelos louros a esvoaar, os enormes olhos, o rosto angelical, as  
pernas longas e graciosas em toda a beleza dos seus treze anos. A viso do  condutor foi supostamente 
ofuscada por um camio que passava, e os midos devem  ter aparecido, como um bando de pssaros, a 
atravessar inesperada e  perigosamente a rua. Uma das outras raparigas foi apanhada de raspo pelo carro 
que atingiu Sarah em cheio e a projectou por cima do pra-brisas. Os pormenores do resultado so tudo 
menos agradveis.
Sarah ficou internada no hospital com um grave traumatismo craniano e vrios ferimentos, durante uma 
semana. Todos aqueles que a conheciam ficaram perplexos e destroados. Foi uma tragdia que tocou toda 
a gente profundamente, e nenhum dos midos sabia como lidar com a situao. Para muitos foi um 
choque, do qual nunca mais recuperariam completamente. E Nick encontrava-se entre eles. Estava menos 
preparado do que os outros para lidar com a situao e, durante anos, rodeou-se de fotografias e coisas que 
ela lhe oferecera. Sonhava com ela, pensava nela, escrevia para e sobre ela, estava obcecado por ela. Deve 
haver pelo menos cinquenta registos angustiantes e pungentes sobre ela nos seus dirios, at ao perodo da 
escola secundria. Nunca a esqueceu, e nunca ultrapassou a perda dela. Era a sua melhor amiga e amava-a 
com toda a paixo e devoo da infncia.
Ele soube da notcia na manh seguinte, quando o levei a jogar basebol. Primeiro, dei um certo desconto, 
pois pensei que fosse um daqueles exagerados rumores que os midos passam de boca em boca e que 
aumentam de propores de cada vez que so contados. No consegui acreditar, as coisas assim to 
terrveis no aconteciam. Mas aconteciam. Abandonmos o jogo, e Nick insistiu em ir ao hospital, apesar 
das minhas reservas. Ela estava em coma, desde a noite anterior, os longos cabelos louros tinham sido 
cortados, e eu no queria que ele a visse assim. Sentia que estava demasiado fragilizado para enfrentar a 
situao, e quis proteg-lo. Durante a semana seguinte, ele manteve-se junto dela, e no consegui afast-lo 
de l. Tal como ele, os outros midos juntavam-se no hospital,  espera de um milagre que nunca chegou. 
Uma semana depois de ter sofrido o acidente, Sarah faleceu, e foi provavelmente o acontecimento mais 
devastador na vida de Nicky. O tempo parecia ter parado para ele e para os outros. Acho que qualquer 
deles s recuperou ao fim de muito tempo. Perder Sarah atirou Nick para uma espiral de depresso e, nos 
seus dirios, ele falava constantemente em querer morrer e em estar com Sarah.
Tal como os midos, tambm eu no consegui digerir a injustia que aquela morte. Era injusto, e um 
choque terrvel e cruel para os pais. E um daqueles mistrios que no se consegue resolver, para o qual 
no se encontram respostas, apenas se tem de aceit-lo e continuar em frente. Mas no foi tarefa fcil para 
Nicky Ainda h fotografias dela no quarto dele. E talvez haja agora uma pequena consolao ao 
pensarmos que ele a encontrou. Imagino-os a correr livres de novo, juntos, a incrvel beleza de ambos a 
deslumbrar toda a gente no Cu. Ela era uma criana de ouro e, tal como Nick sentiu durante o resto da 
sua vida, tambm eu ainda sinto a falta dela.

OITAVO ANO:
O INCIO DO DESASTRE

Os Veres eram sempre difceis para Nick. Tnhamos uma casa no vale de Napa, onde passvamos o 
Vero inteiro com as crianas. Mas Nick precisava mais do que aquilo. Era aborrecido para ele. De facto, 
costumvamos brincar com isso s vezes, porque eu tambm no gostava. Como Nick disse bastante mais 
tarde, tnhamos muito em comum: odivamos insectos, p e natureza. Tal como Nick, eu achava Napa 
incrivelmente aborrecida. Mas, mesmo no conseguindo escapar-lhe, porque John adorava-a muito, tentei 
encontrar outras opes para Nicky.
Experimentmos trs colnias de frias, em anos diferentes, e, como um dos directores da colnia disse, 
aquilo era mais uma aventura para mim do que para ele. Como de costume, mantinha-me ocupada. Dirigiu 
as suas capacidades ficcionais para as cartas que escrevia para casa, contando-me histrias horripilantes de 
acidentes, abuso, tormento e tortura. Eu estava ao telefone de cinco em cinco minutos, para indagar da 
veracidade das histrias e para me certificar do bem-estar dele. Ele apavorava-me. Tambm detestava a 
colnia e achava que aquilo era a melhor maneira de me convencer a no o mandar de novo, at que 
finalmente me convenceu.
No entanto, da mesma forma que detestava a colnia, adorava o Havai. Era um paraso para ele. 
Costumvamos ficar numa luxuosa estncia balnear, que no s era divertida para ns como era um 
refgio para as crianas de todas as idades. At os nossos filhos mais velhos adoravam, e ainda adoram. 
Ns continuamos a ir para l, e todos adoramos, tal como Nicky adorava. Mas apresentava desafios e 
perigos para ele que no apresentava para os outros. Um dos primeiros sinais da doena de Nick, que 
piorou consideravelmente com o passar dos anos e que s era controlada a custo pela medicao, mais 
tarde, era a sua falta de controlo dos impulsos.  tpico, sei agora, do "distrbio de dfice de ateno". Se 
lhe vinha alguma ideia  cabea, punha-a em prtica de imediato, para gozo dos seus amigos, e para nosso 
horror. Se a bandeira da praia estava vermelha (indicando mars perigosas) e lhe apetecia nadar, nadava, 
sem se preocupar com o potencial perigo. Se lhe apetecia fazer equilibrismo na borda da varanda, achava 
uma boa ideia, e fazia. E o Havai oferecia-lhe uma mirade de oportunidades para tentar proezas 
audaciosas e conhecer novas pessoas. Apesar da nossa constante vigilncia, fumava marijuana, 
embebedava-se com os amigos e percorria a praia incessantemente  procura de mulheres.
Apesar das minhas queixas e do constante controlo, aos doze e treze anos queria andar com os de 
dezassete e dezoito, e mentalmente tinha mais em comum com eles do que com os da sua idade. Aos onze 
anos, os seus amigos, l, tinham dezasseis. Entre os treze e os dezanove, saa com raparigas na casa dos 
vinte, e s vezes at com as mes dos seus amigos. E muito para meu desgosto, achavam-no sedutor e 
divertido. Era to encantador, to inteligente, to cheio de graa, com tanta vontade de viver no limite, e 
ao mesmo tempo to afvel e to amoroso... Que mulher  que conseguia resistir-lhe? Poucas, pelo que me 
era dado observar. Se  que alguma.
Tentei andar de olho em cima dele, especialmente no Havai, mas no era tarefa fcil, e toda a famlia o 
controlava, o vigiava, e ocasionalmente arranjava desculpas para ele. Certa noite, quando fui a um 
cocktail, a me de uma rapariga de dezanove anos disse-me que era "uma pena aquilo que acontecera ao 
Nicky". Disse isso com um ar to terno que fiquei logo desconfiada. Ele tinha ento doze anos, e eu sabia 
que ele andara a rondar a sua filha de dezanove anos, que ficava sensacional de biquni. "Pena?", 
perguntei eu com ar inocente,  espera do que viria a seguir. Conhecendo Nick, sabia que no seria coisa 
boa. E, como de costume, no me desapontou.
"A doena." Fiz um silencioso sinal afirmativo com a cabea, mastigando com ar inocente os acepipes, 
perguntando-me se ele lhes contara que tinha leucemia e que tinha de deixar descendncia antes de morrer 
na manh seguinte... era a nica coisa que o salvaria. Era extremamente criativo, especialmente quando  
caa de favores sexuais. "Os seus problemas glandulares ... ", prosseguiu a mulher, enquanto eu 
continuava a dizer que sim com a cabea. Tenho de admitir que s vezes me divertia com as suas 
palhaadas. Era mesmo engraado.
"Oh, os seus problemas glandulares", concordei, curiosa por saber com que  que ele viera desta vez. 
"Sim,  isso. Preocupamo-nos bastante com ele." No era mentira nenhuma, mas as suas glndulas eram o 
que menos me preocupava. "Explicou-nos como a doena retardou o crescimento quando tinha doze anos. 
Mas  um rapaz to maravilhoso e to bem-parecido. No parece ter vinte e um anos, mas, logo que 
falamos com ele, apercebemo-nos da sua idade. Que filho extraordinrio a senhora tem; deve ter muito 
orgulho nele." Ahhh... sssim... de facto. inte e um. Boa, Nick. Discuti isso com ele quando voltei  sala, e 
disse-lhe que ele desta vez estava a ir longe de mais. Vinte e um? Tem d, Nick.
"V l, mam", disse ele, mais com ar de cinco anos do que de doze, e muito menos de vinte e um, por 
mais entusiasmado que estivesse pela moa de dezanove anos, de biquni. "Seja boazinha, no lhes diga." 
Fiz um acordo com ele de no o desmascarar desde que ele no se excedesse. Eu cumpri a minha parte do 
acordo, mas no sei se ele cumpriu a dele. Chegou-lhes a dizer em que universidade  que andava. Mas, 
conhecendo Nick como eu conhecia, ele era bem capaz de lhes dizer que estava em Harvard. Oh, Nicky!
Nick passou para o oitavo ano calmamente. Andava triste. Todos andavam. Por causa de Sarah. Em 
Setembro, quatro meses depois da sua morte, nenhum deles pareceu ter recuperado. E o ano no lhe corria 
muito bem. Parecia andar deprimido. Nick falava de Sarah constantemente. E mesmo os outros pareciam 
mais tristes do que de costume. No pareciam saber como controlar a dor ou a perda que sentiam to 
profundamente. Nick continuava a ir ao mesmo mdico, mas nada de dramtico surgira. Os sinais 
evidentes da sua psicose manaco-depressiva ainda estavam a aguardar nos bastidores. Embora eu saiba, 
desde a, que as hormonas da adolescncia podem comear a trazer  luz os primeiros sinais de doena 
mental.
Porm, o que me preocupava era que nada estava efectivamente:, a ajudar Nicky, e eu no sabia como 
ajud-lo. As coisas na escola no lhe corriam bem, os telefonemas a queixarem-se da sua atitude, do seu 
comportamento e da sua falta de seriedade no trabalho eram cada vez mais frequentes. Estava 
constantemente a ser vigiado, e o director comeara a amea-lo com a expulso se no se emendasse. Eu 
estava farta e sentia-me impotente. Tive incessantes conversas com Nicky, at enjoar, para bem dos dois, 
mas eu no tinha as ferramentas nem a percia de que precisava para o ajudar.
As festas do oitavo ano foram mais desregradas nesse ano. Muitos dos rapazes pareciam estar 
descontrolados, e as raparigas que tinham sido colegas de Sarah ainda choravam a sua morte.
Nick estava apaixonado por uma das melhores amigas de Sarah na altura, e falavam constantemente dela. 
Tal como Nick, Sarah era uma daquelas moas que tocavam as pessoas profundamente, e de quem todos 
ainda falavam. A sua perda era uma ferida que ainda no sarara, e era fcil de ver que os melhores amigos 
dela ainda estavam com problemas em lidar com a situao.
De acordo com os seus dirios, Nick continuava a consumir marijuana e a beber, aos treze anos, e, quando 
descobri por acaso, no fiquei nada contente com isso. Senti-me extremamente perturbada. Era esperto 
suficiente para nunca me deixar apanh-lo; porm, quando ouvi certas coisas, fui direitinha ter com ele e 
armei uma discusso dos diabos. Ele foi franco comigo, o que nalgumas ocasies piorava as coisas, 
noutras melhorava.
Os registos nos dirios, durante todo esse Inverno, foram inquietantes. Tivesse-os eu visto e estou certa de 
que entraria em pnico, mas no me apercebi da extenso da sua depresso, embora soubesse a tristeza 
que ele sentia por Sarah.
Comeou a isolar-se, a ficar no quarto o tempo todo, a evitar a famlia, o que nunca  bom sinal. Mas era 
cada vez mais difcil faz-lo agir de outra forma, e estava em plena revolta dos treze anos. Eu tornara-me 
sua inimiga, pelo menos durante parte do tempo, embora me ficasse grato quando eu ia  escola defend-
lo. Era sempre meigo quando me agradecia por isso, mas estava constantemente metido em sarilhos, as 
notas estavam a baixar, e encontrava-se a meio caminho da entrada para a escola secundria.
Nick continuava laboriosamente a escrever dirios, mas, no meu af de respeitar a sua privacidade, nunca 
os li. Ao l-los agora, ele fala de estar s, triste, assustado e envergonhado s vezes. Nas suas prprias 
palavras, diz: "Estou sempre deprimido... Estou sempre s... Sinto que no perteno a lado nenhum. Sou 
um solitrio, em grupos de pessoas, sinto que no me encaixo. Sinto-me muito triste." Fala de se sentir 
extremamente infeliz, isolado, de ter a auto-estima por baixo. Censura-se, com treze anos, por ser 
egocntrico, e  muito duro consigo prprio. E depois diz: "Custa-me amar outras pessoas." E repete sem 
cessar: "Sinto saudades da Sarah... Ela era minha melhor amiga... Amo-a tanto que no quero viver sem 
ela."
Em Janeiro de 1992, com treze anos, escreveu:
"No vejo que outra coisa  que o futuro me pode reservar seno sofrimento. Sinto muitas saudades da 
Sarah. O propsito da vida para mim acabou. Estou a pensar em suicidar-me."  a primeira referncia a 
suicdio nestes dirios. Sinto o corao estremecer ao ler isto.
Em Fevereiro, escreveu novamente: "S me apetece acabar com tudo." Fala em ter saudades de Sarah e de 
estar "morto de preocupao". Comeou ento a escrever cartas a Sarah, nos seus dirios, contando-lhe 
como estava s e infeliz. No final, escrevia: "Reserva um lugar para mim. Vou ter contigo muito em 
breve." Dizia que j tentara uma vez o suicdio, com sonferos, o que pode no ter passado de conversa. Se 
o tivesse tentado, eu teria sabido.
Contudo, duas semanas mais tarde, ele escreve que tentou matar-se com um saco de lixo atado na cabea, 
depois mudou de ideias e tirou-o. E os registos acerca de Sarah continuam.
Em finais de Fevereiro de 1992 (ainda com treze anos), escreve: "Quem me dera morrer, e tudo se 
acabaria. Amo a vida e toda a gente menos a mim."
Em Maro, escreve que est a ponderar de novo a hiptese de se suicidar e, novamente em Abril, diz: 
"Vou suicidar-me muito em breve", e depois fica extremamente introspectivo. "Estou muito deprimido. 
Talvez seja manaco-depressivo. Estou-me nas tintas para a vida. Todos me detestam, e eu detesto toda a 
gente."
Foi obviamente uma poca de pesadelo para ele, e, embora eu estivesse ciente de que ele estava 
profundamente infeliz e a afastar-se de ns, no sabia a profundeza do seu desespero, nem sabia como 
par-lo. Quando falei ao mdico da desesperada infelicidade em que eu achava que Nick se encontrava, 
pareceu-me no ficar to preocupado como eu estava, ou talvez no o demonstrasse. Parecia estar mais 
interessado em falar do meu trabalho, da minha fama e dos meus outros filhos. Eu sentia que Nick estava 
em crise, e mais ningum parecia ver isso.
Nesse Outono, mudramo-nos para uma casa grande, e o quarto de Nick ficava mesmo por cima do meu 
escritrio e do meu quarto. Ouvia-o a deambular  noite, a todas as horas, e eu ia ter com ele. Parecia 
nunca dormir e estava com um ar desesperadamente infeliz. Sentia-me impotente. Sugeri que o mdico 
receitasse alguma medicao a Nick, mas ele no concordou comigo. Nick ainda era jovem para tomar o 
tipo de drogas que eu estava a sugerir. Pensei em mudar de mdicos, mas receava que mudar de mdicos 
de novo no fosse a melhor coisa para ele. E o mdico a que ele ia era extremamente respeitado.
E as coisas tambm no iam muito bem na minha vida. O meu xito atingira finalmente propores tais, 
com o sucesso de alguns filmes de televiso que eu fizera acrescentado ao dos meus livros, que merecera 
finalmente a ateno dos tablides. Iam fazer uma grande reportagem a meu respeito, tinham desenterrado 
tudo aquilo que eu fizera, e uma srie de coisas que no fizera.
Tiveram um trabalho a arranjar algo de sensacional do meu primeiro casamento. Foi um casamento 
calmo e salutar. Estivemos casados quase nove anos, ele era um banqueiro francs e oriundo de 1 uma 
ilustre e respeitvel famlia de banqueiros franceses. A nossa vida fora circunspecta e o divrcio tratado 
com honra. Mas os dois "erros" prprios da juventude que cometi depois disso foram publicitados por 
todo o mundo em grandes parangonas. O primeiro "erro" foi o meu breve segundo casamento com um 
homem com quem vivi apenas alguns meses, quando eu estava na casa dos vinte. Foi condenado por 
violao e mandado para a priso. Foi um choque para mim. Eu era jovem e inocente, e embora tivesse 
contado a John, no era algo com que estivesse contente ou de que me orgulhasse. A experincia fora 
extremamente traumtica para mim. E o facto de ter sido publicada nos tablides para que todos lessem 
trouxe-me lembranas de um perodo angustiante para mim, e os relatos foram exagerados e distorcidos, o 
que tomou as coisas ainda mais humilhantes. A segunda reportagem que eles publicaram foi da minha 
gravidez e subsequente breve casamento com o pai de Nick, mais uma vez apresentada de forma 
sensacionalista. E Nick ficou to perturbado como eu quando a leu.
As reportagens deram de mim uma imagem terrvel, eu e a minha famlia fomos humilhados, o meu 
marido sentiu-se embaraado, embora ele soubesse dos dois casamentos e eu no tivesse segredos para 
ele. Mas foi um perodo que eu achei angustiante, tal como os meus filhos. Apesar da calma vida familiar 
que levava, e que h anos tinha, o preo da celebridade chegara finalmente a casa para nos atormentar. 
Embora algumas das histrias fossem imprecisas, preferi agir com discrio e no dizer nada, apesar de 
estar de corao despedaado por causa do escndalo em que eu me tornara, aos olhos dos amigos, do meu 
marido e dos meus filhos. Dizer que estava destroada pelas reportagens nos tablides era estar a ser 
modesta. Sentia-me quase destruda pela forma como estava a ser retratada e humilhada publicamente 
pelas reportagens e programas televisivos sensacionalistas.
No meio de tudo isto, Bill (o pai de Nick) fora entrevistado nos tablides e aparecera na televiso, a falar 
de mim (tal como fizera o meu segundo marido, ainda na priso). E Nick, que tinha fortes sentimentos de 
lealdade para com aqueles que amava, ficou desesperado para fazer algo para me defender. Perguntou-me 
como  que poderia encontrar Bill para o "repreender" de estar a falar de mim, e eu respondi-lhe que 
francamente no sabia, mas sabia o nome dos pais de Bill. Telefonou-lhes ento para deixar um recado a 
Bill, dizendo-lhes o que pensava dele. A falta de controlo dos impulsos de Nick estava  vista, assim como 
o seu bom corao e a sua compaixo. Sei que ele detestava ver-me destroada como estava nessa altura.
Logo que recebeu o recado de Nick, Bill deve ter-lhe telefonado, embora no saiba ao certo. Sei pelos 
dirios de Nick que se encontraram uma vez por breves instantes, embora no saiba como  que ele 
conseguiu sem eu saber.
Foi um perodo difcil para todos ns, particularmente para Nick, que estava preocupado com os artigos 
dos tablides, porque se referiam a ele, ao julgamento que extinguiu os direitos de paternidade de Bill e 
determinou a sua adopo por John. Aos treze anos, Nick continuava a no querer que os irmos mais 
novos soubessem que John no era o seu pai natural. De facto, ns ajustmos a nossa data de casamento 
quando discutimos o assunto, para satisfazer os desejos de Nick e o "legalizar". Quando John o adoptou, o 
Estado passou-lhe uma nova certido de nascimento, no a nosso pedido, mas como eles sempre fazem, 
com John referido como pai, dando a impresso de estarmos juntos na altura do nascimento de Nick. Mas 
tambm originava uma situao caricata para ele, pois a data do nosso casamento foi trs anos depois do 
seu nascimento, o que uma vez mais dava a impresso de ele ser "ilegtimo". Outra coisa que o tribunal 
fez automaticamente, no a nosso pedido, foi selar todo o processo de adopo, para sua prpria 
proteco. Era um procedimento que nos disseram que seguiam sem excepo no estado da Califrnia.
Contudo, no havia nada que pudesse fazer para silenciar os tablides, e apesar das muitas distores e 
crueldades por eles publicadas, incessantemente, meses a fio, recusei-me a process-los. Achei que ao 
process-los pioraria as coisas para todos ns, e preferi sofrer com dignidade e em silncio. Pareceu-me o 
melhor caminho, mas significava que ningum alguma vez saberia a verdade, ou a minha verso dos 
acontecimentos.
Algumas revistas e outros jornais nacionais deitaram ento mais lenha para a fogueira, pegando nos 
artigos j publicados e voltando a public-los, enquanto os tablides continuavam a atormentar-nos. Foi 
um perodo difcil para mim, e Nick andava revoltado com tudo aquilo. O seu sentimento de angstia, tal 
como o nosso, aumentou a sua depresso.
O auge foi atingido em Maio, quando Nick foi a um baile, poucas semanas depois de acabar a escola, e 
presenciou a cena de um rapaz a passar droga a outro. A escola referiu com bastante clareza que Nick no 
participara no incidente, mas fora apenas mero observador, e o baile no era patrocinado pela escola, 
apesar de terem estritas regras de comportamento dentro e fora do campus. Fora uma "conduta imprpria 
de um cavalheiro", etc. Por ver o que se passara, deixando que o facto acontecesse e no o denunciando, e 
tambm porque ele era um espinho para eles h dois anos, expulsaram-no, semanas antes de concluir o 
curso. Fiquei de corao despedaado. Estivera na escola durante nove anos e agora era expulso a to 
pouco tempo do final do curso. Mas estavam no seu direito de o fazer.
Nick ficou em estado de choque e ns ficmos destroados. Isso no podia acontecer. Suplicmos, 
apelmos, fizemos promessas, rebaixmo-nos. No obtivemos qualquer ajuda. No iriam permitir que 
Nick acabasse o ano e o curso. Tinham de respeitar os seus regulamentos e manter os seus padres, e Nick 
compreendia isso. O nico acordo a que conseguimos chegar com eles foi o de lhe arranjarmos 
explicadores e eles darem-lhe o diploma; porm, como sinal da inflexibilidade deles na questo, ele no 
seria autorizado a assistir  cerimnia de entrega dos diplomas. E foi engraado, pois acho que senti mais 
esse choque do que Nicky. Ele era mais filosfico do que eu nessa questo e, apenas para que ficasse 
registado, pedi-lhes que me enviassem uma carta oficial a atestar que Nick fora um mero observador, no 
um participante, no incidente. Vrios rapazes foram expulsos juntamente com ele. Foi um enorme sinal de 
aviso para potenciais malfeitores no futuro.
Assim, Nick ficou em casa, e eu andei numa roda-viva  procura de explicadores, de modo a que ele 
pudesse acabar o ano lectivo. Realizou um bom trabalho, e todos os explicadores ficaram impressionados 
com ele. Recebeu o seu diploma, como prometido, mas no pde assistir  cerinnia de entrega dos 
diplomas, o que me deixou de corao despedaado, j para no falar no dele, depois de nove anos de 
escola. Mas houve maiores consequncias com que tivemos de nos haver. Uma aps outra, as escolas que 
o tinham aceite para o ensino secundrio acabaram por lhe recusar a matrcula. Nick no tinha escola 
secundria para onde ir. Mais rebaixamento, mais splicas. Telefonei a toda a gente que conhecia, para 
todas as direces de todas as escolas de que conseguia lembrar-me, e finalmente descobri um internato 
que estava disposto a aceit-lo. Foi um milagre, e fiquei grata a toda a gente que me ajudou.
Nick parecia mais calmo depois da lio que recebera, mas continuava deprimido, o que era 
compreensvel. Mas gostava da ideia do internato para onde ia mais do que eu. No gosto muito do 
conceito de internatos, e acho que esses anos a meio da adolescncia so os mais importantes para se estar 
em casa no seio da famlia. Eu quero ver o que os meus filhos vo fazer entre os catorze e os dezoito anos 
e ter alguma influncia nas suas decises. Logo que atinjam a idade de irem para a faculdade, espero que 
estejam prontos para entrar no mundo sem mim. Mas antes disso, no interessa as dores de cabea que me 
possam dar, s quero estar perto deles.
No caso de Nick, porm, no tnhamos outra opo. No havia uma nica escola na cidade que estivesse 
disposta a receb-lo. A expulso do oitavo ano no era uma vantagem. A sua nica opo foi o internato 
que descobri. Fiquei-lhes imensamente grata por o terem aceite.
Mandei-o visitar amigos na Alemanha durante duas semanas para o tirar da sua rotina e onde pudesse estar 
com melhor disposio.
Em Agosto, estava tudo preparado para a sua grande aventura. Tal como na maioria dos internatos, 
deixaram-no levar tudo menos o seu alojamento.
Comprmos roupa de cama e mesa, toalhas, uma aparelhagem, um computador, uma bicicleta, um 
frigorfico, posters emoldurados, um quadro de avisos, emalmos as suas bugigangas favoritas para se 
lembrar de casa, e levou, naturalmente, meia dzia de fotografias emolduradas de Sarah. Eu estava a 
comear a achar que iria fazer-lhe bem estar fora. Ele precisava de uma nova vida, um novo impulso e um 
novo meio ambiente. Os quartos dele na nossa casa da cidade e na do campo tinham-se tornado templos 
dedicados a Sarah. E ainda continuava a enfrentar a aura de desgraa, que se abatera sobre ele com a sua 
expulso da escola. Eu estava feliz por ele ir iniciar uma vida nova, e fiquei francamente excitada.
Partimos  hora prevista, alugmos uma furgoneta para levar todos os seus novos pertences e as suas 
coisas de valor, passmos um dia a instal-lo, a pr as coisas em ordem, a fazer a cama, a instalar o 
computador, e deixmo-lo l, com uma grande dose de esperana e um pouco de ansiedade. Ia dar-se bem, 
disse para comigo. Era como outro mido qualquer que ia para a escola, asseverei para as minhas vozes 
interiores. Deixa de te preocupares. Mas como  que poderia no o fazer? Preocupara-me com ele toda a 
sua vida, estivera ao seu lado, rira com ele, chorara por ele, arranjara desculpas para ele. Ao deix-lo, a 
nica coisa em que pensava era nas saudades que iria sentir. Era como deitar a voar um pssaro que 
amramos, que alimentarmos e de que cuidramos. A nica coisa que poderia desejar era que voasse em 
segurana e bem, e que os falces que pairavam sempre sobre ele no o apanhassem.

ELE ENTRA EM COLAPSO

A estada de Nick no internato foi assustadoramente breve, e o que veio logo a seguir foi profundamente 
perturbador. Eu no tinha tido qualquer notcia de problemas l, e dez dias depois de ele ter chegado, com 
a sua caravana de cigano cheia de pertences, telefonaram-me. Foram francos, e tinham razo. Disseram 
que havia algum problema muito srio com ele, e que deix-lo ali era um convite ao desastre. No 
queriam que ele tivesse outra expulso no seu cadastro, mas estavam absolutamente certos de que, se ele 
ficasse, meter-se-ia em apuros. "Ele no  capaz de se manter aqui", disseram. "Precisa de tratamento." 
Eu sabia disso, mas eles eram os primeiros a diz-lo. No sabiam exactamente qual era o problema, mas 
sabiam que era alguma coisa. No conseguia seguir os regulamentos, no era tanto o "no seguir" mas 
mais o "no conseguir seguir", o que tambm no era novidade para mim. No havia malcia nas coisas 
que fazia ou no fazia, s no conseguia acompanhar a msica, e, s vezes, para encobrir esse facto, fingia 
que no queria. Mas eles aperceberam-se disso.
Sentiram que havia algum problema com ele, notaram a sua falta de controlo dos impulsos e as loucuras 
que fazia, e eu sabia to bem quanto eles que tnhamos de fazer alguma coisa. O problema era que no 
sabia o que fazer ou quem poderia ajudar-me. Apesar dos seus esforos, senti que os dois psiquiatras que 
ele consultara no lhe tinham dado grande ajuda, por melhores intenes que tivessem. Ele no estava a 
aproveitar as oportunidades, em especial esta ltima. Eu estava sem saber onde ir a seguir, ou o que fazer. 
Mas era evidente que Nick j no era capaz de funcionar num ambiente normal. J no conseguia agir 
segundo os regulamentos. Estava lentamente a perder a capacidade de se controlar, e eu sabia que tinha de 
lhe refrear o mpeto antes que isso o destrusse.
Telefonei uma vez mais a toda a gente de que me lembrava, consegui o nome de um conselheiro que 
lidava com crianas difceis e recomendava escolas para elas, e solues pouco ortodoxas. Perfeito. 
Exactamente aquilo de que precisvamos. Telefonei-lhe e marquei uma consulta para a manh seguinte. 
Pedi a uma pessoa que me fsse buscar Nick ao aeroporto, com as suas montanhas de coisas, enquanto eu 
fazia os telefonemas. Ele estava sentado, quando entrei na sala de estar, o mais calmamente que consegui, 
para o ver.
Estava determinada a no perder a calma. No servia de nada, e sabia que ele devia estar a sentir-se 
rejeitado por o terem feito sair do internato. A nica coisa que queria fazer era ajud-lo.
Porm, apanhei um choque quando entrei na sala. Ele estava sentado em frente de um canteiro de fetos 
que eu l tinha, e vi de imediato que ele rapara a cabea. A nica coisa que via era o seu rosto, e o sorriso 
largo e envergonhado que ele esboava quando sabia que fizera uma coisa que no devia.
"Fiz merda outra vez, mam", disse ele com ar desamparado, quando me aproximei para o beijar. "No, 
no fizeste nada. No foste expulso. Eles disseram que no era o stio ideal para ti. No terias sido feliz l, 
Nick", disse eu, e apanhei outro susto quando ele se levantou para me abraar. Ele no tinha rapado a 
cabea, os fetos tinham-no camuflado. Quando se ps de p, vi que tinha pintado o cabelo exactamente da 
mesma tonalidade de verde dos fetos. Fez um largo sorriso quando eu reparei. "Gostas?", perguntou num 
tom esperanoso. "Sim, claro. Adoro." E foi o princpio de Nick e das suas cores de cabelo exticas. 
Mudmos do verde para o azul e do azul outra vez para verde, da safira para turquesa e desta para louro, 
para uma mistura flamejante de tons vermelhos e alourados, e finalmente para preto-azeviche, que lhe 
ficava bem e que eu gostava. Eu diria que a seguir  sua paixo pela msica estava a sua obsesso pela cor 
de cabelo. Nunca mais vi a cor de cabelo natural, mas, para vos dizer a verdade, ao fim de pouco tempo, 
habituei-me e j no teria reconhecido a sua cor de cabelo natural se a visse. Mas o verde era certamente 
diferente. (Sou conservadora por natureza, e no sou o gnero de pessoa que acha o cabelo verde 
"engraado". Mas desde h muito que eu aderira  ideia de que os meus padres e os do resto do mundo 
no eram os de Nick.)
Ele estava triste por ter deixado o internato. Conhecera pessoas l de que gostava, fizera alguns amigos, e 
dizia que ia ter saudades. Prometi-lhe uma soluo melhor, e prometi a mim mesma que ia descobrir uma 
escola na cidade. Ele provara que no se dava num internato, e eles no conseguiam dar-se com ele. E, de 
qualquer forma, tnhamos de o ajudar a tratar dos seus problemas, das suas depresses, da sua falta de 
controlo dos impulsos. Eu no sabia ento que ele estivera a pensar em suicdio durante os ltimos nove 
meses, seno teria ficado em pnico. Da forma que as coisas estavam, sentia-me extremamente 
preocupada.
Nick foi bem recebido no seio da famlia, e estavam todos contentes por v-lo. Animou aquela noite, e na 
manh seguinte, bastante cedo (para desgosto de Nick), encontrmo-nos com o conselheiro que prometera 
arranjar uma escola para ele. Nick nunca ficava contente com  encontros matinais. Durante toda a sua 
vida, ele estivera a p at altas horas da noite e tivera problemas em adormecer. E nunca estava no seu 
melhor de manh.
O conselheiro fez duas sugestes, ambas inaceitveis, e Nick e eu ficmos destroados com aquilo que ele 
dizia. Lera o material que eu tinha da antiga escola de Nick e conhecia-o pela sua reputao. (Telefonara a 
alguns amigos que, ao que parece, deram l aulas.) Tambm falara para o internato que Nick acabara de 
deixar e disse sem delongas ou artifcios que nenhuma escola aceitaria Nick. Segundo ele, tnhamos duas 
hipteses. Uma era uma escola no Utali, ou no Nevada, ou no Colorado, ou num stio que era, ou soava, a 
priso para crianas. Era um stio fechado, com as comunicaes com o exterior cortadas, eu no poderia 
visit-lo durante um ano. No havia fuga possvel, nem frias, nem telefonemas, nem contacto com o 
mundo exterior. Nick pareceu ir rebentar num pranto quando o conselheiro lhe disse que eles p-lo-iam na 
linha enquanto o diabo esfregaria um olho e que era disso que ele precisava. Havia uma escola semelhante 
a esta, na Califrnia do Sul, que estava tambm fora de questo, mas ele no a recomendava. A sua 
segunda sugesto era bem conhecida na Europa, onde Nick ficaria durante dois ou quatro anos, e mais 
uma vez encarcerado, embora num local muito mais aprazvel. Estava cheio de filhos de famlias ricas que 
no sabiam o que fazer com os seus filhos problemticos. Assim, mandavam-nos para l para que algum 
tratasse dos problemas deles. Nenhuma das sugestes fazia o meu estilo. Eu no tinha inteno de o 
encarcerar, de me ver livre dele. Queria ajud-lo, em casa, perto de mim, custasse o que custasse.
Assegurei a Nick que isso no iria acontecer-lhe, ele no iria para lado nenhum, e eu mant-lo-ia em casa 
e arranjar-lhe-ia um explicador se fosse necessrio. E disse-o ao conselheiro, que continuava a tentar 
convencer-me daquelas duas opes. Disse-lhe que ele estava a perder tempo e pedi-lhe para meditar de 
novo. Precisvamos de uma escola diurna para Nick, perto de casa, mas asseverou-me de que no seria 
uma coisa fcil. Levaria tempo, disse ele, enquanto eu fazia um gesto de concordncia com a cabea. 
Ao fim de alguns dias, ele apareceu com uma sugesto interessante. Disse que precisava de tempo para 
encontrar uma escola que estivesse disposta a aceitar Nick, mas tinha outra opo para manter Nick 
ocupado, entretanto. Era um programa ao ar livre, baseado no "Rumo ao Exterior", mas especialmente 
destinado a crianas que tinham qualquer tipo de distrbios ou problemas. E, tenho de admitir, fiquei 
intrigada. Tinha algumas reservas e queria ter a certeza de que era seguro, mas ele assegurou-me de que 
conhecia outras crianas que tinham entrado no programa, e achava que era o stio perfeito para pr Nick 
durante trs semanas, para o manter ocupado, e reconstruir a sua auto-estima, enquanto em casa 
procurvamos uma escola para ele e preparvamos tudo para que entrasse nela logo que completasse o 
programa ao ar livre. 
O programa fazia sentido, certamente, e tinha algumas vantagens efectivas; a nica coisa de que no 
gostei foi o facto de ele me confidenciar que o elemento "surpresa" era uma parte essencial do programa. 
Segundo ele, Nick no devia ser avisado nem estar preparado, especialmente porque muitos midos fogem 
quando deparam com uma coisa muito diferente e assustadora. No achava que fosse um medo efectivo, 
pois Nick nunca fugira para lado nenhum, excepto trs anos antes, quando fora sentar-se num banco do 
parque a comer um Hostess Twinkie. No gostava da ideia de surpreender Nick, ou de o assustar. Soava a 
traio. 
Finalmente, o conselheiro convenceu-me, mas eu deveria ter-me informado melhor das coisas. Conhecia o 
meu filho, e raramente, se  que alguma vez, deixava outras pessoas interferirem com a integridade que 
partilhvamos, mas Nick estava inegavelmente com o estado de esprito muito por baixo, sentia-se de 
rastos, e deixei o conselheiro convencer-me de que ele poderia fugir se ns lhe contssemos. O homem do 
programa ao ar livre apareceu, com um ar de carrasco, de madrugada, alguns dias depois. Parecia ter uns 
dois metros quando o mandei entrar na porta principal s seis da manh, descala e de roupo. E parecia 
ter o dobro do tamanho de Nicky. Nicky, tinha ento catorze anos e, se as coisas tivessem corrido bem no 
internato, estaria no primeiro ano do secundrio. Em vez disso, era um rapaz ensonado, de cabelos 
desgrenhados, s seis da manh. (Mandara-o mudar a cor do cabelo de verde para algo que se 
assemelhasse a castanho-claro, a sua cor natural, e, acreditem, no foi fcil. O cabeleireiro que fez a 
mudana ainda fala disso.) Mas, quando vi o rosto de Nick, o corao quase que parou. Estava horrvel. 
Quem era este estranho que estava no seu quarto? Apeteceu-me de repente ir em seu socorro, mas sabia 
que no devia. Pelo menos, tinham-me dito para no o fazer. John e eu conversramos em pormenor sobre 
o assunto, eu dera-lhe conta de todas as minhas dvidas, mas resolvramos que isso talvez fosse a melhor 
coisa para ele. E eram s quatro semanas, no era uma vida. Eu estava consciente do facto de que 
protegera demasiado Nick, e isto parecia uma boa altura de o soltar um pouco. Mas senti-me um monstro, 
quando o homem explicou a Nick que iam apanhar o avio para ir para o programa ao ar livre. Nick 
parecia que me queria matar, e no o censuro por isso. Se algum aparecesse no meu quarto, s seis da 
manh, a ameaar levar-me para o meio de arbustos, algures, eu acho que pegava numa arma e lhe dava 
um tiro. Nick parecia fascinado com esta ideia. Mas no com o programa sobre o qual o homem 
dissertava. O sujeito estava com um ar de quem, se Nicky no gostasse da ideia, o ia arrastar da cama, pr 
ao ombro e levar. Nick no discutiu com ele.
Saram de casa meia hora depois. Tentei dar um beijo de despedida a Nick e ele no me beijou, sendo a 
primeira vez que tal fazia, e voltei para dentro de casa, a chorar. Tinha a sensao de o ter atraioado, e 
talvez at de o pr em perigo. Nunca me sentira to de rastos em toda a minha vida, ou to s, ou to 
preocupada com ele. Pusera-o positivamente nas mos de estranhos. E se eles no fossem de confiana? E 
se alguma coisa lhe acontecesse? No valia a pena estar a pensar nisso, mas era s no que pensava.O 
homem que o acompanhava deixou-o telefonar-me do aeroporto, e Nick disse-me o quanto me odiava e 
que monstro eu era por aquilo que lhe fizera. No discordava inteiramente dele, mas disse-lhe que estava a 
tentar fazer qualquer coisa para o bem dele. Contudo, ainda estava furioso e desligou-me o telefone na 
cara.Durante as trs semanas seguintes, os dias eram interminveis. Havia l um conselheiro que parecia 
mais um alpinista, mas era simptico, inteligente e gentil. Ele parecia ter um afecto genuno por Nick 
quando me telefonou. Foi a primeira vez em toda a vida de Nick que ficmos sem nos comunicarmos, o 
que foi uma agonia para mim. Sonhava com ele  noite, aterrorizada com a ideia de que alguma coisa ruim 
lhe pudesse acontecer. Mas, de tantos em tantos dias, o seu conselheiro telefonava-me e assegurava-me de 
que ele estava bem e a portar-se bem, e que seria uma nova pessoa quando chegasse a casa. Eu gostava da 
antiga pessoa, mas tambm sabia que ele tinha de mudar as coisas, de comear a sentir-se bem consigo 
prprio, de controlar a sua vida, custasse o que custasse.No entanto, fiquei completamente destroada 
quando, perto do final do programa, o conselheiro me disse que tinha de comear a pensar numa escola 
para Nick e, embora ele se tivesse portado bem, o conselheiro sentia que ainda no conseguia viver em 
casa. Precisava de ser colocado numa "escola especial" durante um ano ou dois, at tratar os seus 
"problemas", fossem eles quais fossem. Sabamos certamente uma coisa: tinha uma enorme dificuldade 
em controlar os impulsos e,  medida que o tempo avanava, os problemas de concentrao aumentavam. 
ainda acreditava que poderamos trat-lo em casa, e tudo dentro de mim me dizia que mand-lo para fora 
tinha sido um erro. Ainda era o meu beb. E todas as escolas que o conselheiro recomendou ficavam longe 
de casa. Ser-nos-ia difcil visit-lo. Tinha cinco crianas pequenas para tratar em casa, e as escolas que ele 
sugeria no estavam, de facto, ansiosas que recebesse visitas. Referiu at um dos locais que o primeiro 
conselheiro recomendara, aquele que soava a priso para crianas. Nick no era um mido mau, lembrei-
o, era um mido doente. Mas o conselheiro insistiu que isso no fazia diferena, ele j no conseguia viver 
em casa com a famlia, precisava de mais "estrutura" para se controlar. Dava a impresso que iam 
construir uma barreira de arame farpado  volta de Nicky.Assim, enquanto Nick lutava com a porcaria, os 
insectos e a natureza que ele sempre detestara to desesperadamente, pus-me a tentar descobrir novamente 
uma escola. At a, apesar dos esforos, o conselheiro na cidade ainda no encontrara nada. Um mdico 
que eu conhecia surgiu finalmente com o que parecia uma sugesto vivel. Era um pequeno internato para 
crianas problemticas, numa cidade de que nunca ouvira falar. Podamos visit-lo aos fins-de-semana, e 
ele poderia vir a casa de vez em quando, se se portasse bem. O mdico teceu-lhe elogios, um dos seus 
amigos mais chegados conhecia a escola e adorava-a. Falei com o amigo do mdico que conhecia a escola 
e no gostei do que ouvi. Dava a impresso de ser outra priso para crianas, um lugar para onde as 
pessoas mandavam os filhos porque no tinham mo neles e no queriam chatear-se, ou no conseguiam 
mesmo domin-los, por uma razo ou outra. O amigo do mdico tinha um filho que era violento e que o 
atacara em inmeras ocasies. Isto estava a grande distncia de Nicky. Nick era uma alma perturbada, que 
virava a sua fria contra si prprio ou para as suas coisas, nunca fisicamente para cima de outra pessoa. 
Mas tambm era evidente que fossem quais fossem os esforos que eu tivesse feito at a no tinham sido 
bem sucedidos. Por isso resolvi tentar. Eles tinham conselheiros que viviam na escola e um psiquiatra para 
trabalhar com os midos diariamente. Apesar das minhas reservas, parecia perfeito.
Entretanto, Nick estava a acabar o seu programa ao ar livre, e deixaram-me falar com ele ao telefone 
poucos dias antes de voltar para casa. Fizera at um "solo", que era andar um ou dois dias sozinho no 
meio da natureza, durante os quais foi observado por uma questo de segurana, embora no soubesse. 
Aprendera primeiros socorros e respirao cardiopulmonar, e salvara outro rapaz que se perdera. Parecia 
estar ptimo, e toda a mgoa que aquilo causara a mim e a ele parecia ter valido a pena. Estava cheio de 
esperana e confiante de que a sua vida entrara nos carris. S queria voltar para casa para o provar. Ento, 
tive de lhe dar a notcia de que ia para um internato para crianas especiais. Senti-me como um carrasco a 
dizer-lhe, e quase o matei. Chorou, suplicou, jurou que se portaria bem em qualquer escola para onde eu o 
mandasse, mas que no o enviasse para longe outra vez. Chorei tanto como ele, mas pedi-lhe que tentasse. 
Depois de me informar acerca da escola por telefone, tive um forte ataque de gripe e queria ir ver a escola 
com os meus prprios olhos, mas John ofereceu-se para ir. A maioria das vezes, eu era o "homem da 
casa" para todas as solues criativas que arranjava para Nicky, mas desta vez John ofereceu-se para ver a 
escola e certificar-se de que era boa. Foi l e voltou para dizer que era boa para ele. John esperava, tal 
como eu, que Nick gostasse. Nick devia estar em casa da a dois dias, e amos esper-lo ao aeroporto, 
passar umas horas com ele l, e depois mand-lo para a escola que escolhramos. Decidramos, por 
recomendao do conselheiro do programa de ar livre, que, se o deixssemos vir a casa mesmo por poucas 
horas, um dia ou dois, seria extremamente difcil para ele voltar a sair; por isso, partiria para a escola 
directamente do aeroporto, depois de almoarmos com ele.
Os ltimos dias de espera para ver Nick pareciam interminveis. No via o momento de o tocar, abraar, 
beijar, sentir, cheirar. Ele era a cria que eu perdera algures na selva, e estava desesperada por a encontrar. 
Fosse por causa do modo como a nossa vida comeara, fosse porque ele tinha deficincias que eu sentia 
mais do que via, fosse simplesmente porque havia um elo especial que nos unia ou fssemos muito 
parecidos em muitos aspectos, sempre tive uma ligao visceral com Nicky. Era como se fizesse parte de 
mim e, sempre que ia para longe de mim, era doloroso. Nunca perdi esse elo com ele, nunca se esvaneceu 
ao longo dos anos, antes se fortaleceu. Tenho um elo semelhante com os meus outros filhos, e sou a 
pessoa mais feliz do mundo quando estou perto deles, mas, como so saudveis, consigo libert-los com 
mais facilidade, pelo menos durante um curto espao de tempo, quando tenho de o fazer. Com Nick, foi 
sempre muito mais difcil.
Escrevi-lhe esta carta nos ltimos dias do programa de ar livre, e descobri-a recentemente entre os papis 
dele.
Tera-feira, 13 de Outubro de 1992 Meu querido Nicky,
As palavras revolvem-se na minha cabea, no meu corao, na minha lngua... Estou morta por te ver!!! 
Mil milhes de bilies de vezes tenho pensado em todos os tipos de ideias e mensagens, e coisas absurdas 
para ti, desde que partiste. Pensei em fazer um dirio para contar as vezes que as pessoas dizem que tm 
saudades tuas (os nmeros so muito elevados para os contar). Continuo a tentar que o meu corao 
chegue ao teu, e acabei por decidir pensar em ti em silncio. Este silncio imposto entre ns tem sido 
quase impossvel; como uma leoa enjaulada, tenho andado de um lado para o outro nesta casa, a horas 
incrveis, interminavelmente, a sofrer, a deambular, com saudades tuas, contigo alojado no corao e no 
esprito, como uma porta que no se fecha, impossvel fechar-te por um simples momento. Nenhum 
homem alguma vez saber o estranho mas poderoso elo que a mulher mantm com o seu filho. Era a 
nsia, o desejo de te ver, a necessidade de ver o teu rosto, de te tocar, de te tomar nos braos e de saber 
que estavas bem. (Sinto-me literalmente mal se s vezes estiver longe de Zara ou de Maxx. H a 
necessidade de ver se eles esto bem, se esto em segurana, de saber que eles esto perto.) E tu ests 
preso ao meu corao da mesma maneira que eles, um elo inseparvel que, graas a Deus, nunca sentirs 
como eu porque tens de crescer e ter a tua vida, mas esses elos levam muito, muito tempo a consolidar-se.
Adoro-te. Adoro-te muito. E que saudades eu tenho sentido!!!!! Tenho ido ao teu quarto milhares de vezes 
por dia. Dar um toque no tapete, num candeeiro ou numa almofada tem sido de extrema importncia, o 
posicionamento exacto das tuas revistas tornou-se vital, como se fosses l-las a qualquer momento.
Nunca saberei exactamente aquilo por que passaste, a dor na alma, o medo, o excruciante processo de 
crescimento, de mudana, de aprendizagem de coisas que so dolorosas para todos ns. Todos ns temos 
os nossos demnios com quem lutamos, e as outras pessoas nunca sabero como isso  difcil. Eu acho 
que sei. Eu quero saber Tentarei de todo o corao, mas se s vezes falhar, se no conseguir compreender, 
por favor, por favor, diz-me, mostra-me, o melhor que puderes, e perdoa-me se parecer estpida. Tentarei 
no o ser E se h coisas que preciso de saber, para melhorar a nossa relao, diz-me tambm. Tentarei, 
Nicky, tentarei mesmo. Prometo. E um processo de crescimento para ns todos.
Fizeste a coisa mais difcil, mais corajosa, nas ltimas trs semanas e meia - vinte e quatro dias. Queres 
saber quantas horas ou segundos? Estou certa de que consigo cont-los. Mas estou certa de que tu, 
querido, os contaste. S estando a  que se pode saber o que  estar a. Como posso eu ser justa e 
imaginar, enquanto estou deitada num confortvel sof, o que  estar numa situao de sobrevivncia, no 
s lutando por um pedao de comida, ou algum conforto, mas tentando reajustar a noo de sobrevivncia 
emocional. Imagino o que deves ter enfrentado, mais emocionalmente do quefisicamente, Nicky. E estou 
to orgulhosa do que fizeste a!
Nunca sabers a fora e a dor que foram necessrias para te mandar para a, e s te posso dizer que a nica 
coisa que me levou a mandar-te para a foi o meu desespero. Tudo indicava que estavas num caminho 
desastroso, e eu no fazia ideia de como te deter  como ver algum a afogar-se, atiraramos o banco de 
um piano se tivesse mesmo que ser, para salvar essa pessoa... O meu nico receio era de que a cura fosse 
pior do que a doena, e, se a opo foi boa, ento fomos todos abenoados pela sorte. No posso reclamar 
grande sabedoria aqui. Agarrei-me quilo que na altura me pareceu ser mais correcto, mas isso 
aterrorizou-me.
Como disse ao pap, se tudo der certo, mandar-te para a foi a coisa mais corajosa que alguma vez fiz, e 
que tu fizeste!! Se alguma coisa correr mal, nunca me perdoarei. Andei em grande agonia, e penso que o 
pior de tudo foi o silncio. No trocmos qualquer palavra nos primeiros dez dias, e a minha frtil 
imaginao criou cenrios horrveis que fariam empalidecer o prprio Stephen King. Graas a Deus que 
ests bem, e que achas que valeu a pena.
Sei que a reentrada deve ser difcil para ti. Deves ter meditado bastante, deves ter pensado muito em ti, na 
tua vida e naqueles que te rodeiam... a minha mdica lembrou-se uma vez, h muito tempo, que embora eu 
tivesse trabalhado com afinco e percorrido um longo caminho, os outros na minha vida no tinham 
chegado a lado nenhum. Ela lembrou-me para no esperar muito daqueles que me rodeiam. No tinham 
mudado. Eu tinha. s vezes,  uma espcie de choque. Alm disso, acabaste de nascer para a vida e j 
chegaste onde chegaste, todos ns temos de nos sentir uns simplrios e pequeninos ao lado do teu talento. 
Alguns ficaro impressionados, alguns no sabero, alguns no se importaro, alguns no ficaro 
impressionados, e alguns ficaro  espera que faas mais. Tem de ser frustrante. Tenta ser paciente. D 
constantemente palmadinhas nas tuas costas por aquilo que fizeste, e continua a subir a montanha. 
Descobrirs, querido, como fazemos na vida, que nunca se est completamente "l", s quando o trabalho 
est realizado e podes descansar por instantes  que a vida proporciona outro desafio. Muitos so uma 
porcaria, alguns valem a pena, mas  assim que so as coisas. Tens de enfrentar os desafios e resolver os 
problemas. Descobriste ferramentas maravilhosas dentro de ti para o fazeres. Continua a us-las, no 
pares, vai em frente!!! Agora ests no caminho certo, e ns reconhecemos e agradecemos-te isso a cem 
por cento.
Sei . que i . r para um internato algo restritivo  decepcionante, mas isso tambm faz parte da vida. No 
somos ns que fazemos as regras, nem tu, nem o pap, nem eu. Sabemos onde ests e o que tens feito. 
Mas agora tens de dar os passos no mundo. E irs d-los. Este lugar pareceu-me bastante razovel. Se te 
portares bem, e mantiveres os nveis elevados de trabalho, ters os privilgios e as liberdades. Caso 
contrrio, no vamos falar de San Quentin agora. Eu no teria conseguido viver numa dessas escolas, que 
felizmente no precisas. Por favor, mantm esse rumo. Eu no suportaria estar numa escola como aquela, 
isto , as escolas de correco. (No como esta - esta  boa.) E acredito verdadeiramente que este seja um 
pequeno passo para a maturidade e a liberdade. Mas tambm  uma rede protectora. Seria uma pena 
deitares fora todo o trabalho que tens realizado, num dia mau, ou num momento de fraqueza.
No acho que isto seja assim to mau, e vais dizer-me se estou enganada. Mas tenho a sensao de que vai 
ser muito divertido. No o teria feito se achasse que era mau. Pensa nisso como uma parte interessante da 
tua vida, uma parte deste novo crescimento,  uma ponte de um ponto bom para o seguinte, e uma parte da 
viagem. Ajudar-te- a chegar onde quiseres ir E quanto melhor trabalhares, mais depressa l chegars. 
Penso que um dia olhars para trs, para tudo isto, e vers a sorte que tiveste em aprender tanto to cedo. 
Muitas, muitas pessoas cometem erros a vida inteira, ou uma grande parte dela. Muitas s compreendem o 
que tu tens quando so muito mais velhas. Esta viso, esta mudana, este processo de aprendizagem,  
uma verdadeira ddiva, das pessoas que te ajudaram a fazer tudo aquilo que fizeste, mas tambm de ti 
prprio ests a fazer isto por ti, Nick. No tenho palavras para dizer o orgulho que eu e o pap sentimos.
No encaro esta escola como um acto punitivo, e quero que saibas isso. No acho que seja. Penso que  
um marco daquilo que queres na vida: liberdade, lar, bons valores, uma vida boa e tambm uma boa 
escola. Tenho de te dizer, gostaria que pusesses as ideias no lugar No gosto de internatos. Nunca gostei. 
E nunca gostarei. Gostaria de te ter em casa, a fazer chili na cozinha, e eu a pedir-te continuamente para 
limpares o quarto. A emoo da tua presena era uma coisa que todos ns gostaramos de ter aqui 
eternamente. A nica coisa que todos ns queremos, eu, o pap e os teus irmos,  que consigas atingir o 
ponto na vida que te permita voltar para casa. Sei que pensas qqe ests pronto, mas as escolas, 
naturalmente, ainda no sabem. E normal. No conseguem ver dentro da tua cabea. No sabem como ela 
est limpa. Se eles conseguissem ligar-te a uma luz especial e o nariz ficasse verde, seria muito mais 
simples. Mas desta maneira, eles precisam de algum tempo, algumas provas, alguns anos lectivos, um 
comportamento razovel. Faz sentido, e j tens idade suficiente para saber isso.
Alm disso, para te ter em casa, ainda um pouco vacilante, seria assustador para ti e para ns, por isso, 
talvez isto d resultado. Vai levar algum tempo aos teus amigos, e ao mundo em geral, a compreender que 
 com um novo Nick que esto a lidar. Alguns vo ligar-te ao velho Nick, e um grande fardo que ters de 
carregar  teres de provar isso constantemente. Podes sentir-te muito melhor na escola. As coisas 
comearo a dar certo. Se teres sido expulso da ltima escola te catapultou para um lugar onde fsica e 
emocionalmente, como escreveste, "a tua vida pudesse ser salva", ento esse breve encontro com a ltima 
escola foi a melhor coisa que alguma vez te aconteceu. (E se quiseres ir para um internato mais tarde, 
podes ir, eu adoraria ter-te em casa, mas  contigo.)
Vou chatear-te com mais uma pequena pea de filosofia. Um dito da minha igreja: "O Amor Divino 
sempre satisfez e sempre satisfar todas as necessidades humanas." As palavras-chave para mim sempre 
foram "sempre", "todas" e "humanas". O dito no diz que o Amor Divino satisfar as nossas 
necessidades s vezes. Fala em todas as necessidades, sempre... e fala em "humanas", no em sublimes, 
espirituais ou religiosas. O Amor Divino sempre satisfez e sempre satisfar todas as necessidades 
humanas. Acho isto bastante reconfortante s vezes, talvez tambm aches.
A nica coisa importante em tudo isto  o quanto te amamos. O resto  acessrio. s vezes, a vida tem 
coisas acessrias. Mas o que importa mesmo  que ns te amamos... Oh, quanto te amamos!!!
Talvez tenha sido pedir muito aos catorze anos, mas amadureceste nestas ltimas trs semanas, e depois 
com a idade vais percebendo que todas as coisas passam, nada difcil ou desagradvel dura eternamente. 
Espero que gostes da nova escola, que a aches fora do normal mas engraada, que aches uma "curte" estar 
a estudar com apenas quarenta midos, sentados debaixo de uma rvore, ou seja do que for Eles vo fazer 
grandes passeios de esqui e fabulosas frias de Primavera no estrangeiro todos os anos. Espero que gostes, 
talvez no seja como o programa de ar livre, mas  um tempo precioso da tua vida. (No  o desafio 
gigantesco que o programa de ar livre foi. Decorre ao ritmo da vida real.) Espero que gostes, e espero que 
aches divertido, mas se se vier a verificar ser chato, ou mesmo irritante s vezes, tenta manter as 
aparncias. Isto no  at ao resto da vida, ou mesmo at ao resto do ensino secundrio. Tem a durao 
que deve ter e nada mais. Amadurece, aprende, tira partido do programa. Mas no deixes de ser quem s. 
Encara isto como um cruzeiro; chegars em breve ao teu destino, por isso descontrai-te. Nenhuma escola, 
nenhum lugar, nenhuma pessoa, nada  perfeito. Como o Alex Raley costumava dizer: "Encontra o bem e 
louva-o!" (A comida tem de ser melhor do que aquela onde tu ests.) E, acredita, as dificuldades na minha 
vida tm-me feito apreciar todo o conforto, todos os em regos, todos os momentos de sade, todas as 
crianas bonitas de olhos brilhantes, todos os momentos felizes. Apreciars mais tudo isto agora por causa 
do que aprendeste onde ests.
E fica a saber o quanto te agradeo aquilo que conseguiste a. No vou dizer que no fizeste grandes 
coisas... mas a vida  uma cordilheira, no  apenas uma montanha...  como os cintures de karat... 
chegaste a uma daquelas cores intermdias, mas ainda no chegaste ao negro... ests quase l.
Adoro-te, querido. Vou para a cama, e quando acordar, so s mais umas horas at te ver Um milho de 
vezes por dia tentei imaginar o que estavas afazer, se a dormir, se a comer, se a andar, se a pensar.. 
Naquela noite ficaste acordado toda ou quase toda a noite. Senti-te no meu corao durante toda a noite. 
Espero que estejas a dormir agora. Deve ser emocionante e assustador sair da para regressar
Estou farta de viver segundo as regras das outras pessoas, por ti e por ns. Aprende algumas boas regras 
sozinho, para que todos possamos ser livres de novo, meu amor A vida  um processo de crescimento, e 
cresce tanto... minha pequenina e doce rvore, que Deus te ame e proteja sempre, sei que Ele o far, e que 
saibas sempre o quanto te amo.
Com todo o meu corao e alma, querido Nick.. com todo o meu amor,
A tua mam
P S. Adorei o teu telefonema e todas as coisas maravilhosas que disseste, das saudades e do amor que tens 
por ns!!! Adoro-te!!! M.
E quando me sentei, cheia de saudades,  espera dele, ele escreveu no seu dirio (escreveu estes registos 
enquanto estava no p grama ao ar livre, num pequeno bloco de notas que levava para todo lado consigo, e 
que encontrei quando vasculhei os seus dirios pois de o termos perdido. Tinha catorze anos quando 
escreveu isto Tenho duas identidades. Essencialmente, uma  boa, a outra m. Neste preciso momento, s 
quero decidir qual  que quero e s-la. H ainda uma terceira identidade: a impaciente que quer que eu 
decida.
Primeira identidade: Quero ir para casa para junto da minha famlia, ser bom, ser carinhoso e amado. Sei 
que sou capaz de fazer isso, se decidir que quero realmente. Acredito que consigo.
 Segunda identidade: Quero que me mandem para uma escola quero ter o meu dinheiro, droga e partir. 
Festa o resto da vida semnunca olhar para trs, e morrer antes dos vinte e cinco. Mas, pelomenos, ter-me-
ei divertido.  A minha misso:"Quero ser capaz de mudar as vidas das outras pessoas e ser honesto, digno 
de confiana e carinhoso. Tudo aquilo que tiver dfazer, quero faz-lo sozinho. Quando chegar a altura, a 
nica pessoa que pode estragar a minha misso sou eu! Seja qual for a loucura, sou aquele que se permite 
ser louco. 
Quem vou ser:
Quero ser forte. Estou a praticar agora. No quero viver  sombra do meu pai. Quero ser eu. Quero ser 
honesto, quero saber o qu est certo e o que est errado, mas fazer as coisas certas. Quero mostrar os 
meus verdadeiros sentimentos de amor e carinho  minha famlia, e quero fazer parte dela. No quero estar 
a viver disfarado. Quero que as pessoas vejam o novo e verdadeiro eu, no o quero esconder mais. Quero 
que as pessoas saibam que podem acreditar e confiar em mim, por isso tenho de ser menos respondo. 
Quero ser bom. Quero ser o Nick.
No gosto de magoar as pessoas. Se o fizer inadvertidamente, seguem-se sempre enormes vagas de culpa. 
E se por acaso for de propsito, sinto sempre uma sensao horrvel, por isso fao-o o menos possvel.
O que eu quero  ser encarado como uma pessoa em quem se pode confiar e responsvel. Quero sentir-me 
feliz comigo prprio e que os outros se sintam felizes comigo. Quero saber que completei algo de 
desafiador e dar a minha palavra de que mudei. J no quero ser a pessoa que era. Andava infeliz e j no 
acreditava na minha prpria palavra. S quero a felicidade e o respeito de mim prprio e dos outros depois 
de acabar o que comear Tenho sentimentos incontrolveis relativamente  minha me. Adoro-a tanto. Eu 
digo-lhe mas no sei se ela sabe mesmo. Se a magoo, a culpa magoa-me cinco vezes mais. Detesto isso. 
No sei como mostrar ou dizer-lhe o que sinto. Quando lhe digo, sabe bem ter-lhe dito, mas depois, se 
fao algo que inadvertida ou mesmo propositadamente a magoa, sinto vontade de me recriminar O meu 
amor por ela  incondicional, tal como o dela por mim, mas no sei se ela efectivamente sabe. Espero que 
saiba. Oxal que este programa me d a coragem para lhe dizer e ser capaz de manter a minha palavra.
Vejo um rapaz confuso Est zangado, mas no muito. Est triste... de certo modo. 
Sofre... acho.Ama-me... espero. Precisa de mim... mas no consegue ou no quer admitir No me 
compreende... talvez eu no o compreenda. Tenta mostrar-me como se sente, vejo-o lutar.. mas no 
consegue. Vejo um rapaz que j viu muita coisa. Mas como disse, ainda  um rapaz.
Se morresse hoje, no ficaria propriamente triste. Ficaria mais desapontado. Estou a fazer este programa 
para tentar dar uma volta  minha vida, e tenho o apoio dos meus amigos e da minha famlia. Este  o 
passo final e o mais difcil na escada que leva a uma vida normal e decente. Se morresse a meio da subida, 
seria um desapontamento. Ficaria naturalmente triste por no me ter despedido da minha famlia, e dizer-
lhes que os adoro, ou de no ter tido hipteses de dizer aos meus amigos o que verdadeiramente sinto por 
eles. Quando morrer quero ser lembrado como uma pessoa forte que i capaz de modificar a vida deles sem 
ameaas nem reprimendas, de livre vontade. Quero ser lembrado pela pessoa que quero ser, no pela 
pessoa que era.
Sou uma pessoa muito verstil, mas a minha personalidade bsica  a de algum que se preocupa.
 Quando penso num amigo verdadeiro, penso em algum que se preocupa realmente comigo. Algum que 
faria sacrifcios por mim, tal como eu faria por ele. Algum de confiana, algum com quem partilho 
opinies, algum que no me abandonar se eu tiver em baixo (lealdade). Um amigo verdadeiro  algum 
que no nos vira as costas, acontea o que acontecer Algum que no me poria em risco e me manteria 
fora dos problemas, tal como eu faria por ele. NADA me faria desacreditar essas qualidades num amigo, E 
tambm julgo que nunca perdemos um amigo verdadeiro, a menos que tenhamos feito algo que viole o 
que ele espera de ns como amigos.Sou uma pessoa do gnero "as minhas regras para mim, as minhas 
regras para ti". S espero tanto de um amigo porque faria tudo o que referi atrs, e mais ainda.
Duas coisas retive no esprito ao ler estes registos de Nick hoje.. Uma  que ele estava doente, tinha uma 
doena violenta que estava a comear a domin-lo. Era um mido bom com uma doena m. E muitas 
vezes midos e pessoas como ele so tratados como midos maus e punidos por aquilo que no 
conseguem evitar. Lutei desesperadamente por Nicky. Nunca quis que ele fosse castigado por estar 
doente. A culpa no era dele. A responsabilidade era minha e recusei-me a virar as costas ao problema 
durante toda a sua vida. Detesto os lugares em que enclausuram estas pessoas, colocando-as longe da 
vista, punindo-as pelas suas peculiaridades e provando-lhes que ningum as ama, afinal de contas. Sempre 
acreditei que dando amor suficiente a Nicky mudaria as coisas, o ajudaria, ou talvez at o curasse. Talvez 
no o tenha curado, mas nunca por um instante na sua vida ele alguma vez duvidou que era amado. Foi a 
minha ddiva, a nica ddiva que eu tinha para lhe oferecer.A outra coisa que me tocou quando li os 
dirios foi o facto de ele ter tantos amigos, ptimos amigos, amigos que estavam ao lado dele e aos quais 
foi leal toda a sua vida. Os amigos que vi no final, e que ainda vejo na minha mesa de jantar, so aqueles 
com quem ele cresceu, com quem andou no infantrio, e aqueles que ele foi arranjando ao longo da vida. 
Muitos deles nunca deixaram a sua vida. E juntou-lhes, ao longo dos anos, pessoas especiais que se 
cruzaram no seu caminho. Ele era um bom amigo, e os amigos adoravam-no. Embora se isolasse por 
vezes, nunca os perdia de vista, e eles telefonavam-lhe e incentivavam-no quando estava triste. Nunca o 
abandonaram. Seja como for, Nick saiu do avio, vindo do programa ao ar livre, com um aspecto saudvel 
e feliz, e alto. Contou-nos tudo enquanto comia uma pizza no restaurante do aeroporto, e conversmos 
durante umas horas antes de partir para a escola. Estava nervoso, mas estava disposto a tentar. Prometi-lhe 
que se a escola no fosse boa, ou adequada para ele, o tiraria de l. John recordou-me que, mesmo que ele 
no gostasse, tinha de ficar. No havia mais nenhum lugar para o pr. No lhe respondi, mas eu sabia que 
tinha dado a minha palavra a Nicky de que, se no fosse um stio agradvel, ele no tinha de l ficar. E 
tnhamos prometido visit-lo no fim-de-semana.No tive notcias dele durante toda a semana porque sabia 
que ele no podia telefonar e, no domingo, foi toda a famlia visit-lo e todos ficaram muito excitados por 
verem Nicky. Chegmos e, como prometido, a escola era pequena, e era atraente. Os rapazes viviam em 
dormitrios, e havia uma espcie de recepo. Mas os "professores" pareciam seguranas de um bar, e os 
estudantes tinham um olhar frio. Pareciam abandonados, desesperados, e olhavam-nos como 
sobreviventes de um campo de concentrao que haviam perdido o apego  vida. ramos as nicas visitas 
naquele dia e, quando vi Nick, senti um aperto no corao. Quando olhei para ele, vi pnico no seu olhar. 
Puxou-me  parte e disse que aquilo era horrvel. O director no vivia no campus como dissera que vivia, 
os monitores eram duros com os midos, e, na maioria, os estudantes tinham tanto de violentos como de 
loucos, e no havia nenhum psiquiatra, ao contrrio do que nos tinham dito.
"Tenho medo, mam", disse ele, e no consegui evitar a recordao dos interminveis contos de 
espancamentos, ataques e tortura, quando esteve numa colnia de frias, apenas para se divertir e ver se eu 
o tirava de l, mas eu sabia que isto era diferente. Nick rogava-me ajuda. E quando olhei para ele, 
verifiquei que estava a ser honesto comigo. Conversmos durante alguns instantes e, quando samos do 
seu dormitrio, vi excrementos humanos nas escadas. Sabia indubitavelmente que ele estava a contar-me a 
verdade, e no podia deix-lo ali. Eu disse qualquer coisa a John, que disse que devamos experimentar 
durante uns tempos, pelo menos at termos alternativas para ele. E foi com grande tristeza que beijei Nick, 
me despedi e sa com os meus outros filhos. Raramente sentira com tanta fora que trara algum que 
amava. Passei toda a noite a andar de um lado para o outro, mal dormi e, quando John acordou, disse-lhe o 
que ia fazer. Ele tinha razo, no havia alternativas para Nick, mas no era desculpa para o deixar num 
stio daqueles. Telefonei novamente para o conselheiro, para me ajudar a encontrar uma escola para ele; 
admitiu que talvez tivesse uma, mas ainda no falara com a escola. Eu no queria saber. Se tivesse de ser, 
eu prpria o ensinaria. Mas no ia deix-lo ali.Telefonei para a escola onde ele estava e disse-lhes que o ia 
tirar de l. A primeira reaco foi dizerem-me que no poderia reaver o dinheiro da propina. Ele estivera 
l durante exactamente cinco dias. Sabia que o tinha de tirar de l. Devia-lhe isso. Disse-lhes para ficarem 
com o dinheiro, apenas para me devolverem o meu filho. Pedi-lhes que o pusessem num avio nessa 
manh, e nessa tarde ele estava em casa com um sorriso do tamanho do Texas. De todas as coisas que fiz 
na vida, absurdas e inteligentes, boas e ms, trazer Nick para casa foi possivelmente uma das melhores 
coisas que alguma vez fiz. Restaurou a f em mim mesma, a minha capacidade de fazer o que  correcto 
fazer, seja o que for, e mostrou a Nick que poderia confiar em mim, que estava a falar a srio, e que 
cumpriria sempre aquilo que lhe prometesse. Nunca me abraara assim na minha vida, e nunca o amei 
tanto. Foi um momento perfeito de f, confiana e amor. E nunca me arrependi, nem por instantes, de t-lo 
tirado de l e trazido para casa. Era o melhor que se poderia fazer por ele, e eu sabia isso.
Muitos anos depois, fui contactada por um advogado, que me disse que a escola encerrara. As crianas 
tinham alegadamente sofrido abusos e maus tratos, e havia um processo em tribunal. Anos antes, j 
houvera processos contra as pessoas que dirigiam a escola. Estupidamente, queriam que eu testemunhasse 
por eles, que dissesse que era uma boa escola, e ouviram aquilo que no esqueceriam to cedo. Disse-lhes 
que seria, de boa vontade, testemunha de acusao, antes de desligarem, e nunca mais ouvi falar deles 
depois desse telefonema. Eu tivera razo em relao ao lugar, mas, mesmo sem esse telefonema, j sabia 
disso muito antes.
Penso que Nick passou a confiar em mim totalmente depois de o tirar daquela escola, e sabia, sem 
qualquer dvida, que, a partir daquele momento, nunca mais o mandaria para longe, nem para um lugar 
em que no confissemos, ou que no achssemos bom, nem para nenhum lugar se o consegussemos ter 
em casa. Fiz uma promessa a mim e a ele de fazer tudo o que pudesse por- ele. No o queria fechado 
longe de mim, nas mos de outras pessoas. amos encontrar uma soluo para ele, e amos faz-la resultar, 
custasse o que custasse. E julgo que em grande parte, durante o resto da sua vida, o melhor que pude fazer 
sem o pr em risco s vezes, cumpri o prometido.


DEMNIOS

Uma vez que tirmos Nick da ltima escola, tivemos de comear tudo de novo. Onde  que amos p-lo? 
E como  que amos ajud-lo? Devo ter feito um milhar de telefonemas, e tentei todos os expedientes por 
ele. Precisvamos de uma escola, e depressa. Mas,  parte isso, precisvamos de um novo psiquiatra e de 
um sistema de apoio competente. Telefonei a amigos, a conselheiros, a escolas, a mdicos, a psiquiatras, a 
toda a gente de que me lembrava.
A primeira coisa que fiz foi arranjar um novo psiquiatra, altamente recomendado, mais uma vez. Disse 
que tinha tempo e concordou em aceitar Nick.
A seguir, a escola. Telefonei novamente ao conselheiro, e ele recomendou-me uma pequena escola noutro 
municpio. Significava que Nick tinha de ir e vir todos os dias, mas era um problema facilmente 
ultrapassvel. Nick, John e eu fomos v-la. Parecia ser boa, dirigida por pessoas simpticas com boas 
ideias, e ficaram desejosos de ficar com ele. Tnhamos de arranjar uma carta de recomendao da antiga 
escola, mas isso foi fcil de obter, e ao fim de um dia ou dois foi aceite.
Tnhamos assim uma escola e um psiquiatra, mas eu sabia que precisvamos de mais do que isso, e um 
pediatra que eu conhecia falou-me de um novo programa destinado a crianas toxicodependentes que era 
supostamente dirigido por algumas pessoas muito interessantes. Expliquei-lhe que no precisvamos de 
um programa de tratamento da toxicodependncia para Nick, mas ele achava que valia a pena falar com 
eles, caso pudessem sugerir um grupo de apoio para Nicky.
Assim, convenci Nick a acompanhar-me quando fui falar-lhes. Ele no queria, mas pedi-lhe para me fazer 
a vontade. Se bem me lembro, acho que o subornei. Ou com um filme que ele queria ver, ou com qualquer 
coisa como um jantar num restaurante chins. Naquela altura, eu no era superior ao suborno. Eu teria 
experimentado o vodu se isso ajudasse Nick. Se mais no fosse, Nick sempre me obrigou a ser criativa. 
Fomos a este programa de tratamento da toxicodependncia falar com uma mulher que j contactara pelo 
telefone. Parecia ser uma pessoa jovem, enrgica e entusiasta, e gostei do modo como me respondeu 
quando lhe falei dos recentes problemas de Nick. No lhe disse que suspeitava que o meu filho tinha 
problemas mentais, s disse que ele tinha sido expulso de duas escolas, ou melhor, expulso de uma e 
pedido para sair de outra. Falei-lhe do programa de ar livre que ele completara, e ficou impressionada. 
Tambm lhe falei da escola horrvel donde acabara de o tirar. E por tudo o que ela dissera, estava ansiosa 
por conhec-la. Nick nem por isso.
Ouviu o walkman durante todo o caminho, tinha um ar aborrecido e disse-me que no queria ficar muito 
tempo. Era um dia frio de finais de Outubro e, durante a viagem, pensei em todas as argolas por onde Nick 
tivera de saltar e em todas as mudanas a que ele tivera de se ajustar desde o Vero anterior. Sabia que 
tinha sido muito duro para ele, mas, desde que o tirara da ltima escola, parecia relativamente alegre e 
esperava pela sua nova escola.
Aguardmos alguns minutos numa sala de espera nas instalaes do programa de tratamento da 
toxicodependncia. Era uma casa de tamanho aceitvel, com as doze fases do programa em realce numa 
parede, e uma mo-cheia de adolescentes a entrar e a sair enquanto aguardvamos. Ento, a mulher com 
quem tnhamos marcado a entrevista apareceu. Era jovem e bonita, tinha longos cabelos louro-escuros, 
enormes olhos verdes, e chamava-se Julie. Lembro-me de que envergava um comprido vestido s flores e 
ostentava um sorriso afvel, quando me apertou a mo e se apresentou a Nick. Instantaneamente, senti que 
gostava dela. Nem sequer sei porqu, s que ela parecia inteligente, perspicaz e afvel, pareceu perceber 
tudo o que ns estvamos a dizer-lhe e estava interessada em Nick.
Falmos-lhe da nova escola e do novo psiquiatra. A ideia era proporcionar um novo comeo a Nick, e no 
estvamos muito certos da razo por que viramos, nem do que queramos dela. Mas uma coisa eu sabia 
com absoluta certeza cinco minutos depois da entrevista comear: eu queria esta mulher na vida de Nick. 
Senti-me imediatamente atrada por ela. E havia algo que me dizia que ela podia ser importante. Naquela 
altura, ainda eu mal sabia o quanto ela viria a significar para mim e para Nick. Como poderia eu saber que 
ela se tomaria minha irm, minha companheira na sobrevivncia de Nick, e uma amiga para a vida toda?
Decidimos que o melhor seria ele vir visit-la uma vez por semana para aconselhamento, apenas para 
reforar aquilo que ele estava a fazer com o psiquiatra. No fazia sentido coloc-lo no programa de 
tratamento da toxicodependncia, mas eu gostava do que ela tinha para oferecer: o entusiasmo, a 
esperana, a vida que ela irradiava. Estava disposta a receb-lo uma vez por semana como doente 
particular, obtendo autorizao da parte dos responsveis do programa para o fazer.
Nem ela nem eu sabamos exactamente qual seria a sua utilidade mas eu gostava tanto dela, e admirava a 
sua abertura e honestidade e a facilidade com que lidava com Nick, que queria que ele se encontrasse com 
ela. E Nick estava igualmente entusiasmado com ela. Tal como eu, ele gostava realmente dela. Era como 
que uma tradutora entre o mundo da psiquiatria e o modo como Nick a aplicava na vida real. Era tambm 
uma formidvel tradutora entre a ansiedade as necessidades adolescentes de Nick e as minhas ideias mais 
conservadoras.
Toda a percia de Julie, como ela nos explicou, situava-se nA rea da dependncia qumica, mas o seu 
verdadeiro talento era o d compreender os adolescentes. Gostava deles e de trabalhar com eles. 
Adolescentes problemticos eram a sua especialidade, geralmente envolvendo drogas, mas nem sempre. 
Tambm lidava com problemas comportamentais, que pareciam aplicar-se a Nick. Ela disse que estivera 
na recuperao durante perto de dez anos, e que estava no aconselhamento de adolescentes durante a 
maior parte do tempo, desde ento. Pareceu-me ter queda para isso, mas tambm nos fez saber que, 
embora tivesse anos de experincia, no tinha feito nenhum estgio formal. Mas por aquilo que pude ver, 
e pelo modo perspicaz com que lidava com Nick, isso, no tinha qualquer importncia para mim.
Era directora do programa de adolescentes no local onde nos encontrmos, e anteriormente fora directora 
de um outro programa bem conhecido de tratamento da toxicodependncia. E disse a Nick que ela prpria 
tivera experincia com drogas na sua juventude. Mas, mais que tudo, parecia capaz de ouvir Nick e 
traduzir aquilo que ele dizia em sentimentos e necessidades racionais. Era como se compreendesse no s 
as necessidades e receios dele como tambm a sua linguagem, o que eu s vezes no conseguia.
S tinham passado ainda alguns dias desde o seu regresso, mas eu estava imensamente revigorada com os 
recursos que descobrramos e, pela primeira vez, senti-me optimista com as perspectivas, tal como Nick. 
Ele estava efectivamente entusiasmado com o que estava a fazer. Se tivssemos sorte, amos ajud-lo a dar 
uma volta na sua vida. Aos catorze anos, seria uma autntica proeza, e finalmente sentia-me esperanosa 
relativamente ao seu futuro, pela primeira vez desde h muito tempo.
A vida de Nick foi um pouco uma corrida de estafetas depois disso: atravessava uma ponte para a escola, 
voltava a atravess-la para ir ao psiquiatra vrias vezes por semana, e depois atravessava outra ponte uma 
vez por semana para ir ver Julie. Tinha sorte se chegasse a casa por volta da hora do jantar a maioria dos 
dias, mas parecia gostar do que estava a fazer. Pelo menos por agora.
Contudo, ao fim de um ms ou dois, j tinha pequenos desentendimentos com os rgos dirigentes da 
escola. Eles tinham um complicado sistema disciplinar que exigia que o aluno fizesse pontos, ou 
castigava-o quando perdia pontos. E Nick parecia ter muitas dificuldades em cumpri-lo. De novo o 
problema dos regulamentos. Mas ele esforava-se, e eles no se queixavam. Julie parecia estar a ajud-lo, 
ele gostava de ir ter com ela, mas o verdadeiro desapontamento foi o psiquiatra que lhe havamos 
arranjado. Eu tinha a sensao de que ele nutria pouco interesse, ou simpatia, por Nick. E a nica coisa 
que ele dizia era que Nick era um menino mimado, e os seus problemas eram de reduzida importncia. Por 
seu turno, Nick detestava-o, e descrevia-o como "um idiota". Pensei em mudar novamente de psiquiatra, 
mas j tinha esgotado todos os recursos que conhecia, e Nick parecia relutante relativamente  psiquiatria. 
Estava a comear a achar que era impossvel descobrir o psiquiatra certo para ele. Durante esse perodo, 
Julie parecia satisfazer-lhe muitas das suas necessidades.
Nick continuou com este status quo durante alguns meses; ao princpio, ia bem na escola, por fim, as 
coisas comearam lentamente a derrapar. Estava a ficar novamente deprimido com tudo e a meter-se nas 
drogas de quando em quando. Encontrei um pequeno recipiente vazio de gs hilariante no seu quarto, o 
que me deixou em pnico, e a escola achava que ele usara um na escola, durante o intervalo, embora Nick 
o negasse veementemente. E, desta vez, acreditei na escola, e no em Nick.
Ao ler os seus dirios agora, sei que durante esse Inverno, antes de fazer os quinze, em vrias ocasies, ele 
experimentou uma verdadeira "paraferrilia" de drogas para libertar o esprito, tudo desde a marijuana ao 
LSD, aos "cogumelos", ao Ecstasy, ao speed. Julgo que ele deve ter tomado uma razovel quantidade de 
marijuana, o que provavelmente s o deprimiu ainda mais.
Estava a "isolar-se" no seu quarto novamente, afastando-se da famlia, e, embora no tivesse quaisquer 
problemas srios na escola, tambm no estava feliz. A nica coisa que parecia ajud-lo, era ir ter com 
Julie.
Eu no sabia do consumo de drogas na altura, embora estivesse de olho em cima dele. Julgo que tambm 
experimentou cocana. No estava viciado em nada, mas estava a automedicar-se. Tambm me disseram 
na altura que problemas parecidos aos dele, acompanhados de depresso profunda, pioravam 
excepcionalmente durante a adolescncia. O constante aumento de hormonas no seu sistema seria um 
desafio cada vez maior se ele efectivamente tivesse srios problemas mentais. Mas naquela altura ningum 
confirmara, ou sequer admitira, o facto de ele ter problemas srios. Era constantemente definido como um 
rapaz muito inteligente, mimado, que estava a passar um mau bocado com a adolescncia. A nica coisa 
que eu agora queria era que eu e os profissionais que tinham dito aquelas coisas tivssemos visto os seus 
dirios. Ter-nos-iam dado pistas importantes de que precisvamos. Mas eu tinha um respeito demasiado 
grande pela sua privacidade para os ler.
Julie abandonou o programa em que ele estava inscrito, na Primavera, e comeou a visitar doentes 
particulares nas suas casas, a ajudar adolescentes que tinham problemas comportamentais na escola ou 
com os pais, e pedi-lhe para ver Nick em casa. Ele estava a ficar cada vez mais difcil de controlar, mais 
isolado, mais deprimido, mais beligerante e mais hostil. Conseguir que ele viesse jantar  noite era um 
martrio dirio, e, quando vinha, era capaz de aparecer em roupa interior ou envolto na colcha da cama. 
Pura e simplesmente, estava a comear a agir com uma certa dose de loucura. Mesmo Julie dizia que ele 
estava diferente, e mais difcil do que os outros doentes com quem ela lidava, mas isso no parecia 
assust-la. Era incansavelmente criativa, aparecendo com solues para tornar a vida mais agradvel a 
Nicky. Parecia arranjar sempre maneira de comunicar com ele, mesmo quando ns no conseguamos. 
Tinha um talento excepcional. Conseguia chegar a Nick quando mais ningum conseguia.
Falei com a minha mdica acerca de Nick, pois ele era uma constante preocupao para mim, e ela disse-
me uma coisa que mais ningum disse. Referiu que, embora nunca o tivesse visto, suspeitava que ele 
estivesse de facto mentalmente doente num grau avanado, possivelmente esquizofrenia ou psicose 
manaco-depressiva, o que me chocou, e expressou grande surpresa por o seu prprio mdico no ter 
demonstrado grande preocupao com ele. Ao princpio, resisti ao que me estava a dizer, e insisti que era 
normal, o que eu sabia que no era, mas o que ela estava a dizer era aterrador.
Tambm me disse que, quando deixasse de ter expectativas normais acerca dele e o tratasse como "o 
nosso maluquinho do sto", as coisas correriam melhor, ou pelo menos seriam mais realistas. Ele tinha 
catorze anos e a ideia de que estava de facto mentalmente doente, e talvez at com uma certa gravidade, 
deixava-me aterrorizada e dilacerava-me o corao, mas no podia negar. Ela tinha razo naquilo que 
dizia. Que diferena fazia se ele vinha jantar? De facto, seria mais fcil para todos ns se ele no viesse. A 
hora do jantar tinha-se tornado um pesadelo, ele discutia por tudo e por nada, insultava toda a gente, 
peidava-se, arrotava, dizia graolas, gritava com quem lhe apetecia, e estava constantemente obcecado 
com coisas que queria fazer a meses de distncia, como qual o concerto a que poderia ir da a trs meses e 
quem o levaria. Tornava a conversao impossvel, e as outras crianas nunca podiam dizer nada. Tentei 
estabelecer regras que no permitissem estragar a refeio a toda a gente, mas eram mais regras que ele 
no conseguia ou no queria seguir. Era doloroso v-lo assim. Comeara a ter um ar desleixado, recusava-
se a pentear ou a escovar o cabelo, e parecia ter prazer em torturar toda a gente, a mim em especial, 
arranjando discusses e insultos dia e noite, especialmente  hora das refeies.
Numa questo de meses, apesar de tudo o que estvamos a tentar fazer por ele, parecia ter perdido tanto o 
controlo como o respeito por si prprio, e mergulhara descontroladamente numa depresso abismal. Mas, 
pela primeira vez na vida, estava a ser abusivo e agressivo. Tinha catorze anos e estava apaixonado por 
uma rapariga trs anos mais velha do que ele, e dizia insistentemente que iam casar-se. A sua vida era um 
sbito emaranhado de comportamentos irracionais de propores monumentais.Julie comeou a v-lo uma 
ou duas vezes em casa e,  medida que o fim do ano lectivo e o aniversrio dos quinze anos se 
aproximavam, passou a vir diariamente. No teria conseguido sobreviver sem ela. A sua calma influncia, 
a sua perspiccia e as suas palavras sbias no s tornaram a vida dele mais suportvel como tambm a 
nossa. Ela era como uma intrprete entre faces antagnicas. s vezes, ela tratava dos mais pequenos 
problemas da vida diria, como tomar duche ou calar os sapatos. Outras vezes, tratava de assuntos de 
muito maior dimenso. Alm disso, como todos os pais que lidam com filhos problemticos, John e eu 
tnhamos opinies divergentes s vezes, e a angstia de lidar com Nick de minuto a minuto, dia aps dia, 
originou uma tenso quase inevitvel no nosso casamento. As vezes, Nick estava no nosso quarto s duas, 
trs e quatro da manh, a discutir algo trivial, e Julie no estava ali para nos ajudar. Era cansativo, 
doloroso e triste para todos os envolvidos. O comportamento de Nick na altura estava a pr toda a gente 
debaixo de tenso, embora nos esforssemos por lidar com ele separadamente e no deixssemos que ele 
estragasse as crianas mais novas. Mas era sempre impossvel, e no era certamente fcil. Particularmente 
nesses dias, viver com Nick era realmente um pesadelo, e John e eu estvamos preocupados. Havia tantas 
coisas e tantos aspectos para pensar e que nos preocupavam: o seu bem-estar fsico, a sua vida acadmica, 
o seu comportamento em casa, o exemplo que ele dava, negativo ou positivo e, alm disso, o grande 
receio de que o que estava a alimentar a sua insubordinao era efectivamente algo muito mais 
perturbador do que a adolescncia. Toda a minha ateno estava centrada em Nick numa base diria, e 
estava sempre  procura de tempo para passar com as outras crianas. Ter Julie ali ao p de mim para 
conversar com Nick deu-me o tempo de que precisava para lhes dar ateno.Havia dias em que me 
apetecia deitar no cho a chorar, ou em que pensava que ia dar em maluca. O pior era que eu no sabia 
como ajud-lo. A pacincia e a razo causavam pouca ou nenhuma impresso em Nick, as ameaas e as 
consequncias no o faziam vacilar. Tentmos firmar contratos com ele, que discutia durante horas, com 
negociaes interminveis, que acabava por assinar, e quebrava minutos ou horas mais tarde. Os contratos 
no tinham valor.
Eu receava que o tempo que estava a passar no psiquiatra estivesse a ter pouco efeito sobre ele, e ainda 
ningum sugerira qualquer medicao. Quando eu disse ao mdico de Nick o que a minha mdica dissera, 
acerca do facto de Nick poder estar seriamente doente, tive a sensao de que ele ainda no estava 
preparado para chegar quela concluso e, afinal de contas, ele conhecia melhor Nick. Em vez disso, 
sugeriu que ele firmasse outro contrato. Eu poderia ter forrado as paredes com os que j havamos firmado 
com ele, e sabia ento que eram inteis. No interessa se eram aceitveis no momento em que os 
firmvamos, ou se eram viveis: ele nunca os cumpria. Nem por um dia, ou um minuto. Era como se os 
acordos que estabelecamos com ele se evaporassem no instante em que ns os firmvamos. No tinham 
qualquer valor para si.
Sei agora que os seus dirios ter-nos-iam dito tudo isso, aos seus mdicos, naturalmente, se os pudssemos 
ter visto. A chave estava a, mas estava na posse de Nick. S ele sabia a extenso do seu tormento e no 
contava a ningum. O que ns vamos era um rapaz profundamente perturbado, hostil, agressivo, triste, 
amedrontado, acordado metade da noite, e que vagueava pela casa de cabelos desgrenhados, enrolado na 
colcha da cama, dormindo, por vezes, no cho. Todavia, ningum com quem eu falava parecia partilhar as 
minhas preocupaes.
Estes registos so de um dirio a que ele chamou "Rapaz-Macaco", que era um nome que ele dava a si 
prprio. Alguns dos registos so incoerentes. Outros, a maioria deles, so bastante brilhantes, 
especialmente para um rapaz de catorze anos.

"Demnios"

Os demnios entram-me na cabea aos pontaps, s piruetas e a rir Os sentidos esto mortos. Encolho-me. 
Soltam risadas e beliscam-me, as unhas a espetarem-se-me na carne. Contoro-me, apetece-me vomitar, 
sai-me uma golfada de sangue, sinto-me morrer Pendurado neste gancho no  tarefa fcil, baloio de um 
lado para o outro, sou torturado, na iluso da grande evaso. No vejo mais nada para alm da parede de 
ao verde, que espreita por sobre as pilhas de destruio deixadas pelos meus algozes...
Este dirio est cheio de histrias acerca de Sarah, a amiga que morrera h quase dois anos, no stimo ano. 
Mas ainda sentia imensas saudades dela, e ansiava estar com ela.
E mais adiante... no seu inferno particular, onde ele se devia sentir muito s. Sinto o corao a despedaar-
se ao ler o que ele escreveu:
~ O cheiro a carne queimada invade-me as narinas. Estou aqui sentado, de cabea baixa, sonolento, a 
coar-me. Eles esto a falar Tudo  suave e indistinto. OS olhos desfocados, baos, os punhos a baterem-
me, os rostos vermelhos. Dizem-me: "Tu s mau. Tens sido um menino mau." No me sinto assim. No 
sou mau. No sou louco. S quero que todos se calem e me deixem em paz. Quero ser terno, estar  
vontade, sentir-me vivo. S que no consigo encontrar esse lugar. Esse pequeno lugar tranquilo para 
descansar "Entra, fica um pouco, tira o chapu, os sapatos, pe-te  vontade." Quero sentir-me desejado, 
abraado, observado. Quero que me digam que sou bonito. Sou perfeito. Mas nunca me dizem essas 
coisas.  a batalha infindvel para chegar onde quero estar, longe de toda a gente, a espreguiar-me na 
sala fumarenta da misantropia. S quero tirar as botas, os ps a descansar em cima da mesa do caf. Quero 
sentir-me assim eternamente, longe das coisas ms, das pessoas mesquinhas, da interminvel rotina cheia 
de pessoas com ar sombrio a sofrer, velhas e tacanhas, a abarrotar de ressentimentos, e com um dio 
visceral por coisas diferentes delas prprias. No gosto delas. Todas olham para mim com um ar de gozo, 
riem-se nas minhas costas, apontam-me a dedo. Fazem-me sofrer e sentir-me indesejado. Odeio isso.

Mais registos de dirio:
"Dor"
Estou farto e cansado! Fao sempre o melhor que posso. Fao o que tenho afazer No interessa se me faz 
chorar e se me magoa c dentro. Ningum sabe como me sinto. Ningum v o esforo. Esforo-me at 
ficar a suar, a chorar, a tremer Sinto uma fria e um dio to grandes que deixo de ver Comea tudo a 
andar  volta. Agarro-me  corda que me puxar para a salvao, mas cada centmetro que trepo, algum 
baixa mais a corda, rindo-se das minhas lgrimas, do meu suor, do meu sangue. Mete-me nojo. No vale a 
pena o esforo. Sinto-me aliviado quando largo a corda. Ponho-me de p, escovo a roupa, limpo o sangue 
da cara. E depois vou-me embora. Deixo as vossas gargalhadas, o vosso gozo. Todo o esforo no tem 
sentido. E como tentar caminhar numa parede. E o vosso dio sem sentido ainda me atia, fuja para onde 
fugir para me ver livre dele. No consigo correr, movam-se as minhas pernas o mais depressa que se 
moverem. No consigo esconder-me por mais sujo que fique. Isto  tudo um jogo para vocs, um truque 
para ver at onde conseguem empurrar-me. Estou acima da linha agora. A minha vida  o vosso jogo.



"Fora"

J alguma vez experimentaram pr os braos  vossa volta para imaginar que algum vos est a abraar? 
J alguma vez imaginaram poder falar com eles e pegar-lhes nas mos? J alguma vez sentiram que eram 
feios e inteis e tentaram descobrir os vossos defeitos, olhando para o espelho durante dias a fio? J 
alguma vez se riram disso? J alguma vez se sentiram estranhos e estrangeiros? J alguma vez foram 
postos de parte e fodidos, queimados e violados dentro das vossas cabeas? No conseguiram perceber o 
que eles queriam. No conseguiram descobrir o que precisavam. J alguma vez esconderam a vossa 
sensibilidade, os vossos sentimentos verdadeiros, porque receavam ser espezinhados? Bom, eu j. Eu j 
fiz tudo isso. J passei por isso. Ainda estou a passar Fao companhia a mim prprio e tento imaginar 
algum a amar o meu corpo torturado de corpo e alma. Tenho de ser forte para o fazer Tenho de cerrar os 
punhos e os dentes, fingir ser puro e fazer o que tenho a fazer, apesar das consequncias. Apesar da dor e 
do fogo que me arde no peito, preciso de controlar os sentimentos e lidar com a situao. Nada de comida, 
de gargalhadas, de aplausos, apenas sobrevivncia. Apenas o esqueleto de dentes podres e suado que me 
guia e assusta a merda com que tenho de lidar Tenho de descobrir o meu ltimo vcio e lev-lo para a 
ltima pgina, para poder partir com um estoiro monumental.
 Sou apenas um rapaz colrico. No sou um imbecil. Sento-me neste parapeito e deixo que a chuva me 
molhe as costas. No seio nde irei daqui. De todas as vezes que me inclino para a frente, o alcatro negro 
cai dos meus lbios. Os pulmes param de respirar e o estmago enche-se de sangue. Quando morrer, 
tambm me transformarei em p. Deitarei o meu papagaio a voar e correrei pela vastido dos campos. 
Terei amigos. Terei uma famlia. J sofri o bastante nesta vida. Estou cansado de tentar escapar de tudo, 
cansado de ter de  escapar de tudo. Tenho de fazer como as outras pessoas, e a uni . ca coisa que quero  
no ficar cheio de dio atroz e nojento que me apodrece as entranhas.

"Explodir"

Normal  mau, equilbrio  merda. Quero ser colrico, cruel, andar sem camisa, suar, gritar a plenos 
pulmes e arranhar a minha prpria pele o resto da minha vida. Quero rolar em cima da carpete suja, as 
sirenes a deflagrarem por cima de mim, esfrangalhando o ar Quero estar zangado e s, quero odiar o 
mundo, odiar os meus pais, odiar-me a mim. No quero ter de telefonar a ningum, e ter de fingir que 
estou feliz, ter de fingir tudo o que no sou. No aguento mais. Quero atirar-me para dentro da mquina e 
emaranhar-me nas minhas prprias entranhas, e l ficar, a arquejar, a ser violento e aos berros. E o que 
sempre sonhei fazer, o que sempre quis fazer  uma coisa muito simples. Mas no ma deixam fazer 
Prendem-me os braos e riem-se maldosamente das minhas racionalizaes. Perguntam-me porque fao as 
coisas que fao, porque sou um rapaz to perverso, porque sou to mau. Mas no tenho 'resposta. Apenas 
tento deitar abaixo a muralha da psicose deles ,e acho que vou explodir se no conseguir fugir, se no 
conseguir saltar para o outro lado, para gritar, para sentir o meu corao a pulsar, para o seguir Eles 
agarram-me o corao, espremem-no, comprimem-no e repetem sem cessar que vou melhorar Estou a ser 
curado. No consigo ver nada atravs da gua e dos drages vermelhos que se apinham na minha cabea, 
e que as minhas plpebras inchadas mal contm. Tenho de fugir deles, de procurar refgio. Porque no se 
vo embora? Julgo que j no  assim to simples.

"Adorvel feio mundo brutal"

Porque  que estou sempre to confuso, infeliz e colrico? Que se passa na minha cabea que faz com que 
tudo parea to distorcido e disparatado? Ou  tudo assim to feio e to mau? No pode ser As pessoas 
dizem que no. Mas, se no for, porque  que h sangue no cho, sangue nas paredes, sangue nas minhas 
mos? O sexo  violento, a dor  silenciosa. Estou no meio do furaco com um amontoado de cadveres e 
bocados de corpos a voar  minha volta. E no posso mover-me porque tenho medo de ser apanhado no 
remoinho chamado sanidade. 
J alguma vez observaram os casais na rua? Quando so jovens, do as mos para no poderem matar-se. 
Quando so velhos do as mos para no carem.
Quando estou apaixonado  como um cubo de gelo a deixar o seu rasto de entorpecimento atrs. Sinto-me 
enjoado mas contente, nervoso mas excitado.  o ltimo sentimento de medo e esperana combinados. 
Quando estou apaixonado  como mos frias a tocarem-me.  agradvel mas aterrador Sinto desconforto 
embora esteja sentado numa fofa nuvem cor-de-rosa, sinto-me s.

"Controlo"

A maldita luz do Sol trespassa as paredes da minha cela, fecho os olhos, no preciso do seu calor nem da 
sua luz curativa. Quero ficar aqui na escurido, plido, a arquejar, a sangrar, com o desejo de escapar para 
a realidade, mas no encontro nada. A minha alma est vazia. Sinto-me fraco, oco, s. Rezo para o negro 
cu vazio  noite e peo ao Ser que os meus pais me disseram que vai salvar-me, mas no vai . conseguir 
No h nenhum Deus que me guarde, nenhum Cu que esteja  espera da minha chegada. Choro para o 
abismo ecoante e debato-me na escurido, os punhos  procura desesperadamente de ar. Quem me dera 
bater em algo para saber queno estava sozinho aqui dentro. Mas estou. Nenhum lugar para onde ir, nada 
para ver. Estou fechado na minha priso, como um animal, e comeo a sentir-me um. A nica coisa que 
sei  que tenho de suportar o sufocamento das noites aqui, no meu quarto,sozinho.

"Sonho"

Um sonho despenhou-se na minha cabea esta tarde. Deixou-me o crnio fracturado, o esprito desfeito, o 
corao dilacerado. Sei que posso consert-lo, mas deve ser to difcil como deix-lo escorrer por entre os 
meus dedos. Isso faz-me chorar e sei que no posso deixar que isso acontea. No posso fugir da luz que 
me custou tanto a atingir. No quero viver mais na escurido. Tenho muito a perder. Tenho mais coisas 
boas e felizes na minha vida do que alguma vez tivera ou imaginaria que teria. J no tenho as armas Para 
afugentar   a realidade. No posso afastar-me mais dela, e no sei sequer se alguma vez vou querer Quero 
a felicidade mais que tudo e descobri novas ferramentas para me ajudarem a encontrar Preciso de pr a 
minha vida a funcionar e s posso conseguir isso se me esforar Sei que consigo, e sei como  assustador 
porem-me a fazer qualquer coisa. Estou certo de que consigo. Tenho amor a segurar a minha mo direita e 
ela est a ajudar-me a chegar  vida com a esquerda. Ela  aquilo de que preciso para me ajudar a tornar-
me forte de novo. J no quero ter medo e ser fraco, Fi a luz, e quero tentar l chegar rapidamente.
Este dirio, embora extremamente frio e angustiante, parece acabar numa nota de esperana, enquanto ele 
ainda tinha catorze anos. Mas no havia qualquer dvida nas nossas cabeas de que ele estava a ficar cada 
vez mais doente. Os demnios que reinavan dentro dele estavam a pouco e pouco a ficar descontrolados. 
Julie e eu passvamos horas a falar sobre isso, tentando descobrir meios de o tornar "normal".
Estava a ter cada vez mais problemas na escola,  medida que o ano lectivo se aproximava do fim, e fazia 
quinze anos. Eles telefonaram finalmente e disseram-nos que ele necessitava de tratamento antes de 
regressar no Outono. Julie e eu ficmos preocupadas, tal como John, e ela tratou de saber o que se 
passava. Ele estava a tomar drogas na altura, embora no muito a srio, mas obviamente ainda  procura 
de alvio. Um programa de tratamento da toxicodependncia no era adequado para ele, um hospital 
psiquitrico parecia-me demasiado cruel, e o seu psiquiatra no concordaria com isso. No vivendo com 
Nick, no conseguia ver o problema to claramente como ns. Procurei informar-me acerca de um 
programa ou hospital para Nick, mas o psiquiatra parecia no sentir que os problemas de Nick fossem 
suficientemente graves para justificar o internamento.
Fui a uma sesso com Nick e o seu psiquiatra, nessa Primavera, e a nica coisa que Nick fez foi sentar-se 
e insultar o homen, enquanto o mdico falava pacientemente com ele. Mas eu via facilmente que Nick no 
tinha nenhum respeito ou afecto por ele. Do ponto de vista mdico-psiquitrico, parecia que no amos 
chegar a lado nenhum. Este era o terceiro psiquiatra de Nick em quatro anos, e Nick no tinha qualquer 
interesse em cooperar no seu tratamento.
Julie parecia ser a nica que obtivera alguns resultados com Nick, embora fosse a primeira a admitir que 
tinha pouca ou nenhuma experincia no campo das doenas mentais. A sua especialidade era na rea do 
abuso de drogas e dos problemas da adolescncia, mas adorava Nick e queria fazer tudo o que pudesse 
para o ajudar. O mundo dos doentes mentais era novo para ela. A beleza disso era que ela no tinha 
quaisquer preconceitos. Estava disposta a experimentar tudo para o ajudar, tal como eu. Mas era evidente 
para ns, se no mesmo para outras pessoas, que Nick estava doente mentalmente, quer o seu "problema" 
tivesse ou no nome. Juloie estava disposta a aprender com a experincia, talcomo ns, mas estava a ficar 
claro para todos que os problemas que perturbavam Nick eram do foro mental, havia vrios buracos 
psiquitricos nele, que ns nos esforvamos desesperadamente por preencher, s os trs, John, Julie e eu, 
sem a ajuda de mais ningum. Era como tentar evitar que Nick sangrasse at  morte. Cortara uma artria 
algures, no fundo da sua alma, e a nica coisa que sabamos era que tnhamos de descobri-la e laque-la de 
novo. Rapidamente. Antes que ela o matasse.

PROGRAMAS, AVALIAES E FINALMENTE A MEDICAO. UMA PEQUENA ESPERANA 
EMERGE POR FIM.

Pouco antes de Nick acabar o seu primeiro ano do ensino secundrio, Julie recomendou um hospital com 
um programa para adolescentes, noutro estado, durante uma breve estada, no Vero, para ir ao encontro 
dos desejos da escola e ajud-lo. Ele acabara de fazer quinze anos, e no tnhamos a certeza se um hospital 
era inteiramente adequado para ele, pois o principal foco de ateno deles era a dependncia qumica. 
Estes recursos eram os que Julie conhecia melhor, e ela ainda sentia que havia meios para que Nick os 
usasse. Achmos que no lhe faria qualquer mal, pois haveria psiquiatras perto para falar com ele. No 
sabamos que mais poderamos fazer, e o local tinha, uma excelente reputao.
Tnhamos de fazer alguma coisa, sabamos disso, e parecia que o seu psiquiatra ainda no estava to 
desesperado como ns. Dizia que no conhecia nada que pudesse recomendar para tratamento de Nick, 
embora todos reconhecssemos o facto de Nick estar a afundarse cada vez mais na depresso, e havia at 
alturas em que ele j no dizia coisa com coisa. Vejo isso com mais clareza quando leio os seus dirios.
Nick concordou em ir para o hospital a ttulo de experincia, embora no estivesse muito entusiasmado 
com o facto. Mas a escola solicitara que ele tivesse algum tipo de ajuda antes de regressar no Outono; no 
tinha muito por onde escolher. E o psiquiatra de Nick aprovava o local para onde estvamos a planear 
mand-lo.
Nick quase perdeu o avio quando se fechou na casa de banho pouco antes de partir. Dizia que havia uma 
coisa que tinha de fazer antes de sair de casa, mas comecei a ficar em pnico quando algum disse que ele 
tinha ido  casa de banho, com luvas de borracha caladas. Bati  porta, ameaando mand-la deitar 
abaixo. Tinha a premonio de que estava alguma coisa horrvel a acontecer ali dentro. E, quando ele 
finalmente abriu a porta e o vi, conclu que no me enganara totalmente. Encostou-se  porta, a rir para 
mim, com tinta azul a escorrer pelo pescoo e pelas faces. O cabelo ainda estava hmido, e a tinta estava 
espalhada por todo o lado, por cima dele, no cho...
" uma cor nova.  turquesa. Que tal achas, mam?" Parecia um mido que acabara de fazer a sua 
primeira pintura com o dedo no infantrio. Era difcil no o adorar ou no desculpar as loucuras que fazia. 
"No gostas?" Sim, mais do que a prpria vida, Nick. Apressei-o para que no perdesse o avio.
Julie acompanhava-o para o hospital onde ele era suposto ficar durante um ms. Eu ia para Napa com os 
midos, e quando ele estivesse despachado do hospital ia ter connosco l.
Esperava, ingenuamente, apesar da minha experincia, que fosse uma permanncia tranquila desta vez. 
Ele faria os seus trinta dias, telefonaria de tempos a tempos, contar-nos-ia como  que as coisas estavam a 
correr e voltaria melhor do que partira. Julie planeava passar a primeira semana com ele, pelo menos, 
deix-lo l quando se sentisse  vontade, e depois regressar para a ltima semana e traz-lo para casa.
Mas eu conhecia bem Nick para no estar a sonhar que as coisas decorreriam calmamente. Eu devia estar 
maluca para pensar que isso poderia acontecer. As coisas correram bem nos primeiros dias, como mostram 
os seus registos no dirio. Pelo menos, estava lcido.
Se fores uma pessoa boa, os outros devem ser simpticos para ti. Se fores um parvo, mereces ser tratado 
da mesma maneira. Tento tratar as pessoas com respeito, mesmo que no goste delas, por isso recebo o 
mesmo. Se todavia no forem simpticas, ento as parvas so elas, no tu. Eu penso que isto  
especialmente importante porque no podes efectivamente evitar ningum. Especialmente os membros do 
teu grupo porque tens de lidar com eles constantemente.  uma boa prtica para o futuro porque em 
situaes de trabalho no podes implicar com as pessoas a torto e a direito e esperar que elas sejam 
porreiras contigo.
1. Admiro a honestidade, a lealdade, a simpatia, a generosidade, a criatividade, a sensibilidade e a fora. 
No a fora fsica, mas admiro as pessoas que enfrentam situaes difceis, e se tornam pessoas mais 
informadas e inteligentes por causa disso.
2. Admiro a minha me porque trabalhou para ter aquilo que tem. Comeou pobre e passou por perodos 
muito duros, mas saiu mais fortalecida, em vez de ficar amargurada.  uma pessoa muito simptica, 
carinhosa, generosa e honesta. Consegue expressar os seus sentimentos e  extremamente leal  famlia.
Porm, alguma coisa correu mal ao fim dos primeiros dias, e as coisas comearam a ficar fora de controlo. 
 possvel ver isso nos registos do dirio. Ele diz que acha que  manaco-depressivo e louco, e depois 
escreve sobre a morte, o sangue, a dor, os excrementos, tudo isso em imagens carregadas de raiva. E 
escreve ento:
Ca na armadilha da adolescncia. Fiquei aturdido com a viagem atravs do espremedor Estou sujo. Estou 
cado no cho. Sou um mapa, uma imagem de regresso. Sou a criatura mais desprezvel no ciclo da 
evoluo. Sou porcaria. Sou dio. Sou guerra.
Sem dvida, ele no estava bem naquela altura, e no sei o que aconteceu entretanto para o perturbar.
Comeou a insultar os conselheiros, recusava-se a cumprir os regulamentos, no ia  terapia de grupo e, 
depois, talvez espicaado por coisas ditas nas sesses, segundo Julie, decidiu que nos detestava, e 
anunciou que nunca mais voltaria para casa. Ao que parece, algum lhe falara no fardo que devia ser para 
ele ter uma me famosa, sugeriram-lhe que eu talvez nunca estivesse com ele, ou que talvez ele tivesse 
sido despachado para que eu pudesse ficar livre para prosseguir a minha prpria vida. Nick correu com a 
bola que lhe atiraram e correu desvairadamente com ela. Tentava marcar ponto, mas no fazia ideia para 
que equipa, e, depois de uma ou duas semanas ali, estava desnorteado. Odiava-nos, odiava-me, odiava 
John e odiava Julie. Odiava toda a gente e, quando lhe perguntava se se sentia "abusado" por ns, dizia 
que sim. E disseram-lhe que podia ficar sob a custdia do tribunal se quisesse.
Quando Julie voltou ao hospital, viu o estado em que ele estava. Completamente confuso e muito 
manaco, assustado e firmemente decidido a ficar sob a custdia do tribunal, embora no soubesse ao certo 
por que razo  que chegara quela concluso. Ela disse-nos que tnhamos de traz-lo para casa e 
depressa, antes de ficar ainda mais confuso, e o hospital concordou. Ele sentira demasiada presso sobre 
si, e no conseguiu lidar com ela. Havia algo nele que se alterara, e Julie dizia que ele mal sabia quem era 
ou onde estava. Mas complicara extraordinariamente a situao, ao pedir para ficar sob a custdia do 
tribunal. Finalmente, telefonei a um advogado, que conhecia algum numa cidade perto do hospital. O 
amigo do meu advogado telefonou para o hospital, e Nick ficou to confuso e to difcil que o hospital 
tambm achou que ele tinha de vir para casa, para junto de ns. Ficara enervado, em pnico, confuso e no 
conseguia controlar-se. A especialidade deles no era lidar com psicticos, era lidar com midos 
toxicodependentes. Os problemas de Nick pareciam-lhes de muito maior dimenso, tal como a ns.
Queriam tanto mandar Nick embora como ns o queramos em casa. Estivera l durante exactamente duas 
semanas, e, embora estivesse deprimido quando sara de casa, estava funcional. Agora parecia 
completamente louco e descontrolado.
Julie pediu-nos para lhe mandar um guarda-costas para a ajudar a traz-lo para casa. Nick estava em tal 
estado que ela ficou nervosa com a eventualidade de ele poder fugir ou entrar em pnico durante o voo. E 
mandmos-lhe uma pessoa muito simptica para a trazer e a Nick para casa. Mas logo que chegaram ao 
aeroporto, depois de sarem do hospital, ela telefonou. J o acalmara bastante. o que nos preocupava era 
que ele vinha to descontrolado como estivera no hospital. No parecia estar em estado de vir para casa, e 
encontrvamo-nos, uma vez mais, perante o problema do que fazer com ele quando sasse do avio. 
Precisava de estar internado num stio onde pudesse calmamente restabelecer-se. Telefonei ao seu 
psiquiatra, que no se lembrava de nenhum lugar apropriado para o pr. Nick no era perigoso para ele ou 
para outra pessoa, no se dava bem com hospitais e, de acordo com o mdico, ainda no precisava de 
medicao. Como era habitual na altura, sentia-me extremamente angustiada. E era evidente para mim que 
Nick estava demasiado doente para vir directamente para casa. Eu no conseguiria tratar dele sozinha, e 
tambm tinha de pensar nas outras crianas.
Encontrei-me com Nick quando saiu do avio, com um grau razovel de agitao. Dissera-me ao telefone 
que me odiara bastante na semana anterior, que no entendia como  que eu fora capaz de o abandonar, 
que me interessava pouco por ele, e a nica coisa em que eu estava interessada era na minha carreira e na 
minha fama. Ele j no estava racional e parecia culpar-me de todos os seus problemas.
Teria sido intil tentar discutir com ele ao telefone durante a estada no hospital, para lhe recordar quanto 
tempo passava com ele e com as outras crianas. Nick tornara-se um emprego a tempo inteiro para mim. 
Eu estava constantemente a entrar em contacto com a escola, com o psiquiatra e a conversar com Julie 
acerca dele. No havia horas suficientes no dia para lhe devotar, dedicava tempo de qualidade s outras 
crianas, trabalhava noite adentro em programas de televiso e livros. Mal dormia. Andava sempre numa 
roda-viva. Sempre a desculpar-me por chegar atrasada, ou a passar horas ao telefone, a tentar descobrir 
novos recursos para Nick. Era uma vida cheia de desafios, mas talvez Nick no estivesse inteiramente 
ciente disso. Ele no sabia quantas horas por dia eu levava a tentar ajud-lo. S sabia que no gostava da 
vida, como a maioria dos adolescentes. Como muitos midos da sua idade, ele era extremamente 
egocntrico, e exigia muita ateno e tempo de toda a gente, particularmente da minha parte.
Porm,  espera dele no aeroporto, no dia cinco de Julho de 1993, todos os meus problemas pareceram 
desaparecer quando vi Nick, tal como acontecera quando ele nasceu. S via aquele sorriso, aqueles olhos e 
aquele rosto que tanto amava. E quando ele me viu, sorriu-me e veio a correr dar-me um enorme abrao. 
A primeira coisa que me disse foi: "Adoro-te, mam." Depois, lanou-me aquele olhar tmido que eu to 
bem conhecia e acrescentou: "No sei porque sou to louco por ti. Acho que fiquei confuso. Mas j no 
estou louco. Agora est tudo bem." Eu sabia que era o momento em que o via, mas tambm sabia que ele 
tinha posto o dedo na conscincia. Ele ficou confuso l. Ou pura e simplesmente o tratamento deles no 
resultara com ele, ou alguma coisa na terapia de grupo pusera demasiada tenso sobre si, embora eles no 
tivessem culpa disso. Era difcil imaginar o que acontecera, mas certamente que no lhe fizera nenhum 
bem. Os nossos objectivos para ele no tinham sido atingidos. Estava pior do que quando fora para l, 
mais deprimido, embora aliviado por me ver. Talvez fosse apenas um agravamento natural da sua doena, 
e pudesse ter acontecido em qualquer outro lugar. O regulador da bomba-relgio da sua doena estava 
constantemente ligado.
Mas ainda necessitava de ajuda, e Julie arranjara uma soluo temporria inextremis. Nesta altura, temos 
de perceber que ainda no sabamos o que se passava com Nick. Fosse o que fosse que o estivesse a fazer 
sofrer, e era obviamente bastante, constitua ainda um mistrio para ns. Ainda ningum nos fizera um 
diagnstico correcto do seu problema nem encontrara uma soluo que resultasse.
A nossa tctica de jogo naquele dia era p-lo num programa onde Julie conhecia vrias pessoas que o 
dirigiam. Ela telefonara-lhes a pedir ajuda, e eles estavam dispostos a aceit-lo, e ele poderia ir 
directamente do aeroporto, o que era uma ddiva divina. Era outro programa de tratamento da 
toxicodependncia, o que no era completamente adequado para ele, pois os seus problemas eram mais 
psiquitricos do que relacionados com droga, mas ele no parecia estar preparado para um hospital 
psiquitrico nessa altura, e ns no conhecamos ningum que conseguisse intern-lo num. Precisvamos 
de um stio onde o colocssemos at ele recuperar parte do seu equilbrio. E, embora soubssemos que os 
programas de tratamento da toxicodependncia no resolveriam o problema de Nick, a nica opo eram 
os recursos que Julie conseguia arranjar. Ele no estava suficientemente funcional para estar em casa. At 
a, nenhum mdico achara que um hospital psiquitrico era adequado para ele, e acreditvamos que a 
nica coisa que Julie podia fazer era ajudar-nos a met-lo em programas de tratamento da 
toxicodependncia onde era conhecida, por mais limitados que fossem os benefcios para Nicky. Ainda 
procurvamos solues s cegas. E ainda no compreendramos que os tratamentos da toxicodependncia, 
onde ele no se encaixava e no conseguia funcionar de forma correcta, s o confundiam ainda mais. Mas 
no tnhamos mais nenhum stio para onde nos voltarmos.
Quando vimos o programa, levmo-lo l nesse dia, mas eu no estava segura de ser o stio certo para ele. 
Tinha quase a certeza de que no. Era um pequeno edifcio sem estufa, sem jardim, sem qualquer espao 
para ele se exercitar. Mas sentamos que no tnhamos alternativa. Embora ele estivesse mais calmo do 
que estivera alguns dias antes, ainda parecia muito confuso e baralhado para o levarmos para casa para 
junto das outras crianas. Espervamos mant-lo ali durante algumas semanas, e desta vez chegmos a 
acordo sem negociao. Ele sabia que no estava bem para vir para casa. Mas no gostou das instalaes 
quando as viu. A nica coisa que poderia fazer era prometer-lhe que o traria para casa logo que pudesse. E 
eu sabia que ele acreditava que eu faria isso. Dera-lhe a minha palavra, e ele sabia que eu cumpria o que 
prometia.O que no discutimos, embora o devssemos ter feito, foi a forma como as pessoas do programa 
reagiriam a mim. Fiquei subitamente perante uma dicotomia agora familiar. Se, por um lado, ficaram 
aparentemente impressionados pela minha fama e toda a gente quisesse autgrafos quando chegmos, por 
outro, tambm pareceram reservados. Julie conhecia muitas pessoas l, e escolhera o programa, e eles 
tinham concordado, numa posio no oficial, que ela poderia tomar parte no tratamento de Nick. Tinha a 
vantagem do saber e da experincia, e conhecia-o melhor do que eu. Um dos problemas de Nick nos 
programas de tratamento da toxicodependncia era que enquanto os outros midos comeavam a 
normalizar e a encontrar de novo o equilbrio, sem drogas, Nick parecia piorar e funcionava menos bem 
do que os outros nos confins dos regulamentos e estrutura deles. Ele era efectivamente menos funcional do 
que eles, muito menos do que parecia. Era fcil esperar muito dele, e sermos enganados pelo afecto que 
mostrava. Era brilhante, doce, engraado, e toda a gente que o conhecia tornava-se vtima do seu charme. 
Ao princpio, mostrava-se geralmente mais "normal" do que realmente era.
Ao fim de pouco tempo, eles tentaram aplicar-lhe alguns dos seus regulamentos, relativamente s 
responsabilidades, participao nas sesses de terapia de grupo e forma de vestir. E Nick recusou-se, ou 
foi incapaz de os cumprir. Ao mesmo tempo, o programa decidiu prescindir da ajuda de Julie no 
tratamento de Nick. Quando telefonei para ele, estava incontactvel, e eles mostraram-se muito pouco 
cooperantes connosco. Senti que tinha de fazer um esforo supremo para provar que ramos pessoas 
vulgares e no estvamos  espera de tratamento especial. Mas uma coisa se tornava evidente para ns, e 
finalmente para eles: quanto mais rgidos fossem os regulamentos para Nick, menos ele era capaz de 
funcionar, at deixar de funcionar por completo. O problema da sua atitude era pequeno se comparado ao 
estado mental em que se encontrava. No causou problemas desta vez. No pediu para ficar sob a custdia 
do tribunal. Mas era evidente, ao fim de alguns dias, que no era capaz de cumprir os regulamentos e fazer 
o que eles queriam. Fora-se abaixo de tal maneira no ms anterior, perante tudo aquilo que dele exigiram, 
que a nica coisa que conseguia fazer era fechar-se emocionalmente e ficar na cama, a dormir. Dava a 
impresso de que estavam a exigir demasiado dele, e ele estava lentamente a tornar-se um vegetal, a 
perder o contacto com o mundo, a perder a garra, a perder a vontade de viver, embora a culpa no fosse 
deles. A reaco devia fazer parte da doena.
Depois de horas interminveis ao telefone, a discutir a situao em que nos encontrvamos, Julie e eu 
tommos a deciso de o tirarmos do programa e traz-lo para casa. As nossas tentativas de tratamento para 
ele nesse Vero tinham falhado redondamente, e at o fizeram regredir. Parecia mais desequilibrado que 
nunca. Levei-o para Napa comigo, tomei conta dele, apapariquei-o e lisonjeei-o o melhor que pude. Mas, 
durante muito tempo, no consegui quaisquer resultados. Ele estava em profunda depresso, da qual eu e 
Julie no conseguamos tir-lo. Ela vinha v-lo todos os dias, e s vezes sentava-se na cozinha e chorava 
depois de o er. Doa-nos v-lo naquele sofrimento. Dificilmente conseguamos que ele sasse do quarto, ou 
da cama, e achmos ento que era a altura para tomarmos medidas drsticas. Por sugesto de Julie, 
telefonei ao psiquiatra a que Nick fora durante todo o ano, e dissemos-lhe que Nick precisava de ser 
medicado, e rapidamente. Ele retorquiu dizendo que no podia receitar qualquer medicao sem a 
avaliao do seu estado ser feita, e queria recomendar uma pessoa para a fazer. Deu-me o nome de um 
psiquiatra que poderia fazer a avaliao do seu estado, e fiquei nervosa. Queria que ele desse a Nick a 
medicao que achvamos que ele precisava desesperadamente, sem esperar mais tempo. Tomei nota do 
nome do mdico que ele me deu e, sem esperar nem mais um minuto, telefonei-lhe.O mdico cujo nome 
me tinha sido dado para fazer a avaliao levou um dia ou dois a responder ao meu telefonema, enquanto 
eu e Julie estvamos cada vez mais frenticas. E Nick cada vez mais deprimido. Tinha quinze anos, e 
estava to deprimido que mal conseguia funcionar. Mas quando expliquei a situao ao psiquiatra, ele 
prometeu ajudar-nos. Disse que faria a avaliao o mais depressa que pudesse e, se achasse que fosse 
necessrio, pediria ao psiquiatra para prescrever alguma medicao. Apenas, primeiro, tinha de fazer a 
avaliao. No queria ser apressado ou descuidado. Todavia, eu estava preocupada com a demora e com o 
que isso poderia significar para Nicky.Nick estava to deprimido que no saa da cama. Eu sentia que a 
vida de Nick estava na corda bamba, e a leitura dos registos do dirio dessa altura confirma isso. 
Acreditava verdadeiramente que Nicky estava a perder a esperana, e Julie e eu tnhamos medo do que ele 
poderia fazer.Foi um perodo difcil. O psiquiatra disse-me que a avaliao levaria vrias sesses, e com 
grande, grande esforo, convenci Nick a sair da cama e a ir  pennsula falar com o mdico. Estava 
disposto a falar com o novo mdico, o que era um milagre, mas nessa altura at ele j devia saber da 
gravidade do seu estado. No havia nada de manaco com ele, s depresso. Fiquei aliviada por ele gostar 
do mdico e cooperar nos testes. Depois de irmos a uma sesso, o mdico deu-me a notcia de que no 
poderia acabar a avaliao, poisia viajar. Apresentou as suas mais sinceras desculpas, mas no podia fazer 
nada. Disse-me que suspeitava, a partir dos testes que j administrara, que Nick talvez fosse atipicamente 
manaco-depressivo, mas no queria fazer um diagnstico prematuro. Tinha primeiro de acabar os testes. 
Alm disso, disse, num tom paciente, era muito raro um rapaz de quinze anos ser manaco-depressivo, e 
no estava muito seguro de Nick dever ser medicado. No queria precipitar-se ou ser presunoso na sua 
avaliao. Mas eu queria que ele se despachasse.
Quando telefonei ao psiquiatra que o recomendou, para apressar as coisas, descobri que tambm estava 
ausente da cidade. No havia nada que pudssemos fazer a no ser esperar. Pedi medicamentos, 
entretanto, para tirar Nick daquele estado at ao mdico voltar. Prozac. Valium. Aspirina. Rolaids. 
Qualquer coisa. Para dar um pouco de descanso a este mido. Mas o psiquiatra disse-nos que teramos de 
ser pacientes, e Nick tinha de esperar que a avaliao estivesse completa.
Foi um perodo de terrvel frustrao. Sou uma pessoa capaz, equilibrada, racional, inteligente, 
determinada e competente, com amplos fundos  minha disposio, recursos ptimos e uma capacidade 
para pr as coisas nos carris rapidamente. Se eu no consegui fazer com que as coisas acontecessem para 
Nick e arranjar ajuda para ele, estremeo s de pensar o que acontece s pessoas que so demasiado 
tmidas ou esto demasiado assustadas para falar, pessoas que no sabem como proceder, ou que no tm 
uma pessoa como Julie para as ajudar. Ela confirmou tudo aquilo em que eu pensara durante anos acerca 
do estado em que Nick se encontrava e deu-me coragem para continuar a lutar. Mas que acontece s 
pessoas que no tm uma Julie nas suas vidas, que no conseguem nenhuma confirmao? A nica coisa 
que vos posso dizer  que, dado o que sei agora, se acreditam que algum a vosso cargo sofre de psicose 
manaco-depressiva, ou de doena semelhante, e sentem que no vos esto a dar a ajuda de que 
necessitam, no fiquem  espera, no desesperem, no sejam pacientes, tentem outra pessoa. Aproveitem 
tudo o que puderem para os ajudar. H muitos mdicos por a, alguns bons, alguns maus, alguns 
preguiosos, alguns estpidos, alguns que se preocupam, outros que no, e alguns que vos ajudaro e 
sero importantes. Tm direito quilo de que precisam, de algum que trate do vosso ente amado e que 
vos ajude. Faam tudo o que puderem para descobrir pessoas que vos ajudem. No parem de tentar, de 
perguntar, de suplicar.  extremamente importante encontrar um bom mdico e tm direito a isso. Sigam 
sempre os vossos instintos. Conhecem melhor o doente que eles.
No me perguntem como, mas conseguimos aguentar um ms, e voltmos ao mesmo psiquiatra. Acabara a 
avaliao, finalmente. Disse-nos que iria fazer um resumo dos resultados, e depois dar-nos-ia a concluso 
por escrito. Achei que isso levaria mais alguns dias. No achava que Nick pudesse esperar mais tempo.
Nick voltara entretanto a pr-se de p, mas no estava em grande forma. A nica coisa que o salvara fora 
Julie, com a sua ajuda carinhosa, firme, devotada e constante. Recusou-se a baixar os braos, e tentou tudo 
o que podia para o incentivar e lhe dar a esperana de que acabaramos por conseguir ajud-lo. At Nick 
sentia ento que precisava de medicao. E estava disposto a experiment-la, se consegussemos arranjar 
algum que lha desse.
Encontrava-se capaz de voltar para a escola e, para minha surpresa e nosso prazer colectivo, estava 
bastante bem para fundar uma banda. Encoraj-lo a fazer isso era uma das ferramentas de Julie para o 
incentivar. No estava numa forma excepcional, mas as coisas estavam a melhorar. Ps  banda o nome 
muito pouco atraente de "Shanker", mas proporcionava-lhe o pequeno prazer que ele tinha na vida. E 
reviveu a sua antiga paixo pela msica. Mas, quando no estava na escola, ou a ensaiar com a banda, 
ficava ou sentado em cima do sof a ver televiso no escuro, ou na cama, a dormir. Sinais clssicos de 
depresso. E eu estava a ficar com uma forte sensao de que uma espcie de desespero letal estava a 
instalar-se. Com receio de que pudesse levar a um desastre, telefonei vrias vezes ao mdico que estava a 
fazer a avaliao. Ainda no acabara o relatrio, mas prometeu que acabaria "em breve". Por 
recomendao urgente de Julie, pedi novamente medicao para Nick, que me foi recusada. E quando 
tentei que Nick voltasse para o psiquiatra a que fora durante o ano lectivo anterior, Nick recusou-se a 
voltar. Todavia, gostava do mdico que fizera a avaliao, por isso voltei-me para ele  procura de ajuda. 
E ele concordou em ver Nick vrias vezes por semana. Mas no lhe daria medicao at a avaliao estar 
acabada. No sei do que  que ele estava  espera, mas sentia-me como se estivesse  espera de que os trs 
Reis Magos montados em camelos aparecessem vindos do Oriente atrs de uma estrela, carregados de 
Prozac.
Do que me lembro melhor do Outono de 1993, quando Nick tinha quinze anos, foi de que estava com 
medo de entrar no quarto dele. Sentia to intensamente o desespero de Nick (e quem o poderia culpar? 
Ningum parecia estar a ajud-lo, estvamos apenas a pr-lhe pensos rpidos em cima das feridas fatais) 
que cada vez que chegava  porta do quarto, ficava aterrada com o que encontraria quando entrasse. 
Receava que ele se suicidasse antes que ns pudssemos ajud-lo. Finalmente, disse candidamente ao 
mdico que um destes dias encontraramos Nick pendurado no cinto do roupo, e que diria ele ento? 
Quanto  que ele diria que lamentava? O que  que custava a algum ajud-lo e dar-lhe a medicao que 
eu achava que ele obviamente necessitava?
No estou certa se foi esse comentrio que o espicaou, mas, ao fim de uma ou duas semanas, ele deu-nos 
finalmente o relatrio. E quando o mdico se encontrou comigo e com John, tinha um ar sombrio. Falou 
acerca do facto de Nick ter problemas de aprendizagem e que "os seus comportamentos eram sugestivos 
de uma qualidade hipomanaca que pode apontar para uma variante de um distrbio afectivo bipolar". 
Pela primeira vez, a possibilidade de Nick ser bipolar, mesmo atipicamente, fora aventada. E embora no 
o escrevesse no relatrio, creio que ele achava que Nick tinha DDA ("distrbio de dfice de ateno") e 
tinha possivelmente instintos suicidas. Falou acerca de um componente depressivo significativo para a 
experincia corrente de Nick, embora no parecesse acreditar que Nick estivesse a sofrer de depresso 
grave. Mas estava disposto a recomendar medicao. Aleluia! O nico milagre, no que me dizia respeito, 
era que Nick ainda estava vivo para a tomar.
Deu-lhe um medicamento da famlia do Prozac, e ajudou um pouco, mas, na minha opinio, no o 
suficiente. Continuava deprimido a maior parte do tempo, embora j no em elevado grau. Mas ainda 
havia muito a melhorar.
Uma cano que Nick escreveu para a sua banda, Shanker, conta como ele se sentia a altura.
Estou completamente s
Estou completamente s
O cu  branco
A dor  profunda
E quero ficar pedrada
Estou completamente s.
Destino, meu destino
Dana comigo, dana comigo, destino
Destino, meu destino
No tenho fuga possvel
A minha me lamenta-se, desliga o telefone,
Ela no gosta do meu tom.
A mam pode ter
E o pap pode ter
Mas Deus abenoa a criana que tem o seu
Deus abenoa a criana que tem o seu
Mostraram-me o meu corao de pedra
Toquei-lhe com os meus ossos partidos
Amor no posso ter
O pai que no terei
A criana foi deixada completamente s
Deixaram-me aqui completamente s
Destino, meu destino
Dana comigo, dana comigo, destino
Destino, meu destino
No tenho fuga possvel...

 uma melodia bonita, com um som fnebre. Fiquei quase de corao despedaado a  primeira vez que a 
ouvi. Foi um Inverno duro para Nick, e a medicao no o ajudava o suficiente, mas pelo menos sempre 
era alguma coisa. Foi um perodo duro para todos ns. Soubera que havia duas biografias minhas no 
autorizadas planeadas para esse Vero, o que me perturbou imenso. Tambm nos tinham dito 
recentemente que um dos bigrafos obtivera a informao do registo de adopo de Nick. Todas as 
crianas no estado da Califrnia tinham o direito de terem os seus processos de adopo sob sigilo. De 
facto, isso  automtico. Nunca o solicitramos, mas, tal como fazem para todas as crianas, tinham os 
registos de adopo de Nick sob sigilo, quando John o adoptou aos sete anos.
Porm, o bigrafo ameaava referir isso no livro, e Nick ficou extremamente perturbado com isso. 
Particularmente no seu estado muito depressivo, ele no queria que ningum soubesse que era adoptado, 
especialmente os seus irmos mais novos. A seu pedido, continuvamos a esconder essa informao deles, 
de modo a no sentirem que ele era "diferente" deles. Era categrico acerca dessa questo. John foi para 
tribunal tentar proteger o sigilo da adopo de Nick. Era apenas o que queramos, para proteger Nick, e os 
direitos que ele tinha em virtude de ser menor e ter sido adoptado no estado da Califrnia. O que nos 
preocupava era que isso significava tudo para Nicky, e como estava to fragilizado no queramos que as 
biografias o fragilizassem ainda mais.
Os jornais anunciavam que ns estvamos a tentar evitar a sada do livro, processando o bigrafo, mas no 
estvamos. John foi para tribunal e perdeu. O juiz determinou que, devido  minha fama, o direito de Nick 
 privacidade, e para manter a sua adopo sob sigilo, estivera sujeito a preempo. O nosso advogado 
ficou furioso e Nick destroado. Tnhamos direito a apelao, mas Nick no estava em condies de lidar 
com o problema, ou aparecer em tribunal, como provavelmente teria de suceder. Desistimos do processo, 
e Nick ficou amargamente desapontado. Porm, as biografias, naquela altura, eram as menores das nossas 
preocupaes. 
Nick estava a comportar-se de forma estranha na escola durante os meses de Setembro, Outubro e 
Novembro. Andava calmo e parecia alegre, mas no fazia os trabalhos, e a sua falta de controlo dos 
impulsos estava a tornar-se um problema srio, e cada vez mais difcil de explicar aos professores. Certo 
dia, depois de dizer que estava aborrecido, encaminhou-se calmamente para o professor diante da turma e, 
sem malcia, nem explicao, mas apenas com uma mo indolente, despejou uma lata de soda para o 
sapato do professor, regressando depois ao seu lugar com a lata vazia. O professor ficou horrorizado, e 
comecei a receber frenticos telefonemas da escola. Magoava-me dizer isto, mas era bvio que Nick tinha 
de ser tratado como uma criana com "carncias especiais". J no conseguia funcionar numa escola 
normal, numa base normal. Iam ter de aceit-lo como deficiente mental, se ficassem com ele. E no 
estavam preparados nem equipados para isso.
Na semana antes do Dia de Aco de Graas, telefonaram-me e disseram-me que tinha de o tirar da 
escola. Aguentara-se l exactamente um ano. Mas agora era altura para uma nova escola. Nick e eu 
visitramos uma escola meses antes, e havamo-la achado um pouco fora do vulgar, mas agora era perfeita 
para ele.
Fui falar com o director da nova escola, contei-lhe a situao e no lhe escondi nada. Estava disposto a 
aceitar Nick e a tratar os seus problemas. Dei a novidade a Nick, que ficou entusiasmado. Adorara a escola 
quando a vramos. Era pequena, informal, e o director era inteligente e criativo, e surpreendentemente 
nada receoso dos problemas de Nick.
Nick comeou a escola em Dezembro, e as coisas correram calmamente pelo menos durante um ou dois 
meses. Mas era indubitvel que Nick estava cada vez mais doente. E Julie resolveu fazer uma expedio 
exploratria. Ainda vinha c a casa todos os dias, para trabalhar com Nick, e ele continuava a ir ao 
psiquiatra que fizera a avaliao, embora os progressos parecessem lentos.
O que Julie queria explorar eram os hospitais psiquitricos onde pudssemos pr Nick se fssemos 
obrigados a isso, durante um curto espao de tempo, se ele se fosse abaixo completamente, se ficasse com 
instintos suicidas de novo, um stio onde, pelo menos, lhe pudessem fazer uma avaliao completa do seu 
estado e explorar a questo da psicose manaco-depressiva. Eu estava desapontada com a avaliao que o 
psiquiatra lhe fizera nesse Vero e achava que ele fizera muito pouco.
Ao mesmo tempo, John sugeriu um famoso hospital psiquitrico no Cansas. Discutimos a questo da sua 
hospitalizao durante um longo perodo, ou mesmo permanente. John achava que poderia ser uma ajuda, 
pois era indiscutivelmente difcil manter Nick em casa. Mas eu nem sequer punha a questo de o mandar 
para longe durante um longo perodo de tempo, a menos que sentisse que tnhamos de o fazer. Prometera a 
Nick que nunca lhe faria isso e, desde que ele fosse capaz de funcionar enquanto estivesse a viver em casa, 
tencionava manter a minha promessa. Alm disso, sentia fortemente que uma das coisas que Nick mais 
gostava era da famlia. Se o "mandssemos embora" para um lugar daqueles, no haveria possibilidade de 
o visitarmos com regularidade. Eu tinha crianas pequenas em casa e no era prtico para ns comearmos 
a ir e vir todos os dias para o Cansas para o ver. Era um ptimo lugar, e John achava que podia ajudar 
Nick. Mas eu no queria que ele nos deixasse. Nunca falmos disso a Nick, seno teria entrado em pnico. 
Ele no queria estar longe de mim, de John, de Julie e dos irmos nem por um minuto.
Nick teve um pouco de descanso ento, estava a tomar a medicao, a assentar na sua nova escola, e teve 
uma inesperada oportunidade que eu pensei que pudesse dar uma ajuda  sua auto-estima e ao seu nimo. 
Havia ocasies em que eu ainda esperava que foras exteriores dessem uma ajuda. Porm, tal como 
acontece com todos os manaco-depressivos, as foras que os conduzem, ou os afogam, so internas. Mas, 
pelo menos, esta experincia proporcionou-lhe um momento positivo. Naquela altura passava um 
programa na televiso, que era um programa de notcias para crianas, escrito, produzido e apresentado 
por midos com superviso de adultos. Depois de uma entrevista inicial, Nick foi contratado como um dos 
seus "reprteres" principais. Foi uma oportunidade maravilhosa, e uma coisa divertida de fazer, e durante 
uns tempos ele adorou.
Entrevistou adolescentes com sida, artistas com tatuagens e algum numa casa de piercings. Fez uma 
reportagem no Haight sobre gazeteiros, entrevistando midos e comentando depois as entrevistas. Havia 
momentos srios no programa, e outros de absoluta loucura. E com a sua personalidade e a sua boa 
aparncia, Nick era perfeito para o papel. Durante uns tempos, saiu-se bem e estava nas boas graas de 
toda a gente. Todos ns gostmos particularmente do programa que ele fez sobre o Halloween, a Noite das 
Bruxas. Entrevistou as lojas de fantasias sobre as fantasias mais quentes esse ano, e fez toda a entrevista 
com um ar srio e uma enorme saia de ballet cor-de-rosa. Ele adorava dar espectculo e ns adorvamos 
v-lo.
Porm, o problema que o liquidou finalmente, e acabou a sua breve carreira na televiso, foi a sua habitual 
nemesis: o controlo dos impulsos. Comeou a ser respondo e a dificultar as tarefas que lhe davam, 
discutiu com o produtor e o director mais do que uma vez acerca da questo dos assuntos. Acabou por sair 
do elenco um dia, e disse-lhes que a entrevista que ele devia ir fazer era "demasiado estpida". Mas eu 
acho, em retrospectiva, que o que estava a acontecer-lhe era que ele j no conseguia suportar a presso. 
Independentemente de ser divertido s vezes, ou de se sair bem, no conseguia manter o desempenho. 
Sau do elenco nesse dia e declarou que nunca mais queria fazer aquilo. Mas, tal como em todas as coisas 
que ele "no fazia", era sempre mais uma questo de "no conseguir fazer" do que "no fazer". Foi um 
desapontamento a sua sada do programa, porque parecera uma coisa boa para ele. Nick tivera j o mesmo 
problema quando fora modelo, quando se recusou a vestir as roupas que lhe deram e desistiu.
Enquanto Nick acabava a sua efmera carreira na televiso, Julie passara trs semanas a viajar pelo pas, 
de um lado para o outro,  procura de hospitais para ele, para ver se conseguamos descobrir um lugar 
extraordinrio, onde pudessem ajud-lo de acordo com as suas necessidades. Finalmente, descobriu um. 
Era num stio a que eu poderia chegar com bastante facilidade, a minha me e a minha madrasta podiam 
tambm ir visit-lo, e, mesmo que tivesse de l ficar durante um curto perodo de tempo, Julie poderia 
deixar a sua famlia e ficar com ele.Eles estavam dispostos a fazer uma avaliao em Fevereiro, numa 
semana, durante as frias de Nick, e eles dar-nos-iam as sugestes que pudessem sobre o modo de ajudar 
Nicky. Era uma coisa a que tnhamos de agarrar-nos, e conseguimos convencer Nick a ir. No ficou 
entusiasmado, mas prometemos-lhe que seria s durante uma semana, e uma coisa que ele sabia era que 
podia acreditar em ns.
Ele foi, ansioso, mas tambm devia estar nervoso, porque mais tarde descobrimos que tomou uma 
quantidade enorme de Valium, naturalmente sem dizer nada a ningum, uma hora antes de l chegar. Mas, 
apesar disso, eles conseguiram fazer a avaliao. Chegou mais depressa s nossas mos do que a primeira 
e enumerava uma quantidade incrvel de problemas mentais e psicolgicos, mas, confundindo ainda mais 
a situao, no descobriram qualquer evidncia de psicose manaco-depressiva ou de DDA.
Voltou para casa exactamente ao fim de uma semana, tal como lhe havamos prometido. E no fora to 
mau como ele receara. Contudo, tambm no nos trouxe grandes novidades. A nica coisa que tnhamos 
depois da semana que ele l passou eram mais questes sobre os distrbios, mas nenhumas respostas. 

PARA CIMA E PARA BAIXO, PARA CIMA E PARA BAIXO. MELHOR, PIOR, MELHOR. COMO 
UM BALOUO. E, FINALMENTE, UM DIAGNSTICO

Quando Nick regressou da semana que havia passado no hospital, voltou  nova escola que j frequentava 
h dois meses, e Julie apareceu com outro milagre. Arranjara um novo psiquiatra para Nick. Eu estaria 
perdida sem ela. A vida com Nick, sem Julie para lidar com ele, para nos explicar, para nos confortar, para 
o confortar a ele, e aparecer com uma torrente de ideias novas e nos ajudar a implement-las, no seria 
mais que um pesadelo. Por vezes, ela fazia-me lembrar Anne Sullivan, que trouxe esperana, vida, 
linguagem e alegria  vida de Helen Keller. Julie era verdadeiramente uma obreira de milagres e como tal, 
e devido ao seu enorme corao, estar-lhe-ei eternamente grata, mais do que aquilo que alguma vez 
poderei aqui dizer. No sei que Parcas cruzaram os nossos caminhos naquele dia ventoso de Outubro 
quando Nick tinha catorze anos, mas uma vez na vida sabiam o que estavam a fazer.
Antes de Julie descobrir o psiquiatra que nos recomendou, telefonei a todas as pessoas de que me consegui 
lembrar para encontrar um. Elas comeavam a habituar-se aos meus telefonemas, fazendo-lhes perguntas 
acerca de mdicos, psiquiatras, escolas e hospitais. Eu era a mulher dos sete instrumentos, tocando a 
mesma melodia durante mais anos do que gostaria de me lembrar. Mas consegui uma meia dzia de 
nomes desta vez, na zona da baa, e ouvi uma srie de desculpas dizendo a razo por que no podiam 
atender-nos. Muitos eram amveis, mas no estavam a aceitar novos doentes. Mas eu sabia que tinha de 
arranjar algum rapidamente. Sentia que o mdico a que Nick ia nos ltimos seis meses no estava a fazer 
muitos progressos e Nick estava desiludido con ele, tal como eu. Recentemente, ao relatar algo incorrecto 
que Nick fizera, senti-me desanimada, e ele perguntou-me se eu alguma vez tinha dito "no" a Nick. 
Claro que tinha, mas a pergunta fez-me sentir que ele no tinha a noo da gravidade da situao. No, 
no, Nicky, no fiques deprimido e no te sentes no quarto s escuras durante trs dias seguidos... no, no 
Parcas: Trs divindades da mitologia romana que presidiam ao nascimento, ao casamento e  morte dos 
homens. (N. do T) vagueies pela casa toda a noite e no adormeas no cho num stio qualquer, 
embrulhado na colcha... no, no, Nick, no desas para jantar meio nu. E pelo amor de Deus, no, no, 
no fiques com essa expresso de quem quer suicidar-se, nem fiques to deprimido e torturado de angstia 
que, cada vez que te vejo, sinto o corao despedaado. A questo que s vezes era difcil de entender era 
que Nick no era um simples problema disciplinar. Havia alturas, muitas delas, em que ele era 
praticamente incapaz de funcionar. Os trabalhos mais simples eram demasiado para ele. No conseguia 
executar tarefas, ou ter responsabilidades. No conseguia alimentar um animal, lembrar-se de vazar o seu 
cesto dos papis, fechar a porta do frigorfico s quatro da manh, de modo a que tudo o que estivesse l 
dentro no se transformasse em papa, e fazer a cama estava totalmente fora de questo. Ele simplesmente 
no conseguia. No era s preguioso, era disfuncional. E a sua falta de controlo dos impulsos fazia com 
que fosse cada vez mais difcil realizar essas tarefas. E quanto mais velho estava, mais isso se tornava 
evidente. Quando tinha quinze anos, a irm de seis era mais capaz do que ele, e oferecia-se at para o 
ajudar. O leque de tarefas era to reduzido que pedir-lhe para puxar o autoclismo era uma tarefa 
importante. Dava graas a Deus sempre que ele a realizava. E o assustador era que juntamente com a total 
irresponsabilidade existia igualmente uma alarmante falta de conscincia. Era capaz de deixar uma coisa 
altamente inflamvel encostada a uma lmpada, ou deixar uma vela bamboleante a arder com o pavio 
quase em baixo, ou deixar uma criana pendurada na janela. Era perigoso para si prprio por causa disso 
e, inadvertidamente, para os outros. Mas para responder  questo do mdico, SIM, eu j dissera no a 
Nicky, e no ganhara nada com isso. Marquei consultas com quatro novos psiquiatras para ver o que eu 
achava deles, antes de sobrecarregar Nick com a mesma tarefa. Queria fazer uma filtragem, porque 
pessoas novas, coisas novas, lugares novos e desafios novos faziam-no ficar visivelmente nervoso. De 
facto, Nick no se dava bem com o stress ou um estmulo excessivo de qualquer gnero. Nunca mais 
poderia viajar connosco. A nossa famlia, com todos os seus midos, animais de estimao, pessoal, 
visitas, e as correrias normais de um grupo de crianas de um lado para o outro, parecia deix-lo 
extremamente ansioso. Enquanto todos ns estvamos habituados a isso, quanto mais velho ele estava, 
menos era capaz de lidar com os estmulos e a confuso. Para lhe aliviar o stress, fiz o trabalho de campo 
de entrevistar novos psiquiatras. E a nica coisa em que pensava, enquanto ia de um psiquiatra para outro, 
era numa cena do filme Quem Chamou a Cegonha?, onde Diane Keaton. entrevista ambas. Cada uma era 
pior que a anterior, desde mulheres religiosas at outras a que s lhes faltava o chicote e usarem roupa de 
cabedal. Os psiquiatras que visitei no eram to exticos, mas alguns eram igualmente  engraados.
Gostei particularmente de um que disse que achava que toda a famlia devia fazer a terapia, assim como o 
resto dos familiares, tias, tios, avs. Olhei para ele com ar divertido e expliquei-lhe que a nossa famlia 
consistia efectivamente em onze pessoas, as mais novas das quais tinham seis, sete e oito anos, e as outras 
um pouco mais velhas, e dificilmente eram responsveis pelos problemas de Nick. E se amos pr "o resto 
dos familiares" na terapia, isso acarretaria que mais nove pessoas teriam de voar para aqui desde stios 
longnquos como Londres, Nova Iorque e Tquio. A perspectiva dessa situao no pareceu preocup-lo. 
No total, ele teria de interrogar vinte e duas pessoas antes de ter conhecimentos suficientes para se dedicar 
aos problemas de Nick. E disse tudo isto com ar srio.
Outro parecia to deprimido que me senti deprimida ao falar com ele, e no acho que Nick gostasse dele. 
Os bons (reconheo) no estavam a aceitar novos doentes, os mais excntricos pareciam ter montes de 
tempo para Nick, e no conseguia compreender porqu, mas no me sentia  vontade com eles.
Contudo, o homem que Julie descobriu parecia ser ptimo, O Dr. Seifried era inteligente, sensvel, prtico 
e racional. Numa relao mdicodoente com um rapaz to perturbado como Nick, pelo menos um deles 
tinha de estar so, e no momento no parecia ser Nick. Falmos longamente ao telefone pela primeira vez, 
e ele disse-me que parecia haver uma questo qumica com Nick, e que provavelmente a famlia tinha 
pouco ou nada a ver com isso, dado o que sabia acerca de ns. No tinha nenhum interesse em examinar o 
resto dos midos, John, eu, os pssaros, os ces ou o coelho de Maxx. Centrou a sua ateno inteiramente 
em Nick e afirmou que problemas como os dele geralmente no so causados pela famlia ou pelo meio 
ambiente em que vivem, "De facto", disse, para meu deleite e minha surpresa, "se for uma questo 
qumica, mesmo eu no posso fazer grande coisa por ele. O que provavelmente precisa, primeiro que tudo, 
 de medicao adequada." Aleluia! Tive vontade de gritar ao ouvir isto, ou mesmo de beij-lo. Eu sabia 
h j um ano que a medicao adequada para ele era a questo crucial.
Nick comeou a ter sesses com o mdico quando voltou do hospital, e ele via Nick com frequncia, antes 
de comear a vir visitar-me. Gostei dele no instante em que o conheci. Tinha um rosto feliz e inteligente, 
olhos afveis, um sorriso fcil e um grande sentido de humor. Era incrivelmente inteligente, 
extraordinariamente prtico, e era evidente que sabia o que estava a fazer. E, ainda mais importante do que 
isso, nas sesses que teve com Nick, Nick gostou realmente dele: um verdadeiro bnus. 
No era de meias-palavras quando discutia os problemas de Nick comigo. Lera todo o material que 
tnhamos, a primeira avaliao, a segunda, realizada no ltimo hospital, os relatrios da escola, e 
colocava-me montes de questes pertinentes. O seu diagnstico foi bastante objectivo. Acreditava que 
Nick sofria de "distrbio de dfice de ateno" e doena depressiva, e havia a possibilidade de ele ter 
leves leses neurolgicas. Havia tambm a hiptese de a sua experincia com drogas, nos ltimos trs 
anos, poder ter causado leses suplementares. Existia tambm a possibilidade, como j nos haviam dito 
anteriormente, de Nick ser atipicamente manaco-depressivo, o que dificultara o diagnstico. Ao que 
parece, os adolescentes com esta doena so mais difceis de diagnosticar do que os adultos, podendo ter 
sido essa a razo de o seu psiquiatra anterior ter ficado hesitante relativamente ao diagnstico. Outra coisa 
que me preocupara durante anos eram os comentrios de amigos bem-intencionados que diziam que Nick 
era apenas um "adolescente normal" ou um rapaz "espirituoso". Os meus esforos para dar conta da 
gravidade da situao em que ele se encontrava eram menosprezados, o que me fazia sentir perdida e s.
Tive uma sensao de assoberbante alvio durante cerca de vinte segundos enquanto ouvia o Dr. Seifiried. 
As suspeies que eu tivera durante a maior parte da vida dele estavam correctas. Havia na verdade algo 
de errado com Nicky. Algo de grande gravidade. Mas no fora a minha imaginao. Ele estava 
efectivamente em apuros. Porm, era um alvio ouvir outro ser humano diz-lo com franqueza e confirmar 
os meus receios. Todavia, o alvio e a excitao que eu sentia foram instantaneamente varridos por uma 
sensao de pnico: "Oh, merda... agora, o que  que fazemos por ele?" Era uma questo importante, e 
no tinha uma resposta fcil.
Como suspeitara desde o principio, o mdico disse que era essencialmente uma questo de reajustamento 
qumico. Tinha tudo a ver com a medicao de Nick, se era boa, como  que ele reagia a ela, e descobrir a 
correcta. Afinal, no tinha nada a ver com a educao que eu e John lhe dramos, nem com o facto de 
"dizer-lhe no", nem com a assinatura de contratos. Em grande parte, tinha a ver com qumicos e 
medicamentos para equilibrar o sistema nervoso de Nick. Tambm receberia tratamento psiquitrico, 
naturalmente, para tentar conversar com ele, para o manter equilibrado e tentar lidar com o seu fraco 
controlo de impulsos, embora isso tambm fosse de origem qumica. A nica coisa que queramos era 
ajud-lo a levar a vida mais normal e feliz possvel. Mas o mais importante de tudo para ele, o essencial, 
eram os medicamentos.
"Como  que descobrimos os medicamentos correctos?", perguntei, com alguma inocncia,  espera de 
que houvesse uma plula mgica para esse efeito. Para Nick, ainda no tinham sido uma soluo adequada. 
Os medicamentos que ele tomara no lhe tinham feito grande coisa.
"E uma boa questo", respondeu o mdico. "Colocando a questo do ponto de vista cientfico", disse ele 
com um sorriso, "de agora  em diante, vamos atirar vrias setas contra uma parede esperamos que algumas 
fiquem espetadas.  um mtodo muito rudimentar mas  a melhor coisa que podemos fazer. O Nick vai ter 
de ser paciente." A pacincia no era um dos atributos de Nick, nem meu, mas parecia que no tnhamos 
muito por onde escolher. O que ajudava era que o mdico parecia franco e objectivo. Gostava mais dele 
do que esperara. Dera-me alvio, conforto, fundamentao, objectividade, esperana para Nick, e todo um 
novo conjunto de problemas para enfrentar. Tentei falar acerca das implicaes a longo prazo da doena 
de Nick, mas o mdico achou que era muito cedo para fazer isso. Havia muitas coisas a averiguar 
primeiro, e Nickainda era muito jovem. Segundo ele, era muito pouco comum diagnosticar-se com 
segurana a psicose manaco-depressiva aos quinze anos, da a razo por que todos os mdicos a que 
framos tiveram tanta relutncia a fazer esse diagnstico. Os diagnsticos incorrectos podem ser feitos 
dessa maneira, e concluir que ele era manaco-depressivo seria um acto de extrema responsabilidade. Era 
ainda mais impressionante quando se pensa que, provavelmente, ele j o era desde os doze ou treze anos. 
Como veio a verificar-se, foi uma declarao muito precoce da doena, e, como geralmente se manifesta 
aos vinte e poucos anos, no consegui deixar de pensar como seria para Nick quando chegasse quela 
idade. Com uma desvantagem de dez anos relativamente  maioria das pessoas que manifesta doena 
mental, ele ficaria muito pior, conseguiramos deter a doena, ou, pelo menos ensin-lo a viver com ela 
com os medicamentos apropriados? O mdico de quem eu gostava tanto disse-me que no havia uma 
maneira de saber, mas tinha uma sensao vagamente desconfortante de que ele no estava muito 
optimista. J ouvira bastante para um dia, e apesar da minha familiaridade com os problemas de Nick, e o 
a sentira ao ouvir darem-lhes um nome, sentia-me tonta com a gravidade do veredicto.Como viria a 
acontecer frequentemente nos quatro ano seguintes, eu comparava o problema de Nick com a diabetes 
juvenil, que  geralmente mais grave do que a diabetes que se declara em adulto. Mas  uma doena que 
requer constante e conscienciosa administrao de medicamentos para manter o doente vivo e a funcionar. 
No  uma coisa que se possa fazer inadvertidamente,  uma doena que pode ameaar a vida, como era a 
de Nick, e  tambm muito mais grave quando se manifesta precocemente em crianas. Ao pensar nisso, 
perguntei ao mdico que tipo de medicamentos  que Nick iria tomar, mas ele ainda no tinha a certeza. 
No queria receitar-lhe uma coisa to forte como o ltio. No estava absolutamente convencido de que era 
a altura adequada para lho receitar e tomar ltio na idade de Nick apresentava um enorme risco para ele, 
particularmente um desafio potencial aos seus rins. Nick ia ter de viver com a sua doena a vida inteira. E 
ia ficar dependente de medicamentos at ao resto da vida. No havia cura para a doena de Nick, 
especialmente se, entretanto, ele se transformasse num manaco-depressivo tpico. A nica coisa que eu 
no entendia na altura era a rapidez com que a depresso manaco-depressiva podia ser fatal. No fazia 
ideia da elevada taxa de suicdio entre as pessoas que sofriam daquela doena. Disseram-me 
informalmente que 60 por cento dos manaco-depressivos tentam o suicdio e 30 por cento so bem 
sucedidos. Tivesse eu sabido isso na altura e ficaria em pnico, embora no esteja certa de que fizesse algo 
de diferente. J fazamos tudo o que podamos por ele. Eu achava que amos lutar pela qualidade da sua 
vida. No sabia que amos lutar pela sobrevivncia, nem da elevada probabilidade de no ganharmos 
aquela batalha.
Uma coisa de que estava segura, quando ouvi o que o Dr. Seifried disse, era que no sentia nenhum 
estigma ligado aos problemas de Nick. Sentia tristeza por ele, e pelo fardo que carregava, e alvio por ter 
pelo menos uma ideia ligeiramente melhor do que fazer. Mas no tinha vergonha dele ou de ns. Sentia-
me mais protectora que nunca, e grata por termos chegado onde chegmos e termos descoberto um mdico 
que, acreditava, o ajudaria.
O medicamento que o mdico queria experimentar em Nick era o Prozac, e, se ele se desse bem, iramos 
tentar juntar-lhe outro medicamento mais tarde, ou mesmo vrios, mas o mdico ainda no determinara 
quais. Espervamos que o Prozac o ajudasse a debelar a depresso. Como o mdico dissera, era um jogo 
de risco que tnhamos de aprender a jogar, por tentativas. E uma coisa em que concordramos era que no 
amos discutir o assunto com Nicky, ele no estava preparado para ouvir, encontrava-se ainda demasiado 
fragilizado. A nica coisa que precisava de saber, por agora, era que amos trocar a sua actual medicao 
por Prozac.
Ao princpio, ele pareceu dar-se bem com o novo medicamento. Gostava bastante do novo psiquiatra, 
achava-o "fixe". Gostava da nova escola, e o seu estado de esprito parecia melhor, provavelmente devido 
a uma srie de factores. Julie ainda o visitava em casa cinco vezes por semana, e aos fins-de-semana se 
houvesse uma crise. Uma crise podia significar uma discusso por causa de um concerto a que ele queria 
assistir, ou o facto de no escovar ou pentear o cabelo h meses. Decidira fazer caracis, o que, com os 
seus finos cabelos sedosos, foi um desafio cultural. Parecia um semabrigo, mas estava feliz. Era um 
problema, mas era o menor dos seus problemas. Estava mais preocupada com o que estava debaixo do 
cabelo do que com a forma como ele o penteava. Posso dizer agora que havia alturas em que ele me punha 
doida com o seu aspecto desleixado. Eu ainda tinha padres muito mundanos, embora Nick me tivesse 
ensinado muitas coisas acerca de "normas" e "padres". E s vezes parecia-me adorvel nas suas  
vestimentas bizarras. 
Quando chegou a Primavera, parecia melhor, embora s vezes ainda estivesse deprimido, ainda 
mantivesse um comportamento difcil a maior parte do tempo e ainda continuasse a no conseguir dormir 
 noite. Vagueava pela casa como um hamster num tambor rotativo, o que, sei agora, era tpico de uma 
pessoa manaco-depressiva.  caracterstico da doena trocar o dia pela noite e vice-versa, o que 
significava ficar muitas vezes acordado at s quatro ou cinco horas da manh e estar num estado quase 
comatoso quando o tentvamos acordar de manh. No acrescentramos mais nenhum medicamento. O 
mdico queria avanar lentamente, mas estava preparado para isso se necessrio. Eu sentia que trabalhar 
com o Dr. Seifried era completamente diferente de trabalhar com os outros psiquiatras. Estava sempre 
disponvel, extremamente interessado em Nick, e mostrava-se consciente e compreensivo em relao aos 
desafios que estvamos a enfrentar. Eu tinha uma lista de nmeros de telefone para ele, que cobria uma 
pgina inteira da minha agenda, inclusive o da irm e dos pais, no Ohio. E quando lhe telefonava, 
respondia aos meus telefonemas ao fim de algumas horas ou mesmo minutos.
A dose correcta de medicamentos que Nick tomava era um problema constante, que nos fez perder algum 
tempo at sentirmos ter atingido o equilbrio correcto entre a dose excessiva, que o deixava extremamente 
excitado, e a dose reduzida, que no lhe dava qualquer ajuda e o deixava deprimido e letrgico. Estava 
claramente menos agressivo e extraordinariamente menos infeliz do que estivera. Pode no ter sido a 
soluo perfeita, mas estava a ajudar.
Demonstrando grande optimismo, Julie e eu decidimos que Nick precisava de algo para fazer no Vero. 
No era bom para ele aborrecer-se em Napa. No era suficientemente maduro, nem demonstrava 
confiana, nem se encontrava ainda em condies de arranjar um trabalho de Vero, era extremamente 
inconstante e quase to responsvel como um mido de dez ou onze anos. Assim, embora fizesse os 
dezasseis em Maio, um trabalho de Vero estava fora de questo. Mas andar a vaguear por Napa, isolado 
dos amigos, sem nada que fazer, era capaz de o deprimir. Comemos ento uma busca de um programa 
de Vero que fosse bom para ele e o mantivesse ocupado.
Como de costume, Julie atirou-se ao projecto com o zelo habitual, e arranjou um milho de sugestes. O 
problema era que Nick era difcil de colocar. E mesmo debaixo de medicao, no era fcil lidar com ele. 
O seu controlo dos impulsos era ainda insignificante, e fazia quase tudo o que lhe viesse  cabea, se lhe 
agradasse a ideia. Semanas antes, quando visitava Julie, decidira sair e dar um passeio, e f-lo na auto-
estrada, completamente indiferente ao potencial perigo. No tinha o verdadeiro sentido do risco para si 
prprio, e o Dr. Seifried explicara que a percepo que Nick tinha da dor era provavelmente um pouco 
imperfeita, no devido aos medicamentos que estava a tomar, mas como resultado do DDA e possvel 
depresso manaco-depressiva. J nos provara isso, quando resolveu certa noite, sozinho no quarto, que 
no gostava do cabelo, e pegara primeiro numa tesoura, depois numa navalha de barba para, desbastando-
o, fazer, achava ele, um corte de cabelo caseiro. Mas o corte caseiro no saiu bem, segundo ele, o que no 
era surpresa. Por isso, decidiu rap-lo totalmente e, ao fazer isso, golpeou a cabea em cerca de cem stios. 
Apareceu no meu quarto, com o sangue a escorrer do rosto, e dava a impresso de ter sido esfaqueado. 
Estava lavado em lgrimas, no por causa dos ferimentos que causara, mas porque no gostava do cabelo. 
E eu chorei com ele, pois cortava-me o corao ver a gravidade do seu estado. Usou um chapu durante 
semanas para esconder as crostas das feridas. Isso demonstrava, mais uma vez, que ele era potencialmente 
um perigo para si prprio, se no mesmo para os outros. E com uma imperfeita percepo da dor, ele era 
capaz de cortar um dedo, ou parte dele, enquanto cortava po para fazer uma sanduche. As pessoas com 
"distrbio, de dfice de ateno", aparentemente, nem sempre do por se ferirem, e continuam a fazer o 
que esto a fazer. Tinha de estar constantemente debaixo de observao, o que mais uma vez tornava um 
verdadeiro ,desafio descobrir o programa de Vero correcto para ele.
O problema era descobrir uma colnia de frias para midos normais, que fosse capaz de tomar a 
responsabilidade de lhe administrar a medicao. No podia perder uma toma, como um diabtico. Mas, 
quando falmos para as colnias, uma aps outra, disseram-nos que no estavam equipadas nem 
preparadas para lidar com uma situao de alto risco como a de Nicky. O que eliminou qualquer tipo de 
programa para midos normais. Pensmos no projecto denominado Rumo ao Exterior, por sugesto de 
John, mas explicaram-nos que um rapaz como Nick no s se poria a si prprio em perigo como aos 
outros rapazes que pudessem confiar nele. Tratava-se de um ptimo mido, mas no era possvel esconder 
o facto de no se poder confiar nele.
O que nos deixou apenas programas para crianas com distrbios, e havia muitos desses. Mas 
descobrimos rapidamente que eram frequentados por crianas ou adolescentes com distrbios muito mais 
manifestos do que os de Nick. Aparentemente, Nicky era mais funcional do que eles. O que nos deixava, 
uma vez mais, sem nenhum lugar.
At que descobrimos o que Julie, John e eu considermos o programa perfeito. Fomos mais que criativos. 
Olhando para trs, nem sei como conseguimos. S quando comecei a escrever este livro, a rever os 
registos e arquivos, a recordar-me das coisas,  que eu me dei conta de quantas coisas tentmos. Quantos 
esquemas bizarros, e outros no to bizarros, inventmos para o ajudar. 
Desta vez, porm, ela conseguira descobrir uma colnia destinada crianas com "carencias especiais". 
Parecia centrar-se sobretudo em crianas que haviam consumido drogas, mas diziam que tambm l havia 
alguns outros midos como Nick. Por isso, parecia ser uma escolha adequada. Era s para rapazes, e seria 
uma experincia saudvel e dura, mas Julie e eu conseguimos convenc-lo de que gostaria, embora, como 
Nick costumava dizer, ele detestasse a natureza. Era uma estada de quatro semanas, e eu ia tentar levar as 
crianas mais novas de frias durante o tempo em que Nick estivesse ausente. Infelizmente, no havia 
nenhuma hiptese de ele ir ter connosco. No conseguia acompanhar-nos, h anos que no o fazia, e at 
ele sabia disso.
No quero com tudo isto transmitir-vos a imagem de Nick sentado no quarto, de olhar vazio e a chorar 
durante todos estes anos. Pelo contrrio, aparentemente, para a maioria das pessoas, ele parecia um 
adolescente normal, obstinado, com manias bizarras e desleixado. Possua opinies sobre tudo, que 
defendia com veemncia, por mais impopulares que fossem, tinha amigos, e cada vez mais conhecimentos 
de msica. Mas o facto  que por trs daquele cenrio cuidadosamente pintado, escondia-se uma multido 
de demnios. Nick sabia disso, e ns tambm, tal como Julie e os seus mdicos, mas mais ningum. Ele 
encobria-o bem, durante curtos perodos, a maior parte do tempo e muitas pessoas julgavam apenas que 
ele era difcil. Afinal de contas, era um adolescente, no era? E a sua mente brilhante, a sua boa aparncia 
e o seu charme seduziam-nas. Mas, para aqueles que estavam prximos dele, no havia qualquer dvida 
acerca da sua doena. E nas raras ocasies em que eu confiava as minhas preocupaes a amigos ntimos, 
eles no me levavam a srio e diziam que todos os adolescentes eram difceis, e Nick no era muito 
diferente. Porm, Nick era muito diferente, e ns sabamo-lo. No conhecia outro adolescente que exigisse 
uma equipa de pessoas para o vestir, limpar e salvar de cortar um dedo quando fazia uma sanduche. 
Nenhum outro adolescente acharia um grande desafio ligar ou desligar a luz, fechar a porta do frigorfico 
ou puxar o autoclismo. Nenhum outro adolescente ficava acordado toda a noite, torturado pelos seus 
prprios demnios. Mas Nick encobria isso o melhor que podia, e ns fazamos o resto por ele, e 
ajudvamo-lo a parecer "normal", custasse o que custasse.
De facto, nessa Primavera, tommos uma deciso importante, para manter a nossa sanidade. A ideia foi 
minha desta vez, e tivemos de a vender a Nick, mas provou ser uma das coisas que tornou a sua doena 
suportvel para ns, e deu-me alguma paz de esprito. No final de contas, Nick no s aderiu  ideia, como 
at gostava dela. Decidimos contratar assistentes para ele.
Quando as crianas eram pequenas, e efectivamente at hoje, um dos presentes que ofereci a mim mesma 
na nossa casa de Vero, onde tnhamos uma enorme piscina ao ar livre, foi contratar nadadores-
salvadores. Com seis crianas pequenas e trs adolescentes, eu estava constantemente preocupada com 
possveis acidentes na piscina e que algum se afogasse. Ter jovens universitrios durante o Vero a vigiar 
atentamente os midos na piscina deu-me paz de esprito que no tinha preo. Alm disso, nove midos 
no so s nove midos. Nove midos so nove midos mais dez amigos. Num qualquer dia em Napa, 
havia quinze a vinte midos na piscina, e os nadadores-salvadores eram essenciais. Os assistentes para 
Nick eram. o mesmo conceito para mim, algum para ter os olhos em cima dele a toda a hora, ver se 
estava em segurana e lev-lo a qualquer stio. Como todos os midos da sua idade, precisava bastante dos 
servios de um motorista, mas tambm precisava de maior superviso do que o meu filho de seis anos. 
No adiantava esconder o facto de que precisvamos de estar constantemente a vigiar Nick. Fazer isso, ao 
mesmo tempo que se dava ateno as necessidades das outras crianas, era um desafio constante. Eu 
achava que os assistentes podiam ser de extrema importncia para ns. Ele tinha de ser levado para o 
duche, tinha de ter algum que o ajudasse a lavar o cabelo, a ministrar-lhe os medicamentos, fazer as 
coisas habituais que se tm de fazer com uma criana, como dizer-lhe para limpar o quarto (palavras ocas 
para Nick), e fazer-lhe os trabalhos de casa. Um assistente seria uma ddiva de Deus. Embora levasse 
algum tempo a convencer Nick e a encontrar um. Julie comeou as entrevistas. Tentmos arranjar pessoas 
j com experincia com midos problemticos, e, por falta de um lugar melhor para os procurar, Julie 
comeou a contactar os seus velhos recursos e a falar com pessoas que trabalharam com ela em programas 
de tratamento da toxicodependncia com adolescentes. Os problemas eram diferentes aqui, mas alguns 
estavam dispostos a experimentar uma nova rotina e um conjunto diferente de problemas. Muitos deles 
estavam extremamente optimistas relativamente  tarefa que tinham pela frente, pensando que iam mudar 
as coisas para Nick, pois ele era apenas um adolescente com uns parafusos a menos. Mais uma vez, como 
geralmente parecia um indivduo bastante funcional, ele muitas vezes enganava as pessoas, fazendo-as 
acreditar que era. E depois virava-se contra elas, opondo-se-lhes fortemente, insultando-as violentamente 
ou comportando-se como uma criana de cinco anos, Para um homem (e uma mulher, por fim), julgo que 
no estavam preparados para a tarefa, mas a maioria tinha bom corao, tinha desejo de aprender e era 
devotada a Nicky.Algumas pessoas adaptaram-se com rapidez  tarefa e ganharam rapidamente afeio 
por Nick, outras nunca conseguiram e saram aps uma breve estada, e levmos algum tempo a 
compreender do que  que ns e Nick realmente precisvamos. Nos quatro anos em que tivemos 
assistentes para Nick, houve pessoas excepcionalmente maravilhosas com ele, que ele adorava, e que 
vieram efectivamente a ador-lo. Para mim, ter um assistente com Nick tornava a vida mais fcil, com 
menos stress, e dava mais segurana a Nicky. No tinha de me preocupar tanto com ele. Sabia que Nick 
estava em boas mos quando havia algum de confiana com ele, e, logo que aderia  ideia, Nick gostava 
deles. Eles faziam exactamente o que eu lhe prometera que eles fariam, levavam-no onde queria ir, 
dedicavam-lhe constante ateno, era o foco central da ateno deles, e ele adorava isso quando era mais 
novo. Dizia aos amigos que eles eram guarda-costas, o que fazia  sentir-se importante.
Mais tarde, quando ficmos mais peritos a satisfazer as necessidades de Nick, e mais conscientes delas, 
contratmos assistentes psiquitricos para trabalhar com Nick. Havia sempre duas pessoas que 
trabalhavam com Nick, em dias e turnos alternados, e substitutos quando necessrio. Trabalhavam com ele 
sete dias por semana, horas a fio, e eram inseparveis de Nick. Os dois ltimos homens que trabalharam 
com ele afeioaram-se particularmente a ns, e a ele, e ainda hoje  visvel o quanto o adoravam. Paul 
trabalhou com ele durante mais de trs anos, e Cody durante bem mais do que um ano.  raro encontrar 
dois homens como Paul e Cody, e Nick via-os quase como irmos mais velhos. 
Os seus assistentes passavam mais tempo com ele do que qualquer outra pessoa, e acompanhavam-no de 
catorze a vinte e quatro horas por dia, dependendo do seu programa e das suas necessidades do momento. 
Era seguramente mais tempo do que aquele que passavam com os seus companheiros, esposas, amigos, ou 
com os prprios filhos. E, por mais adorvel que Nick fosse, no era sempre fcil estar com ele. Havia 
uma energia nele. Uma espcie de urgncia que significava que tudo tinha de acontecer "agora" com ele, 
o mais rapidamente possvel, logo no momento em que a ideia lhe vinha  cabea. Tinha ideias imprecisas 
do tempo, de modo que uma coisa que tivesse acontecido horas, ou mesmo dias antes, parecia-lhe j ter 
acontecido h anos. E uma coisa no futuro distante tinha de acontecer logo naquele instante.
A casa de Julie ficava a bem mais de uma hora da minha, uma hora e meia em horas de ponta, e, quando 
ele viajava entre a casa dela e a minha, ele e o seu assistente teriam de levar isso em linha de conta. Paul 
diz agora que nos trs anos em que o conduziu de um lado para o outro, Nick dizia sempre que a viagem 
demorava menos de vinte minutos. Como resultado, arrastava interminavelmente a discusso sobre o 
assunto, depois ria-se e dizia: "Diz  minha me que houve um acidente na ponte, Paul. No faz mal." 
Compreendo agora, olhando para trs  luz disso, que, se tivessem acontecido tantos acidentes naquela 
ponte como ele dizia, teria havido mais baixas do que na Guerra da Coreia, mas os seus atrasos nunca 
pareceram preocupar Nicky. Entrava sempre de rompante com um enorme sorriso nos lbios, dava-me um 
beijo e abraava-me, e desculpava-seHavia um cativante encanto de criana em Nick, mais que nunca nos 
ltimos anos. Adorava estar junto das pessoas que amava, tanto fsica como emocionalmente. Seguia-me 
por todo o lado, feliz por estar comigo, fazia o mesmo com Julie, e adorava aparecer com os seus 
assistentes atrs. Paul diz agora que quando saa a fazer alguma coisa, e deixava Nick com Julie ou 
comigo, arranjava instantaneamente uma pgina no seu beeper, invariavelmente seguida pelo cdigo "911 
", para indicar que era uma emergncia. Dadas as coisas que podiam acontecer com Nick, telefonava 
imediatamente para ver o que acontecera, s para ouvir a voz alegre de Nick dizer-lhe: "Ol, Pauly. Que 
aconteceu? S queria saber como estavas." Era difcil zangarmo-nos com Nick por coisas como aquela. 
Havia algo na forma como as fazia que tocava o corao. Era a sua maneira de dizer: "Ol... preciso de 
ti... adoro-te ... " Ele tambm achava fcil dizer essas coisas, mas tinha uma maneira de nos tocar que nos 
fazia sentir que ramos importantes para ele. E os homens que cuidavam de Nick, e iam para todo o lado 
com ele, eram muito importantes para ele. Especialmente no caso de Cody e Paul: ele admirava-os, 
respeitava-os e adorava-os genuinamente. E era evidente na altura tal como agora, que eles o adoravam 
realmente. E ele sabia bem.
Nalguns aspectos, estes homens conheciam-no melhor do que outra pessoa qualquer. Eles viam os seus 
pontos fracos, as suas fraquezas, os seus medos, as suas foras, os seus momentos de irreflexo. Cody 
conta outra histria, da generosidade de Nick. Ao que parece, quando se cruzavam com um sem-abrigo na 
rua, Nick parava, e em vez de lhe dar dinheiro, dava-lhe um mao de cigarros. E se no tinha nenhum 
consigo, ia comprar um. Nick era generoso para algum carente, e tambm o era para os amigos, 
oferecendo-lhes as suas coisas favoritas sem hesitar, ou comprando-lhes amveis presentes, tal como fazia 
com os irmos ou comigo. Adorava oferecer presentes s pessoas (tal como eu).
A tarefa dos assistentes tornou-se particularmente difcil durante os anos em que Nick andava em 
digresso com a banda. Estes homens, que tinham vindo cuidar dele e ministrar-lhe a medicao, 
encontraram-se subitamente dentro de ensurdecedoras salas de concertos, com luzes a acender e a apagar, 
no meio de uma multido de corpos quentes, suados e cheios de tatuagens, a ver Nicky cantar, a ajudar 
Nick, os tcnicos e os membros da banda a montar e a desmontar o equipamento no palco, ou sentados 
dentro de uma furgoneta durante quinze horas com nove adolescentes a andar de uma cidade para outra a 
dar concertos. Para fazerem isso, prescindiram das suas famlias, dos fins-de-semana, das frias, e 
provavelmente ficaram com problemas auditivos por causa da msica de Nick, mas ele adorava-os por 
isso. Com Nick a vida estava sempre cheia de surpresas, Uma das coisas que os seus assistentes faziam era 
irem com ele a sesses de tratamento da toxicodependncia em doze fases. As drogas no eram o principal 
problema de Nick. O seu maior desafio na vida era aprender a viver e a lidar com a psicose manaco-
depressiva. Mas quando se sentia em baixo ou descontrolado, ou no adequadamente protegido pelos 
medicamentos que estava a tomar, as drogas eram sempre uma tentao. A ida a essas sesses protegiam-
no de uma tentao que pudesse complicar com os seus problemas e interferir com os medicamentos que 
estava a tomar. Nick sabia que tinha de se manter afastado do lcool e das drogas. E para termos a certeza 
disso, fazamos anlises dirias  urina, e descompnhamo-lo quando as anlises acusavam, o que no 
acontecia muitas vezes. Mas, quando dizamos que ele no estava metido nas drogas, estvamos seguros 
de que no estava por causa das anlises.
O que me assustava nessa altura eram as histrias que ele contava sobre as suas hospitalizaes. Embora 
fosse geralmente franco connosco, no se coibia de contar histrias mirabolantes ao mundo exterior 
quando elas lhe serviam um propsito, ou engrandeciam a sua imagem. Quando esteve num hospital 
psiquitrico, contou aos amigos que estivera a fazer reabilitao, ou pior, na cadeia. Porque achava que 
isso o tornava mais interessante. E quando eu o repreendia por isso, ria-se e dizia: "Tem calma, mam." 
Aprendi a ter calma ao longo dos anos. Muita. Muito mais calma do que alguma vez pensara vir a ter. 
Nick deu-me muitas lies.
Porm, fossem quais fossem as suas primeiras opinies acerca das drogas, e por mais "fixes" que elas 
fossem, poucos anos antes de fazer vinte anos, ganhou-lhes uma forte averso. No s para si, como para 
os seus irmos mais novos. Tornou-se o que os midos chamam "certinho", ou seja, algum que se ope 
fortemente s drogas, ao lcool e ao sexo. De qualquer forma, de trs coisas, conseguiu vencer duas. E ns 
incitvamo-lo para fazer o mesmo ao resto. A nica altura em que tomou drogas nos ltimos anos de vida 
foi quando tentou suicidar-se. Noutras alturas, se bebia uma cerveja ou dava umas passas num charro, 
caamos sobre ele e pnhamo-lo no hospital para ajustar os medicamentos, e avisvamo-lo do risco que ele 
estava a correr com a sade e o seu delicado equilbrio. Mas nos ltimos anos, nunca tivemos de fazer 
isso. Ele controlava-se a si prprio, e tinha opinies muito - claras e racionais sobre o assunto. E, como 
Julie referiu, no h muito tempo, no foi uma luta fcil para Nick, por causa da sua doena e dos desafios 
que esta lhe apresentava, a luta para se manter limpo e para no se deixar cair na tentao de uma fuga 
para o consumo de drogas ilcitas foi mais difcil do que se pode imaginar. Foi uma autntica vitria para 
ele, e de que merecidamente se orgulhava.
Era, pois, esta a situao de Nick na Primavera em que fazia dezasseis anos. Tomava Prozac, ia  escola, 
tinha dois assistentes em turnos alternados para tomar conta dele em Junho foi para a colnia de Vero 
para "rapazes especiais". Estava um pouco desconfiado, mas apenas porque no morria de amores pela 
vida ao ar livre, e teria preferido ficar em casa e ido a concertos. Acabara de se juntar a uma banda 
chamada Link 8O, e estava entusiasmado por tocar com eles. Andava ansioso por voltar para a cidade para 
ter a oportunidade de tocar e ensaiar com eles. Mas convencemo-lo de que a experincia ao ar livre far-
lhe-ia bem, embora me picasse com isso. Eu detestava a vida ao ar livre tanto como ele.
Julie levou-o para a colnia com um fornecimento de medicamentos para quatro semanas, todos os nossos 
nmeros de telefone, inclusive o meu na Europa, enquanto eu viajava com John e os midos, e uma longa 
lista de instrues do mdico de Nick. Ficou tudo em ordem quando John e eu vomos para Paris com os 
midos. Foi uma viagem especial para mim, pois passei grande parte da minha infncia e da minha 
adolescncia ali. J l no ia h anos, e estava morta por mostrar as marcas da minha infncia aos meus 
filhos. S tinha pena de que Nick no pudesse l estar. Mas talvez um dia...
Recebi o primeiro telefonema dele poucos dias depois de chegarmos a Paris. Estava a meio da noite e 
parecia em pnico. Fora esperar de mais que tudo corresse calmamente, e agora eu estava a nove mil 
quilmetros de distncia, a comer crepes e a andar de metro com os midos.
"Que se passa?", perguntei, tentando parecer natural. Mas eu sentia o nervosismo na sua voz. Suspeitei 
que parte dele fosse psicolgico, porque nunca sara de casa antes, e Nick gostava de saber que me tinha 
junto dele. Sentia ansiedade pela separao, o que no era habitual num rapaz da sua idade, mas o 
psiquiatra dissera que isso se devia no s  doena, mas tambm porque eu nunca o deixara. "Como 
ests, querido?", indaguei, esperando acalm-lo com o tom da minha voz. No gostara que o deixassem, e 
pela primeira vez em vrios anos no me tinha a mim, nem John, nem Julie, nem os seus assistentes. Mas 
com dezasseis anos de idade, espervamos que estivesse preparado para isso, todavia, ao ouvi-lo, duvidei 
que estivesse. ,
"No esto a dar-me os medicamentos, mam, e estou a ficar louco." Parecia ansioso, e era raro nele 
chamar-se "louco", ou admitir que precisava desesperadamente de medicamentos. Supus por instantes que 
ele estava a fazer toda aquela encenao para o trazermos para casa, como acontecera com as suas velhas 
histrias sobre tortura e tormento, quando era uma criana de dez anos e achava que eu precisava de 
alguma emoo.
"Tens a certeza?" Fiquei preocupada, mas no quis que ele se apercebesse disso.
"Claro que tenho a certeza." Pareceu sentir-se insultado com a pergunta.
"Vou telefonar  Julie", prometi.
"Quero voltar para casa, mam." Parecia um mido de cinco anos e destroava-me o corao com este 
tom de voz.
Eu sei, querido. Tem mais um pouco de pacincia", encorajei-o. "Estaremos em casa dentro de pouco 
tempo."
"Tira-me daqui... eles no vo dar-me os medicamentos." Nick estava prestes a chorar ao dizer isto. "Vo 
dar, vo", prometi. "Vou telefonar  Julie." Julie, a solucionadora de todas as crises e problemas. Julie, 
que h muito tivera de deixar os seus doentes particulares porque Nick era um projecto a tempo inteiro. 
Que diabo teria eu feito sem ela? Implorei a Nick para ter calma, e telefonei a Julie imediatamente embora 
fosse muito tarde para ela, mas nunca se queixou de telefonemas a meio da noite, em caso de crise. Tal 
como eu, ela achava improvvel que eles no estivessem a dar a medicao a Nick, mas, quando lhes 
telefonou, disseram-lhe que ele tinha de se responsabilizar por tomar os seus medicamentos, e tinha de 
informar a sala de medicao s sete da manh ou eles no lhe dariam os medicamentos.
Ficmos ambas em pnico quando ouvimos aquilo. Estvamos  espera que a colnia desse os 
medicamentos a Nick, e no que ele Fsse responsvel por eles, o que no conseguiria. E Nick devia estar 
a sentir-se mais em pnico que ns, e desesperado, porque, ao que parece, entrou no armazm dos 
medicamentos da enfermaria nessa noite e tomou qualquer coisa. S Deus sabe o qu, para acalmar a 
ansiedade, e eles ficaram furiosos. Mas ir  sala de medicao s sete da manh todos os dias era de mais 
para ele.
No dia seguinte, o telefone tocou quando amos a sair do nosso quarto do hotel em Paris para apanhar um 
avio para Londres. Eram Duas da manh para Nick e ele estava frentico. "Vou sair daqui, mam. No 
posso c ficar. Ainda no me deram os medicamentos." Merda. Era o Dia do Pai nos Estados Unidos. 
Encontrava-me a nove mil quilmetros de distncia, e estvamos prestes a perder o avio para Londres. 
Mas tambm no o podia abandonar, e eu sabia, pelo tom de voz, que estava desesperado e assustado. E, 
sem os medicamentos, o seu controlo dos impulsos devia estar a um nvel muito baixo. S Deus sabia o 
que ele faria para aliviar a situao E a nica coisa que eu podia fazer era falar-lhe calmamente. 
"Nick, no podes vir-te embora. S mais um dia. D-me s mais um dia. Vou mandar a Julie ter contigo 
amanh." A providencial Julie. De novo metida num avio para ir salvar Nick. Era uma pena a colnia 
no ter resultado. Teria sido to bom dar-lhe uma experincia normal para variar. Foi aborrecido e 
decepcionante. "No posso esperar" disse Nick num tom decidido."Podes, sim. S at amanh. No posso 
pedir isso  Julie no Dia do Pai. Ela vai buscar-te amanh, e eu no tardo a estar em casa. Podes ficar com 
ela at eu chegar." Nick j passara alguns fins-de-semana com ela quando os assistentes precisavam de 
uma folga, e eu sabia que ele gostava de l estar. "Olha, telefono-te dentro de ... ", fiz um clculo rpido, 
"trs horas, de Londres. No saias da."
"Mam, vou sair daqui."
"No vais, no, Nick." Tentei dar um tom mais de firmeza do que de pnico. "Vais ficar a sentado at 
algum te ir a buscar. Vinte e quatro horas. Prometo." E com aquilo, algum interrompeu a conversa. 
Conseguia ouvir em fundo que algum na colnia o descobrira ao telefone e estava a admoest-lo por estar 
a telefonar  me na Califrnia.
"No estou", disse Nick com franqueza. E eu sabia o que ele queria dizer. Eu no estava na Califrnia. 
Estava em Paris. Ele estava a telefonar do gabinete do director. Nicky nunca tinha vergonha de fazer o que 
sentia que tinha de fazer, para conseguir o que queria. E desta vez no fugia  regra.
"Nick, telefono-te dentro de trs horas. Prometo." Desliguei ento, e mal tivemos tempo para apanhar o 
avio para Londres. E no instante em que entrei no quarto de hotel, a, o telefone tocou. Era Nick. Seguira 
cuidadosamente o nosso itinerrio, e fiquei contente por ele o fazer, dada a situao em que ele se 
encontrava.
"Ests bem?", perguntei-lhe. A voz pareceu-me melhor quando atendi o telefone. Estava obviamente mais 
calmo, o que me deixava m . reconfortada. "Sim, estou bem." E ento, de sbito, fiquei curiosa. Ele 
parecia estar demasiado agitado. Talvez at um pouco manaco. Mas sem os medicamentos, isso no me 
surpreendia.
"Onde ests, Nick?", indaguei calmamente.
"Numa cabina telefnica na auto-estrada." Fizera o que dissera. Sara da colnia a meio da noite, duas 
semanas sem medicamentos, e estava num lugar qualquer, na auto-estrada. O meu maior receio era que ele 
apanhasse uma boleia de um camionista, e desaparecesse para sempre. Embora no o desse a entender, 
estava fora de mim.
Perguntei-lhe se voltaria para a colnia, apenas para me fazer a vontade, mas ele estava decidido e eu 
sabia que aquilo no me levaria a lado nenhum. Ele estava para l do racional nessa altura, e a sua falta de 
controlo dos impulsos levara-o longe de mais para voltar. Tinha de pensar noutras opes. "O que h por 
perto, Nick? Vs alguma coisa? Uma cidade?" Eu estava a procurar s cegas, quando John passou perto de 
mim com uma expresso preocupada. Era inegvel que com Nick havia sempre um drama. Nunca havia 
um dia fcil ou umas frias descontradas. E agora, como habitualmente, todo o meu ser estava centrado 
em Nicky. "H um motel", respondeu tranquilamente. "Onde?" "Do outro lado da rua." J percorrera 
uma longa distncia na auto-estrada, o que me ps o corao a bater mais depressa. "Como  que se 
chama?" Ele disse-me e anotei o nome. "Muito bem, agora quero que me ouas, Nick, e estou a falar a 
srio. Vai para o motel e arranja um quarto. Telefona-me se precisares, e eu dou-lhes o nmero de um 
carto de crdito como garantia. Vai para o quarto e no saias de l. Mando algum ter contigo logo que 
possa, mas quero que me prometas que no vais para lado nenhum, ou vais estar num GRANDE sarilho." 
Tentei dar-lhe a impresso de que estava a falar a srio, mais preocupada que assustada. No conseguia 
imaginar quem  que iria mandar para ali busc-lo. 
"Posso pedir pizza?" Parecia satisfeito com o plano. Mais satisfeito do que eu, mas pelo menos havia um 
motel para ele ir. "Claro. Pede aquilo que quiseres. Telefono-te quando souber quem  que vai buscar-te. 
E, lembra-te, no saias da! "Est bem, mam. Adoro-te." Parecia novamente mais contente. Um mido 
louco, mas como o amava! "Tambm. te adoro, Nick."
Todos os planos da tarde com os midos foram pela janela fora, enquanto voltava a pegar no telefone. 
Mas estvamos habituados a isso. John levou-os a dar uma volta sem mim. "A mam tem de cuidar do 
Nicky." Quantas vezes ouvira eu aquilo? Vezes sem conta. Mas era aquela a realidade da minha vida, da 
dele, e da deles, e da de John. No havia opes fceis. Eu estava sempre a decepcionar algum por cuidar 
dele. Mas haviam crescido com isso e compreendiam, pelo menos eu esperava que sim.
Telefonei a Julie e pu-la a par da situao. Ficou to em pnico como eu, mas era o Dia do Pai e no podia 
deixar o marido e os filhos.
A seguir, telefonei a Camilla, a nossa ama de h muitos anos,..' que ficara em casa, misericordiosamente, e 
no viera na viagem. Agora sei porqu. Afinal, havia um Deus. Telefonei-lhe, encontrei-a em casa e 
contei-lhe o que se passara. Telefonou-me cinco minutos depois. Se ela se dirigisse para o aeroporto como 
uma louca, e no se preocupasse em fazer as malas, conseguiria apanhar dois avies de ligao e estar 
com ele dentro de cinco horas. Se consegussemos mant-lo no quarto do motel durante aquele tempo, ele 
ficaria nas mos carinhosas e competentes dela. Eu sabia que ele ficava em segurana da a cinco horas. 
Ela poderia avaliar a situao l e traz-lo calmamente para casa, para Julie.
"Vai!", disse eu, e ela saiu disparada, sem sequer levar uma muda de roupa consigo, nem uma escova de 
dentes, como referiu mais tarde.
Telefonei para Nick, disse-lhe que Camilla estava a caminho e ameacei-o se ele sasse do quarto do motel, 
e ele prometeu que no sairia. Parecia satisfeito, disse que estava a ver televiso e pedirapizza para o 
pequeno-almoo. ptimo. Com os nervos que estava nem sequer almocei, e agora tinha de sobreviver a 
cinco horas de ansiedade at que Camilla l chegasse. Telefonei a Julie e contei-lhe o que estava a 
acontecer, e tambm ficou aliviada. Depois, com a esperana de que tudo estivesse debaixo de controlo 
como ia estar, telefonei para a colnia donde Nick sara. Queria ver o que  que eles iriam dizer-me. J 
telefonara para casa a confirmar, e no me tinham deixado qualquer recado. Tambm tinham o meu 
itinerrio, mas tambm no me telefonaram para Londres. 
Quando atenderam, pedi para falar com Nick e responderam-me que ele estava ocupado.
"A srio? O que  que est a fazer?", perguntei com voz doce.
"A andar a cavalo", responderam, mentindo.
"Que maravilha!" Nick detestava cavalos. "Quando  que ele volta?"
"Daqui a pouco", responderam vagamente, parecendo nervosos. Estavam a mentir, e ainda no me tinham 
telefonado para me dizerem que ele desaparecera.
Telefonei de novo nessa tarde para minha casa, de manh para eles, e continuavam a dizer que ele estava 
nas suas actividades. Ao terceiro telefonema, revelei o que se passava. Disseram que tinham estado a 
tentar contactar-me durante todo o dia em casa e no hotel, o que era uma autntica mentira, e eu disse-lhes 
isso. Perguntei-lhes se sabiam onde  que ele estava, mas acabaram por admitir que no sabiam. E, quando 
lhes perguntei se j tinham telefonado ao xerife a comunicar que um adolescente com distrbios 
emocionais tinha desaparecido, responderam que no, mas que "iam telefonar". Fiquei lvida. Daquilo que 
sabia, achava que eles tinham posto a vida do meu filho em risco, primeiro que tudo, e sobretudo ao no 
lhe darem a medicao de que ele estava dependente para se manter equilibrado, e que tinham a obrigao 
de lha dar. Eles no conseguiram arranjar nenhuma desculpa para me apaziguar. Que teriam feito se 
tivessem perdido realmente o meu filho, especialmente no estado em que ele estava, e lhe tivesse 
acontecido algo? Disse que lhes telefonaria quando o descobrssemos, mas queria esperar at que Camilla 
chegasse l, porque no queria que o levassem para a colnia agora. No tinha confiana neles.
Pouco depois, Camilla telefonou. Tinha-o em segurana, e estava no motel com ele. Ele parecia estar 
satisfeito, e pedira quatrocentos e oitenta dlares de pizza, o que confirmava o que eu pensara, quando 
achava que ele parecia manaco. Tambm comprara um charuto, e estava a fum-lo quando Camilla 
entrara no quarto.
O resto do que Camilla me contara era tpico de Julie. Camilla fora a correr para o avio, como prometera, 
e depois mudou de avio para ir ter com Nicky. Era um pequeno avio e no se incomodara a olhar em 
redor quando se sentou. Estava distrada e a pensar em Nick. Quando saiu do segundo avio, viu um rosto 
familiar a sair do avio atrs de si. Era Julie. Com ou sem Dia do Pai, Julie ficara extremamente 
preocupada com Nick e acabara por deixar a famlia para estar com ele. Apanhara um voo diferente para 
fazer a mesma ligao de Camilla, mas nenhuma delas se vira quando entraram no avio.
Foram juntas para o motel, e, quando entraram no quarto e viram Nick a fumar um charuto, ele riu-se ao 
v-las.
O resto que elas me contaram ao telefone foi muito menos divertido. Nick contara-lhes quase de imediato 
que se sentia completamente desequilibrado, e, pela primeira vez, disse a Julie que queria e precisava de ir 
para um hospital at ficar "normal". Ficara demasiado tempo sem tomar medicamentos, e ele sabia disso. 
Foi a primeira vez que pediu para ser hospitalizado, o que me preocupou e impressionou. Contou a Julie 
que se sentia de rastos e que estava assustado. Mas, pelo menos, estava em segurana, e ela e Camilla 
estavam junto dele.
Telefonei para a colnia a dizer que ele estava em segurana, e depois para o mdico de Nick, que 
concordou que hospitaliz-lo era uma boa ideia nessas circunstncias. Quando falei a Julie, ela sugeriu o 
hospital que lhe fizera a avaliao quatro meses antes, pois ficara bem impressionada com eles. E o Dr. 
Seiffied prometeu ir v-lo. O meu telefonema seguinte foi para o director do hospital, que prometeu 
arranjar uma cama para ele logo que o levssemos para l.
Eu passara o dia inteiro ao telefone. As crianas e John tinham regressado do seu passeio, e eu ainda 
estava demasiado aturdida para falar com eles. Tinha de pr Nick noutro avio com Julie e Camilla, que 
haviam concordado em lev-lo para o hospital. Fiquei imensamente aliviada por elas estarem com ele, 
embora me sentisse culpada por no estar l.
Entretanto, nem Camilla nem Julie tinham roupa com elas, nem Nick, que deixara tudo na colnia, e eles 
tinham prometido enviar-nos as suas coisas.
Estavam num avio duas horas mais tarde. Como de costume, conseguramos uma vitria esforada, mas 
eu estava com os nervos esfrangalhados depois de desligar o telefone. J decidira que iramos buscar Nick 
quando regressssemos da Europa. Pelo menos, ele estaria em segurana agora. Entretanto, Julie ia ficar 
num hotel perto do hospital. Mas sabamos que, dentro de uma ou duas semanas, iramos t-lo de novo 
nos carris com o Prozac.
Pousei finalmente o telefone e fui ter com os meus outros filhos. s vezes era difcil estar alegre para eles. 
O fardo que eu carregava no era pequeno, e eles sabiam disso. Mesmo quando no lhes dizia o que estava 
a acontecer, eles quase sempre sentiam o que se passava. Especialmente Sannie, que tinha ento doze 
anos. A guerra entre Nick e Sammie acabara h muito. Ela adorava-o. Dedicava-se completamente a ele e 
protegia-o bastante.
Ao ver o meu rosto, interrogou-me imediatamente. "Passa-se alguma coisa com o Nick, no passa?" 
Admiti que sim, mas asseverei-lhe que ele ia para uni hospital durante uns dias, e voltaria para casa em 
breve. Mas vi nos seus olhos como estava preocupada com ele, tal corno todos ns.
Ficou zangada por eu o pr num hospital, e encarava isso como uma espcie de punio que eu arranjara 
para ele. Ela sabia quanto  que ele detestava estar em programas ou hospitais. E sempre que estava, ela 
via isso como uma autntica traio da minha parte, mais do que uma segurana. Expliquei-lhe que ele 
queria ir para o hospital desta vez, o que ela achou incrvel. Ao passar por acaso, Victoria, que tinha 
apenas onze anos, foi muito maispragmtica relativamente ao assunto. Enquanto Sam me repreendeu por 
"tranc-lo" Victori olhou para ela e encolheu os ombros.
"V l, Sam, ele est doente sabes isso. Ele precisa." Todos sabiam isso. Tinham crescido com a situao. 
Aceitaram Nick pelo que ele era, e muito embora s vezes tornasse as suas vidas difceis, especialmente 
quando tomava muito do meu tempo, eles adoravam-no, e, felizmente, ele sabia isso.

UM VERO LONGO E DIFCIL

O final da viagem para a Europa correu bem. Os midos divertiram-se, e eu e John tambm. Mas os 
relatrios que eu recebia do hospital onde Nick estava no eram bons. Aquilo que havamos previsto como 
sendo uma estada curta estava a prolongar-se. Eles achavam que Nick necessitava de internamento e 
beneficiaria ficando por tempo indeterminado, talvez todo o Vero ou mais. E Nick sentia-se 
extremamente infeliz por causa disso.
Eu no sabia para que lado me voltar. Ele parecia aborrecido, mas os mdicos garantiam-me que podiam 
ajud-lo. J tinha falado com o director do hospital e gostara dele, e ao princpio os conselheiros e os 
mdicos que ele l tinha pareciam interessados nele. Mas, passados poucos dias, o director ausentou-se 
para gozar um ms de frias, e os conselheiros comeavam a parecer sentir-se frustrados e hostis. Quanto 
mais tempo l passava, menos Nick cooperava com eles. Parecia zangado e agressivo e eles estavam a 
tocar a nossa velha e familiar melodia, cuja letra eu sabia demasiado bem. Criana clebre, abandonada e 
mimada, e me indiferente. ptimo. Mas era inegvel que Nick no se encontrava bem. Mesmo com a 
medicao, parecia piorar em vez de melhorar. No tinha a certeza se era por causa de estar no hospital ou 
se estava realmente a piorar, do ponto de vista psiquitrico. O Dr. Seifried foi v-lo conforme prometera e 
concordou que Nick ainda no estava em condies de ir para casa. E mais uma vez, assim que ficou 
internado, Nick comeou a ficar menos funcional e a cooperar menos que nunca.
John e eu fomos v-lo no caminho de regresso a casa, e no gostei do que vi. Estava com um ar cansado e 
plido e parecia irracional e desesperado. Queria vir para casa comigo, mas dava a impresso de estar 
demasiado magoado para conseguirmos lidar com ele. Necessitava de se acalmar de novo antes de o poder 
trazer para casa, independentemente de desejar muito libert-lo. E tentei, em vo, explicar-lhe isso. Ele 
pensou que eu estava a abandon-lo ali, e receou que eu o deixasse l para sempre.
O problema que o hospital tinha com Nick era que ele no se encaixava em lado nenhum. Era demasiado 
inteligente e demasiado sofisticado para estar com os midos da sua idade, que se encontravam l por 
variadssimas razes. Mas quando o puseram com os adultos, apesar de ele interagir socialmente bem com 
eles, e em grupos de terapia, no tinha efectivamente nada em comum com eles. As suas experincias de 
vida eram muito diferentes. Ele no estava a lidar com filhos, esposa e emprego, aos quais no soubesse 
fazer frente. Ele fazia o que queria dos adolescentes e de alguns conselheiros. E, como habitualmente, 
criou violncia  sua volta. Mais uma vez, mostrou-se incapaz de seguir os regulamentos, ignorou as 
proibies de fumar e pegou fogo ao tapete do quarto, queimou uma parede inteira ao pr um clip numa 
tomada ao tentar fazer algo extico e extremamente perigoso com ele para acender um cigarro. Felizmente 
no se magoou. Mas j estavam todos bastante fartos dele quando o vi. O Dr. Seifried queria tentar 
medicamentos novos, mas ainda no o haviam feito e Nick disse que no queria.
Tudo o que eu podia fazer era insistir para que ele cooperasse, acalm-lo o melhor que podia e prometer-
lhe que o levaria para casa assim que ele pudesse viajar. E era verdade. No tinha qualquer inteno de o 
enfiar num hospital qualquer indefinidamente, a no ser que pudessem provar-me que o podiam ajudar. 
Prometeram  claro, mas ainda no existia nenhuma prova disso. De facto, ele parecia bastante pior, mais 
irracional e agitado do que da ltima vez que o vira. Mas tambm no estava a tomar medicamentos h 
duas semanas, e eu sabia que isso o deitava a baixo. Tudo o que podamos fazer era esperar e ver o que 
acontecia.
Deixei Nick deprimido e fui para casa com John e as crianas. No entanto, ainda estava preocupada. No 
tinha a certeza se Nick estava com uma "ressaca" momentnea, uma enorme irritao por estar sem 
Prozac h duas semanas, ou se a doena havia evoludo. Ningum parecia saber. Tnhamos que ver como 
as coisas progrediam, mas eu estava desanimada.
Uma vez em casa, Nick telefonava-me vrias vezes ao dia, sempre.com uma invectiva por eu o ter 
abandonado, ou para me dizer o quanto me detestava por isso e que eu o trara. Ele tinha a certeza que ns 
lhe mentamos e que o havamos abandonado. Nem Julie conseguia acalm-lo. A nica coisa que parecia 
ajudar eram as visitas da minha me, que percorria distncias considerveis para o ver e, apesar dos 
rigores da viagem, chegava de vestido de seda e prolas. Imaculada como era o seu hbito, enquanto Nick 
se sentava de cabelos desgrenhados a jogar Scrabble com ela. Mas quanto mais tempo ele ficava, mais 
perdia o controlo da sua sanidade e mais difcil era traz-lo para casa. Era um crculo vicioso do qual no 
havia escapatria possvel no momento.
Ao ler as notas do seu dirio durante a sua estada no hospital, compreendo mais uma vez a perturbao em 
que ele se encontrava e o desespero que deve ter sentido. Parte-se-me o corao ao l-las.
Foram escritas em Julho de 1994, quando tinha 16 anos. Estava bastante doente na altura, muito 
atormentado, mas suficientemente lcido para escrever no dirio.

"O quarto silencioso"

Enjaulado, trancado, um animal a cuspir e a guinchar, menos so que um roedor infestado de raiva, a 
espumar da boca. Bato com a cabea nas paredes, ando aos crculos, tecto branco, um colcho no meio do 
quarto, despido e singular F-lo parecer ainda mais vazio. De joelhos, grito para as paredes espessas para 
me salvarem. Rezo para o cu vazio que no consigo vislumbrar e para o Deus sem sentido que no o 
habita para me aliviar o sofrimento, para me tratar, para me curar, para me salvar Nenhuma resposta. 
Sento-me no canto, as mos a tapar-me a viso desta inspida realidade, desta horrvel realidade donde no 
consigo fugir Estou s, a cabea cada, enclausurado na minha jaula de madeira e plstico. A nica luz 
entra pelo quadrado de vidro no meio da porta coberta de rede para me tirar qualquer esperana de fuga. 
Eles acham que eu me posso ferir Olho para o espelho de plstico e vejo um rapaz com ar esgazeado.  
assim que eles me vigiam, se certificam que estou reduzido a nada, grito por ajuda, peo a salvao que 
eles oferecem, mas no cederei. Isto nunca acabar, acontea o que acontecer.
A estabilidade mental atingiu o seu ponto crtico, todos os meus sentidos esto contaminados. Nunca 
sairei deste inferno. Tudo questiona a minha sade mental. Faz-me perder o controlo. No posso confiar 
em mim. Se algum me ouve, chama-me  razo, mas do meia volta e deixam-me a falar sozinho. A 
ansiedade pe-me nervoso e frustrado, por isso perco a cabea ou bato com ela na parede. O isolamento e 
a clera impedem a minha recuperao, no me deixam ficar curado.
A confuso pe-me fora de mim e desespera-me. Todo o meu mundo  feito de desiluso e compaixo, 
nada mais que uma miragem, transparente, inexistente. Procuro tocar na minha alma, mas ela desapareceu. 
Perdi-a algures. Sou um rapazito assustado e no sei para onde fugir As pernas do rapazito no me levam 
muito mais longe. Estou fraco quando sempre pensei que tinha fora. Os ps esto no ar, a cabea est no 
cho. A realidade ps-me a andar  roda. Pensei que podia levantar-me, mas no havia nada mais que isso 
e interroguei-me... onde est  meu esprito?... Pensei que sabia o que era ser homem, mas agora sei que 
no sabia. Os segredos a ganhar p, a apodrecerem, a ficarem reduzidos a cinza nas traseiras da minha 
cabea, e agora os esqueletos esto a ganhar vida no meu armrio.
Neste mesmo dirio ele fala dos seus amigos e da rapariga por quem est apaixonado. Tambm fala de 
estar doente e louco, e pela primeira vez muitos dos seus registos so completamente incoerentes e 
irracionais, muito diferentes dos outros. Porm, alguns so brilhantes.

"Numa Scooter"

A confuso puxa-me em qualquer direco. A raiva atira-me tlipas  cara e o cu recusa-se a partir-se 
para que o meu ego se sinta bem. Como suportarei isto? Como  que o meu corpo se aguentar na viagem? 
Mordo os lbios, agarro-me  colcha da cama. Corro, corro, corro, produto escarrado do ventre do nosso 
pai, enveneno o leite da me e fao com que as crianas chorem com a infeco. Sangro dos olhos, bato os 
braos no ar rarefeito, arranho o peito, tento ver se o corao dentro de mim ainda bate, ou se ainda existe 
um corao dentro de mim. Acham que estou louco? Fui empurrado, metido  fora dentro de uma caixa 
estreita e rotulado. Estou LOUCO e foi este lugar que me ps assim. Era normal antes de vir para aqui, 
depois tiraram-me a minha realidade, atiraram-na para o misturador e liquefizeram todos os meus bens 
mentais. Eles fazem outros iguais a mim todos os dias, drenando-nos como se fossem uma fbrica. E julgo 
que, de certa forma, so.

"Necessidade"

Eu preciso. Eu quero. Quero sentir-me em paz e que a minha alma descanse. No quero que esta raiva 
cheia de pus me consuma noite e dia, que esta raiva, este tmulo vazio onde me meto dia e noite... E uma 
solido quando no nos conhecemos a ns prprios. Sinto-me oco. Sinto-me fraco. S quero encher-me de 
sentimentos e felicidade. No desta raiva, desta desgraa que apodrece nas minhas entranhas h anos. 
Como  que posso curar-me? Como posso arranjar uma maneira de tirar este cancro dentro de mim? 
Quero que chova lentamente para fazer desaparecer o medo e a asquerosidade de dentro de mim. Quero 
que a raiva e o ressentimento desapaream. Como posso estar em paz? Eu quero. Eu preciso. Preciso. 
Preciso...

"Canalhas"

Por que razo  que ele est a dizer aquelas coisas? Por que razo e que uma tal blasfmia passa pelos 
lbios de um homem educado? Tenho um corao, tenho uma alma, consigo amar, fao amor. Sou amado. 
Ele faz-me sentir um intil, um sacana sem sentimentos, desprezado, sem alma, e nada disso  verdade. 
Ao fim de cinco minutos a abanar a cabea, ele conclui que no sou nada, que me reduzo a nada, e que sou 
uma concha frgil de um ser humano. Ser que ele acredita nessas palavras? Ser que ele acha que sou eu? 
Bom, eu no. Que se foda! Ele no me conhece de lado  nenhum. Quem  ele para fazer tais julgamentos, 
para infligir essas palavras contundentes em algum que ele nem sequer conhece?
-me superior e eu no posso dizer-lhe que est enganado, que se v foder, e limito-me a ficar sentado, 
mudo, a dizer que sim com a cabea, a confirmar todas as suas cruis suposies. Filho da puta. Nem 
sequer me conhece, e tambm no se interessa por conhecer Consigo amar Amo muitas pessoas. E 
consigo fazer com que as pessoas se sintam amadas. Valho alguma coisa. Sou boa pessoa. H muito 
tempo que no me lembro de algum me ter feito sentir assim to na merda. Todas as suas acusaes so 
cruis, injustas e falsas, e todas as suas falsas verdades nenhuma delas  verdadeira. Tenho uma alma e um 
corao, e sei como us-los. Ele fez-me sentir to reles, to intil e to merecedor depena.  por isso que 
estou aqui * Para me deitarem abaixo, para me dizerem que no sou nada, que nunca serei nada? Sim, 
parece ser uma ptima ideia, vamos pedir a verdadeiros profissionais que me censurem, que posso eu 
fazer? Nada, porque a palavra dele vale tanto como a palavra. de Deus. Quem acreditar em mim? Se ele 
diz que estou fodido para a vida, merda, estou fodido para a vida. Ele  um PROFISSIONAL. Canalha. 
Ele no sabe. Senta-se no seu consultrio, l os relatrios e faz com que as pessoas se sintam inteis, faz-
nos sentir iguais a merda. Talvez isso O faa sentir melhor Talvez seja ele que no tem corao, nem 
alma, e est-se borrifando para quem magoa. Bom, tenho sentimentos, e  pena que se estejam cagando 
para eles.

"Indecises"

Que est a acontecer? Para onde estou a ir? Sento-me no silncio da minha cela. O silncio  tanto que me 
aflige. Os tmpanos vibram e doem, pedem som, pedem o doce conforto que se pode encontrar noutra voz 
humana. A raiva aparece e desaparece to depressa como aparece. A confuso  a nica coisa presente que 
me faz constante companhia, a confuso e a agitao a corroerem-me o esprito. A levarem-me  loucura. 
Onde acabar esta estrada, aonde  que ela me levar? Que est a acontecer? No sei. Talvez no queira 
saber, talvez a resposta seja to infernal como a indeciso, o abismo escuro e desconhecido em que 
vagueio neste instante. Assisti ao nascer do Sol esta manh. Vi-o lanar os seus curativos raios sobre os 
pssaros chilreantes e as rvores ondulantes na brisa da manh. Um veado surgiu de dentro do bosque e 
comeu calmamente a erva hmida diante de mim. Esta viso fez-me sentir indescritivelmente bem. Fiquei 
cheio de uma paz, uma paz que eu quis que confortasse a minha alma. Mas no confortou. Ainda sofro.

"Cansado"

Estou cansado de estar oprimido, de estar preso. Sinto-me um hamster a correr no meu pequeno tambor, a 
despender toda a minha energia, mas sem ir a lado nenhum. Estou farto e cansado da luta, da batalha, de 
espernear e chorar continuamente. Mas eles no deixaro de me provocar Eles no deixaro de me 
confortar com liberdade e amor porque gostam de me ver lutar Gostam que a minha raiva expluda porque 
sabem que eu no posso ganhar, e nunca serei capaz de os derrotar porque so muito fortes. Humilham-me 
e pem-me de rastos continuamente, irritando-me e magoando-me. Mas no se importam e eu tambm 
comeo a no me importar Nada me pode deter agora porque j me estou nas tintas. Estou a enlouquecer 
neste lugar, estou a ser levado para o meu fim. J no aguento mais. Eles desumanizam-me porque me 
querem ver destroado, querem ver-me a chorar Filhos da puta. Matava-os a todos se pudesse. Que se 
fodam! Nunca baixarei os braos. Nunca.

"Finalmente"

A verdade explodiu dentro de mim para tomar conta da minha merda, para o fazer, para me tornar o 
melhor possvel. Nem mais mentiras, nem mais merda. Nem mais sacanices. Vou finalmente fazer o 
Caminho! Sinto-me to leve, o fardo dos meus segredos tirado do meu peito, a minha verdade e o desejo a 
ecoarem-me na cabea. Vou faz-lo mesmo, vou fazer o meu melhor com verdade e honestidade. Sei que 
o posso fazer, e estou assustado, mas a alegria dominar o resto de mim, tomou finalmente o controlo, e 
sei que verdadeira e honestamente o Posso fazer S preciso de ser verdadeiro, ser autntico, fazer 
efectivamente tudo o que disse que quero fazer Sempre fui fodido, no interessa quais foram as 
consequncias. Agora quero ser honesto e bom, apesar das consequncias. Sinto-o no meu corao, estou 
de volta. No me interessa quem me lixa, quem est furioso. Estou-me marimbando. Estou a fazer isto por 
mim, para melhorar e me sentir bem comigo mesmo. NADA ME DETR. Nada a no ser o meu ego e a 
minha subservincia. No quero saber mais o que  que as pessoas dizem ou pensam, mas vou fazlo. Os 
meus sonhos viro finalmente para a luz, e poderei fazer o que eles realmente so, quem eu realmente sou. 
Pode ser duro, mas que se foda! Estou finalmente preparado para caminhar por sobre a linha que as 
minhas palavras pintaram, a linha da verdade, da felicidade, do bem, do auto-respeito e do amor Eu quero 
isso, eu quero isso, com todas as foras do meu ser, com todos os meus poros. A respirao parece 
diferente. Fui mais sincero nos ltimos vinte minutos do que fui nos ltimos seis meses! Aqui estou, 
cheguei ao primeiro degrau e estou preparado para morder o lbio, fechar os olhos e correr pela escadaria 
acima. Eu consigo!!!

"Esquece essa merda"

Isto  to estpido e confuso. Tento fazer tento ser sincero e ser tudo o que puder ser e sou atacado. 
Assalto verbal vindo de todos os lados. Pem-me de novo na minhajaula, gritam comigo, dizem-me que 
sou mentiroso, que no sei o que est certo e o que est errado, A nica 
coisa que tentei no foi ser sincero e ver o que tinha? Que se foda essa merda! No tenho mais nada a no 
ser dor Ser repreendido no  a minha ideia de um primeiro prmio para um primeiro degrau. Sinto-me to 
s, com tantas saudades de casa. Porqu isto? Sou um simples alienado, e ningum d nada por mim. 
Querem manter-me na escurido. Fico menos perturbado assim. Justo e honesto, certo? No vale a pena, 
todos os meus esforos so em vo. Deixaram-me destroado e louco, sem ligaes com o mundo. Tenho 
saudades da minha famlia, da minha mida. Todos pensam que estou doente. Eles esto cheios de 
porcaria. Que essa merda!
Prometeram-me no hospital que fariam tudo para ajudar Nick a melhorar, tratamento, terapia, medicao. 
Mas, cada vez que falava com ele, parecia mais deprimido, e acabou por se fechar cada vez mais, 
deixando de falar com todas as pessoas. No conseguia seguir os regulamentos deles, no estavam a fazer 
nada por ele e tudo o que queria era vir para casa. Deixou de cooperar totalmente e a soluo deles para 
isso era ench-lo com Thorazine, p-lo no "quarto silencioso" e deix-lo dormir a maior parte do tempo.
Descobri isso porque cada vez que lhe telefonava diziam-me que ele estava "a fazer uma sesta". Quantas 
"sestas" se podem fazer durante o dia? Telefonava quatro ou cinco vezes por dia e ele estava sempre a 
dormir. Mais uma vez, senti que o havia trado. Tentramos algo que no s no o ajudara, mas que ainda 
o tinha posto pior. E nem sequer tinham experimentado os novos medicamentos.
Os conselheiros insistiam para que o deixssemos l. Julie, o mdico de Nick e eu falmos sobre o 
assunto, e rapidamente chegmos a uma deciso. Mais uma vez, a experincia havia sido decepcionante e 
o Dr. Seiffied concordou que no fazia sentido t-lo l mais tempo. No estava a ajudar. Estava a agravar 
a situao.  Era altura de o trazer para casa, no importando em que condies estava ou a que ponto havia 
chegado. Na minha opinio, ele no devia estar num hospital, inconsciente com Thorazine, longe da 
famlia e de casa. Devia estar connosco. Tomaramos conta dele. Telefonei-lhe novamente nessa tarde e 
exigi que o acordassem. Parecia embriagado quando atendeu o telefone, mas no teve problemas em 
perceber o que lhe disse. "Vens para casa, querido." Havia lgrimas nos meus olhos quando lhe disse. 
"Vou?" Quase que o conseguia ver a sorrir assim que lhe disse. "Quando?" "Amanh."
Nick soltou um grito de alegria. Parecia mais so agora que  durante semanas. Estivera l trinta e nove 
dias. Dias desperdiados, a maioria dos quais passados no "quarto silencioso", porque eles j no sabiam 
o que fazer com ele. Foi como se enjaulassem um lindo animal ferido. Eu s esperava que as suas asas 
partidas tivessem sarado o suficiente para que pudesse voar novamente. Tivera sete semanas muito duras.
Deram-lhe mais uma injeco antes de ele sair. Ao que parece, ele voltou a acender um cigarro na manh 
em que era suposto vir embora. Desta vez, conseguiu no incendiar a parede nem o tapete. No fizera 
estrago algum, mas infringira os regulamentos. Chamaram Julie no hotel e disseram-lhe que ele s poderia 
ir para casa no outro dia. Ele teria de passar o dia no "quarto silencioso" para remir o facto de ter 
infringido os regulamentos, o que era compreensvel, mas que nos aborreceu. Estvamos ansiosos por o 
levar para casa.
Ela telefonou-me, furiosa, e eu concordei com ela. Telefonei para o hospital e disse-lhes para terem a mala 
dele pronta dentro de uma hora. Eles comearam por se opor, mas acho que sabiam que eu estava a falar a 
srio. No iriam deter-nos. No tinham feito nada por ele a no ser fech-lo num quarto, como um carro 
numa garagem. Estvamos fartos. E agora, o meu filho vinha para casa, e nada iria det-lo.
Puseram-no no "quarto silencioso" a aguardar que Julie chegasse. Eles fizeram valer o seu ponto de vista 
at  ltima, mas ele j no se importava. Sabia que ia ajuda a caminho. O pesadelo acabara.

"Confuso de novo"

Oh, bom, os erros do ltimo minuto. Pelo menos, ainda tenho de ir para casa. Vibro de entusiasmo, de 
expectativa por aquilo que vir a seguir No vejo a hora de entrar no avio. E um sofrimento estar aqui no 
"quarto silencioso" at me ir embora. Detesto este lugar e no vejo a hora de partir No quero perder esse 
momento. Quero sair. Eles esto todos to preocupados em dizer-me que vou falhar, que no vou 
conseguir, que a minha recada j comeou. Que se fodam bem! Conheo-me melhor do que outra pessoa 
qualquer e sei que vou conseguir Quem me dera que as pessoas acreditassem em mim e no deturpassem 
as coisas. Fumei no quarto porque me apetecia um cigarro, no por ter qualquer desejo secreto de c ficar, 
ou por ser um maldito piromanaco. Preciso de ir para casa. Preciso de normalidade. Preciso de equilbrio. 
Preciso de ter a minha vida de volta. Tambm era tudo o que queramos para ele. E tudo por que podamos 
ansiar.

UM NOVO LAR PARA NICKY

Nick veio ficar connosco em Napa, quando voltou para casa no dia vinte e nove de  Julho e, pela primeira 
vez, ficou feliz por estar' ali. Depois de cinco semanas e meia no hospital, at Napa lhe parecia ptimo. 
Estava algo agitado e ansioso, e no to bem como quando se fora embora, mas parecia melhor do que 
parecera ao telefone. Acho que estava perturbado com a experincia. Ainda me parecia longe de estar 
bem.
Tocou com a banda algumas vezes e acabou por cansar-se de Napa; por isso, deixmo-lo ir passar uns dias 
a casa de Julie. Porm, ela telefonou-me, em pnico, pouco depois de ele ter chegado. El enganara-a e 
fugira. Era a primeira vez para ele, no contando com a ocasio em que se sentou no parque, a rir-se de 
ns e a comer donuts quando no quis trocar de tnis. Mas desta vez era a srio, era mais velho e estava 
mais doente. Encontrava-se suficientemente desequilibrado para que o seu desaparecimento fosse uma 
verdadeira preocupao para ns. J para no falar no facto de no ter levado os medicamentos com ele, 
naturalmente, e sabamos que no tardaria a ficar de rastos.
Tentando controlar o pnico, telefonei para um tenente da polcia que eu conhecia, e Julie telefonou a 
todos os seus amigos, procurando descobrir para onde  que ele fora. Esta era literalmente a nica vez que 
ele fugira, e era difcil imaginar para onde  que tinha ido.
Sara do hospital h exactamente duas semanas e meia, e estava obviamente ainda confuso e com 
comportamentos estranhos. Mas, ao fim de algumas horas, Julie descobrira onde  que ele se encontrava. 
Estava com uma rapariga que ele conhecia. Mandmos dois polcias para l, e os pais dela tentaram fingir 
que ele no estava l. Tlefonei-lhes e expliquei-lhes a situao. No tive outra alternativa seno dizer-
lhes que ele estava doente. Dois minutos depois, deixaram entrar os polcias. E l estava Nick.
Telefonei ao psiquiatra de Nick, e conversmos acerca do que tnhamos a fazer. Era evidente que Nick 
estava debilitado, e sugeriu que o pusssemos num pequeno hospital onde ele punha os doentes, em East 
Bay. As instalaes no eram luxuosas, mas ele ficaria confortvel e em segurana, e o mdico v-lo-ia 
todos os dias. Cortava-me o corao fech-lo outra vez num hospital, mas, se ele ia comear a fugir, 
tnhamos um problema maior nas mos do que alguma vez tivramos. Era perigoso para ele desaparecer, e 
ainda para mais sem tomar os medicamentos. John e eu fomos a So Francisco e levmo-lo calmamente 
para East Bay. No perguntou para onde  que estvamos a lev-lo. Acho que estava aterrado. Telefonou a 
amigos e procurou mostrar-se despreocupado. Julie foi ter connosco ao hospital, e o mdico de Nick j l 
estava. Era um lugar pequeno, limpo, bem tratado, parecia um hotel acolhedor. Nick nem sequer discutiu 
connosco desta vez, nem perguntou quanto tempo ia ficar. Chorei quando preenchi os papis e subi para 
lhe dar um beijo de despedida. No me olhou nos olhos, e pareceu abatido quando virou as costas. 
Custava-me ver o que estava a acontecer-lhe. Evidentemente, o que estvamos a fazer no parecia ajud-
lo, e a medicao no era suficientemente forte, mas que outras opes tnhamos seno p-lo novamente 
no hospital? Especialmente se ele ia fugir.
A nica coisa que me confortou foi o prprio hospital. Era impecvel e o pessoal simptico. Ele tinha um 
quarto decente e confortvel, e havia uma piscina que ele poderia utilizar. Senti no meu corao que ele 
estaria em segurana e seria bem tratado. Gostei particularmente das enfermeiras e dos mdicos, todos eles 
me pareceram pessoas excepcionalmente simpticas e carinhosas.
Mas na viagem de regresso a Napa, tinha o corao destroado. Era difcil imagin-lo novamente bem. E  
medida que o Vero se aproximava do fim, Nick estava cada vez pior. Eu ia de Napa v-lo duas ou trs 
vezes por semana. Levava duas horas e meia com muito trnsito e um calor abrasador. Trazia-lhe pizza ou 
costeletas, e sentvamo-nos num quarto fechado  chave. Ele estava furioso comigo. Bastante furioso. 
Gritava comigo, atirou com uma cadeira contra a parede, nunca me tocou, nem atirou nada contra mim, 
mas de todas as vezes que eu o ia estava furioso. Era como um animal enjaulado sem poder ir para lado 
nenhum. No s estava a perder a sanidade mental, como estava a perder tanto o controlo como a 
esperana. Era doloroso imaginar o seu futuro naquela altura.
E depois de escutar o quanto ele me odiava durante duas horas, voltava para outras trs horas de caminho 
at Napa. As duas viagens e a visita levavam o dia todo. E como sempre acontecia com Nick, afastou-me 
dos meus outros filhos, e nesse Vero comecei a ver que estava a ser um preo elevado para o resto da 
famlia. E com a preocupao com Nick, comecei a ir-me abaixo. Estava exausta e desanimada. Era difcil 
estar optimista com a situao dele. Em retrospectiva, com todo um espectro de anos para escolher, penso 
que o fim desse Vero, quando ele tinha dezasseis anos, foi o mais deprimente de todos. Do ponto de vista 
psiquitrico, estava mais perturbado que nunca, ou que alguma vez viria a estar. E ao v-lo furioso, a 
praguejar, a ameaar-me e a acusar-me quando o via, era pouco provvel que ele alguma vez viesse a ter 
de novo uma vida normal. Comeava a recear que ele ficasse hospitalizado para sempre, e durante muito 
tempo no se vislumbrou a mnima esperana.
As viagens para o visitar pareciam interminveis, as perspectivas eram desanimadoras, e o meu casamento 
com John comeava tambm a ir abaixo. Penso que estvamos ambos desanimados com a pouca 
esperana que vamos para Nick, e talvez como as pessoas fazem quando se sentem impotentes, com razo 
ou sem razo, culpam-se a elas prprias ou culpam os parceiros. Eu estava constantemente a telefonar para 
o hospital, para Julie ou para os mdicos, a visit-lo vrias vezes por semana, aborrecida por no poder 
passar mais tempo com os outros midos e por Nick no melhorar. E talvez John achasse que eu passava 
demasiado tempo fora e andava demasiado perturbada. No sei ao certo o que ele sentia, no falvamos 
muito nisso. A nica coisa que sabamos era que no ramos felizes. Os ltimos anos no tinham sido 
fceis, com os tablides, as biografias no autorizadas, a tratar de Nick e preocupada com ele, alm das 
tenses normais de qualquer casamento. E como bnus, um talk show de uma rdio local comeara a fazer 
comentrios depreciativos a meu respeito. Era uma coisa mais para me entristecer e para acrescentar s 
minhas mgoas.
O Dia do Trabalho passou num pice. Os midos voltaram para a escola, e eu continuei a visitar Nicky. 
Pelo menos, em finais de Setembro, o estado de esprito de Nick melhorara um pouco, e estava menos 
agressivo do que antes.
Fizera os trabalhos da escola no hospital e estava a par da matria. Mas apesar de estar a tomar novamente 
Prozac, e de parecer um pouco mais alegre, ainda me parecia em estado precrio. Depois de seis semanas 
no hospital desta vez, voltou para casa no dia um de Outubro, e, com excepo de duas semanas em 
Agosto entre hospitais, estivera hospitalizado durante trs meses e meio, um ror de tempo. Era evidente 
que o seu estado se deteriorara nos ltimos meses, e cuidar dele era agora uma tarefa a tempo inteiro. 
Ficava facilmente perturbado, explosivo, ansioso e reservado, e zangava-se comigo frequentemente. A 
vida na nossa casa transformou-se num inferno vivo. No s para mim e para John, mas tambm para os 
midos, e, at para o prprio Nick. Ele piorara consideravelmente e pensei que, se ia ser este o rumo da 
nossa vida, as crianas iam ser sacrificadas a ele. J no havia maneira de termos uma noite tranquila, uma 
hora de silncio, um jantar calmo, ou mesmo cinco minutos de sossego com Nick em casa. O seu volume 
fora posto demasiado alto, e parecia que ainda ia ficar mais alto.
Falei com o mdico acerca disso, Julie estava constantemente em casa, e ao fim de um ms fez uma 
sugesto que era um antema para mim, e que mudaria certamente as nossas vidas, a dela, a da famlia 
dela e a de Nick. Ao princpio, rejeitei a ideia. Nunca consideraria aquilo que ela dissera.  A sugesto era 
que Nick fosse viver com a famlia dela, o que seria um enorme sacrficio para ela e uma terrvel perda 
para mim.
Julie tinha dois filhos. Serena, que tinha oito anos na altura, e um filho, Chris, que tinha quatro. Discutira 
o assunto com o marido, Bill, que estava disposto a dar-lhe uma oportunidade. No sei se ele sabia o que 
nos tinham oferecido. Se Nick fosse viver com eles, eu sabia muito bem que eles no teriam mais nenhum 
momento de paz, nem privacidade, nem tranquilidade. E a casa deles era muito mais pequena do que a 
minha. No haveria nenhuma maneira de lhes escapar por um s instante. Mesmo em minha casa, Nick 
parecia ocupar todas as nesgas de espao, e eu sabia que ele mudaria completamente as suas vidas. Os 
meus filhos vinham jantar com um ar de angstia nos rostos, sabendo que todas as horas de jantar eram 
um frum. para Nick arranjar uma crise e se exibir.
Porm, embora Bill e Julie estivessem dispostos a ficar com ele, eu estava resolvida a no prescindir do 
meu filho. Esta era a sua casa, ns ramos a sua famlia, eu era a sua me, e estava sempre pronta a fazer 
qualquer coisa por ele, com ele perto de mim, at ao dia da minha morte. Mand-lo para outra casa era 
como uma derrota total. Mas o que me fez considerar a questo foram as crianas. Sabia que se Nick 
ficasse ainda pior, ou ficasse no estado em que estava, haveria muito pouco de mim que restaria para eles. 
J no tinha tempo suficiente para lhes dedicar. Andava demasiado ocupada a andar atrs de Nick, a 
discutir com ele e a tentar estar em catorze lugares ao mesmo tempo para me certificar de que estava em 
segurana. Era praticamente impossvel viver com Nick, e agora, quando andava levantado a noite inteira, 
passava pelo nosso quarto e discutia comigo durante horas. Sobre concertos, planos, o cabelo, os amigos, 
o co, a comida, o quarto... qualquer coisa que lhe viesse  cabea. E quando no estava a atacar-me 
verbalmente como um louco, ficava com ar sombrio no seu quarto, e eu ficava aterrorizada com o que ele 
poderia fazer. A situao era horrvel. Sabia que, se no o conseguia ajudar, deveria dar s crianas mais 
do que este pesadelo. No as poderia sacrificar a ele. At essa altura, eu estivera convencida de que 
conseguiria dividir-me entre Nick e as crianas. Mas, embora no fosse por sua culpa, ele estava a tornar 
as coisas cada vez mais impossveis para mim, e eu sabia que elas estavam a ficar em segundo plano e 
que, enquanto ele estivesse ali, sempre ficariam. Por mais que me cortasse o corao, o tempo viera tomar 
uma deciso: elas ou ele. No tinha a inteno de o abandonar, ou de "desistir dele", mas viver com ele 
debaixo do mesmo tecto a tempo inteiro tornara-se um pesadelo do qual nenhum de ns conseguia 
acordar. As crianas, sobretudo, estavam a pagar um preo elevado por viver com ele. E o meu casamento 
com John fora prejudicado, embora no lhe possa imputar as culpas pela sua dissoluo. Foi uma deciso 
a que cheguei com alguma angstia. E no meu esprito, foi talvez a pior coisa que alguma vez fizera. 
Chorava antes de adormecer todas as noites (quando Nick saa do meu quarto a altas horas da noite). No 
queria deix-lo ir. Queria acompanh-lo todos os instantes do dia. Prometera-lhe isso a primeira vez que 
pousara o olhar nele, e ao mand-lo agora para outra pessoa, especialmente nas condies em que se 
encontrava, pareceu-me ser um enorme erro.Discuti isto com o meu mdico e com o de Nick, e toda a 
gente sentia que seria o melhor para ele, se no mesmo para mim. A nossa casa era demasiado grande para 
se exercer uma boa vigilncia, mesmo com dois assistentes a andarem atrs dele, e a turbulncia normal de 
uma famlia buliosa parecia p-lo mais ansioso do que dar-lhe tranquilidade. Pelo menos, poderamos 
tentar, imploravam-me. Mas chorava sempre que pensava nisso. Aos meus olhos, se o deixasse ir para 
outra casa, eu estava a perd-lo. Sentia como se ele tivesse dois e no dezasseis anos, e, de certa forma, era 
a idade que tinha. Ainda era o meu beb.Mandar Nick viver para outra casa  uma das poucas coisas de 
que me arrependo na vida. E embora a experincia resultasse maravilhosamente, e ele se sentisse feliz, 
carreguei um sentimento de culpa durante anos. Por alguma razo, falei com ele sobre o assunto antes de 
morrer. Com as lgrimas a escorrerem-me pelo rosto, pedi-lhe perdo e disse-lhe o quanto me desgostou 
t-lo magoado. Ele tomou-me nos braos, e disse-me que fora a melhor coisa e que me adorava muito. 
Julgo que falava a srio. Fiquei to aliviada por lhe ter dito, por saber que lhe tinha dito e que ele no me 
recriminara por isso, que me senti de certa forma mais livre. Ele chamava-lhes "a equipa de cuidados 
maternos" e o seu grande amor pelos Campbell foi evidente durante os anos em que viveu com eles.Foi 
urna combinao que resultou bem. Os Campbell eram extremamente generosos nos seus sacrficios por 
ele. Foram eles que acabaram por evitar que vivesse numa instituio. Possibilitaram que Nick crescesse 
feliz e tivesse uma vida de acordo com as suas necessidades, e que as crianas crescessem sem a presso 
de viverem com a doena do irmo todos os dias. S resultou devido  enorme capacidade de Julie para 
lhe dar carinho, a sua generosidade de esprito e a sua constante cortesia ao respeitar-me enquanto me de 
Nick. Nunca tentou tomar o meu lugar, usurpar o meu papel ou proceder com deslealdade comigo ou com 
ele. Considerou-me me dele desde o primeiro ao ltimo dia, e desenvolvemos uma profunda amizade e 
respeito uma pela outra, que agora o transcende. Era realmente uma "equipa de cuidados maternos", como 
dizia Nick. Ele dizia que um dia devamos escrever um livro acerca disso, e talvez este cumpra o 
objectivo. s vezes ramos do facto de serem precisas duas mes para tratar dele. Quando ele estava 
comigo, eu telefonava-lhe com a voz alterada a queixar-me de alguma maluquice que ele fizera, e Julie 
acalmava-me. Quando Nick estava com ela, telefonava-me cinco vezes ao dia, com voz histrica, a dizer-
me que ele a punha maluca. Mas, fosse como fosse, encontrmos o equilbrio perfeito que era bom para 
ele e para ns. Era um malabarismo de propores herclias. Mas todas as nossas decises eram tomadas 
em conjunto. Formvamos uma frente unida, em todos os aspectos, e quando discordvamos acerca de 
algo, o que era raro, tratvamos de chegar a um compromisso. Ensinmos muito uma  outra sobre a arte 
dos cuidados maternos. Aprendi novas tcnicas com Julie, e ela aprendeu velhas comigo. Tornei-a mais 
conservadora s vezes, e ela ensinou-me a dar-lhe independncia, auto-respeito e a liberdade.
Partilhmo-lo ao princpio, e passmos vrias noites em casa, como se de uma custdia conjunta se 
tratasse. Mas, por fim, ele gostava de ficar em casa dela o tempo todo. A verdade  que a nossa casa e a 
sua constante actividade punham-no demasiado nervoso. Havia demasiadas pessoas, demasiados midos, 
demasiados ces, demasiada confuso para ele. Sentia-se melhor em casa de Julie, embora viesse a casa 
frequentemente durante o dia, e  noite para jantar e para estar com os seus irmos e irms. E passava a 
noite nas frias e no Natal.
Se soubesse que ele ia dar-se to bem, eu teria chorado muito menos no dia em que se foi embora. Teve 
muita sorte com o facto de existirem duas mulheres a cuidar dele e a am-lo to profundamente. A 
"equipa da cuidados maternos" que inventmos, e que se manteve em aco durante trs anos, foi uma 
soluo brilhante para Nicky. Todos ns beneficimos com ela de uma maneira ou de outra, especialmente 
Nick. E sei, por tu do o que disse, o quanto a orou a "equipa", e Julie, at ao fim. Ns formvamos uma 
grande dupla.

Sua "equipa de mes".

As palavras de Julie a meu respeito dizem tudo aquilo que eu sinto por ela:
1, Queria partilhar algumas das minhas ideias e sentimentos acerca de Nick e Danielle. Primeiro, e mais 
importante que tudo, quero deixar claro que no teria conseguido lidar com Nick sem o completo e 
constante apoio de Danielle. Danielle  efectivamente uma mulher espantosa. Ensinou-me muita coisa 
sobre como ser uma boa me e afazer as coisas deforma correcta. Em vez de escolher o caminho mais 
fcil. Antes de Nick vir viver comigo, muitas pessoas aconselharam-me a p-lo numa instituio 
psiquitrica. Ele falhara a todos os programas em que o pusramos. Fora expulso de todas as escolas que 
encontrramos. Os assistentes domicilirios que tentramos tinham falhado, e Nick estava completamente 
fora de controlo. Teria sido muito fcil confi-lo a uma instituio psiquitrica, e acredito sinceramente 
que ela fizera os possveis para o ajudar Mas em vez disso, deixou-o vir viver comigo. Danielle nunca 
baixou os braos. E embora ele vivesse em minha casa, ela estava literalmente envolvida em todas as 
decises que tinham a ver com Nick. No me lembro de nenhuma ocasio em que no obtive apoio da 
parte dela. Se Nick queria fazer alguma coisa e eu no o deixava, andava atrs de mim pela casa a discutir 
durante horas. Quase de duas em duas horas eu telefonava, desesperada, a queixar-me que ele ia pr-me 
maluca. E ela continuava a discutir com ele durante as horas seguintes. Nessa altura, eu j tinha o meu 
segundo flego. Ento, tomava conta do turno seguinte. Fico espantada com algumas das coisas que 
conseguimos com Nick. Mas julgo que isso se deveu efectivamente ao apoio que demos uma  outra. 
Acordramos que se uma de ns se sentisse suficientemente convencida de alguma coisa, a outra apoi-la-
ia, independentemente daquilo que sentisse, e depois a ideia era apresentada a Nick como sendo das duas. 
Assim, Nick no conseguiria dividir-nos e conquistar-nos.
Nick tinha um esprito incrvel e conseguia convencer-se a si e convencer qualquer pessoa de qualquer 
coisa. Quando penso nas histrias que ele nos contava para justificar as suas aces, fico de boca aberta de 
espanto, e, mais do que isso, era o facto de levar as pessoas a acreditar nelas. Imagino as histrias bizarras 
que ele contava a meu respeito. Certa vez, durante uma estada num hospital, convencera o pessoal de que 
a nica razo por que l estava era porque eu partira o maxilar e estava irritadia. O facto de ter sido 
expulso da escola no tinha absolutamente nada a ver com isso. Noutra ocasio, convencera o seu grupo e 
o seu conselheiro de que a me tivera uma dor de cabea e por isso o obrigara a cortar os cabelos. O facto 
de o segurana do hotel o ter trazido para o quarto por roubar, conduzir e destruir um carrinho do golfe era 
uma coisa insignificante. Escusado ser dizer, os primeiros anos com Nick foram um desafio.
No sei que fora trouxe Danielle e Nick ao meu gabinete naquele dia. Mas acredito que foi o destino, que 
estvamos destinadas a encontrarmo-nos, para nos ajudarmos a tornar pessoas melhores e mais ss. E no 
final, penso que recebemos tanto quanto demos. Adorei Nicholas e admirei a maneira como ele se bateu 
todos os dias para ser feliz. E o esforo que ele fazia para pr as suas defesas em baixo e deixar-nos entrar 
Colocvamos um tijolo de cada vez, e s vezes deixava-nos colocar trs, depois ficvamos perplexas com 
a sua vulnerabilidade e tirvamos seis. Aprendemos a ver Nick como uma pessoa e no como um 
problema comportamental, e creio que foi quando comeou a acreditar que tinha valorerta vez, ele fizera 
algo de errado e no podia sair Mas estava  espera de ir a este concerto. Esta situao repetira-se durante 
cerca de um ano: sempre que Nick queria fazer alguma coisa, arranjava problemas antes e no tinha 
autorizao para ir Assim, sentia-se perseguido e a odiar o mundo, e ns sentamo-nos tristes e frustradas 
por ele. Como tal, desta vez, resolvemos respeitar a sua vontade de ir a este espectculo no ligando ao 
que ele fizera. Disse-lhe que o amos deixar ir Perguntou-me porqu e ns apenas lhe respondemos que 
sabamos que isso era muito importante para ele. Depois, as coisas comearam a mudar lentamente. Nick 
comeou a explicar que era muito mais difcil controlar os seus impulsos do que dizer que "se estava nas 
tintas". Comecei a dar-lhe pequenos exerccios para tentar fazer Lembro-me de um que consistia no 
seguinte: sempre que Nick fazia algo de mal, em vez de telefonar  me a pedir-lhe 
desculpa e a dizer-lhe que estava muito triste por a ter magoado, ele acabava sempre por a descompor Por 
isso, telefonvamos-lhe e ligvamos o intercomunicador, de modo a que eu pudesse ouvir a conversa e 
escrevia o que ele devia dizer E o espantoso  que ele dizia exactamente o que eu escrevia. Foi quando me 
apercebi de que Nick queria realmente fazer e dizer as coisas certas, mas no sabia como. Por dentro, ele 
sentia-se desadaptado deste mundo. O seu controlo dos impulsos era to fraco que muitas vezes fazia e 
dizia coisas ignbeis. Depois sentia-se to mal e tinha uma capacidade to limitada para sentir e dominar o 
sofrimento que se convencia de que a culpa era de toda a gente menos sua. E as suas justificaes eram 
boas. Felizmente para mim, Deus dera-me um crebro no s to bom como o dele, mas tambm to 
rpido.
Debatamos durante horas as coisas mais simples, e, ao fim de algum tempo, ele comeava a escutar e a 
aprender E eu escutava e aprendia. E Danielle escutava e aprendia. E comemos a tornar-nos as pessoas 
que queramos ser, e ajudvamo-nos uns aos outros. Nick ensinava-me ortografia e a usar a gramtica de 
forma correcta. Danielle ensinava-lhe como amar e ser capaz de distinguir um amigo e um inimigo. Eu 
ensinei-lhe a pensar mais com o corao do que com a cabea. Nick ensinou  me que s vezes no h 
respostas para as perguntas. Se tivesse de fazer tudo outra vez, faria tudo de novo e provavelmente da 
mesma maneira. Danielle e Nick desbravaram-me o caminho. Embora no dia em que Nick morreu, e 
durante alguns meses, no saber como prosseguir Fiquei paralisada com a perda. A pouco e pouco, fui-me 
apercebendo que amar e confiar deforma to completa, e ser amada e merecer a confiana de outrem 
deforma to completa,  uma ddiva que s surge uma vez em vrias vidas. Enquanto o sofrimento  
temporrio, o amor  permanente. Adoro-te, Danielle, e obrigada por teres partilhado o teu filho, o teu 
amor incondicional e, sobretudo, por me teres ensinado verdadeiro significado de integridade.

FINALMENTE UM MILAGRE

Enquanto eu procurava psiquiatras e novas solues para Nick, percorria quilmetros sem fim para o 
visitar nos hospitais e Julie aprendia como viver com ele, contratava os assistentes e dobrava a sua roupa, 
John, por vezes, providenciava algo ainda mais importante. Como me, lido com o prtico e o concreto. 
Compro sapatos para os midos, levo-os ao dentista e ao mdico, vejo-os no ballet, fao sanduches de 
manteiga de amendoim e compro-lhes brinquedos novos quando os velhos se partem. Estou sempre- 
disponvel para eles 
E o que lhes ofereo vem do fundo do corao.
A verdadeira fora de John , s vezes, mais esotrica. Persegue as ideias at que elas se tomem reais, 
estuda artigos cuidadosamente e descobre novas drogas e novos tratamentos para aquilo que nos aflige. 
Persegue farmacologistas, informa-se sobre novos medicamentos, e aparece com ideias bastante bizarras. 
Como todas as pessoas que vivem juntas, muitas vezes ignorava-o. Por vezes,  difcil concentrarmo-nos 
numa cura nova para a malria, que, de qualquer modo, ningum no momento possui, quando tenho de 
comprar uma coleira nova para o co e no consigo encontrar a outra sapatilha de Zara.
Mas John  um autntico co de caa relativamente s coisas que o intrigam. Poucos meses antes de Nick 
morrer, John visitou um psicofarmacologista em Stanford, e no s descobriu um efeito secundrio em 
dois medicamentos que estava a tomar, se misturado com um terceiro, como tambm investigou alguns 
novos para Nicky. Infelizmente, nunca teve oportunidade de os experimentar.
Pouco tempo depois de Nick se ter mudado para casa de Julie, ouvimos falar de um mdico na UCLA, que 
se especializara em psicose manaco-depressiva e "distrbio de dfice de ateno". Discutimos a questo 
com o Dr. Seifried, que nos encorajou a visit-lo. Julgo que o prprio mdico em LA sofria de I)DA e 
parecia ser brilhante nos dois assuntos. Na verdade, ele mudaria a qualidade de vida de Nick para sempre. 
Sem a consulta ao mdico na UCLA, acredito que a vida de Nick teria um fim trgico muito mais 
rapidamente do que teve.
Enviaram-nos um questionrio de cem pginas para preenchermos sobre Nick. Preenchi-o porque era a 
nica pessoa que possua mais informaes. Existia uma enorme quantidade de perguntas sobre a minha 
gravidez, do parto e dos primeiros anos de vida de Nick, alguns dos quais eu at j esquecera. Tambm 
necessitavam de outras informaes e referi as densas fichas mdicas que tnhamos dele. Naquela altura, 
os registos mdicos de Nick pareciam a lista telefnica de Nova Iorque. Com o questionrio na mo, 
totalmente preenchido, John e Julie foram para Los Angeles com Nick e o encontro correu muito bem. O 
mdico no perdeu tempo, reviu as nossas respostas s suas perguntas e, depois de ter falado com Nick, 
passou urna receita de ltio. Disse que acreditava que Nick fosse manaco-depressivo. Era o primeiro 
diagnstico preciso que tnhamos. Disse que se o ltio no fosse adequado para Nick, no lhe faria nada. 
Se, por outro lado, fosse a soluo correcta, veramos um milagre dentro de trs a quatro semanas. Os seus 
nveis sanguneos teriam de ser verificados primeiro, a fim de determinar a dose correcta para ele. Parecia 
um pouco complicado quando me contaram, mas valia a pena tentar, apesar de um potencial risco para os 
rins. Mas naquela altura achvamos que j no tnhamos outra escolha. Eram os rins ou a vida.
O ltio merecia, pelo menos, uma tentativa e, para melhorar a sua qualidade de vida, estava disposta a 
arriscar os seus rins. No lhe serviriam de muito se se suicidasse ou acabasse num estabelecimento 
hospitalar. Isso ainda parecia ser uma possibilidade e eu estava disposta a fazer tudo para a evitar.
Nick comeou a tomar o medicamento em Novembro, um ano aps ter iniciado a sua primeira medicao. 
E podia continuar com o Prozac e com o ltio. O mdico em Los Angeles achava que era efectivamente a 
combinao ideal, e o Dr. Seifried concordava com ele. Era completamente a favor de experimentar o ltio 
em Nick e concordou com o diagnstico do mdico de Los Angeles. Nick comeava ento a parecer 
realmente um manaco-depressivo.
O ltio permitia-lhe sentir-se e acreditar que era normal. Mas a perspectiva de o tomar e encarar o facto de 
que tinha uma doena deve ter sido imensamente traumtico para ele. Na noite em que voltou de Los 
Angeles com a receita na mo, foi calmamente para o quarto e depois anunciou que se ia atirar do telhado. 
Felizmente conseguimos acalm-lo rapidamente. Mas depois de um dia bastante agradvel em Los 
Angeles, foi aquela a sua reaco imediata. Mais uma vez, recordou-nos o quanto necessitava de ajuda. A 
partir daquele dia, no houve mais conversas de suicdio na sua vida quotidiana, ou nos seus dirios.
Nick estava nervoso quanto a tomar ltio, mas apesar disso submeteu-se a constantes anlises ao sangue. 
Uma ou duas vezes, disse que era uma ideia tola, e insistiu que no necessitava. Percebemos que, como 
ele negava ser manaco-depressivo, o ltio seria o teste final. Se funcionasse com ele, provaria o enorme 
desequilbrio qumico de que h muito suspeitvamos. Era a etapa final de uma caa s bruxas sem fim. E, 
tentando fingir que no era to importante para ns como o era na realidade, todos ns voltmos s nossas 
obrigaes. Era difcil no olhar para Nick como se ele fosse um laboratrio de experincias, e ele deve 
ter-se sentido sob constante vigilncia, o que era verdade. Voltou para a escola, visitando-nos em casa 
frequentemente e divertindo-se a tocar com a banda a que ainda pertencia, os Link 8O.Os resultados trs 
semanas mais tarde eram inegveis. Nick era uma pessoa diferente. Feliz, bem-disposto, so, equilibrado, 
calmo e conseguindo notas altas na escola. O milagre realizara-se. A ideia fora brilhante. Como sou 
alrgica  penicilina, que pe em risco a minha vida, nunca pensei nela como a droga milagreira que todas 
as pessoas dizem que . Mas no existia dvida alguma na minha mente acerca do ltio. Para Nick era uma 
droga milagrosa. A nossa longa busca  procura de ajuda havia dado lucros. Resultara! Ajudara-o! 
Tornara-se o remdio milagroso para ns e para ele, e assim comeou uma nova vida para Nicky. Depois 
do que o vi fazer por Nick, louv-lo-ei sempre. Ao princpio, f-lo sentir-se um pouco enjoado, mas 
recuperou. Tnhamos de equilibrar o barco, ajustar as doses, mas deu-lhe a oportunidade de ter uma vida 
que de outro modo nunca teria tido. Proporcionou-lhe normalidade e a hiptese de uma vida produtiva, da 
qual ele tirou todas as vantagens da para a frente. E no lhe afectou os rins de modo algum.
A soluo para fazer a droga resultar com ele estava no delicado acto de equilbrio que se tomou mant-la 
nos nveis certos. Era um constante acto de malabarismo, do qual tnhamos conscincia. Nunca deixmos 
cair as bolas. Sem a medicao, ou menos que a dose certa, um deslize, e s um, poder-se-ia tornar fatal, 
se ele se tornasse fatalmente deprimido e tentasse o suicdio. Durante trs anos, tornou reais os sonhos de 
Nick e os nossos acerca dele. Deu-lhe vida, tanto como o sangue, o oxignio ou as batidas do corao. 
Sem ela, nunca poderamos t-lo ajudado. Com ela, ele tinha uma vida a srio.
Voltou por trs vezes ao hospital no ano seguinte, durante cinco dias ou uma semana de cada vez, para 
ajustar a medicao. Tendo em conta o tempo que estivera internado no ano e meio anterior, era realmente 
um milagre. O hospital para onde voltou era o mais pequeno e o mais simptico em East Bay. Estava 
confortvel, nunca ps objeces, e eu gostava porque sabia que ele estava seguro e era bem tratado.
Certa vez, tambm durante este perodo, Nick conseguiu passar algumas horas de uma tarde com o pai 
biolgico. Bill passou pela escola, e no sei se foi um acaso ou um encontro previamente combinado. 
Passaram uma hora ou duas juntos, e acho que Nick ficou perplexo com o ar destroado de Bill devido  
sua vida de droga. E aps aquela tarde, eles no mais tornaram a encontrar-se. Nunca mais. Nick 
satisfizera a sua curiosidade e estava pronto para continuar a sua vida. Tomar ltio permitia a Nick 
prosseguir com uma vida normal. Ia  escola e concentrava-se na sua msica. Durante todo esse ano, 
dedicou-se  banda. Sabia que era importante para ele, mas no fazia ideia do talento que ele tinha. 
Comecei a ouvir rumores de que eles eram bons e de que a banda estava a ter xito.
Mas o melhor e o pior do ltio era dar-lhe a sensao de estar normal. O perigo a  o que acontece  
maioria dos manaco-depressivos que tomam ltio. Numa dada altura decidem que esto ptimos, 
aparentemente curados e j no precisam mais dele. Quando isso se d, o acidente acontece, to certo 
como o Sol nascer todas as manhs. Nick tomou-o durante quase dois anos sem o por em causa, o que lhe 
proporcionou bastante tempo para apreciar a vida e a sua msica. Eu estava deliciada com ele. Todos ns 
estvamos.

MSICA, MSICA, MSICA!

Quando vi Nick a tocar com os Link 8O pela primeira vez fiquei absolutamente perplexa. Tinha um 
talento, uma presena em palco, uma energia e um carisma tais que fiquei sem flego quando o vi. Como 
confidenciei a uma amiga, senti-me como a me do Mick Jagger. Era uma excitao incrvel!
Ele falara imenso da banda, mas era bastante modesto acerca dos seus talentos. No sei se alguma vez 
compreendeu como era dotado. Andava to atarefado a escrever as letras, a ensaiar e a actuar, como a 
organizar e a fazer publicidade  banda. Tratou de todas as marcaes durante bastante tempo, at 
contratarem um empresrio, arranjou obras de arte, fez panfletos, arranjou artigos para vender nos seus 
espectculos, agendou as digresses e telefonou para o pas inteiro para os promover. Tinha realmente um 
grande talento, e estava disposto a trabalhar tanto quanto fosse necessrio, para o vender. Agora ainda 
compreendo melhor o enorme respeito que ele granjeou na rea da msica.
"A amizade entre mim e Nick nasceu num espectculo Link 8O Subincision, no Clube Cocodrie, em So 
Francisco. Ouvramos falar bastante um do outro e vramo-nos de passagem, mas nunca nos 
conhecramos at quela tarde. Depois de ter visto os Link 8O actuar, sugeri um espectculo com o meu 
grupo, The White Trash Debutantes, por isso trocmos os nmeros de telefone. No nos falmos durante 
trs semanas. lembro-me bem, era uma hora da manh e estava quase a adormecer quando o telefone 
tocou. Era Nick a telefonar por causa de um espectculo. A minha primeira reaco foi perguntar-lhe se 
sabia que horas eram e pedir-lhe para voltar a ligar-me de manh. Antes que eu tivesse tempo de esboar o 
que quer que fosse, estvamos embrenhados numa animada conversa que durou quase uma hora. Nick era 
cativante e um lutador. Tinha grandes planos para a banda e, sobretudo, tinha a habilidade para os pr em 
prtica. Bem mais de setenta e cinco por cento das pessoas que se conhecem na indstria musical so 
preguiosas, e era reconfortante conhecer um indivduo novo com tal energia e actividade. O nosso 
espectculo nunca teve lugar por causa de uma briga que houve no clube na semana anterior, que obrigou 
ao seu cancelamento. No entanto, a nossa amizade cresceu. A sua inocncia infantil era muito cativante. 
Apesar de ter acabado de fazer dezassete anos, achei que tinha muita sensatez para a sua idade. Tentou 
compreender pessoas de todas as classes sociais e ajudou muitas vezes os desfavorecidos quando no era 
fcil faz-lo. Talvez porque ele sofrera alguma da mesma dor na sua vida. Nick trouxera as suas prprias 
lutas para a msica, para que todos as partilhassem. Estou certo que era uma forma de terapia. Quando 
subia ao palco, trazia com ele todas as frustraes para ajudar a tornar o espectculo mais excitante e 
louco. No entanto, o que achei mais memorvel nas suas actuaes era o modo humilde como agradecia 
ao pblico. Queria tanto organizar a sua vida, fazer a me orgulhar-se dele e ter sucesso no seu verdadeiro 
amor: a Msica.
Vou sentir a falta do Nicky, no s devido ao seu dom para a msica, mas pelas vezes que falmos sobre 
os altos e baixos que a vida nos traz. Tinha sempre um ombro amigo para mim, e eu tambm para ele. 
Nick tinha tantos planos para a sua banda nova, KnowIedge. Nick Traina era uma pessoa muito especial, 
que tocou todos aqueles que conheceu. Irei sentir muito a sua falta."
Ginger Coyote White Trash Debutantes
O empresrio de Nick escreveu acerca dele:
"Nick era muito mais do que um punk sem direito a voto. Abrau a beleza, a arte, a poesia e a boa 
vontade to prontamente como a fria, a dor e a malcia. A intensidade do seu raio de aco era 
inspiradora, e eu desejara que nos tivssemos tornado amigos para toda a vida e scios na sua descoberta 
pessoal e musical de si prprio e d~ vida. Sinto a sua falta e penso nele muitas vezes. Estou furioso com 
ele por ter lixado tudo e por me ter enganado a mim e a todos o que gostavam dele e do tempo passado 
com ele. Tenho sonhado c ele - encontrado com ele, se quiserem - assim como tenho e outras pessoas que 
deixaram este mundo antes de mim. Parecia - realmente bem, como se os demnios tivessem ido 
descanar para que a sua alma esteja em paz."

 Steve Ozark
Empresrio, Ozark Talent

 Myk Malin do Burnt Ramen. Studio dirigiu uma gravao onde cantava, no final de 1995, quando tinha 
dezassete anos, e contou-me numa carta como ele ainda era difcil na altura. Dizia que  Nick se sentira 
inseguro nas improvisaes, apesar de as ter feito.  Depois continua: "A vez seguinte que vi Nick foi em 
Maio de 97. Ele ouvira umas coisas feitas no estdio que eram boas e queria voltar para gravar mais duas 
canes. A minha impresso de Nick alterou-se completamente, pois daquela vez ele estava seguro de si e 
extremamente simptico." Gravaram dois cover tunes e Nick ofere ceu-lhe uma cpia do CD mais recente 
dos Link 8O, Seventeen Rea sons, e uma sweatshirt deles. Myk perguntou a Nick se poderia utili zar duas 
das suas canes para uma compilao chamada Rame Core, Nick concordou e prometeu voltar 
rapidamente para fazer mais algumas gravaes. Myk fala do enorme impacte que Nick causou e diz que 
gostaria de ter podido ajud-lo.
"Na ordem da natureza,  difcil dizer o que faz de uma pessoa um ser nico. Mas  a poesia enraivecida 
da sua vida curta que causou em mim uma grande impresso." Fiquei profundamente comovida com a sua 
carta.
Uma recordao de Nick que sempre amarei  aquela em que fui v-lo a um clube pequeno cheio de fumo, 
luzes e midos de aspecto bizarro, muitos deles vestidos  punk rockers. Havia imensos cabelos com as 
cores do arco-ris, e eu senti-me como se tivesse cem anos, enquanto esperava que ele aparecesse, e via 
toda a gente muito agitada. Existia uma aura de tenso expectante. Estava nervosa por o ir ver tocar 
finalmente e pensei que seria divertido, mas no tinha expectativas especiais e no estava, de modo 
nenhum, preparada para o que vi quando a banda entrou em palco, ou para o frenesim do pblico que 
gostava tanto dele. 
A banda de Nick entrou, afinou os instrumentos, verificou os microfones e, em segundos, explodiu de vida 
 minha frente. Apesar de no ser muito imparcial na minha avaliao, Nick foi sensacional. No estava 
minimamente preparada para o seu profissionalismo, para o poder da msica, para a sua voz, a sua 
presena em palco ou para a qualidade da sua actuao. Nick pulava e saltava, rodopiava, como um 
bumerangue que explode no ar. Adorei!
Nos intervalos, disse ao pblico que eu estava l e que, se no tivesse sido eu e tudo o que tinha feito, ele 
no estaria ali. Os meus olhos encheram-se de lgrimas quando ele disse aquilo. E deliciou-me ver o 
pblico delirar com ele. Estendiam os braos, gritavam, cantavam com ele, pediam mais. Depois da 
actuao, foi cercado por pequenos grupos. V-lo foi uma experincia incrvel e fiquei enormemente 
impressionada pelo seu poder e magnetismo como msico. No existia qualquer dvida no meu esprito, 
quando compreendi algo pela primeira vez, que Nick iria muito, muito longe como estrela de rock.
Mais tarde, ele veio ao meu encontro e contei-lhe como ficara impressionada. A nossa amiga Jo Schuman 
estava comigo e, mesmo com a sua vasta experincia na cena musical, estava to impressionada como eu. 
Eu sentia um imenso orgulho nele, e Nick, a escorrer suor, ps o seu brao  minha volta, enquanto as 
raparigas gritavam para se aproximarem dele. Foi um momento inesquecvel na minha vida. Um dos 
momentos que eu sempre guardarei. Os seus amigos disseram-me que, mesmo que eu no estivesse entre 
o pblico, ele dedicava-me sempre uma cano em cada uma das suas actuaes Depois disso, vi-o num 
clube nocturno maior. Atraiu um pblico mais duro e mais velho, e havia espao para uma multido 
maior. A assistncia parecia indiferente quando ele subiu ao palco com um ar nervoso, pelo menos aos 
olhos experientes da me. Comeo um pouco a medo, e em poucos minutos repetiu-se o mesmo. Pegar 
numa enorme sala cheia de estranhos e tornara-a um mar de pessoas a contorcer-se, aos gritos, a danar, 
aos berros. Nick era mgico em palco.
Adorava ir v-lo. Adorava o que ele fazia, como aparecia vestido quando actuava, e, quando voltava ao 
pequeno clube para tornar a v-lo, olhava para ele de soslaio ao longe, a tentar fingir que eu era uma 
estranha. O que via era um jovem extremamente atraente, e fiquei espantada ao perceber que ele era muito 
sexy. Era musculado bem constitudo, e compreendia por que razo  que as rapariga gritavam quando o 
viam. Tinha tanto charme, um sorriso estonteante, os braos pareciam tocar na multido e pux-la para si. 
Tinha um carisma incrvel. E,  parte isto, tinha verdadeiro talento. Possua uma grande voz e as letras que 
cantava, quando se conseguia perceber as palavras, estavam muito bem escritas. Fiquei to orgulhosa e 
diverti-me imenso a ir aos concertos. O melhor  que nos orgulhvamos um do outro.
O meu filho e eu tnhamos muita sorte. Cedo descobrimos as nossas paixes. Eu tinha mais ou menos a 
idade dele, dezanove, quando escrevi o meu primeiro livro. E agora ele estava disposto a dar tudo por tudo 
para conseguir o que queria, e divertia-se enquanto o fazia. No havia nada no mundo que gostasse tanto 
como a sua msica e a sua banda.
Um dos melhores amigos de Nick era outro jovem msico na cena musical, talvez o seu melhor amigo, 
Sam Ewing. Nick e todos os outros chamavam-lhe Sammy the Mick, e ele e Nick costumavam exibir-se 
antes, durante e depois dos concertos de Nick. Ele fala da paixo imparvel que Nick tinha pela sua 
msica e de como ele adorava cantar. Eram como dois garotos a brincar e a divertir-se, mas, por mais 
loucuras que Nick fizesse, nada o conseguia parar quando estava a cantar.
"Tentei sempre sabotar Nick quando ele estava em palco. Pregava-lhe rasteiras, atirava-lhe coisas e 
empurrava-o para fora do palco. Uma vez bateu com fora no cho. Saltei e levantei-o no ar. Queria gritar, 
mas Nick continuou a cantar. Afastei-me dele e continuou a cantar. Rodei a perna e desequilibrei-o. Caiu 
de joelhos ainda a cantar. Baixei-me para o levantar e ele despiu-me a camisa. Saltei por cima dele e 
lutmos. Durante todo o tempo, Nick cantou a plenos pulmes. Agarrei numa garrafa de gua e despejei-
lha por cima da cabea. Ele fez o mesmo. A multido inteira estava em delrio. E com isto tudo, Nick no 
parou de cantar! "
Nem todas as suas actuaes nem as suas palhaadas foram to duras como aquela, mas os dois 
divertiram-se imenso. Sammy foi nalgumas das suas pequenas digresses e aturou Nick, especialmente se 
estava em baixo ou extremamente cansado, aps uma srie de espectculos e concertos. Sammy the Mick 
estava sempre presente para o alegrar e para o animar. Os dois tinham tatuagens idnticas com a palavra 
irmos. Ele adorava-as. Outra paixo louca.
Nick ofereceu um bolo de aniversrio a Sammy, aps a sua actuao no Clube Cocodrie e deu-lho no 
palco. Inevitavelmente, transformou-se numa luta com comida. Existiam mil e uma histrias com Nick e 
com Sammy. Namoriscavam juntos com as raparigas, cantavam juntos e geralmente faziam disparates, um 
provocando o outro para se comportarem como crianas loucas e felizes. Sammy the Mick veio connosco 
para o Havai naquele ano, e ele e Nick pareciam meninos de coro nos seus fatos cinzentos no Dia de 
Aco de Graas. Eram os melhores amigos, cheios de alegria, e o meu corao sempre se animou ao v-
lo juntos.
Nick no s cantava como tambm dirigia a banda, quando tinha dezoito anos, marcando-lhes digresses 
por todo o estado. Tratou da publicidade e organizou um vdeo. Fez tudo isto entre actuaes e ensaios 
constantes. Sempre nos respeitmos, mas agora sentamos mais do que admirao um pelo outro, 
tnhamos algo em comum. Ambos trabalhvamos em reas criativas que amvamos.
Adorava falar do seu trabalho com ele, pois ele levava-o muito 'a srio e eu sabia que iria longe com ele, 
porque estava disposto a entregar-se-lhe de alma e corao. No poderia ser de outro modo. Era a sua 
paixo. Era a sua razo de viver. Desde os tempos dos concursos de playback na escola. Tornara-se de 
repente um caso srio. Estava no caminho para se tornar uma estrela de rock.
Penso que um dos seus melhores momentos, e a minha recordao preferida, foi a sua ltima Primavera 
passada connosco; antes de partir em digresso, o seu pequeno irmo Maxx entrou no concurso de 
playback na escola, a mesma que Nick frequentara, e a banda que imitou foi Link 8O. Samantha vestiu-o 
de modo a parecer-se com Nick, pintou-lhe o cabelo de preto como o dele, ps-lhe gel, e Victoria pintou 
cuidadosamente tatuagens idnticas s de Nick. Foi uma emoo, mesmo para mim, ver um filho no palco, 
imitando o outro com tanta competncia. Nick simplesmente adorou. Observou-o, fascinado, com o 
sorriso de orelha a orelha e animou-o do lugar onde estava. Trouxera consigo o resto da banda e Maxx 
estava delirante por o ter ali. Era um daqueles momentos perfeitos que sempre recordarei com carinho. 
Nunca esquecerei o sorriso de Nick enquanto via Maxx, ou o olhar de adorao deste para o seu irmo 
mais velho. Nick era o seu heri e ele adorava Maxx.
A relao de Nick com todos os seus irmos era ptima. Fossem quais fossem as discusses que teve com 
os irmos mais novos nos primeiros anos, quando amadureceu e estava sob o efeito do ltio' transformou-
se num irmo mais velho querido, protector e muito consciencioso. Sentia uma afinidade especial com 
Maxx, talvez por serem rapazes e autografou-lhe um poster no dcimo primeiro aniversrio de Maxx, que 
dizia: "Para o Trairia mais fixe depois de mim, com amor do irmo mais velho, Nick Maxx idolatrava-o, a 
sua qualidade de "fixe", a sua msica, o seu humor para a brincadeira. Nick nunca perdeu o seu esprito 
brincalho acrianado, mas, com o passar dos anos, acrescentou-lhe sabedoria, perspiccia, sensibilidade e 
compaixo, que juntara  sua prpria alma ao longo de anos de intenso sofrimento e lutas. Tinha muito 
para dar a todos e no hesitava em o fazer, mas por cima das vrias camadas da sua alma e do seu esprito 
havia uma cobertura espessa de. puro esprito de diverso. Adorava arreliar as irms e brincar com elas, 
admirava-as muitssimo, e no ltimo ano olhou para elas, estupefacto, e depois falou comigo em privado, 
sentindo-se, como eu me sinto s vezes, atordoado e velho. "Como  que elas cresceram tanto e ficaram 
to bonitas?", perguntava-me ele em sussurro depois de elas sarem da sala. Era louco por elas, adorava a 
irm mais nova, Zara, e protegia-as ferozmente a todas, especialmente Sammie.
Nick e Sam partilharam sempre uma relao mgica. Uma ligao expressa ou tcita que, quando estavam 
juntos, relegava todas as outras para segundo plano. Ela teria feito qualquer coisa por ele, qualquer coisa 
para o proteger. Eu sabia, ao v-los ao longo dos anos, que a sua relao era profunda. Eram como gmeos 
siameses. E embora ela se revoltasse contra a ideia de que poderia haver algo de "errado" com Nick, 
penso que ela prpria sabia, e queria fazer qualquer coisa para evitar que ele ficasse magoado. Mais do 
que tudo, ele confiava nela, e ela nele. Ela foi talvez quem sofreu mais com o que veio a acontecer mais 
tarde. Embora saiba bastante bem o que toda a famlia sofreu quando o perdemos, s vezes receio que Sam 
fosse quem mais sofreu. Mas a dor ou o sofrimento no so mensurveis, quem sou eu para aferir o que os 
outros sofreram? Sei que todos os seus irmos sentiram a sua perda como algo irreparvel, tal como eu. 
Beatrix sentiu certamente a mesma agonia que sentimos. Ele foi, durante toda a sua vida, o seu irmo 
beb, o beb que nasceu para ser dela. Tal como Sam, ela protegeu-o vigorosamente, e utilizou os seus 
conhecimentos psiquitricos para o ajudar quando era necessrio.
Nos ltimos dois anos, quando passava frias ocasionais com uns amigos, Beatrix substitua-me sempre, 
assumindo decises responsveis e tomando conta dele o melhor que podia. Hospitalizou-ouma vez, 
quando ele deixara de dar ouvidos s pessoas e parara de tomar o ltio durante uns tempos. Ela tinha uma 
maneira meiga e persuasora, e ele respeitava-a e adorava-a. E ficou particularmente orgulhoso por ter tido 
uma quota-parte no casamento dela. As relaes de Nick na famlia eram geralmente fortes e, em grande 
parte, muito boas.
Depois de Nick partir, em luta com a sua agonia, Beatrix escreveu isto sobre o modo como se sentia:
Lgrimas
Estou afogar-me nas minhas lgrimas. Arrasto-me penosamente por entre a nvoa dos dias com medo da 
noite. Sou prisioneira dos meus pesadelos e das trevas. O crepsculo  o lembrete dirio de que o pesadelo 
est vivo e bem vivo. No tenho fuga possvel.  corao grita de agonia. No h remisso, nada pode 
ajudar-me.  No h blsamo para as feridas porque elas so to profundas. Escrevo e a minha busca por 
segurana  infrutfera. Por todo o lado para onde olhe vejo outros a chorar por ti. Eles flagelam-se. Eras o 
meu Sol, a minha alegria. O teu sorriso era a minha esperana. No sei como viver sem ti. Tenho trinta 
mas sinto o fardo de algum de cem. A minha alma est velha. Corro de um lado para o outro 
freneticamente porque a alternativa  to  tentadora. Receio a indulgncia de ficar na minha cama, o meu 
ninho. No sonho roguei-te para ficares. Os teus olhos danavam, o teu sorriso abraou-me. Imploro para te 
trazerem de volta. As tuas palavras "tu sabes" ecoaram sempre que pedi. "Tu sabes" significava "no 
posso ficar". Esforcei-me por manter o sorriso na tua mo, o teu cheiro, o teu toque. A ideia de acordar 
sem ti no Natal  devastadora. No h Pai Natal. Levanto-me cedo para expulsar os demnios. Em vez de 
paz, tenho gritado ao longo de quilmetros, em muitas cidades. Estou to cansada e esta viagem parece-
me interminvel. No procuro ajuda. Lutar  algo que no me  familiar.  Deixaste um abismo e eu estou 
presa por um fio. Estou curiosa, por isso espreito  para o abismo. No dou nada por certo. At respirar me 
custa. A asma  uma ditadora frequente. Muitas vezes ouo os meus angustiantes murmrios antes de os 
sentir. * som lancinante trespassa a msica do meu walkman. * minha angstia rebenta.  Sinto um n na 
garganta. Respiro com dificuldade. Estar imvel no me d  qualquer conforto. Sinto-me desconfortvel 
na minha prpria pele. Sou uma caracoleta sem casca. Tento refugiar-me na segurana do esconderijo. 
Nick tambm tinha uma forte ligao com Trevor e Todd, os seus irmos mais velhos. So os dois filhos 
mais velhos de John, mas o nosso plano de educarmos as crianas como uma famlia tivera xito e boa 
aceitao desde o princpio. Nick nunca se sentiu menos que um irmo completo de Trevor e Todd, nem 
eles relativamente a ele. Diferente de Beatrix, Trevor  provavelmente o membro mais "respeitvel" da 
famlia, um cidado srio, um jovem homem de negcios, conservador por natureza, embora sempre 
disposto a gozar o prazer de uma boa gargalhada e cheio de graa. Nick disse sempre que ele era 
"perfeito", "fixe" (o ltimo cumprimento de Nick) e muito "decente e simptico". Adorava e respeitava 
Trevor, gostava de estar com ele e iam ao cinema e a concertos juntos. Mas v-los juntos sempre me fez 
sorrir. No se conseguiria encontrar dois homens na terra to diferentes. Um com o seu ar de radical, de 
mod, de funky, de punk, de brinco na orelha e no nariz; o outro, com um ar de um anncio de Ralph 
Lauren. Eram dois rapazes simpticos, mas, com dez anos entre eles e diferentes interesses e paixes, 
viviam em dois mundos diferentes. Trevor construiu um site na Internet para Nick e a banda, o qual, 
infelizmente, nunca teve tempo de ver a luz do dia antes de Nick nos deixar.
Nick tinha mais coisas em comum com Todd, embora tivesse o' mesmo grau de adorao pelos dois. Mas 
Todd era aparentemente "mais fixe", vivia em Los Angeles, e como jovem produtor cinematogrfico  
procura de fama estava mais familiarizado com os caprichos do mundo musical de Nick. Durante anos, 
partilharam os mesmos gostos musicais, riram-se das mesmas coisas, e Todd tambm era de alguns 
excessos, embora nove anos mais velho do que Nick, e acompanhava-o nas travessuras. Tinham o mesmo 
gosto por farras como eu, riam-se das mesmas piadas, e gostavam das mesmas raparigas. Eram almas 
gmeas em muitas coisas. E tal como todos ns, quando perdeu Nick, Todd sentiu como se tivesse perdido 
um pedao do seu corao e de si prprio.
Todd e Nick tinham admirao um pelo outro, compreendiam-se um ao outro e eram muito chegados. A 
coisa favorita de Nick no mundo, e o ltimo prazer para ele, foi visitar Todd em Los Angeles. Todd 
chegou a permitir que o resto da banda ficasse em sua casa nas breves digresses a Los Angeles. Tinha 
orgulho em Nick, como todos ns, e o seu elogio de Nick dizia tudo: "Tenho orgulho em dizer que o Nick 
se tornou a pessoa que quis ser. Ele disse-nos o quanto nos amava. O Nick era uma pessoa forte. O Nick 
era uma pessoa carinhosa, bondosa, talentosa, verdadeira, ntegra, completamente realizada, que fez girar 
a vida  sua volta. Tornou-se a pessoa que quis ser. Foi um sucesso. Terei de dizer que Nick Traina foi um 
dos maiores sucessos a que alguma vez assisti."
E no seu tmulo, ele ps algo que tocou o meu corao e a minha alma, e certamente que a de Nick, e 
dizia tudo: "Querido Nick. Tu foste a minha sombra. Tu foste o meu companheiro. Tornaste-te uma 
inspirao. Estou to feliz pelos tempos que partilhmos. Tu sers sempre o meu mano. Sentirei muito a 
tua falta. Amor, Todd."
Quando tinha dezanove anos, Todd tinha uma pequenina raposa prpura tatuada na anca, que ningum 
conhecia. Era num ponto que ningum conseguia ver. Mas Nick viu-a, e achou ter sido a coisa "mais fixe" 
que alguma vez vira e esperava fazer o mesmo um dia. Mas como era timbre de Nick, pegou na bola 
(neste caso, na tatuagem) e correu com ela o campo todo. Nick no fazia as coisas em meios-termos ou 
subtilmente. Quando fazia as coisas, ns dvamos por elas. As tatuagens foram feitas a trao grosso, com 
cores berrantes e de enormes dimenses. Nick "correu o campo todo" com as tatuagens. Para ele, no 
havia raposas pequeninas que mal se viam! (A agora famosa tatuagem de Todd  ainda uma lenda na 
famlia. Ouvi falar muito dela, mas nunca a vi, e duvido que alguma vez a veja!)
Nick fez a sua primeira tatuagem quando tinha dezassete anos, e foi um trauma para todos ns. Eu 
detestei, e Nick tambm a detestou depois de a fazer. Concordou em retir-la, e foi o que fez, embora o 
processo deva ter sido doloroso. Fez uma segunda tatuagem, e tambm a retirou, para me fazer a vontade. 
Mas, na terceira tatuagem, desisti. At os braos acabaram por ficar cobertos delas. Nesse ltimo Vero, 
ele tinha a palavra "Traina" escrita em letra gtica ao longo das omoplatas. E, por ltimo, fez uma 
inscrio no peito que dizia em tom proftico: "S Deus Pode Julgar-me." Detesto tatuagens, mas nele 
no ficavam de todo mal. Era muito bem-parecido e ligava com a sua pessoa em palco. Nas ltimas 
actuaes que vi dele, cantou em tronco nu, enquanto as tatuagens danavam, os msculos ondulavam e o 
seu corpo resplandecia. O que ele fazia eracansativo, mas nunca parecia cansado quando o fazia. Dava a 
impresso de que poderia continuar eternamente.
Com dezassete anos, Nick ps dois singles no mercado, e tinha dezoito anos quando saiu o seu primeiro 
CD. Eu tinha um imenso orgulho nele. Fez vrias gravaes, e tambm era convidado para participar nas 
gravaes de outros artistas. Ele era bom, muito bom, e os outros msicos e artistas com quem trabalhava 
sabiam disso. E as letras que escrevia tinham sempre uma mensagem que o pblico gostava. Havia 
canes acerca da fraternidade, da unidade, contra a violncia e o racismo, para os jovens eclipsarem os 
velhos, e mesmo algumas sobre mim e o pai. Os midos adoravam as suas canes e, embora eu nem 
sempre as conseguisse decifrar, ele parecia sab-las de cor quando as cantava:

Tempo
Passo todo o meu tempo  espera De que vs descobrir outro caminho E no me mandes calar Pois tenho 
muito para dizer. Se vives para estar sempre feliz Ento no sabes o que se passa. E quem me dera ter 
mais tempo Pois a vida  demasiado curta para no ligarmos. Consumido pela separao Julgas que isso 
no acontece. Mas s quando te aplicares Conseguirs ver as mentiras. Todos te diro alguma coisa E 
quem conhece quem faz sentido Mas para admitir efectivamente Que no sabes nada E um esforo 
enorme No percas a vida de vista E faz sempre o que for correcto... E saboreia cada minuto que Deus te 
der No desistas sem lutares.

Costumava
No serve de nada atacares-me Pois j estou perdido Esta vida no passa de uma batalha Que j combati. 
Todos os dias em que fao uma vnia Rendo-me a mim prprio. Costumava ser to forte Costumava no 
precisar de ajuda Costumava ser um rapaz Transformei-me num homem
Mas nem sequer estou a viver No sei o que sou. Uma vida gasta a morrer No  uma vida. Ao atravessar 
esta  vida Ao atravessar este inferno vivo No pode durar muito mais tempo Perdi  tudo  o que cheguei a 
ter. Sei que poderia ser pior. Mas mesmo assim  pssimo. de  Spacey
... Queria ficar um segredo, Como caminhar nas trevas, Se ningum te conhece, ningum se interessa Por 
isso ningum te parte o corao. Em sonhos entreabertos vejo-me a mim E estou de p Mas todo o meu 
tempo  passado sentado Estou sempre meio adormecido. Este mundo no guarda nada dentro de si 
Morreu quando eu nasci. Eu costumava ter um objectivo Mas no h nada por que valha a pena ter um... 
de Ha Ha H este mundo est num tal caos pattico e triste Por isso enquanto fao o bem E devo ser feliz 
agora No consigo imaginar como  a felicidade. E assim tudo acabar Da mesma forma que comear 
Morrerei sem nada. Nunca ganharei.
Julie disse uma vez que as suas canes eram a sua nota de suicdio, e muitas delas exprimiam as suas 
mgoas. Mas havia muitas mais enrgicas, agressivas e rebeldes. Escreveu muitas canes e, mais tarde, 
escreveu canes mais alegres e positivas com a sua nova banda, Knowledge.
Adorava andar em digresso. Era uma aventura para ele. Adorava as pessoas que conhecia, os clubes onde 
actuava. Adorava tudo na cena musical. Era como se tivesse crescido para ser exactamente quem ele 
queria. E eu adorava ver isso nele, aquele prazer roufenho e a pura alegria que vinham do facto de fazer 
uma coisa que adorava. Podia tocar, saltar, danar, gritar, berrar e cantar durante horas.  como quando 
me sento  mquina de escrever  noite. No h dia nem noite demasiado longo, nem muito cansativo, 
logo que eu me ponho a escrever. E Nick sentia exactamente o mesmo logo que se punha a cantar.
Fiquei impressionada com o facto de ele conseguir que a sua actividade no interferisse com as suas 
obrigaes escolares. E ia bastante bem na escola para onde fora desde que estava no segundo ano. Mas 
acho que foi um alvio para ele quando foi posto em regime de "estudo independente", quando estava no 
ltimo ano. Isso proporcionava-lhe mais tempo para praticar e ensaiar, para arranjar' digresses para os 
fins-de-semana e, de tempos a tempos, para fazer os trabalhos de casa.
Nick encarou a sua passagem para o regime de "estudo independente" como uma bno, mas isso surgiu 
devido a uma srie de razes. Em primeiro lugar, ficava a p at altas horas da noite e estava cansado de 
manh quando chegava  escola. Havia um sof na entrada da escola, e ele no tinha problema nenhum 
em deitar-se a e ressonar ruidosamente. No impressionava os professores com o seu entusiasmo pelas 
matrias. E, quando apertado pelo sono, chegava a adormecer nas aulas. O director telefonava-me de 
tempos a tempos para discutir o problema. Nick no tinha papas na lngua, mas era muito popular, e 
seguia razoavelmente bem nos estudos, porm continuava a ser o mesmo Nick. A maior parte do tempo, 
ele fazia o que queria e, tanto quanto podiam, eram condescendentes com ele.
O incidente final que os levou a expuls-lo das aulas foi um pouco mais delicado, mas penso que os 
convenceu de que ele era demasiado independente e excntrico para eles o terem na sala de aula. Ele 
discordou com algo que algum disse e, na brincadeira, baixou as calas diante de todos. Telefonaram-me 
de imediato e, mais tarde, discuti o assunto com Nicky. E fi-lo com ar srio. Ele, por outro lado, com ar 
divertido disse-me: "Tem calma, mamm." No. Desta vez no estava "a ter calma", disse-lhe. Fiquei 
triste com o sucedido, e disse-lhe que era um comportamento imprprio.
"Toda a gente faz isso na escola, mam!", insistiu, com aquele seu enorme sorriso de gozo, que era 
diferente do sorriso sedutor, ou do sorriso deslumbrante do artista. Mas discuti com ele, ningum fazia 
aquilo, e foi por causa disso que me telefonaram da escola.
Eles achavam que ele tinha ultrapassado as marcas. Todavia, estavam dispostos a mant-lo como aluno, 
desde que fizesse os exames e entregasse os trabalhos. Nick mostrou-se encantado com o que ficara 
estabelecido. Nunca mais baixou as calas em lado nenhum que eu saiba, excepto uma vez, num baile de 
caloiros, em que tocou, na escola de Samantha, quando tinha dezoito anos. Fiquei furiosa, e Samantha 
deve ter ficado envergonhada. Mas ela adorava-o tanto e era uma to grande admiradora sua que ps uma 
pedra sobre o assunto e disse que toda a gente achou engraado. Era novamente a velha batalha de Nick 
com o controlo dos impulsos. Agora e sempre. E nunca baixou as calas em palco. Mas estou certa de que 
os seus admiradores, especialmente os grupinhos que o seguiam para todo o lado, teriam adorado!
A carreira de Nick era uma coisa de que me orgulhava muito. Fez um excelente trabalho em pouco tempo, 
e os Link 8O saram-se extraordinariamente bem, atendendo a que eram todos muito novos e tinham 
muito pouca experincia quando se juntaram. E fiquei particularmente orgulhosa ao ir  Europa, quando 
Nick fez a sua grande digresso, entrei numa loja de msica em Londres e vi CDs de Nick...  o meu 
filho, tive vontade de dizer a toda a gente na loja... Olhem,  uma estrela!  o meu beb! Fizera um belo 
trabalho. Era, uma estrela-cadente. Um raio resplandecente que cruzou o cu do mundo da msica. Um 
cometa. E pudesse ele ficar assim, no cu imenso, a cantar eternamente o que lhe ia no corao.

DOIS TIROS DE AVISO SOARAM NO SILNCIO

John e eu chocmos a famlia profundamente quando nos separmos no Vero de 1995. Nick tinha 
dezassete anos. Na realidade, separmo-nos em Agosto, mas s dissemos s crianas em Setembro. 
Tentmos encontrar a altura exacta para lhes dar a notcia. Mas, como com qualquer notcia m, no existe 
nenhuma.
As crianas ficaram especialmente abaladas por ela, uma vez que tnhamos sido bastante discretos acerca 
das nossas divergncias. As coisas entre ns estavam tensas e muitas vezes frias h trs anos, e talvez as 
crianas j estivessem to habituadas a isso que pensassem que iramos viver assim para sempre. Por 
vezes, at eu.
Achei que o dia em que lhes demos a notcia foi o pior dia da minha vida. Mas, para meu desgosto, 
viramos a ter pior.
Durante o fim-de-semana do Dia do Trabalho, dissemos s crianas que amos separar-nos, que era s o 
que amos fazer de momento. Ficmos todos devastados. Era o fim de um sonho para mim e para John, o 
final de uma poca de segurana e magia para as crianas. Foi-nos difcil chegar l. John e eu no 
tommos a deciso de nimo leve.
Quando contmos a Nick, ele pareceu no dar grande importncia ao facto. Ficou perfeitamente calmo e 
pareceu no ficar minimamente afectado, ao contrrio de odos os outros. Mas, dois dias mais tarde, 
comeou a comportar-se de modo estranho e assim continuou durante semanas, at que o pusemos no 
hospital durante duas semanas, em Outubro. Ele no tinha estabilidade para lidar com aquilo. Mas ns 
tambm no estvamos a lidar muito bem com a situao. Foi um Inverno violento, um ano duro. 
Contudo, no final, tanto quanto as nossas capacidades permitiram, todos nos adaptmos. John e eu ainda 
fizemos um esforo para manter a comunicao e at passmos tempo juntos com as crianas, 
especialmente nas frias. Mas foi uma poca difcil para todos, tanto para Nick como para os outros. Uma 
vez mentalizado, lidou com a situao to bem como todos os outros.
O nico ponto de referncia de que me lembro daquele ano foi em Dezembro, quando eu efectivamente 
disse em voz alta a um grupo de amigos,  mesa do jantar, que Nick era manaco-depressivo. No eram 
amigos ntimos e foi a primeira vez que admiti o facto em pblico. Senti como se fosse um momento 
importante e disse a mim prpria, e a eles, que o amava como ele era, estava orgulhosa dele de qualquer 
modo e aceitava o destino que nos tinha calhado. As pessoas a quem disse, a princpio, ficaram caladas, 
depois fizeram algumas perguntas sobre o assunto. Lembro-me que a minha voz tremia quando respondi. 
Mas, para mim, foi um primeiro passo. Era o incio da minha abertura relativamente aos problemas de 
Nick e de no os esconder mais. Proporcionou-me a oportunidade de dizer como me sentia orgulhosa dele. 
Nessa altura, ele trabalhava arduamente na sua msica e estava a dar-se lindamente com o ltio. Ainda o 
considero a droga milagrosa que o teria salvo. E, mesmo hoje, mantenho a mesma opinio.
Fez dezoito anos em Maio de 96, e para ele foi um acontecimento importante. Talvez demasiado. 
Simbolizava liberdade e a idade adulta. Foi como se ele estivesse  espera que disparassem canhes no 
primeiro de Maio e que todos o vissem de modo diferente. Mas,  bvio, no o fizeram. Ainda precisava 
de pessoas a cuidarem dele, de Julie para o controlar, de consultar frequentemente o psiquiatra e de tomar 
medicamentos. Penso que, algures num canto secreto da sua mente, ele esperara que os problemas 
desaparecessem, como que por magia, assim como a sua doena. Mas, apesar de ter feito dezoito anos, 
ainda se encontrava confinado s mesmas limitaes e no estava satisfeito com isso.
Comeou a ameaar sair da casa de Julie, onde estivera quase dois anos, e, de repente, recusou fazer 
coisas que se esperava que fizesse, ou que sabia que tinha de fazer. "Agora tenho dezoito anos, no podem 
obrigar-me!" Quando dizia isto, parecia ter cinco. Comeou a haver muitas discusses a partir da altura do 
seu aniversrio. Queria que tudo fosse diferente para ele, e no era. No podia ser. Era emocionalmente 
jovem para a sua idade e continuava com um pssimo controlo dos impulsos, que s os medicamentos 
conseguiam dominar ligeiramente. Mas continuava sempre pronto a fazer algo irresponsvel. Mesmo para 
um mido em os problemas dele, dezoito anos no , geralmente, sinnimo de autonomia total. Nick 
estava saturado de serem os outros a ditar-lhe as regras e a ter de viver de acordo com elas.
Nos hospitais psiquitricos onde ficava esporadicamente, havia funcionrios que  explicavam os direitos a 
pessoas como Nick e lhes diziam que eles tinham o direito de escolher. A escolha que Nick fez em 
Setembro foi parar de tomar o ltio, e, na realidade, no podamos obrig-lo. Pelo menos oficialmente, ele 
agora era um adulto.
Tentmos dar-lhe independncia de outras maneiras. Terminara a escola secundria em Junho, e ia 
continuar os estudos numa faculdade local, facto que nos deixou orgulhosos. Julie e a famlia tinham 
acabado de se mudar, no Outono, para uma casa que servia perfeitamente as necessidades deles e as 
nossas. Era grande, confortvel para a famlia dela, com um quarto para Nick, se ele precisasse, e com 
uma pequena casa independente, onde Nick poderia viver  vontade, enquanto se mantinha 
suficientemente perto para estar em segurana. Nick poderia l dormir se estivesse em boa forma e a 
portar-se bem, e ele adorava-a. Apesar disso, ele achava que precisava de se afirmar mais como adulto. 
Recusou terminantemente tomar a sua medicao, e todos sabamos que era s uma questo de tempo 
antes que os efeitos pudessem fazer-se sentir. S no sabamos que forma assumiriam. Nenhuma lisonja, 
seduo ou mesmo ameaas o levavam a tom-la. Dizia que se sentia ptimo, o ltio curara-o e j no 
precisava de o tomar. Era o comportamento tpico de um manaco-depressivo. Muitos deles, de vez em 
quando, param de tomar os medicamentos, normalmente porque se sentem to normais com o ltio que se 
convencem de que o problema que os levou a isso desapareceu. Nick no era diferente, mas,  medida que 
os dias e as semanas passavam, tornou-se cada vez mais difcil e impossvel lidar com ele. Era como um 
comboio expresso inclinado de modo perigoso para fora da linha, e eu estava desesperadamente 
preocupada com o que iria acontecer. Mas tinha uma viagem inadivel de alguns dias a Inglaterra, onde 
recebi vrios telefonemas frenticos de Julie. Nick precisava de ser hospitalizado, mas no concordava. 
Agora que tinha dezoito anos, tambm no tinha de fazer aquilo. No tnhamos mais o direito de o internar 
quando achvamos que ele necessitava, ou se a medicao precisava de ser ajustada. Ele tinha de 
concordar em ir e,  claro, no concordava. Quanto mais necessitava, mais recusava. Era um sistema 
louco. Desta vez, a minha filha Beatrix foi a casa de Julie e passou algumas horas com Nick, tentando 
convenc-lo a ir para o hospital. Devem ter passado um mau bocado com ele, e telefonaram-me vrias 
vezes nessa noite. Finalmente, acabou por ir e, dois dias mais tarde, saiu furioso. Regressei nessa noite e 
fui v-lo assim que cheguei. Era bvio que ele necessitava de ajuda. Sem a medicao, estava a ficar 
descontroladamente manaco e todos ns sabamos que se seguiria uma depresso esmagadora. Falei com 
o psiquiatra no dia seguinte, mas tnhamos as mos atadas. No conseguiramos provar que ele era um 
perigo para si prprio. Nunca o fora, na realidade, e no o era de certeza para mais ningum. No era, de 
modo algum, agressivo, estava apenas a comportar-se de uma maneira louca. Viver com ele deve ter feito 
Julie trepar s paredes. Viver com algum numa fase manaco-depressiva  como passar as frias dentro 
de uma trituradora. Definitivamente, no  fcil. Eu tinha particular conscincia disso quando ele me ligou 
duas semanas mais tarde, de casa de Julie, s quatro da manh. Por acaso, eu estava a trabalhar, o que, at 
para mim, no era normal, mas estava a terminar um projecto. Nick queria saber se podia trazer algum 
para jantar na semana seguinte. Garanti-lhe que sim. Depois disso, ligou-me de meia em meia hora para 
confirmar. Era simptico e adorvel ao telefone, mas era uma dor imensa ouvi-lo. Telefonei-lhe no dia 
seguinte com uma ideia que poderia ou no resultar. Mas estava pronta a tentar fosse o que fosse para o 
convencer a tomar a medicao. 
Perguntei-lhe, de um modo bastante deselegante, se queria alguma coisa. Se o suborno resultasse, ento 
tudo bem. Tnhamos de faz-lo voltar a tomar o ltio e o Prozac. Pensou durante um longo minuto e depois 
disse que sim, que havia uma coisa que queria.
"Voltas a tomar o ltio se eu ta der?"
"Est bem", disse ele de pronto. Contive a respirao a pensar no que seria. Por vezes, esquecamo-nos de 
como Nick era infantil, especialmente sem a medicao.

"O que ?"

"T-shirts para a banda." Era isso? S isso? Estava disposto a tomar o ltio novamente por causa de T-
shirts para a banda? Quase que gritei, to aliviada estava. Telefonei ao mdico depois de desligar, mas, por 
alguma razo, ele decidiu esperar at segunda-feira. Era algo funcional e prtico, talvez estivesse 
relacionado com testes, anlises ao sangue ou esperasse por resultados, mas Nick j no tomava os 
medicamentos h seis semanas e o mdico achava por bem esperar mais alguns dias, at passar o fim-de-
semana, e concordei com ele. Ele no parecia correr nenhum perigo especial. Estava s irritvel, 
hipersensvel e magoado. E se Julie conseguisse aguentar a situao mais trs dias, eu tambm aguentaria.
Nesse fin-de-semana fui para Los Angeles com Tom, o homem com quem eu saa, j h mais de um ano, o 
nico depois da separao. Nick gostava imenso dele e os dois criaram um lao instantneo, tipicamente  
moda de Nick. Nick ou gostava de algum ou no, e tinha um sexto sentido acerca das pessoas. Gostara de 
Tom assim que se conheceram. Tom  franco, generoso, inteligente, honrado, e Nick pressentiu tudo isto 
nele. Estava sempre a dizer-me que gostava muito dele e a pressionar-me para fazer mais qualquer coisa.
Divertimo-nos imenso nesse fim-de-semana em Los Angeles, apesar de eu estar em contacto constante 
com Nick e Julie. Nick parecia estar a aguentar-se e todos ns estvamos ansiosos para ele voltar  
medicao na segunda-feira. Mas, entretanto, Tom e eu passramos uns dias ptimos em Los Angeles com 
amigos, e pela primeira vez falou a srio acerca do futuro. Tambm falmos muito sobre Nick. Tom 
estava to preocupado com o facto de Nick no tomar os medicamentos como eu. Falvamos sempre dele, 
e Tom mostrava-se sempre preocupado com a sua doena desde que o conhecera. Gostava muito de Nick 
e perguntava sempre por ele.
Ainda me sentia feliz com o fim-de-semana quando chegmos a casa. Na manh de segunda-feira, o meu 
mundo desmoronou-se instantaneamente quando Julie me telefonou a gritar que Nick estava morto. Os 
paramdicos estavam a tentar reanim-lo. Estava histrica, sem flego, aterrorizada e com as mos a 
tremer, quando liguei a John. Segundos mais tarde, telefonei a Tom para lhe contar. Ficou to destroado 
como eu. Seguiu-se o que me pareceu um milhar de telefonemas.
Os paramdicos tinham conseguido reanimar o corao, mas tiveram de o fazer mais duas vezes no 
caminho para o hospital. Era bvio que ele tomara uma overdose de qualquer coisa, mas ningum parecia 
saber o qu ou porque, ou como acontecera. Julie estava a aspirar o p quando teve uma sensao 
repentina e estranha, e foi ver Nick na sua casa. Os paramdicos disseram mais tarde que, apesar de ele ter 
estado inconsciente vrias horas, o corao devia ter parado no momento em que ela l chegou. Foi um 
momento de pnico total para todos ns. John e eu arrancmos para o hospital minutos mais tarde. Tom 
tambm se ofereceu para vir, mas era uma situao demasiado constrangedora e prometi telefonar-lhe. 
Durante. todo o trajecto ao longo da baa, rezei para que Nick estivesse vivo quando l chegasse. Eu 
praticamente no dizia coisa com coisa.
Quando entrei no hospital, a correr, o estado de Nick era crtico. Julie estava  minha espera e, alguns 
minutos depois, chegou o psiquiatra de Nick, e Camilla juntou-se um pouco mais tarde. Eu estava no 
inferno, aterrada por poder perder Nick.
O mximo que conseguimos perceber foi que a falta do ltio fizera-se finalmente sentir, e ele tentara 
suicidar-se. Usara herona e uma mistura desconhecida de drogas e venenos para o fazer.
Beatrix. juntou-se-nos no hospital pouco depois de eu ter chegado, e Nick no dizia coisa com coisa e 
estava com olhar esgazeado na sala de urgncias de um hospital para traumatizados, para onde o haviam 
trazido. Avisaram-me imediatamente que ele estava em situao extremamente crtica, e, mesmo que 
sobrevivesse, sofreria, provavelmente, de danos cerebrais. No reconhecia nada nem ningum, tinha os 
olhos abertos, mas parecia no ver nada, no conseguia falar, agitava violentamente os braos e soltava 
urros terrveis.  um som que nunca mais esquecerei, uma espcie de gemidos monstruosos, e no 
consegui evitar perguntar a mim mesma se Nick ficaria assim para toda a vida, se sobrevivesse. Mas o que 
me veio imediatamente  cabea foram todas aquelas coisas que se dizem quando no se est a encarar 
uma situao como esta, como seja dizer-se que no se quer que o filho sobreviva se ficar com 
deficincias mentais. No me importava que ele ficasse um vegetal at ao resto da vida, no queria perd-
lo. No me interessava o que era preciso para o manter vivo, mas queria mant-lo. No queria perd-lo. I 
Estava absolutamente certa disso.
Nick manteve-se em estado crtico durante horas. E eles diziam, que, para ele sobreviver, mesmo ficando 
moderadamente funcional, teria de recuperar rapidamente. Quatro ou cinco horas mais tarde, no havia 
quaisquer sinais de melhoras. Sa uma ou duas vezes, para chorar e telefonar a Tom. Mas no havia muito 
a dizer. A situao parecia irremedivel.
Toda a equipa mdica ainda se encontrava  roda dele, mas no estava a conseguir quaisquer resultados.
Finalmente, enquanto Nick continuava a gemer e a no ter conscincia do lugar onde se encontrava, 
sentei-me a seu lado. Na altura, j estvamos ali h oito horas. Peguei-lhe na mo, pu-la na minha e 
comecei a falar com ele, sem me importar se ele estava a ouvir ou no. Julie tambm tentava falar com ele 
de tempos a tempos, gritando-lhe para sair daquele estado, para olhar para ns, para nos ouvir. Toda a 
situao fora traumtica para ela, pois fizera-lhe ressuscitao cardiopulmonar para o manter vivo at os 
paramdicos chegarem. Ela salvara-o. Eu estava perfeitamente consciente do que lhe devia. A vida do 
meu filho naquela altura ainda estava periclitante.
Falei ininterruptamente com Nick durante uma hora, sentada prximo do seu ouvido e a dizer-lhe vezes 
sem conta o muito que o amava, que eu estava ali e que estava  espera dele. John e Beatrix estavam perto, 
com ar impotente, a ver.
"V l, Nick... estou aqui... abre os olhos... olha para mim...  a mam... adoro-te, Nicky ... " Foi um 
rosrio interminvel de palavras, e durante muito tempo pareceu no ter dado resultado, mas eu estava 
convencida de que algures, no buraco escuro onde cara, ele me ouviria. Eu estava quase a desistir quando 
ele se virou para mim com o olhar esgazeado, gemeu horrivelmente durante um minuto, depois franziu os 
lbios, tentando pronunciar algo. No sei se conseguia ver-me.
"Mmmmmaaaammmm a a a a", disse ele, e pus-me de p e soltei um grito. Foi um som terrvel, mas ele 
dissera "mam". Era como estar a arranc-lo das garras da morte, e continuei a falar com ele, as palavras 
tinham surtido efeito. Tinha a sensao de o ter tirado do abismo onde ele cara.
Horas mais tarde, mudaram-no para a Unidade de Cuidados Intensivos, e j dizia algumas coisas com 
nexo, mas nada era ainda seguro. Eles s tinham uma vaga ideia dos venenos e das drogas que ele 
ingerira. E uma melhor imagem das leses que ele sofrera. O fgado, os rins, o bao tinham sido atingidos, 
ficara surdo, talvez temporariamente, talvez no, e as pernas estavam paralisadas. As capacidades motoras 
nos braos estavam afectadas, assim como a viso, e talvez o corao. E ainda no estavam bem certos dos 
danos provocados no crebro.
Mas, quando finalmente o deixei nessa noite, eles achavam que ele iria sobreviver, embora ainda no 
estivesse completamente fora de perigo, e no o estaria durante vrios dias. Fui para casa durante algumas 
horas, para junto dos meus outros filhos, e expliquei-lhes o que acontecera. Todos ficaram 
preocupadssimos com ele.
Revezvamo-nos no hospital, John ficava at eu voltar, e Julie, Camilla e eu concordmos em fazer turnos 
de oito horas junto dele durante o tempo que fosse necessrio. E Beatrix ia l estar sempre que possvel, 
quando no estivesse a trabalhar.
No dia seguinte, as coisas tinham melhorado, mas s ligeiramente. Estavam a fazer-lhe um milhar de 
anlises, e Paul, seu assistente, estava sentado ao lado da cama e chorava como uma criana. Todos ns 
chorvamos. O meu filho adorado estava s portas da morte e no me saa da cabea o que o pusera nesta 
situao.
A semana seguinte foi um autntico pesadelo, mas ele melhorava de dia para dia. Andava da Unidade de 
Cuidados Intensivos de Neurologia para a Unidade de Cuidados Intensivos de Doenas Coronrias e desta 
para a Unidade de Cuidados Intensivos de Urologia e, a certa altura, enquanto o levavam de uma unidade 
para outra, para exames e uma observao mais pormenorizada, Nick olhou-me com aquele enorme 
sorriso que eu adorava tanto e disse: "Porque  que no me deixam no parque de estacionamento para que 
eu possa fumar um cigarro?" Muito engraado. Apetecia-me aban-lo por aquilo que fizera, e faz-lo jurar 
que nunca mais me deixaria. O pensamento do que estivera muito prximo de acontecer fez-me 
estremecer.
Nick admitiu que se sentira deprimido e farto e que agira sem pensar, e o neurologista pusera-o novamente 
a ltio e Prozac poucas horas depois de dar entrada no hospital.
Trs dias depois era a Noite das Bruxas, e eu arranjei um monte de decoraes para o seu quarto, uma T-
shirt bizarra e bolinhos de chocolate e laranja. Ele adorava aquela festa e eu no queria que a perdesse. 
Mal eu sabia que seria a ltima. Pus uma cabeleira e um fato de bruxa para o divertir.
Mas teve sorte desta vez. No final da semana, ainda no sentia as pernas, mas conseguia andar, de forma 
algo atabalhoada; tinham chegado  concluso de que o corao estava bom, a audio voltara, o resto 
ainda estava uma confuso, mas j estava fora de perigo.
 Eu ia ao hospital duas vezes por dia, e andava numa roda-vivaentre Nick e as outras crianas. Foi uma 
experincia chocante para todos ns, que nos deixou meio revoltados e meio histricos com oque Nick 
fizera e que quase conseguira realizar. Penso que estvamos todos a sofrer os efeitos das emoes. As 
crianas mais pequenas, particularmente, estavam bastante abaladas.
Nick ficou no hospital durante oito dias; no final da semana,, muito responsavelmente, pediram-nos para o 
transferir para ouhospital. Disseram-nos que no estavam equipados para o ajudar no campo psiquitrico, 
que o hospital no tinha condies para o proteger. Receavam que ele voltasse a tentar o suicdio, o que 
me parecia um absurdo. Estava certa de que ele aprendera a lio. Estava extremamente afvel, parecia 
feliz por estar vivo, e talvez o ltio j estivesse a dar uma pequena ajuda, ou, pelo menos, o Prozac. Os 
amigos visitavam-no e parecia estar com uma excelente disposio. Ns, especialmente Julie e eu, 
estvamos exaustas, arrasadas. Nunca em toda a minha vida passara por algo to avassalador. Mas, por 
milagre, eles comeavam a pensar que ele poderia recuperar completamente. As funes cerebrais j 
estavam garantidas, e no ficara com sequelas permanentes, o que era realmente um milagre. Os nicos, 
problemas confirmados que persistiam eram uma disfuno heptica e o facto de as pernas estarem 
parcialmente paralisadas. Mas eles diziam que elas podiam ficar assim durante seis meses ou mais. Ia ter 
de fazer terapia para as recuperar. O pessoal do hospital fora extraordinrio com ele, e fiquei-lhes 
imensamente grata. Havia tantas pessoas a quem agradecer. Julie, os paramdicos que tinham continuado 
a ressuscitao cardiopulmonar, o pessoal da sala de urgncias, o pessoal dos cuidados intensivos, um 
neurologista maravilhoso que se interessou por Nick, e uma psiquiatra extraordinria que ficou com o 
nmero de Nick a primeira vez que o viu. Foi ela que sugeriu que o transferssemos, e rapidamente. E, 
mais que no fosse para lhes fazer a vontade, foi o que fiz. Oito dias depois de ele chegar, Nick foi de 
ambulncia para um hospital na cidade com unidade psiquitrica. Foi colocado num quarto com vigilncia 
contra tentativas de suicdio, e pude facilmente visit-lo, sem passar a ponte ou andar na hora de ponta 
duas vezes por dia. Fiquei com a vida mais facilitada e tinha mais tempo em casa para as outras crianas. 
Comecei finalmente a ficar mais descontrada, sabendo que ele estava em boas mos, e j no tinha de me 
preocupar com ele. A nica coisa que tnhamos de fazer era p-lo a andar, na verdadeira acepo da 
palavra, dar um olhinho ao fgado e dar-lhe ltio suficiente para o acalmar. Comparado com o que 
tnhamos passado, parecia ser uma tarefa fcil, e todos os minutos do dia eu dava graas por ele estar 
ainda connosco.
Quando o mudmos, ele estava no s bem-disposto mas tambm algo agitado. Os amigos visitavam-no, e 
eu fechei de algun modo os olhos aos sinais de perigo, embora eu no seja de subestimar as coisas. Mas 
considerei o que acontecera uma aberrao, porque ele no estava a tomar ltio na altura. Sabia que era 
improvvel que isso voltasse a acontecer. Todavia, o que subestimei completamente, ou nunca me 
informaram, foi o facto de a sua doena ser letal. Na minha opinio, isso era uma coisa que poderia faz-lo 
sentir-se infeliz toda a vida, mas no era algo que pudesse mat-lo. No' entendi essa mensagem. Ao que 
se supe, sessenta por cento dos manaco-depressivos tentam o suicdio, e trinta por cento tm xito. No 
sei se a estatstica
est correcta mas, se estiver,  impressionante. Nunca me passou pela cabea que Nick tinha trinta por 
cento de hipteses de morrer da sua doena, ou teria ficado ainda mais em pnico.
Naquelas circunstncias, escrevi-lhe um poema, em que eu lhe dizia o que sentia em relao quilo que ele 
fizera. Dizia tudo, e Nick andava sempre com ele na carteira e dizia que o adorava.

PARA NICK
porque te adoro

No entraste na minha vida calmamente, sem deciso nem confuso, entraste como uma surpresa, uma 
pessoa e um evento eu tinha de decidir quanto eu queria. Lutei, querendo-te, sem te conhecer, sem estar 
segura de ti nem de mim prpria, nem de como te ter. Mas, todavia, escolhi-te, sem fazer ideia de como te 
dar abrigo ou te vestir. Ningum para me ajudar, Ningum para partilhar, Ningum para cuidar, s eu e 
Beatrix. Tu eras nosso ento. E mesmo ento, no chegavas a casa calmamente. Em vez de uma melancia 
escondida no meu vestido.
Parecias sete, fizeste as pessoas sorrir e rir enquanto Beatrix e eu espervamos por ti, e depois apareceste, 
inquieto,  com o mximo de alarido que conseguiste fazer, entrando de rompante no meu mundo  enquanto 
dvamos as mos, e eu prometia-te uma eternidade de amor e proteco.  Tu comias por doze, e eu amava-
te por duzentos, minha ddiva imaculada, meu  filho mais amado, mais engraado, mais bonito, estavas 
to ansioso por fazer parte das coisas falaste-me, e contaste-me tudo muito antes de o deveres fazer. saiu 
tudo com bastante calma e comeaste a usar os meus chapus e as minhas prolas, a danar disco e a 
adorar palhaos e a trazer-me no corao, enquanto corrias o mundo ainda de macaco. eras dono da 
minha cama, do meu corao, da minha vida, usavas camisolas de gola alta pretas na escola, em vez de 
brancas e aprendias a dizer e a soletrar tudo na perfeio, mas da frente para trs, fazias-me rir, fazias-me 
chorar, fazias avies com o meu corao, e tu e eu sempre soubemos que tu eras uma pessoa especial. 
muito especial, muito inteligente, muito omnisciente e muito cega, vias o mundo com extrema clareza 
absolutamente, e tu e eu conhecamos as almas os coraes e as ideias um do outro, enquanto dentro de ti 
ardia um fogo que quase te consumia. e atravs dos teus Olhos, vi as tuas horas mais difceis e as luzes 
mais resplandecentes e sis-poentes brilhantes, enfrentmos tempestades, e ficmos de mos dadas  
chuva, e eu prometia-te que sempre estaria a teu lado. mas ontem, Meu amado filho escondeste-te de mim 
num lugar onde, por instantes, disseste a ti prprio que eu no poderia descobrir-te, escondido como uma 
vez te escondeste em criana, debaixo da minha cama, dentro da minha cabea, atrs das cortinas, e dentro 
de caixas, to seguro, mas mesmo muito seguro que desta vez ningum te descobriria. eles telefonaram 
para me dizer que estavas morto, que tinhas sido ceifado do meu corao, da minha cabea, que tinhas 
partido para um lugar onde ningum te pudesse descobrir. pensaste esconderes-te l  durante uma hora,  
um dia,  procuraste luzes  brancas,  foste brincar,  tentaste libertar-te das agonias que te cercam, mas eu, 
conhecendo os lugares onde te escondes, que  sempre sers o meu filho, sabia que, se eles me deixassem 
poderia descobrir-te corri pelas trevas  encharcada pela chuva, sabendo apenas como sofres, e descobri-te 
ali escondido,  uma pequenina bola negra de terror e silncio, no havia nada nos teus olhos,  nenhuma 
vitria, nenhum prmio, e mesmo ento, meu amor, no podias fugir -  calmamente  no deixarei.  no 
deixarei  que te escondas,  no deixarei  que fujas, ou que morras. cheguei ao fundo  desse poo escuro 
onde caras ontem e agarrei-te.  no haver vida para viver  quando partires, nem risos,  nem sorrisos,  
nenhuma dor  maior do que esta. mas a escolha foi tua  desta vez,  no minha, estendi a minha mo para  
ti  uma vez mais  e no te deixarei  partir. ficaste imvel  em equilbrio  durante tanto tempo, a decidir que 
caminho tomar, Sabia da tua angstia Sentia a tua dorconheo infinitamente os terrores que ardem dentro 
de ti e depois lentamente, a custo, quase imperceptivelmente voltaste-te, olhaste para  mim e viste-me, e 
disseste mam... e muito lentamente, sempre com muita  lentido, rastejaste pela montanha acima e agora 
aqui ests,  beira do  precipcio, ainda em equilbrio beirinha, ainda aqui, ainda meu, ainda a sofrer o 
ltimo nascer do Sol que nunca mais vinha, a hora final a no ser desta vez, a tua mo na minha de novo, 
eu nunca te deixarei partir calmamente, voltarei a trazer-te de volta outra vez, nunca me esquecerei da tua 
dor, nunca te deixarei fugir para as trevas. no irs como vieste nunca mais faas isto outra vez. tens de 
ficar agora, quanto mais no seja porque te amo.
Logo que Nick foi transferido para o novo hospital, procur acalmar-me, e esperava passar um fim-de-
semana com os meus lhos. Tom e eu fomos visitar Nick na quinta-feira  noite, e Tom obrigou Nick a 
jurar, por qualquer coisa que ele tivesse de mais sagrado, que nunca mais voltaria a fazer aquilo. Nick fez 
a jura, e parecia que estava a falar a srio. Tambm encontrmos Tom no hospital, e sentmo-nos os 
quatro a conversar durante um bocado. See que Beatrix e Trevor tambm o tinham ido visitar. Pedi a 
Samantha que lhe trouxesse comida. Ele detestava a comida do hospital, mas parecia estar confortvel e 
satisfeito. Sam, em especial, estava ansiosa por v-lo. Tinha-nos assustado a todos, e era como se cada um 
de ns precisasse de lhe tocar e v-lo, para nos certificarmos de que ainda estava connosco.
Tom e eu passmos uma noite magnfica com os midos, na sexta-feira, e ele tinha o brao  minha volta 
quando o telefone tocou Era do hospital, e apressaram-se a dizer-me que Nick tentara de novo o suicdio, 
mas tinham-no salvo. Descobriram 'e"quase de imediato, desta vez tiveram de fazer trs tentativas de 
reanimao de corao, mas j achavam que estava fora de perigo quando me telefonaram. Acontecera 
tudo muito rapidamente. E achavam que ele tomara uma overdose de drogas que amigos lhe haviam 
trazido. "Amigos." No considero amigo uma pessoa que traz drogas a um rapaz com problemas mentais 
e que se encontra num estabelecimento psiquitrico sob vigilncia contra tentativas de suicdio. Fiquei 
demasiado perplexa para reagir ao princpio, mas Tom pareceu aflito Contei-lhe o que acontecera, e pouco 
depois foi-se embora. Tambn estava cansado, e queria ir para casa e descansar um pouco. Estvamos 
todos arrasados.
Ele achava que eu devia ir ao hospital nessa noite, mas, depois de ele sair, acabei por no ir. Estava 
demasiado zangada com Nick para ir. Sabia que ele estava fora de perigo e no queria v-lo. No 
conseguia. E no havia nada que pudesse evitar essa sensao. El estava em segurana. Estava vivo, e eu 
precisava de algum tempo para compreender melhor o que acontecera. Falei com Julie ao telefone, e 
telefonei para o Dr. Seifried. Mas era evidente que os demnios que dominavam Nick eram mais fortes do 
que ele. Eu estava de corao despedaado quando fui para a cama nessa noite, porn mais uma vez grata 
por ele ter sobrevivido. Mas comeava a interrogar-me sobre quantas vezes mais  que ia ter de ficar grata 
depois de Nick desafiar o destino.
Adormeci, demasiado exausta para me despir, e fui ver Nick d( manh. Ele estava com um aspecto 
horrvel. O seu sistema recebeu outro choque enorme. As pernas estavam piores, e ter o corao 
reanimado por trs vezes depois de ele ter parado deixara-o com mau aspecto. Estava com um ar quase 
transparente e bastante zonzo, Sentia-me preocupada quando cheguei a casa, profundamente perturbada 
pela volta que a vida de Nick parecia estar a levar. Tentara dizer-lhe nessa tarde, em vo, que ele nos ia 
levar todos ns com ele. Se ele se afundasse, ns, como passageiros num navio, iramos ao fundo com ele. 
Os laos que partilhvamos, a unidade que formvamos enquanto famlia, estavam irrevogavelmente 
ligados a ele e a todos ns. Falmos sobre isso, e sei que ele sentia alguns remorsos, mas no estou certa 
de ter entendido realmente o que lhe disse. Recordei-lhe que, quanto mais no fosse, despedaaria o 
corao de Samantha, j para no falar do meu e o de todos ns, se fosse avante com a sua ideia de se 
suicidar. Nenhum de ns voltaria a ser o mesmo sem ele.
Quando Tom chegou nessa noite, era evidente que ele tambm estivera a pensar seriamente em 
determinadas questes. Precisava de fazer uma pausa na relao e de tempo para aclarar as coisas na 
cabea. Apercebera-se subitamente do que o esperava, se ficssemos juntos. E fiquei destroada com a 
concluso a que ele chegara; porm, mesmo no meio do meu desapontamento, no conseguia recrimin-lo. 
Nick tentara matar-se por duas vezes em dez dias. Isso deve ter feito com que Tom pensasse no que seria a 
sua vida se algum dia nos casssemos. Estou certa de que era uma perspectiva assustadora. E era-o, 
mesmo para mim, conhecendo a fragilidade de Nick e a facilidade com que a tragdia poderia atingir-nos. 
Eu compreendia, mas, pela primeira vez na vida dele, eu estava zangada com Nick. Pela primeira vez, a 
doena e as manifestaes desta custaram-me efectivamente algum que adorava profundamente. E 
durante os sete dias seguintes, fiquei dividida entre a angstia e o ressentimento.
Nick sentiu isso quando o visitei a seguir, embora eu no tenha dito nada, mas estava triste, e ramos to 
chegados que ele se apercebeu disso. Perguntou-me o que  que eu tinha, e eu dei-lhe uma resposta vaga, 
depois perguntou-me por Tom, e olhou-me nos olhos, e percebeu o que se passara ainda antes de eu lhe 
dizer. Eu no tinha de o fazer. Ele compreendia. Achava que era a reao de Tom ao seu ltimo drama. 
Tentei fazer alguma luz sobre o assunto e dizer que voltaria tudo ao normal, mas foi Nick quem 
efectivamente me confortou, dizendo-me que Tom era um tipo porreiro e que voltaria. No estava to 
segura como ele, mas isso foi uma oportunidade para falarmos sobre Nick de novo, e o que ele estava a 
fazer a todos ns. Suponho que naquela altura eu no entendia completamente que ele no tinha 
alternativa. Eu sentia que era uma deciso que ele estava a tomar coerentemente, o que decerto no era. 
Tivemos uma boa conversa, um bom choro e um abrao enorme, e tentei explicar-lhe noamente que ic a 
completamente destroada sem ele. Quem me dera que ele tivesse entendido isso, e poderia ter feito 
qualquer coisa esse respeito, mas no conseguiu entender.
Nick tinha razo acerca do Tom. O seu "perodo de reflexo" ou quase trs semanas, trs longas semanas, 
e voltou com desculpas e um maior discemimento, na noite anterior ao Dia de Aco de Graas. 
Concordmos em fazer uma coisa de cada vez, e no fazer planos para o futuro. Tive muita coisa para 
ficar grata quele ano, no s pelo regresso de Tom, mas tambm pela sobrevivncia de Nick. Ele saiu do 
hospital no dia anterior ao Dia de Aco de Graas, e voltou para casa de Julie, ficando debaixo de 
apertada vigilncia.
Todos os meus filhos estiveram comigo no Dia de Aco de Graas, tal como John, pois ainda 
partilhvamos as frias com as crianas. Nick e o seu amigo "Sammy the Mick" chegaram a horas do 
jantar, bem aprumados, de fato e gravata. Foi um Dia de Aco de Graas que nunca esquecerei, cheio de 
alegria, graa e gratido por todas as coisas na vida realmente importantes.
E quando nos sentmos para comer o peru, olhei silenciosamente para Nick e fiz as minhas oraes, 
rezando para que nunca mais voltasse a acontecer e para que ele nunca nos deixasse. Quis acreditar de 
todo o corao que ele no nos deixaria. Foi o seu ltimo Dia de Aco de Graas.

TERCEIRO AVISO

Nick tinha-nos apanhado desprevenidos com a sua segunda tentativa de suicdio.  Foi uma experincia que 
eu teria preferido no ter passado, mas, pondo a sua vida em perigo pela segunda vez, dera-nos o direito 
legal de o hospitalizar sempre que sentamos que ele precisava de o ser, ou se deixava de tomar os 
medicamentos. Porque ao fazer isso, ele punha a sua vida em risco, como j provara amplamente. Nunca 
teramos de esperar de novo seis meses depois de ele parar de tomar ltio. Poderamos p-lo no hospital no 
primeiro dia em que deixasse de o tomar. Sem discusses nem explicaes.
Podamos fazer isso ao abrigo do chamado 5150, um estatuto de sade pblica que nos permitiria 
suspender os seus direitos e mant-lo no hospital durante trs dias, e depois passaramos para um 5250, 
que nos daria at duas semanas, e assim por diante. Discutramos at a possibilidade de um processo de 
tutoria, mas tambm haveria desvantagens com isso, e decidramos contra.
Com os seus nveis de ltio novamente elevados, Nick parecia uma pessoa normal. Estava a trabalhar 
afincadamente com a banda, j a p, e com uma disposio relativamente boa. No se lembrava da 
hedionda experincia que todos partilhramos no hospital. Assustara toda a gente, menos a si prprio. E 
voltara ao trabalho como habitualmente com os Link 8O.
No Natal, andava a saltitar novamente por todo o lado, no papel de estrela de rock. O meu romance entrara 
novamente nos carris. As crianas estavam de novo calmas, e parecia que estava tudo a correr bem. 
Embora eu agora tivesse uma constante sensao subjacente de nervosismo relativamente a Nicky. 
Mostrara-nos do que era capaz sem a medicao. Mas agora tnhamos o direito legal de o forar a tom-la 
se precisssemos. Porm, ele j no fazia quaisquer objeces a isso, e tomava-a como era suposto fazer.
Em Janeiro, fez uma pequena digresso at Los Angeles com a ',banda e andava ocupado a dar concertos. 
Eu comeara finalmente a relaxar de novo. O ltimo pesadelo estava a dois meses e meio de distncia. 
Ento, recebi um telefonema de madrugada de Julie. Ele tentara o suicdio novamente, desta vez em casa 
dela, mesmo por baixo do nariz dela, com os filhos perto. Encheu-se calmamente de drogas durante a 
noite, mas a altas horas, e perto dela, na casa principal, para ter a certeza de que ela o encontraria. Era um 
apelo de ajuda. Ela reanimara-o outra vez, e ele estava acordado e a mexer-se quando os paramdicos 
chegaram. Nick voltou para o mesmo hospital, para a ala psiquitrica, mas desta vez Julie e eu 
concordmos em dizer s a John. Era altura de acabar com o drama e tratar dos problemas efectivos.
Verificou-se que os nveis de ltio estavam baixos, tal como o seu estado de esprito, mas apenas 
ligeiramente. O bastante para o levar a tentar matar-se de novo. Mas, apesar do nosso voto de silncio 
desta vez, sabamos a gravidade da situao. Falei aos mdicos no s da tutoria mas tambm do seu, 
internamento. Custou-me imenso fazer isso, mas ele precisava de mais superviso do que aquela que lhe 
podamos dar. Falei com vrios advogados e um amigo juiz acerca do processo de tutoria. Infelizmente, o 
tribunal indicaria um tutor, outra pessoa que o eu, ou o prprio tribunal desempenharia essa funo. O 
meu maior receio era se o tribunal decidisse que Nick era perigoso, para si prprio e no para mais 
ninguem, ou apenas problemtico, ou at louco; ento, eu j no poderia decidir o que fazer para o ajudar. 
Eu perderia a autonomia completa se Nick ficasse sob tutela, e ele poderia at acabar numa instituio 
estatal, e ns no conseguiramos tir-lo de l. Era uma questo para pensar, e guardei segredo. Precisava 
de tomar uma deciso, e s a discuti com John e Julie.
Entretanto, o estado de Nick piorava com extrema rapidez, e ele parecia enganadoramente normal. 
Discutimos a hiptese de ele ficar hospitalizado durante um longo perodo de tempo, e referimos-lhes que 
Nick no era como as outras pessoas que esto em estabelecimentos hospitalares. Estava funcional e tinha 
uma carreira de sucesso com a banda. Era um crime t-lo trancado, mas o hospital psiquitrico disse que 
ele era menos funcional do que parecia. Era difcil acreditar nisso. Depois de discutirmos longamente o 
assunto com os dois psiquiatras e o conselho legal, decidimo-nos contra a tutoria, e duas semanas mais 
tarde mandaram-no para casa de Julie.
O psiquiatra do hospital disse que se o consegussemos manter vivo at aos trinta, teramos boas hipteses 
de o manter vivo para toda a sua vida normal. Suicdios, "acidentais" ou de outro gnero, eram comuns 
em jovens com pouco menos de vinte anos ou de vinte e poucos anos. Faltavam "s" doze anos a Nick, e 
pareciam vrias vidas. Mas Nick pareceu "perceber" desta vez. Todos tivemos uma conversa com ele, e 
tentmos apelar a tudo, desde a razo  conscincia. E parecia triste quando perguntou ao mdico quanto 
tempo  que teria de ficar debaixo de medicao. Penso que sabia a resposta para a pergunta antes de a 
fazer.
"Sempre", disse ele simplesmente, e Nick fez que sim com a cabea. Estava finalmente a encarar o facto 
de ser manaco-depressivo para sempre. Era um comprimido amargo de engolir. E comparmos isso a 
diabetes. Tambm lhe dissemos que se ele se esquecesse ou se se recusasse a tomar um simples 
comprimido, ns seramos obrigados a p-lo no hospital durante muito tempo. Trs tentativas em trs 
meses era aterrador. E eu estava aterrorizada.
Antes de ele deixar o hospital, escrevi a Nick esta carta. Ele escrevera-me uma carta a pedir-me desculpa e 
a objectar por estar no hospital, e, como sempre, tentei apelar ao corao e  razo, com a minha.
 
Noite de quinta-feira - 3O de Janeiro de 1997
Meu querido Nick,
A tua carta hoje tocou-me profundamente, e amo-te tanto que no encontro palavras para exprimir o que 
sinto.  maravilhoso que me estendas a mo, para partilhar os teus sentimentos comigo, e para me pedires 
desculpa pela preocupao que me causaste. Mas quero que saibas, agora e sempre, que sinto um enorme 
orgulho de ti, como s, como ser humano. Ficarei muito, muito, muito orgulhosa de ti se tiveres xito com 
a tua msica, e eu acho que tens um enorme talento - mas isso  apenas um "extra" - estou orgulhosa de ti 
neste preciso minuto, sem teres realizado nada de espectacular no mundo, porque eu acho que s uma 
pessoa maravilhosa, muito especial, sempre o foste, sempre o sers, e s neste momento, neste preciso 
minuto.
A tristeza e a preocupao que vs nos meus olhos s vezes, como dizias,  que eu preocupo-me de 
verdade contigo, e fico triste quando ests triste, e sei que esta situao neste momento  muito difcil para 
ti. Fico triste quando penso que quase escapaste por entre os nossos dedos. Fico triste quando no ests 
feliz com o rumo que a tua vida leva, da mesma forma que ficas triste por mim quando eu estou menos 
feliz com o rumo da minha. Mas o "desapontamento" que vs no  desapontamento contigo, nunca foi, 
nem . No me desapontaste. Estendeste a mo e tocaste a minha prpria alma. Tens um jeito maravilhoso 
para isso, vs-me sempre tal como sou. De todas as pessoas que me rodeiam, ao longo dos perodos 
difceis que tive nos ltimos dois anos, s aquela que mais me tocou e confortou, que mais me aqueceu o 
corao. Quero que saibas isso!!!
O desapontamento que vs s vezes, no  contigo, e nunca foi (gabo-te constantemente), mas mais com o 
estado da minha vida no momento. Passei muitos anos a construir algo, muitas coisas, a nossa famlia, a 
minha carreira, a minha vida com o pap. E, no momento, tenho a impresso que resvalei pela colina 
abaixo e estou de rabo no cho no sop. Mas espero ter aprendido a lio, e me agarre de novo  escada e 
volte a subir por ela acima. O desapontamento que vs tem a ver com o que aconteceu com a minha vida, 
em relao ao meu casamento, com a dor que sinto quando a imprensa malha em mim, e com a sensao 
de impotncia que sinto ao no poder ajudar-te mais do que aquilo que posso. Mas no estou desapontada 
contigo.
Porm, a vida  assim s vezes, camos com o rabo no cho, resvalamos pela colina abaixo de uma 
maneira ou de outra, e voltamos a subir Estou mais optimista em relao  vida. Vejo novamente alguns 
raios de sol nos cumes da montanha, no s para mim, mas para ti. E de mos dadas, com as pessoas que 
amamos, e que nos amam, e com os nossos amigos, e com um niquinho de sorte, voltamos a levantar a 
cabea, depois de a vida nos ter deitado ao cho. Deste-me mais vezes a mo do que pensas. E a minha 
mo est sempre aqui para ti. Estarei sempre pronta a ajudar-te, querido, e quando a vida for triste para ti, 
por maior que sejas, por mais idade que tenhas, por mais rabugento ou lixado ou desapontado que estejas, 
podes sempre gatinhar para o meu colo e a ficares.
H algumas coisas que temos de fazer sozinhos, aquele primeiro salto de f por cima do abismo que 
parece que nos vai engolir - temos de fazer isso sozinhos, temos de ter f suficiente para tentarmos - da 
mesma forma que tens de ter f em ti prprio, e numa fora (positiva) mais forte do que tu. Mas para alm 
daquele pequenssimo (e, muitas vezes, aparentemente colossal) primeiro salto para fora do buraco, h 
pessoas que podem apanhar-te, amar-te, estar junto a ti, tal como eu, Julie, os teus amigos e a tua famlia, 
Estamos todos aqui a torcer por ti, querido... e, sobretudo, eu.
Obrigada por te preocupares com o modo como me sinto, e por todas as coisas maravilhosas que fazes. 
Podes no te sentir maravilhoso neste momento, mas s maravilhoso.
Quem me dera s te dar o que de melhor h na vida. Espero que a tua msica te traga toda a alegria, a 
emoo e a satisfao que mereces, quer te tornes ou no uma estrela pblica, sers sempre uma estrela 
para mim, e j o s. s uma estrela enquanto ser humano, doce Nick. E s mais resplandecente do que 
aquilo que imaginas.
 Por isso, refresca as ideias na cabea, sorri, e fica a saber ques a alegria da minha vida - no um 
desapontamento. S queroque estejas em segurana, bem e feliz - e, quando te metemos num quarto de 
tempos a tempos para te manter em segurana,  um pouco como quando fechamos uma jia num cofre 
para que nada lhe acontea. Pode no "a usar" a jia, nem melhorar a sua qualidade, mas evita que ela 
desaparea, e mantm-na em segurana. E uma coisa estpida  para se fazer com uma pessoa, mas s uma 
jia para mim. No suportaria perder-te - e, se achas que estou triste s vezes, no imaginas a tristeza que 
eu sentiria se alguma coisa terrvel te acontecesse. Nem quero pensar Por isso, mantm-te em segurana, 
s corajoso, sai de dentro do buraco, mesmo que seja com passinhos de beb, d os saltos de f que 
puderes, que eu aqui estou, com os meus braos esticados para ti, o meu corao sempre teu... e mais amor 
do que aquele que consigo exprimir por palavras.
Mesmo nas piores circunstncias, h sempre uma pequenina coisa que pode fazer-nos felizes. Agarra-a e 
guarda-a. Tu tens sido essa pequenina coisa... talvez o meu amor por ti possa iluminar o teu canto escuro 
de vez em quando. Temo-nos um ao outro, e tambm muito, muito mais do que isso.
Sorri, meu amor.. e tem orgulho de quem s, como eu tenho de ti!!! (A Guerra das Estrelas est outra vez 
em exibio amanh.. talvez possamos ir ver o filme pelos velhos tempos. "Que a Fora esteja contigo", 
sabes bem que est!!)
Toma cuidado, meu querido - muito, muito cuidado!
Adoro-te com todo o meu corao, Mam
Da em diante, depois de deixar o hospital, o meu corao parava sempre que o telefone tocava. Penso que 
sabia o que estava para vir Porm, depois desta ltima tentativa, Nick parecia melhor que nunca. Pela 
primeira vez na sua vida, parecia aceitar o facto e as responsabilidades da sua doena. Verificvamos os 
nveis de ltio semanalmente para nos certificarmos de que ele se encontrava bem. A banda ia de vento em 
popa, ele fazia CDs, vdeos e pequenas digresses. Vinha a casa sempre que tinha tempo e andava com 
ptima disposio. E estava com um aspecto fantstico. At veio de frias com a famlia para o Havai pela 
primeira vez em anos. E confortou-me o corao v-lo a jogar com as crianas. Sammy the Mick e Julie 
vieram com ele para o vigiar.
Divertimo-nos imenso com Nick, enquanto ele cabriolava pela praia, nadava com o seu amigo "Sammy 
the Mick" e nos filmava a todos. Era uma companhia estupenda, e eu e os midos adorvamos t-lo perto 
de ns. Foram as nossas frias favoritas com ele, e tiveram mais significado para ns porque ele j no 
vinha connosco para frias h muito tempo. At esse ano, ele no estivera em condies de viajar.
Tambm estvamos a controlar os seus nveis de ltio e Prozac. Enquanto a maioria das pessoas verificava 
os seus nveis de trs a quatro meses, no mximo, ns verificvamos os de Nick semanalmente, porque os 
medicamentos nem sempre eram absorvidos uniformemente, e conseguamos detectar a mais ligeira 
descida, e corrigi-la,  verificando os seus nveis com mais frequncia. Foi uma coisa com que eu insistira 
em Janeiro, para a minha prpria paz de esprito. E Nick concordou prontamente. Ia a dois psiquiatras, o 
mesmo a que ele ia h vrios anos, o Dr. Seifried, de quem todos gostvamos muito, e um do hospital, 
como alternativa. Tambm estivera num programa psiquitrico para doentes externos durante dois meses, 
mas o tempo entre as digresses, concertos e ensaios j escasseava. Os Link 8O estavam a subir, e Nick 
adorava. Sentia o doce aroma do xito. Estava indubitavelmente a chegar.
Tinham andado numa digresso de dez semanas pelo pas nesse Vero, e falava-se de uma digresso  
Europa no Outono, e possivelmente uma ao Japo depois do Natal. Era uma sobrecarga, mas ele parecia 
dar conta do recado, e adorava tanto a sua actividade, desde que estivesse bem, que no fazia qualquer 
sentido prejudic-la. E Julie e eu vigivamo-lo de perto, assim como os seus assistentes. s vezes, 
chegava a ir a sesses de tratamento da toxicodependncia em doze fases, para tentar reforar a sua 
determinao de nunca tomar drogas, se por alguma razo os nveis de ltio baixavam e sentia desconforto, 
e queria sentir o conforto que elas lhe davam. Ns fazamos o nosso papel, mas ele tambm estava a fazer 
o seu, e estava a dar resultado. Aparentava um aspecto magnfico.
1 E estvamos todos  espera do casamento de Beatrix. Era da a um ms, e todos os irmos iriam estar 
presentes. As raparigas iam ser as damas de honor, Maxx ia levar o anel, e Nick, Trevor e Todd iam ser as 
testemunhas. Houvera alguma discusso acerca do facto de Nick estar  altura da funo, mas  luz do 
aspecto que ele aparentava, o controlo que ele tinha sobre si e a sua carreira, parecia uma parvoce haver 
motivos para preocupao. A nica coisa de que falmos, meio a brincar, foi se ele se chatearia de estar no 
altar com as outras testemunhas e se deixaria que a sua falta de controlo dos impulsos tomasse conta dele. 
Mas, dada a forma como ele estava a comportar-se ultimamente, isso parecia improvvel.
Dava a sensao de finalmente se ter tornado um homem carinhoso e responsvel, que at aceitava de bom 
grado as responsabilidades da sua doena. Estava a dar boa conta do recado, a tomar os medicamentos e, 
pela primeira vez at, quando no se sentia bem, dizia a Julie, e ela e o psiquiatra de Nick ajustavam a 
medicao. Haviam passado trs meses desde a sua ltima tentativa de se suicidar, e isso parecia ser a 
coisa que estava mais longe da sua cabea agora. Apresentava-se com muito bom aspecto, subitamente 
mais maduro, bem sucedido e muito feliz. E nunca estivramos to prximo um do outro.
De facto, passmos uns tempos to bons no Havai que comemos a almoar os dois todas as semanas, e 
passvamos sempre um bom bocado. Quanto mais velho ele estava, mais arecidos ficvamos. ramos 
igualmente sensveis, compassivos, generosos, imprudentes, e ingnuos s vezes, tnhamos coraes 
moles, raciocnios rpidos e o mesmo sentido de humor. A vida fora dura em vrias ocasies para ns os 
dois, e sabamos dar-lhe o valor quando as coisas estavam fceis. Mas, melhor que tudo, havia um 
poderoso elo que nos unia.
Eu achava que podia falar com ele acerca de qualquer coisa e de tudo. Confiei-lhe coisas que me 
preocupavam na famlia, problemas que eu tinha com John, o meu trabalho, e at a minha vida amorosa. 
Ainda estava louco por Tom e feliz por mim por as coisas estarem a correr bem. E avisava-o das ratoeiras 
da fama, certa de que um dia ele teria de as encarar. Ficava perplexo com as pessoas que j o invejavam e 
ao mesmo tempo procuravam aproveitar-se dele. Tnhamos muitos conhecimentos para oferecer um ao 
outro. Vamos as coisas do mesmo ponto de vista, o que nos divertia. Ele era profundamente perspicaz a 
fazer juzos das pessoas. Era extraordinrio como ramos to chegados. Como ele era compreensivo e 
inteligente! E, sobretudo, eu ficava sempre to sensibilizada por ele se preocupar tanto comigo, me 
apreciar, e querer que eu me sentisse feliz. Nunca teria imaginado isto anos antes, mas ele fizera-se um 
homem que eu amava, respeitava, e sabia que podia contar com ele, uma raridade na minha vida. E ele 
sabia que eu estava sempre perto dele, e sempre estaria. Contvamos estar sempre perto um do outro e 
nunca causarmos nenhuma decepo um ao outro. Nick era algum com quem eu podia contar e s vezes 
at para me apoiar, o que me deixava deliciada. Era uma ddiva rara que ele me ofereceu, que eu muito 
estimava.
Almovamos juntos mais ou menos uma vez por semana, mais vezes quando podamos, e, entre ensaios e 
compromissos, ele passava por casa, sentava-se no meu escritrio e conversvamos. Trovamos das 
pessoas de que no gostvamos, ou que se levavam demasiado a srio, contvamos anedotas, e havia 
sempre uma certa inocncia em ns, confivamos nas pessoas, "no o suficiente, demasiado", como dizia 
Nick. Tnhamos tantas coisas em comum, coisas que no s adorvamos como admirvamos um no outro.
Depois do casamento, as nossas vidas iam ter rumos diferentes durante uns tempos. Eu ia passar seis 
semanas com os midos na Europa, Nick ia estar em digresso durante dez semanas, e andava 
extremamente excitado com isso. Eu estava feliz por ele, e nem sequer andava preocupada. Os seus 
assistentes iam com ele, como sempre faziam, e Julie voava todas as semanas para onde quer que ele fosse 
para lhe dar uma espreitadela. J combinara com alguns hospitais que ficavam na rota da digresso para 
fazerem as anlises aos nveis de ltio de Nick. Pensramos em tudo, e ele estava embrenhado na sua 
msica. Nunca parecera estar em melhor forma, mais so e mais forte. E, no final de Maio, todos voltmos 
as nossas atenes para o casamento de Beatrix. Havia um jantar de ensaio na noite anterior, farra  farta, 
o que encantava Nicky. Beatrix estava linda num vestido de cetim cor de alfazema, e Nick estava 
sensacional de fato preto. Fizera um corte de cabelo espectacular, os cabelos eram pretos e lustrosos, 
estava com um ar muito elegante. Divertimo-nos imenso, e, no dia seguinte, posmos todos para as 
fotografias antes do casamento. Nick estava incrvel de smoking novo.
O seu comportamento na cerimnia foi exemplar. No havia sinais da falta de controlo dos impulsos, e, 
como prometera, levou-me pelo brao ao longo da nave da catedral com um ar muito circunspecto. 
Quando comemos a andar, deu-me uma palmadinha na mo e o corao derreteu-se-me quando me 
disse que me adorava muito. H uma fotografia maravilhosa tirada exactamente nesse momento. Lembro-
me de quando a tiraram.
Disse-lhe que tambm o adorava, e que todos os filhos so ddivas para a sua me, mas ele no fora 
apenas uma ddiva para mim, ele fora algo mais especial porque fora uma ddiva tantas vezes. "Tens de 
ser bom para ti prprio agora, Nick", disse eu em voz baixa. "Adoro-te", murmurei. Estava nervosa 
enquanto caminhava ao longo da nave, e ele sabia bem, e deu-me uma palmadinha na mo. E ento disse 
outra vez que me adorava, beijou-me, deixou-me no meu lugar e encaminhou-se para o altar para se juntar 
s outras testemunhas. Nunca me parecera to bem como naquele momento.
Danou comigo uma srie de vezes nessa noite, mas manteve a sua habitual reputao de Casanova. No 
final da festa, deixou a recepo com uma das mulheres mais bonitas que l se encontravam. Ela tinha 
trinta anos e um ar espectacular, especialmente pelo brao de Nick, quando deixaram a festa com Cody a 
servir de motorista. Nick nunca aprendera a conduzir, nunca quis, e sabia que no era uma coisa para si. 
No precisava, pois havia sempre algum com ele. E os problemas de Nick com o controlo dos impulsos 
teriam sido letais na auto-estrada.
,Foi um casamento bonito, e um dos melhores acontecimentos das nossas vidas. Foi maravilhoso ver a 
famlia toda reunida. Estavam todos muito elegantes, divertimo-nos imenso e ficmos felizes por Beatrix.
Duas semanas mais tarde, depois de outro dos nossos almoos que rimos a tarde toda, Nick partiu em 
digresso com a banda, e crianas e eu partimos para a Europa. Prometi telefonar-lhe da Europa para a 
carrinha. Iria ser mais fcil ele contactar-me do que eu a ele. Eu ia para Paris, Sul de Frana, Londres e um 
fim-de-semana numa casa rural em Inglaterra. Nick ia atravessar o pas, de pois voltava, fazendo grande 
sucesso com o seu pblico e angariando mais admiradores. Estava, portanto, entusiasmado com a 
digresso, e eu sentia-me feliz por ele. Sabia que ia ser um grande Vero.

VERO DESASTROSO

Pouco antes de partir para a digresso, magoou-se nas costas. Tinha um disco intervertebral inflamado, 
que o preocupava, dados os desafios atlticos do seu desempenho em palco. Ele saltava e contorcia-se, 
coisas que no so fceis de fazer quando as costas esto doridas. De qualquer modo, ele achava que a 
digresso estava marcada e eles no viajariam mais do que quatro ou cinco horas por dia. Mas as noes 
de Nick relativamente ao tempo nunca eram perfeitas. Como veio a verificar-se, eles tinham entre doze e 
quinze horas de conduo diariamente entre as cidades onde iam tocar. Sentado numa carrinha 
superlotada, com mais nove tipos, durante quinze horas por dia, ia ser duro, e ele tinha a noo disso. 
Disse-lhe para pr gelo nas costas e para se deitar sempre que possvel. E como no queria complicar a 
sua qumica, no queria tomar medicamentos para as dores, mas dizia que as dores nas costas, por vezes, 
eram excruciantes.
Os aspectos musicais e de desempenho da digresso comearam por correr bem, mas os rapazes eram 
jovens, e as tenses entre eles eram inevitveis. Fechados numa carrinha superlotada, durante uma dzia 
de horas por dia, muitas vezes arrasados depois de espectculos a altas horas da noite e poucas horas de 
sono, comeavam a discutir, o que no era surpresa para ningum. A digresso foi muito mais dura do que 
aquilo que esperavam. Mas Nick achava que era importante para o futuro da banda e pressionou-os a 
continuar. s vezes, quando no gostavam do que estava a acontecer, deitavam-lhe as culpas, porque era 
ele que dirigia a banda e era ele o responsvel por tudo o que eles. faziam, e todos eles, inclusive Nick, 
mostravam com veemncia os seus desgostos e os seus desconfortos.
Soube mais tarde, da boca de Julie, como as queixas dos outros rapazes o perturbavam. Isso levava-o a 
achar que eles no gostavam dele nem dos seus incansveis esforos. Nick sentia que a responsabilidade 
da banda repousava quase inteiramente sobre os seus ombros. E como era ele que organizava tudo, que 
trabalhava com os empresrios e as salas de concertos, que fazia interminveis telefonemas, que escrevia 
as canes, que as interpretava e que organizava os ensaios, no se enganava.
Agora, em retrospectiva,  mais fcil ver que havia a possibilidade de a digresso ser desastrosa para Nick. 
Mas, na altura, parecia ser importante para todos ns deix-lo faz-la. Fazer a digresso com a banda 
significava tudo para ele, era o culminar de todo o seu trabalho, e era o que a banda precisava de fazer, se 
queria ter sucesso. Nick sara da faculdade sete meses antes, porque sentia que estar numa banda 
potencialmente bem sucedida era uma oportunidade que poderia no voltar a surgir, e achava que poderia 
sempre voltar para a faculdade mais tarde. Dois dos elementos da banda tambm tinham sado da 
faculdade, e um outro sara da escola secundria para passar para o regime de "estudo independente". 
Todos tinham feito grandes sacrficios, e haviam-se entregue de alma e corao ao projecto. Para eles, a 
digresso do Vero era apenas um comeo. H um ano que planeavam a digresso. Onze semanas nesse 
Vero, possivelmente a Europa no Outono, se a digresso nos Estados Unidos corresse bem, e o Japo 
depois do Natal. Tinham muita coisa dependente dela, e ia ser um campo experimental para os Link 8O. 
O meu corao estremecia um pouco quando imaginava Nick em digresso, tal como o de Julie, mas todos 
sabamos o muito que significava para ele. E, se no o tivssemos deixado faz-la, ele poderia deixar-nos 
e faz-la de qualquer forma, sem a nossa bno e proteco. Estvamos encorajados pelo facto de estar 
com um aspecto mais saudvel que nunca. Parecia ser a altura ideal para a fazer. Por isso, planemo-la da 
melhor maneira que pudemos para proteger a sua sade. Cody e Paul, os seus assistentes, estabeleceram 
um complexo programa para o acompanhar na digresso. Julie planeava ir ter com eles uma vez por 
semana, viajar com eles durante vrios dias, e certificar-se de que Nick estava a aguentar as presses 
fsicas e psicolgicas. Pensmos, quando partiram em Junho, que tnhamos uma cobertura perfeita. Julie 
at tinha uma lista de hospitais que ficavam na rota da digresso, aonde ele seria levado para lhe serem 
feitas as anlises dos seus nveis de ltio.
Geralmente, era Julie que lutava pela independncia dele. Foi ela quem o encorajara a cultivar a sua 
paixo pela banda, enquanto eu estava sempre um pouco mais hesitante, mais cautelosa, mais cptica e 
mais preocupada. Mas ela compreendia ainda melhor do que eu como era importante para ele ter a 
sensao de realizao pessoal e de liberdade. Se tivesse podido, eu t-lo-ia mantido embrulhado em 
algodo durante toda a sua vida. Ele era "o meu beb". E eu sabia que ela tinha razo em, pelo menos, lhe 
dar a iluso de independncia. Se ele ia viver com uma doena durante toda a sua vida, o objectivo para 
todos ns era ajud-lo a levar uma vida normal, ou to normal quanto possvel. E a digresso ajudava-o 
em parte a conseguir isso. E, sobretudo, era o que Nick queria to desesperadamente, e aquilo por que 
trabalhara com tanto afinco. Mas Julie tinha alguns receios desta vez, estava mais ansiosa do que eu. Eu 
era a nica que estava certa de que ele iria conseguir. E, como habitualmente, procurmos o equilbrio. 
Tnhamos os mesmos gneros de conversa acerca da pequena casa de Nick.
Eu achava que ele precisava de ser observado mais de perto do que poderia ser numa casa independente, a 
dormir sozinho. Os seus assistentes deixavam-no a altas horas da noite e s voltavam de manh. Mas Julie 
achava que ele precisava de privacidade e liberdade. Precisava de se sentir um adulto. Estava to cercado, 
to protegido e to vigiado que era opressivo para ele s vezes, e raro para ns conseguirmos dar-lhe a 
iluso de ser adulto. A pequena casa independente, a poucos centmetros da porta principal dela, ajudava a 
cultivar essa iluso. E ele adorava-a. s vezes ela tinha razo acerca do que queria para ele, e s vezes eu 
tinha de desistir daquilo que Nick chamava a minha "parania". Tentara o suicdio uma vez l, na sua 
pequena casa, mas tambm o tentara na casa de Julie. E no quarto trancado de um hospital. Por isso, 
ambas tnhamos razo, ele precisava de ter a sensao de liberdade, e precisava tambm de ser vigiado. 
Com Nicky, havia sempre uma linha tnue entre as coisas, havia sempre um acto de equilibrismo no 
arame.
Contudo, fora Julie quem sempre o apoiara na sua carreira musical, mesmo quando eu no o apoiava. Nos 
primeiros tempos, dei pouca ateno a isso, pensando que era um capricho passageiro, e receando que isso 
o arrastasse para um meio que era repugnante e que ele no conseguiria controlar. Mas Julie tinha absoluta 
razo nessa questo. Foi a fora da vida que o manteve activo, que o trouxe aos seus melhores anos, e pela 
qual ele viveu. Fiquei sempre agradecida por ter sido a ideia dela a prevalecer, e a de Nicky.
Em qualquer caso, quando ele partiu nesse Vero em digresso, penso que Julie e eu tnhamos sentimentos 
opostos e algumas reservas. Mas desta vez fiquei quase completamente convencida de que ele conseguiria 
lev-la avante. E, quando partiu, Julie tambm partiu. Nick nunca estivera melhor.
Cody entrava em contacto comigo vrias vezes por dia, e contava-nos que estava tudo a correr bem, 
embora os rapazes se queixassem do calor, da carrinha, da comida, das longas viagens, dos habituais 
desconfortos de uma digresso. Nada nos parecia estranho para nenhum de ns. Mas, dez dias depois de 
iniciar a viagem, Julie telefonou-me para a Europa. J falramos vrias vezes antes disso, e contactvamos 
uma com a outra uma vez por dia, se no mesmo mais vezes. Era raro passar um dia, mesmo quando ele 
estava em casa, sem trocarmos vrios telefonemas entre ns, ou para confirmar que as coisas iam bem, ou 
para fazer ajustamentos, ou para ir l a casa quando havia algum desajuste.
Quando Julie telefonou desta vez, mostrou-se preocupada. Nick parecia andar enervado, e estava chateado 
por alguns dos elementos da banda se queixarem da forma como as coisas estavam a correr. 
Mas surpreendeu-me ao dizer-me que achava que a digresso era de mais para ele, e falou da 
eventualidade de a cancelar e o trazer para casa. Todavia, quando perguntei se algo especfico lhe 
acontecera para ela se sentir daquela maneira, pareceu-me ser mais uma sensao de preocupao da parte 
dela. E eu confiava nos seus instintos.
No dia seguinte, Nick comunicara-lhe efectivamente que estava enervado e deprimido, ele prprio estava 
a comear a achar que no conseguiria levar a digresso at ao fim. E, ao escut-la, fiquei preocupada. 
Mas tambm sabia como os seus estados de esprito eram inconstantes. Ele era perfeitamente capaz de 
dizer que queria sair num minuto, e bater-se para ficar, cinco minutos depois. De qualquer forma, eu 
achava que, se o trouxssemos para casa, todo o impacte do que isso significava para o seu incio de 
carreira atingi-lo-ia mais tarde, e poderia acabar por destru-lo. Desta vez, eu era a nica pessoa que 
achava que ele devia prosseguir a digresso, e acreditava que a conseguiria levar at ao fim. Estava com 
receio de que, se ele abandonasse a digresso, se sentisse um falhado e um invlido para sempre. Era 
difcil avaliar os potenciais riscos de qualquer das duas decises.
Ele pedira-lhe para se ir encontrar com eles uns dias mais cedo do que o planeado, e disse-lhe que ia dizer 
 banda que os ia deixar. Julie apanhou um avio para se encontrar com ele nessa noite. Mas antes que o 
fizesse, obrigou Nick a prometer que no diria nada aos outros membros da banda acerca das suas ideias 
de os deixar at ela chegar. E, naturalmente, Nick prometeu. Ela queria ajud-lo a dar-lhes a notcia, se  
que ele estava a falar a srio.
Porm, a inevitvel falta de controlo dos impulsos tornou a promessa, como muitas que ele fazia, intil. 
Antes de o avio dela descolar, ele tomara as rdeas do problema. E em vez de lhes revelar a sua doena, 
coisa que nunca fez, guardou isso como um segredo que nunca partilhou com ningum. Em vez disso, 
disse-lhes que estava farto deles, j no gostava deles e que se ia embora. E, previsivelmente, eles ficaram 
irados. Julie planeara discutir o assunto calmamente com Nick e, se necessrio, ajud-lo a encontrar uma 
sada diplomtica e airosa. Ele teria tido a desculpa perfeita. Como a sua primeira tentativa de suicdio 
nove meses antes fora to devastadora do ponto de vista fsico, ele precisava de fazer contnuos exames, 
tendo-se posto at a questo, pouco antes de partir para a digresso, de ele ter ficado com o corao 
afectado, e feito por isso exames regulares at ao dia anterior, estando programada a realizao de novo 
exame durante a digresso. At a, os exames tinham estado normais, mas Julie planeava anunciar que ele 
tinha um problema com o corao, se Nick quisesse ter uma sada airosa. Mas ele nunca lhe deu a hiptese 
de fazer isso. Em vez disso, insultou toda a gente, enfureceu-os, e, quando Julie chegou, os rapazes 
estavam em rotura completa h oito horas e diziam que Nick era um cobarde por querer abandon-los. 
No entendiam as suas razes, e ele respondia com crticas e insultos.
O problema era que Nick no queria que ningum soubesse da sua psicose manaco-depressiva e da sua 
gravidade. Os rapazes com quem ele trabalhava no faziam a mnima ideia da luta diria em que ele estava 
envolvido, dos fortes medicamentos que estava a tomar e da sua grande dependncia deles, ou que Cody e 
Paul eram assistentes psiquitricos. Dizia a toda a gente que eles eram guarda-costas, contratados pela sua 
famosa e superprotectora me. E no sei o que  que eles pensavam de Julie.
Julie encontrou-os em acalorada discusso quando chegou, e Nick confessou-lhe em privado que no 
soubera o que nem como lhes dizer, ou como lidar com a sua sensao de fracasso. Era a primeira vez que 
ele admitia efectivamente isso quando no se sentia bem, ou que pedira ajuda. E, depois das trs tentativas 
de suicdio dos meses antes, parecia ser um passo importante tomar a responsabilidade do controlo da sua 
doena. Sabendo que ele estava de facto perturbado e a falar em ir para casa, Julie achou que o melhor era 
ele fazer isso.
No entanto, sem Nick, no haveria digresso, nem banda, nem futuro imediato para os Link 8O. Ele era a 
figura central, o cantor, a estrela, o man que atraa multides, os caadores de talentos, os agentes de 
publicidade, os representantes das grandes empresas discogrficas. Eles no poderiam prosseguir sem ele 
naquela altura, e sabiam disso.
Porm, Nick estava ainda mais profundamente deprimido pelo que eles estavam a dizer dele, e ele e Julie 
conversaram finalmente acerca do que deveria fazer. Estava profundamente ferido pelo que os outros lhe 
tinham dito, mas, por outro lado, abordara muito mal a situao. Ao dizer-lhes que eram idiotas e que os 
detestava, dificilmente iria ganhar o apoio e admirao deles, e muito menos a sua compaixo. E eles no 
sabiam nada da sua doena. Estava a agir como um menino mimado, para encobrir os seus medos, e eles 
estavam compreensivelmente chateados com ele.
Julie pediu a algum que o acalmasse durante a noite, e no dia seguinte, quando Nick estava a dormir, ela 
passou cinco horas a falar com os outros rapazes a tentar-lhes explicar a situao. Ela sabia que era a 
altura de revelar a doena de Nick. E falou-lhes da psicose manaco-depressiva de Nick. Mas, 
compreensivelmente, as implicaes, a gravidade da doena e os riscos potencialmente desastrosos para 
ele estavam para alm daquilo que eles conseguiam entender. E quem podia censurar? Se ns, depois de 
anos a lidar com ele, no entendamos completamente como  que a doena poderia ser letal para ele, 
como  que eles podiam? Porm, apesar do desejo de Nick em manter a iluso de normalidade, ela disse-
lhes que, se Nick perdesse o controlo da situao, era possvel que ele tomasse drogas para aliviar o 
sofrimento, ou pior, tentasse novamente o suicdio. Era um fardo impressionante. E suspeito que eles 
achavam que Julie estava paranica e a exagerar para o desculpar. Eles eram adolescentes e ingnuos, e 
ela estava a descrever-lhes uma doena que, para muitas pessoas,  efmera e confusa. Queriam que ele 
ficasse, apesar de tudo, achando que lhes devia isso, e prometeram-lhe telefonar se Nick parecesse 
perturbado ou estivesse com algum problema. Por fim, o compromisso que Julie lhes props, e depois a 
Nick, era eles fazerem uma pausa de duas a trs semanas, para ela poder lev-lo para casa, observ-lo, 
ajustar a medicao, se necessrio, e dar-lhe oportunidade de reconquistar o equilbrio e a boa disposio. 
Mas eles ficaram pouco entusiasmados com a sugesto, e os empresrios, mais do que provavelmente, no 
tolerariam uma interrupo de duas ou trs semanas na digresso. Custara-lhes dinheiro e arruinaria o 
nome da banda. Quando Nick se levantou, Julie convencera-os a dizer a Nick o quanto o apreciavam, o 
que fizeram. Ao ouvir isto, Nick anunciou que decidira que queria ficar e continuar a digresso. Julie 
ainda tinha algumas reservas e disse-lhe que devia seguir os seus instintos e que, se fosse de mais para ele 
ficar, no o deveria fazer. Mas a posio de Nick invertera-se completamente nas vinte e quatro horas 
anteriores. Disse a Julie que, se ela o obrigasse a ir com ela, fugiria, a srio desta vez. Nada o iria obrigar a 
partir. Ia fazer a digresso, desse por onde desse. Recusava-se terminantemente a ir para casa com Julie. 
Eu falava com Julie de tantas em tantas horas, e ela finalmente resolveu ficar perto dele a vigi-lo. E 
aquilo que ela no gostou, nem eu, foi o facto de os rapazes terem sido to inflexveis, fossem quais 
fossem os riscos para Nicky. Queriam que ficasse no por desrespeito para com ele, mas porque no 
compreendiam o risco para ele, e precisavam muito dele. No acho que qualquer de ns, nem mesmo Julie 
ou eu prpria, nem sequer os psiquiatras de Nick, tivssemos noo da sobrecarga que a digresso seria 
para ele psicologicamente, ou as revelaes que ele teria de encarar relativamente aos seus prprios 
limites, que viriam a acabar por destru-lo. Se eu me tivesse apercebido do eventual risco para Nick, ele 
nunca teria ido fazer a digresso. Depois de tudo o que tnhamos realizado at quela altura para o manter 
em segurana, por que razo  que corremos o risco? No o devamos ter feito. Assim, Julie ficou e viajou 
com eles durante algum tempo, de olho em Nick, e a boa disposio dele melhorou de novo. Andavam 
num frenesim com o trabalho da banda, os rigores da estrada e a excitao dos concertos. A digresso 
estava a correr bem, e era um rito de passagem que todos eles sabiam que tinham de passar se alguma vez 
queriam atingir o xito. E quando os deixou, Julie estava segura,  tal como eu, de ele ter entrado outra vez 
nos carris, estar calmo e determinado a continuar a digresso. Mas tambm no havia qualquer dvida nos 
nossos espritos de que continuava frgil. Ele prometera a Julie antes de ela partir que, se ficasse 
deprimido outra vez, deixaria efectivamente a digresso, e no poria em risco o seu bem-estar por mais 
tempo.
No estava ento com a sua habitual disposio efervescente, mas tambm no parecia particularmente 
deprimido, e com os outros membros da banda estava a sair-se cada vez melhor. Agora, em retrospectiva, 
vemos que ele estava menos socivel do que habitualmente, mais fechado e, sempre que tinham algum 
tempo nas cidades onde ficavam, Nick mostrava-se mais ansioso por ficar no motel a descansar do que a 
divertir-se com os outros. Mas tambm estava cansado e, pouco tempo depois de Julie partir, fracturou o 
p durante uma actuao em palco. Ela foi ter com ele de novo e o p foi tratado por um ortopedista de 
Nasliville. Um homem incrivelmente simptico, o Dr. Greg White, de quem Nick ficou amigo. Nick 
mantinha contactos com ele, encontrmo-nos depois disso e ficmos amigos Era to simptico e diligente 
como Nick mo descrevera quando me falou dele. E arranjou um aparelho de gesso a Nick, de forma a ele 
poder continuar a actuar.
Julie tambm mandara analisar os seus nveis de ltio quando esteve na digresso com ele, e, at ento, 
estava tudo normal. Durante toda a digresso, eu telefonava a Nick para a carrinha e ele parecia estar bem 
e feliz por se encontrar em digresso. E, de quase todas as cidades onde paravam, mandava-me postais 
engraados, a agradecer-me por t-lo deixado fazer a digresso com a banda e por apoi-lo naquilo que ele 
estava a fazer. Guardei a maioria dos postais que ele me enviou e emoldurei-os. Eram muito  Nicky.
No seu jeito inimitvel, Nick tambm levou o seu sentido de humor para a digresso. E, apesar do incio 
vacilante e do p partido, conseguiu sair-se praticamente inclume. Era difcil manter Nick em baixo 
durante tanto tempo, mesmo quando estava cansado e comprimido numa carrinha com mais nove pessoas. 
Havia oito elementos da banda, Cody a conduzir, Nick e o seu querido amigo Stony.
Certo dia, Nick encontrou um bocado de carto numa das suas paragens, e escreveu nele uma mensagem 
que achava que os ia divertir. Desenhou o contorno de dois pares de mamas e escreveu "MOSTRA-NOS 
AS TUAS MAMAS!", em grandes parangonas. A mensagem era indubitavelmente pouco refinada e 
potencialmente ofensiva. Mas  boa maneira de Nick, ele achava que lhes ia proporcionar horas de 
divertimento, e no se enganou.
Segundo Cody, ele costumava sorrir para as mulheres que passavam por eles nos carros, dizia-lhes adeus, 
fazia caretas, ria, apontava e geralmente cativava-as. E quando elas lhe achavam graa, fazia os possveis 
para as atrair de dentro da carrinha que seguia ao lado do carro delas, pegava ento no letreiro e exibia-o 
na janela. Elas deviam ficar perplexas, algumas talvez chateadas, mas o que espantava Cody - e 
provavelmente tambm os outros -  que uma srie de mulheres que liam o letreiro faziam efectivamente 
aquilo que ele pedia. Resultava! Cody e eu concordmos, quando ele me falou disso, que, se algum 
tentasse fazer isso, acabaria provavelmente na cadeia, ou as mulheres teriam ficado furiosas. Embora 
algumas provavelmente tivessem ficado, outras aparentemente teriam achado a brincadeira engraada e 
Nick atraente. O suficiente para ele fazer o que queria e rir o mximo que podia. No havia malcia em 
Nick, nenhum intento maligno, nada de ligeiramente srdido. Havia um trao de criana nele, desde o 
incio at ao fim. Uma inocncia e uma ingenuidade que nos faziam ter vontade de rir e de o abraar.
O letreiro acabou por chegar at casa e, divertida com ele, emoldurei-o.  um artefacto da digresso, tpico 
dele, e pe-me de certa forma bem-disposta. Encontra-se agora pendurado nas escadas que do para o seu 
quarto, logo abaixo do microfone, que eu tambm emoldurei. Fazem-me sorrir, tal como a histria fez 
quando Cody me contou.
As coisas correram bem durante uns tempos, e ele parecia-me bem quando lhe telefonava. Apanhava-o a 
dormir na carrinha entre cidades, sabe Deus onde, de que ningum nunca ouvira falar. Mas era bvio. que 
estava a adorar a digresso. Estavam todos cansados, a conduzir horas interminveis por zonas 
desconhecidas, mas ele gostava das pessoas que encontravam, dos espectculos que faziam e estava 
constantemente entusiasmado. Dizia que as costas estavam melhor, embora eu no consiga imaginar 
porqu, enroscado dentro de uma carrinha o dia todo, e aos saltos em cima de um palco a noite toda. Era 
uma terapia que qualquer mdico dificilmente lhe teria recomendado. Mas era bastante jovem para 
conseguir ultrapassar isso, apesar da sua doena. Eu, pelo menos, achava.
Julie tambm estava satisfeita por as coisas estarem a correr bem. Viajava uma vez por semana para passar 
vrios dias com ele, como prometido, embora na altura no fosse coisa fcil para ela. Descobrira que 
estava grvida e no contara a Nick. Mas sabia como era importante para si estar com ele; como tal, 
sentisse-se como se sentisse, e muitas vezes sentia-se mal, apanhava o avio para ir ter com ele. Alugava 
um carro e levava-o consigo, de modo a poderem conversar e poder ver realmente como  que ele estava.
O que ela me relatava era reconfortante, embora uma das coisas que nos preocupava fosse a possibilidade 
de, dadas as longas horas de viagem, a falta de sono e os irregulares padres de alimentao, o ltio no ser 
absorvido uniformemente, mas, at ento, no vramos quaisquer problemas. E as suas anlises semanais 
do nvel de ltio estavam normais.
Nick queixava-se, de tempos a tempos, do aparelho de gesso que usava, e eu entrava com ele.
"Ests, a cair aos bocados!", dizia eu, e ele ria-se. "Pois estou!" Parecia que estava a v-lo a dizer isto, e 
questionava-me acerca da minha vida amorosa, que estava bem no momento. Tom e eu estivramos a falar 
novamente dos planos para o futuro, quando partimos para a Europa.
Eu levara as crianas para Londres e Paris, e estvamos no Sul de Frana, quando tudo acabou com Tom. 
Foi um daqueles momentos em que os planetas colidem, e todas as nossas estrelas da sorte vo pelo cano 
abaixo. Pelo menos a minha foi. Tom e eu estivramos a viajar em continentes separados durante dois 
meses e, quando nos voltmos a encontrar, as coisas estavam dessincronizadas e, subitamente, tornaram-se 
difceis. Em retrospectiva, podemos encontrar muitas razes para as coisas terem acontecido. Na verdade, 
ns nunca sabemos exactamente quem  que acende o rastilho ao dinamite, mas ele acende, e o dinamite 
destri a nossa relao, mesmo fora de gua. Ele deixou subitamente o Sul de Frana, em pnico por causa 
das complicaes da minha vida, convencido de que a relao era irrecupervel e que estava tudo acabado 
entre ns. No concordei com as razes que ele apresentou, mas convenceu-me indiscutivelmente que, 
para ele pelo menos, estava tudo acabado.
Voltei para Paris, de corao destroado, e chorei em todos os nossos lugares favoritos. Foi 
indubitavelmente um grande choque e, juntamente com o nosso romance e aquilo que eu esperara que 
seria o nosso futuro, o meu Vero acabou. Voltei para Nova Iorque com os midos, e depois para casa, 
para os entregar a John para irem passar o seu tempo de frias com ele, e eu fiquei em casa a lamber as 
feridas. O resto dos planos de frias que eu tinha com Tom foram cancelados, mas, por enquanto, no 
disse nada a Nicky.
Nick passou por Nova Iorque, e a minha me e uma amiga dela foram v-lo actuar. Sorrio, ao imaginar a 
cena, e quem me dera ter podido ver. A minha me de vestido de seda, como de costume, e prolas, entre 
admiradores de Nick e um milhar de punk rockers. Ela adorou o espectculo e o neto. Agora que estava a 
ter xito, as suas extravagncias, como sejam pintar o cabelo, os brincos nas orelhas, o brinco no nariz e as 
tatuagens, pareciam mais acessrios do que ofensas. E Nick nunca teve um ar hard-core. Tinha um estilo 
natural e uma elegncia que lhe davam um ar mod, o que s realava o seu aspecto.
Eles fizeram uma pausa de uma semana em Nova Iorque, e Nick apanhou uma forte constipao. Julie 
esteve l, e a amiga dele Thea veio fazer-lhe companhia, e Nick passou um bom bocado, mas sentia-se 
bastante mal. Pu-lo num hotel decente, desta vez, e ele escreveu-me e telefonou-me vezes sem conta a 
agradecer-me. Os confortos que outrora lhe pareciam vulgares eram agora profundamente apreciados e 
no tinham preo.
Tambm aproveitou o tempo em Nova Iorque para levar a banda a visitar um famoso advogado do mundo 
da msica, que ficou impressionado com eles e aceitou represent-los. Mas foi depois de Nova Iorque que 
as coisas comearam a ficar amargas para Nick. Estava cansado, ainda estava constipado, e as presses da 
digresso estavam a comear a desgast-lo, at que comeou a entrar lentamente na depresso. Estivera 
oito semanas em digresso, e tinha mais trs antes de acabarem. Mais do que tudo, ele parecia cansado. 
Mas eu acho que o que estava por baixo da fadiga e da tenso era a percepo de um facto que ele 
confessou a Julie. Ele sabia sem dvida que, se no conseguisse fazer a digresso e aguentar os rigores 
dessa vida, os seus esforos para construir uma carreira na msica seriam infrutferos. Era uma coisa que 
tinha de fazer se queria ter xito. E o que descobrira em quase oito semanas de digresso fora que ele 
sentia que no conseguia. Tinha-se aguentado de forma extraordinria, mas o seu estado de esprito estava 
a afundar-se lentamente. Tal como os outros, estava exausto. Mas, ao contrrio deles, levava a cabo uma 
batalha constante contra as suas prprias limitaes. O equilbrio era demasiado delicado para si, e chegou 
a confidenciar a Cody e a Julie, nessas ltimas semanas de digresso, que chegara a pensar que no 
conseguiria. A digresso exigiu demasiado dele, e as tenses desse estilo de vida custaram-lhe um preo 
demasiado elevado. Comeara uma batalha diria contra a depresso. E chegou a dizer a Cody que no 
achava que conseguisse fazer nova digresso. Era demasiado para si, e sabia-o. Isso em Nick traduziu-se 
na sensao de falhano absoluto e numa depresso avassaladora.Nick j no conseguia ver-se a fazer a 
digresso europeia ou no Japo. E, se no podia fazer a digresso, no podia tocar, no podia viver. Sem 
ser capaz de fazer aquilo que queria fazer no mundo da msica, a vida no tinha valor. Era um pssaro 
com asas partidas e ele tinha noo disso. Era precisamente a concluso por que ns todos tnhamos 
rezado a que ele nunca chegasse. Queramos que a digresso fosse uma vitria para ele, mas, nessas 
ltimas semanas arrasantes, comeou a ter reflexos negativos nele. Todavia, ainda insistia que conseguia 
acab-la e, no querendo deprimi-lo mais, concordmos em deix-lo. Julie voou para casa nos ltimos dias 
da digresso. Andava maldisposta por causa da gravidez, mas Nick ainda no sabia a novidade. Ela 
estivera com ele durante semanas, a conduzir quinze horas de carro por dia, a andar por salas de concertos 
e clubes nocturnos, e a ter conversas interminveis com Nicky. Mas ela e eu concordramos que, de 
momento, a gravidez tinha de se manter em segredo. A mudana sempre perturbou Nick. Ele precisava 
tanto do tempo e da ateno dela que a chegada de uma nova criana ia representar uma ameaa efectiva 
para si. Queramo-lo de novo em casa, descansado, com a cabea no lugar, antes de lhe dizer. E, como de 
costume, ela sacrificou-se a si e sacrificou a sade, pelo bem-estar dele. Passara todo o Vero a andar de 
um lado para o outro para estar com ele, e sofrendo os rigores da digresso quase tanto como ele. Eu 
estava to preocupada com Nick como com Julie. E na noite antes de Nick voltar para casa, ela perdeu o 
beb, o que foi devastador para ela. Mas, mesmo naquela altura, os pensamentos tiveram de se virar 
instantaneamente para Nicky. No tinha tempo para recuperar.
A banda viajou para o Midwest depois de Nova Iorque, e, embora Nick parecesse estar bem, 
efectivamente no estava. Saiu com a banda uma noite, embebedou-se e fumou erva, o que foi 
potencialmente desastroso para si, e ele sabia-o bem. Os rapazes da banda telefonaram imediatamente a 
Paul, assistente de Nick, para o motel, e contaram-lhe o que acontecera, como haviam prometido que 
fariam,, se Nick fizesse alguma coisa que no devesse. Paul foi busc-lo e, quando voltaram ao motel, 
Nick telefonou para Julie. Estava em pnico com aquilo que fizera, sabendo que, com ele, isso era um 
sinal de que estava a desintegrar-se, e sabia-o bem. Ela perguntou-lhe se queria voltar para casa, e ele 
respondeu-lhe que fazia o que quer que ela quisesse, o que, conhecendo Nick, significava que ele queria 
dar o fora. O facto de ter fumado erva e bebido foi a sua maneira de dizer que j no conseguia aguentar, 
todos ns sabamos isso, e Nicky tambm.
"E se eu te disser para vires para casa, Nick?", perguntou Julie. "Irei", disse ele num tom triste. Sem 
qualquer discusso. Sabia que a digresso acabara. Mas, mais do que isso, sabia que ela tinha muito 
maiores implicaes para si. Conhecia melhor que ningum os seus pontos fracos e as suas limitaes.
Nick sabia que tinha de ir para casa, de se recompor, mas tambm sabia que o seu acordo com a banda era 
que, se ele tivesse de abandonar a digresso, em qualquer altura, eles despedi-lo-iam. Fora esse o seu 
acordo com eles e, sabendo isso, para se poupar ao embarao de ser despedido, disse-lhes que tinha de ir 
para casa e que ia deixar os Link 8O. Eles no discutiram com ele. Estavam exaustos com a digresso e 
fartos dos problemas de Nick. Cortaram com ele. Nick ficou destroado pelo facto de a sua relao 
amorosa de trs anos com os Link 8O ter chegado ao fim. Estava h nove semanas e meia em digresso 
com eles, a passar por todas as dificuldades, a percorrer o pas, e estavam quase a acabar. Restavam-lhe 
menos de duas semanas de digresso e, sem Nick, teria de ser cancelada. Ficaram furiosos por ele 
abandonar a banda. A sensao de derrota de Nick era total.
Nick deixou-os calmamente, e apanhou um avio em Minneapolis. Julie foi ter com ele quando chegou e 
trouxe-o directamente para minha casa. Estvamos mortos por nos vermos, e eu estava desesperadamente 
preocupada com ele. Apoiei de todo o corao a sua deciso de deixar a digresso. O facto de se ter 
permitido beber, sabendo o mal que lhe causaria e sendo algo anormal nele, dizia-me o estado deplorvel 
em que ele indubitavelmente estava. E fiquei ainda mais preocupada quando o vi. Perdera peso na 
digresso, estava magro, plido e cansado, ainda usava um aparelho de gesso no p, e parecia estar ferido 
de morte. Apesar de nove semanas e meia de sucesso, o facto de no poder acabar a digresso fazia-o 
sentir-se um falhado. E o facto de ter desistido e de eles no o terem tentado demover, depois de tudo o 
que ele fizera pela banda durante trs anos, quase lhe despedaou o corao. De facto, eu acho que ele 
deve ter ficado mesmo destroado. Durante os ltimos dez dias de digresso, Nick era como um 
combatente de joelhos, no fora de combate, mas a ir-se abaixo lentamente, e ele tinha noo disso. E, 
quando chegou a casa finalmente, sentia-se abatido. Tinha tudo corrido mal naquelas ltimas duas 
semanas, e fora demasiado tarde para parar.
Em retrospectiva,  fcil para todos ns dizermos que ele nunca deveria ter feito a digresso, e eu culpo-
me a mim prpria por t-la deixado fazer. Todavia, no o ter deixado fazer a digresso teria sido um 
choque de propores de tal modo catastrficas que teria ficado deprimido. Teria sido uma maneira de lhe 
dizer que era um invlido e que nunca conseguiria realizar o sonho por que tanto trabalhara. O que eu 
desejava era que ele fosse capaz de fazer a digresso porque era o que mais queria. Era o que todos ns 
queramos, e tnhamos muitas esperanas depositadas nele, no maiores do que as dele. Eu encarava a 
digresso mais como um vitria para ele do que como uma derrota, e fora uma experincia extraordinria 
para todos eles, mas o facto de ter de abandonar a banda pusera-o em pnico. A banda fora tudo aquilo por 
que ele vivera e trabalhara.
Embora eu desejasse que eles tivessem encarado a sada prematura de Nick de maneira diferente, e no 
tivessem tomado uma posio dura relativamente ao facto, de certa forma, no posso censur-los. Estavam 
fartos dele. Independentemente do talento que tinha, trouxe muitos problemas com ele. No havia 
qualquer forma de eles perceberem a magnitude da sua doena, especialmente com Nick a fazer todos os 
possveis para a encobrir. No queria que soubessem da gravidade da sua doena, e eles no sabiam. Alm 
disso, pedir-lhes, na idade deles, para compreenderem a complexidade do seu estado teria sido pedir-lhes 
de mais. A esperana de Nick, e a minha, era que eles reconsiderassem quando chegassem a casa e lhe 
pedissem para voltar para a banda. Estava certa de que o fariam quando chegassem a casa e estivessem 
menos enervados e mais descansados. De momento, eu suspeitava, tal como Nick, que estavam a ser 
irracionais e se encontravam exaustos.
Eu referi-lhe que eles estavam to cansados como ele, e que, se pusssemos dentro de uma carrinha nove 
pessoas, de qualquer idade, de qualquer tipo, ao fim de nove semanas e meia sem dormir e de trabalho 
esgotante, coisa que os concertos eram, matar-se-ian, muito provavelmente, umas s outras. Estava certa 
de que quando voltassem, tudo seria esquecido.
"E se eles no me aceitarem de novo, mam?", perguntou-me, quase a chorar, com ar de pnico.
"Eles vo aceitar-te", prometi. Tinha a certeza que sim. Achava que s se fossem estpidos  que no o 
aceitariam. E, mais uma vez, senti um grande amor por ele.
Falmos no assunto durante bastante tempo nessa noite; finalmente, quis saber da viagem  Europa. E, 
como de costume, perguntou-me por Tom. No lhe quis dizer que a viagem correra mal, ou que 
acabramos tudo. Ainda esperava que a ferida cicatrizasse, e, ainda era cedo, tinham-se passado apenas 
algumas semanas desde que ele me deixara. Eu achava que Nick j tinha problemas que lhe chegassem. 
Era curioso que Nick se tornara meu confidente, e ocasionalmente meu conselheiro. Agora era altura de 
pensar nele, e no no meu romance desfeito, embora eu estivesse a sofrer bastante. Mas consegui encobrir 
o facto e fingir boa disposio. Estava muito mais preocupada com os seus problemas. A vida dele estava 
sempre na corda bamba, a minha no.
Abramo-nos e rimo-nos um pouco, mas, a maior parte do tempo, estava com um ar abatido. Disse-lhe 
para ir para casa e meter-se na cama. Foi o que ele fez durante trs semanas. No dia seguinte, estava to 
deprimido que nem sequer conseguia mexer-se. Ficou na cama durante dias e semanas, a dormir, e cada 
dia que passava aproximava-se mais da destruio. Estvamos desesperadamente preocupados com ele. 
Tentmos lev-lo ao hospital, mas no queria ir desta vez, e do hospital disseram que no havia nenhuma 
razo legal para o obrigar. Estava deprimido mas no estava em perigo grave.
Os elementos da banda nunca lhe telefonaram quando regressaram, nunca lhe pediram para voltar. 
Apareceram em casa de Julie sem avisarem, e queriam o equipamento, que ainda estava na nossa carrinha. 
Nicky ficou to destroado que se recusou a descer e ficou no quarto a chorar. Julie e eu fizemos o mesmo 
quando falmos sobre o assunto. No havia nenhuma maneira de o proteger disso. Estava desesperado, 
ferido, abatido. Ele deitara-os abaixo e eles puseram-no a andar. Era a consequncia natural das suas 
aces e da sua doena. Aqueles que o amavam estavam desesperados com medo dele. Era o maior 
desafio que ele alguma vez enfrentara, especialmente dada a sua doena. E continuava a afundar-se cada 
vez mais.
Para Nick, o sonho acabara. E a nica coisa que todos poderamos fazer era pux-lo para o futuro. Julie 
comeou a falar com ele acerca da possibilidade de fundar uma nova banda. Ao princpio, Nick no queria 
ouvir falar no assunto, mas ao fim de algum tempo a ideia comeou a intrig-lo. Julie continuava a 
lembrar-lhe que ele era capaz. Como de costume, ela era a pessoa que preservava a sua vida, a sua 
salvadora, a fora motriz que no o deixaria afundar, por mais que ele quisesse. 
Sabendo que estava deprimido, em vez de esperar que ele se levantasse para lhe dar os medicamentos, 
comeou a levantar-se e a dar-lhos s cinco da manh, levantando-lhe apenas ligeiramente a cabea, na 
esperana de que eles estariam a fazer efeito na altura em que ele acordasse vrias horas mais tarde. Creio 
que isso ajudou um pouco, mas mesmo esse gesto atencioso no foi suficiente para fazer a magia que era 
necessria.
Era indubitvel que Nick estava devastado e deprimido por perder a banda. Mas uma coisa igualmente 
perigosa lhe acontecera na digresso e que eu s mais tarde  que compreenderia. Nick estivera frente a 
frente com as suas prprias limitaes e fraquezas durante a digresso. Cody e Julie achavam que ele 
compreendera claramente que nunca seria capaz de suportar indefinidamente aquele estilo de vida. 
Embora tivesse talento para se tornar uma superestrela um dia, do ponto de vista emocional era 
extremamente duro para ele, extremamente exigente, extremamente cansativo, e ele sabia que tinha de 
mostrar as suas capacidades e lev-las para alm dos limites. O seu xito como msico dependeria da sua 
capacidade de fazer muitas digresses e de as aguentar. No ser capaz de fazer isso, para ele, significava 
nunca ser capaz de fazer o que realmente tinha de fazer. Foi a percepo de uma realidade cruciante. Nick 
vira finalmente que nunca se libertaria das correntes que o cercavam. Era uma guia orgulhosa, com as 
asas partidas, destinada a no levantar voo. Ter de encarar esse facto, e aquilo que ele nunca seria ou que 
nunca teria, foi talvez o que o matou. Sabendo que no poderia alcanar os seus sonhos, nada lhe restava 
por que viver. Julie nem sequer estava certa, nem Nick, de que os medicamentos de que ele estava 
totalmente dependente o aguentariam durante toda a vida. Ele no falou nada a nenhum de ns dos seus 
receios, mas Cody e Julie achavam que estava mais consciente das suas limitaes.
Miraculosamente, no meio do estado de grande sofrimento, os seus amigos mantiveram-se junto dele. 
Sammy the Mick, Max, com quem ele crescera, e um rapaz chamado Chuck, que Nick conhecera na cena 
musical h algum tempo. Ele estava com os chamados "Creeps", e tinham tocado juntos. Chuck veio ficar 
na pequena casa de Nick, para estar com ele dia e noite, e comearam a escrever msica juntos. Mas Nick 
dormia ento em casa de Julie. No estava emcondies de dormir sozinho na sua pequena casa.
E no meio de tudo isso, em Agosto, foi o meu aniversrio. E, apesardas nossas divergncias, Tom 
ofereceu-me uma espectacular festade aniversrio. Todas as minhas pessoas favoritas estavam l, rostosdo 
meu passado e do meu presente, at a minha melhor amiga doprimeiro ano viera de avio de Nova Iorque 
para a festa. Os meus filhos tambm l estavam e tinham mantido segredo. Os bales condiziam 
misteriosamente com o meu vestido, um toque de ateno que eu nem sonhava. Correu tudo na perfeio. 
Foi uma noite mgica, o nico ponto alto num Vero que de outro modo teria sido desastroso, mas adorei. 
E o nico rosto que faltou foi o de Nick. Soube depois que Tom fizera tudo o que pudera para o trazer para 
a festa, mas apesar do seu mtuo afecto e do amor de Nick por mim, Tom no conseguiu demov-lo. 
Ainda nem sequer sara da cama. Estava em casa h apenas uma semana. Escalar o Evereste teria sido 
mais fcil para ele. Julie tambm no veio. Ficou em casa para vigiar Nicky. Ele estava lentamente a sair 
dos eixos, o suficiente para se tornar difcil s vezes. Mas a sua frustrao e a sua dor eram to grandes 
que s vezes tornava-se petulante. Uma semana depois da festa de aniversrio que Tom me ofereceu, no 
meu verdadeiro dia de aniversrio, quando eu me aprontava para me sentar para um almoo preparado 
pelos meus filhos mais novos, ele telefonou e anunciou que se ia mudar de casa de Julie, saindo naquele 
preciso momento. Estava farto da "bazfia dela". Raramente fazia acusaes como aquela. J crescera o 
suficiente para no se comportar daquela maneira, mas estava a comear a ficar manaco. E vinha-se 
embora.
Desta vez no discuti, no o tentei convencer, no o lisonjeei. S lhe disse que tinha de l ficar e s isso. 
Tambm lhe disse que nunca lhe pedira nada, mas desta vez eu estava a "pedir-lhe" para ficar, para se 
acalmar antes de discutir comigo, e sentei-me  mesa com as crianas, tentando no me preocupar com 
ele.
Iamos todos jantar fora nessa noite, a um dos nossos restaurantes favoritos. E Nick ia encontrar-se 
connosco. Ele parecia estar bem, finalmente, pelo menos eu achava que estava. Mas, nessa noite, 
telefonou pouco antes do jantar, novamente deprimido, e disse que no podia ir. Estava demasiado 
deprimido para se mexer, e eu disse-lhe que compreendia. E compreendia. S queria que ele estivesse 
bem. Teria sido a melhor prenda de aniversrio de todas. Nessa noite, depois de voltarmos do restaurante, 
ele enviou-me uma bonita carta por fax.  a ltima que recebi dele. Uma de muitas que ele me escreveu, 
mas possivelmente a melhor e a mais simptica. Guard-la-ei para sempre como um tesouro, e li-a tantas 
vezes para preencher estes dias vazios que quase a decorei. Ela provavelmente dar-me- mais alento para 
toda a vida, porque as coisas que ele disse reconhecem quem eu sou, quem eu fui para ele, e ele para mim, 
e do-me coragem. Lembrar-me- sempre o grande mido, o grande filho e o grande ser humano que Nick 
foi. E a sua prenda final, juntamente com o seu amor, foi para me lembrar do grande ser humano que ele 
achava que eu sou. E sabia bem ouvir isso. Foi a ltima prenda de Nick, e muito doce.

1418197 23:41 Querida mam, 

Ainda  o dia do teu aniversrio e espero que tenhas passado um bom bocado ao jantar No consigo dizer-
te quanta pena tenho por no estar a contigo neste momento. Sei que estars graciosa como sempre, e fico 
com a conscincia menos pesada por me teres dito que "a melhor prenda de aniversrio que me podes dar 
 voltar a entrar no caminho certo", etc. Se ests a falar a srio ou no, o facto  que ainda tenho as ideias 
baralhadas e estou sentado do outro lado da baa no dia do teu aniversrio. Eu deveria estar a contigo, 
bem de sade, a divertir-me. No sei quantas vezes tenho de dizer que lamento, mas vou diz-lo outra vez. 
Estou certo de que ests to farta de ouvir isso, tal como eu de dizer Adoro-te tanto e quero muito que 
sintas orgulho de mim. Estive baralhado e fora de mim durante tanto tempo que por instantes todos 
pensaram, que era o meu eu verdadeiro. Todos julgaram que eu estava louco. As vezes, at eu. Amadureci 
tanto no ltimo ano, especialmente nos ltimos sete meses, que quase me sinto uma nova pessoa. Como se 
o verdadeiro eu que foi enterrado debaixo de toda aquela porcaria fosse finalmente desenterrado. A Julie 
assistiu. Os meus amigos assistiram. Sei que tambm assististe. Deixaste de andar to nervosa  minha 
volta, e deixmos que cada um de ns entrasse na vida do outro mais que nunca. No sei se foi 
inconsciente ou no, mas pareceu-me que baixaste a guarda que tiveste levantada durante tanto tempo. Tu 
viste o eu verdadeiro, desobstrudo, que estivera dissimulado por tanta perturbao durante anos. 
Desfrutaste novamente da minha companhia. Ansiava ver-te. No discutimos. Telefonmos um ao outro 
para ver como  que estvamos.
Eu sei que no, mas sinto-me como se tivesse deitado tudo a perder. Receio que penses que estou outra 
vez a ser um louco desprezvel e vais afastar-te outra vez. No que te censure por isso. Quem  que quer 
um louco desprezvel perto de si? E quando digo que "vais afastar-te", no quero dizer que vais 
abandonar-me. S receio que esta intimidade que temos partilhado, devida em boa parte ao bom estado de 
sade em que tenho estado, esmorea. Sei que me adoras imenso, e que eu te adoro imenso, e mesmo que 
me tratasses como uma porcaria, me chamasses nomes, me roubasses, me mentisses e eu acabasse em 
estabelecimentos de sade, eu  ainda O adoraria. Tenho feito todas aquelas coisas a ti e a mi . m prprio, e 
,mesmo assim ests ao meu lado a cem por cento. Sei que o nosso amor um pelo outro  totalmente 
incondicional. No h nada que e possas fazer que me faa virar-te as costas. Tens demonstrado isso com 
firmeza porque j fiz de tudo e tu continuas a. Mas, apesar disso, sei que te tenho deixado em baixo, quer 
admitas ou no. E por isso peo-te perdo. 
Durante boa parte dos ltimos sete anos tenho sido um enorme do que tens  carregado s costas, e agora, 
lentamente, as coisas parecem estar a melhorar S no quero que me deixes. No vou chatear-te nem vou 
chatear-me a mim a dizer que "tenho uma doena, no consigo fazer nada", porque j ests farta de ouvir 
Tudo bem, tenho uma doena, terei sempre uma obsesso impulsiva, mas julgo que consigo levar esta 
coisa de vencida porque ambos conhecemos pessoas que a combatem com xito diariamente, mas nem tu, 
nem Deus, nem a Julie vo curar-me. Tem de vir de dentro de mim. Estou to farto de toda esta porcaria. 
J enjoa. Mas no h nenhum culpado a no ser eu. H trs semanas eu estava no cume do mundo. Estava 
so, calmo, sentia-me ptimo. Estava com ptimo aspecto, estava numa banda de xito, passeava pelo 
pas, bla, bla, bla. Agora, pareo um monte de merda. Sinto-me ainda mais na merda. No tenho banda. 
Sei que no  o caso, mas sinto-me um frustrado. Sei que tenho um milho de oportunidades e sei que 
tenho um milho de oportunidades de poder voltar a ficar calmo e a ter xito, mas agora, neste preciso 
minuto, sinto-me um monte de merda. E a culpa  toda minha.
No estou a tentar que sintas pena de mim. Consigo fazer isso pelos dois. S estou a tentar exprimir-te 
tudo o que sinto por ti. Uma prenda de aniversrio, hem? Esta carta vai provavelmente acabar por ser lida 
como as divagaes de um louco, e, se for, tenho muita pena. O meu crebro est muito bem agora, com 
remorsos e esperanas e um milhar de outros pensamentos e sensaes que nem sequer consigo verbalizar 
Estou a tentar deixar-te entrar. Tambm bebi muito caf, por isso estou com um raciocnio duas vezes 
mais rpido do que o normal.
Sabes que no me importava quem  que ia ser magoado, nunca me importei. Estava-me puramente nas 
tintas. Ia-me embora hoje e depois telefonaste-me a dizer que nunca me pediras nada na vida, mas estavas 
a pedir-me para no me ir embora. Nem sequer esperaste que eu gaguejasse uma resposta, disseste o que 
tinhas a dizer e despediste-te. Bom, no me fui embora. No sei se isso significa alguma coisa, se eras tu 
ou Deus-ou eu a desistir, mas estou farto de te magoar Estou farto de me magoar a mim prprio. Amo-te 
tanto e queria tanto estar a esta noite, mesmo depois de querer ir-me embora e decidir ficar Mesmo assim, 
ainda pus a hiptese de me ir embora. Estava na merda, envergonhado, doente e triste, mas no queria 
desapontar-te.
Acabei por achar que ficarias mais desapontada com uma rendio aborrecida, triste e desagradvel do 
Nick que amas do que com um Nick ausente, por isso fiquei em casa. E sabes uma coisa? Sabia que 
entenderias. Deve ter custado um pouco, mas sabia que entenderias. Eu acho pessoalmente que a razo por 
que me compreendes muitas vezes,  parte o facto de seres minha me,  porque tambm s um pouco 
louca. Talvez louca num, plano diferente, mais elevado, mas igualmente um pouco luntica. E por isso que 
a Julie me compreende. Ela  louca! No bom sentido, naturalmente. No podes ser to fantasticamente 
brilhante como ns somos sem desapertares alguns parafusos. O crebro humano simplesmente no 
consegue fazer todo esse trabalho.
Penso que tu e a Julie deviam escrever um livro sobre cuidados maternos. Podiam vestir-se de lutadoras de 
equipas de cuidados maternos para a fotografia da capa. Merda. L estou eu a divagar Nunca consigo 
articular exactamente o que quero dizer, por isso acabo por parecer um atrasado mental. Desculpa. Adoro-
te. Ns, os filhos Traina, somos as pessoas mais sortudas do mundo por termos uma me como tu. Eu em 
especial. Acho que nunca ningum teve confiana em mim como tu tens. Um dia, eu mostro-te. Prometo. 
Vou dar-te mais orgulho do que alguma vez pensaste poder ter Mais orgulho do que aquele que tenho por 
ti. Estou orgulhoso do teu xito. Estou orgulhoso pela forma como tens lidado com todas as dificuldades. 
Estou orgulhoso pela forma como diriges aquela famlia. Estou orgulhoso pela me maravilhosa que s 
(para os teus filhos e para o pessoal). Estou orgulhoso por ser teu filho.
Sou efectivamente filho da minha me. Muito de quem sou, de bom e de mau, veio de ti. Temos mais em 
comum do que aquilo que algum pensaria. Ambos gostamos de pequenos ces rafeiros. Ambos gostamos 
de ovos mexidos. Ambos fumamos demasiado. Ambos somos romnticos. Ambos temos espritos que 
conseguem mover montanhas. Somos perfeccionistas. Temos coraes maiores do que o cu. Ambos 
rimos quando estamos frustrados. Ambos temos o sentido da moda. Coleccionamos sapatos. A nossa 
generosidade no tem limites. Confiamos muito, mas no o suficiente. Ambos queremos casar com toda a 
gente por quem nos apaixonamos. Detestamos a Natureza (insectos, sujidade, etc.). Temos tanta coisa em 
comum.
 Espero que consigas compreender alguma coisa disto. s livre de corrigir qualquer erro de ortografia ou 
de pontuao, ou dessa porcaria da gramtica, porque sei que est tudo cada vez pior. Agora o teu dia. de 
aniversrio j passou e desculpa t-lo perdido. O meu corao esteve presente, embora o meu corpo no 
estivesse. Feliz aniversrio.
Amor sempre,
 Nick

Respondi a Nick imediatamente por fax nessa noite, dizendo-lhe de novo que tinha muito orgulho nele e 
que o adorava muito. Mas nem Julie nem eu conseguimos encontrar a carta mais tarde.
A nica coisa que mantinha Nick activo nesses ltimos e desagradveis dias de Agosto era a esperana de 
fundar uma nova banda, com Chuck. Estava a comear a aproveitar a falha que Julie lhe dera, e ela 
continuava a abanar as brasas,  enquanto, dia e noite, ele e Chuck escreviam as letras e a msica. 
Escreviam a pessoas que conheciam, arranjaram outros msicos, e em finais de Agosto tinham 
efectivamente algo preparado. Era como ver um puro-sangue ferido a pr-se lentamente de p, um pouco 
trmulo ao princpio, mas orgulhoso, alto e gracioso. E logo que ganhasse velocidade, como sempre, ele 
comearia a correr. Fez as reservas, reservou tempo num estdio de gravao e alugou um pequeno 
estdio para os ensaios.
Tal como tinha feito com os Link 8O, Nick conduzia os elementos da banda de forma impiedosa. Estava a 
recuperar o tempo perdido agora, e o material que ele e Chuck tinham reunido era excelente. Eu gostava 
das canes e da msica ainda mais do que as antigas. E toda a gente que os ouvia gostava deles. Chamou 
"Kriowledge"  nova banda.
Ele era extraordinrio, e deram o seu primeiro concerto no dia trinta de Agosto. Estava nervoso antes de 
arrancarem, e j tinham comeado a fazer a sua primeira gravao para um novo W. Foi uma grande noite 
para ele, uma noite de esperana e novos sonhos. e, finalmente, de vingana. Os Link 8O vieram ver a 
concorrencia e, depois do espectculo, pediram a Nick para regressar. Foi um momento que deveria ter 
vindo mais cedo, mas esteve destinado a no vir. Nick agradeceu-lhes e recusou. Ele nunca andava para 
trs, ele lanava-se para a frente a grande velocidade.
Uma das canes que tocou com os KnowIedge nessa noite foi sobre a sua experincia com os Link 8O, e 
encheu-me de orgulho. Ele era um homem dos diabos, e, como tinha feito antes, ensinou-me muitas 
coisas, sobre a coragem, a esperana, a f em si prprio e o amor. Se Nick conseguiu levantar a cabea de 
novo, com todos os obstculos com que deparou e que teve de ultrapassar, ento eu tambm conseguia, 
qualquer pessoa conseguia. Que direito tinha eu de, me lamentar, se Nick conseguia. E, oh meu Deus, 
como eu o adorava por isso! Estava to orgulhosa dele, e ainda estou. Estarei sempre.
Ainda de p
Agora que foi dito e feito
Tombado em nome do prazer
Sei que no sou o nico
Mas ainda estou completamente s.
Ignoraste os meus tempos de necessidade
Riste-te da ideia de me ajudares.
Julgo que pensaste que eu estaria bem
Quando eu era o nico no topo.
Agora recuso-me a viver num buraco
Mas no h muito tempo
Desperdiava eu ideias com a cabea fechada.
O corao morto
A alma destroada.
Adiaste a tragdia para outro dia.
Bem, meu amigo, esse dia  hoje.
Bati no cho de mos estendidas.
E agora vejo que no reis meus amigos
Porque aqueles que me ajudaram Estiveram sempre comigo Por isso acho que... Acho que me enganei. 
Podes dar as voltas que deres. No importa quem tinha razo. Estou aqui novamente de p E agora 
conheo os meus verdadeiros amigos Portanto no final No final mais uma vez, sa-me bem. No final... No 
final mais uma vez, sa-me bem. Sa-me bem.
Saiu-se com certeza. Ele estava ptimo, e novamente activo. No dia um de Setembro, Nick estava de p e 
a correr. 

OVOS MEXIDOS A MEIA-NOITE

Os primeiros dias de Setembro foram de muito trabalho para Nick. Andava constantemente a correr, a 
telefonar a pessoas, a combinar coisas, a organizar, a escrever, a gravar, a ensaiar. Era como se sentisse 
que tinha de recuperar o tempo perdido. A meio de Setembro, tinham completado as gravaes, e de uma 
forma to profissional que ainda hoje estamos a comercializ-las para importantes em Em meados de 
Setembro ele tinha uma banda, um monte de canes e contratos de apresentao. Era algo que nunca se 
tinha ouvido. Mas tipicamente  Nick. Os KnowIedge pareciam-me ainda melhores do que os Link 8O. 
Para os meus ouvidos, era um som mais maduro, e agora at conseguia ouvir as palavras. Mas o melhor de 
tudo era que Nick estava extremamente feliz. Estava novamente Como sempre, Nick fazia-me sentir como 
fazendo parte da banda. Aparecia muitas vezes a altas horas da noite, depois dos ensaios, perto da meia-
noite, e geralmente trazia alguns ou todos os elementos da banda consigo. E pedia-me para lhes fazer ovos 
mexidos. Adorava a maneira como eu os fazia, leves e suculentos, tirados do lume na altura certa, com 
queijo gratinado. Conseguia comer uma dzia de ovos e incitava os outros a comer. Quando eles no 
acabavam o que tinham nos pratos, ele tambm comia os deles, ao mesmo tempo que lhes dizia que eu era 
uma grande cozinheira. No o quis desapontar dizendo-lhe que ele era o nico ser humano no planeta que 
tinha essa opinio. Tambm adorava as minhas fatias douradas e os meus tacos. Mas os ovos mexidos 
eram o seu prato favorito. s vezes, quando estava em casa, amos para a cozinha a altas horas da noite, e 
eu cozinhava para ele. Tentei sempre dar-lhe a sensao de que estivera toda a noite  espera de fazer 
aquilo. E, de certa maneira, era verdade, era uma oportunidade para falarmos e para partilharmos algo. Era 
quando ele sempre baixava a sua guarda e partilhava os seus problemas. Nem sequer consigo imaginar 
fazer ovos mexidos agora sem pensar em Nick. De facto desde que partiu, o corao no me tem 
permitido faz-los Sei que ao faz-los me faria chorar. Daria tudo neste mundo para os fazer para ele outra 
vez, para partilhar um daqueles momentos com ele. No farei ovos mexidos to cedo. No sei sequer se 
agora conseguiria faz-los.
Lembro-me particularmente de certa noite, quando ele apareceu com meia dzia de amigos, depois de um 
ensaio com a nova banda. Conduzia-os com firmeza, queria chegar longe, e sabia que tinham capacidade 
para isso. Eu fizera ovos mexidos, como habitualmente, e um grupo de midos com ar de ral sentou-se  
volta da minha mesa da cozinha, com tatuagens, uma miscelnea de brincos, cabelos bizarros, pareciam 
estar todos num jantar de filme de terror, e estavam acompanhados pelos meus pequenos ces de raa aos 
seus ps, a discutir as virtudes dos toiros de lide. Algo na incongruncia da conversa deixou-me 
histericamente divertida. Fiquei com eles a rir. Sentia-me como se estivesse a dirigir um parque de 
caravanas para msicos jovens. Era isto que eu queria e adorava. Tudo isto fazia parte de Nicky, e 
significava tanto para mim que ele o partilhasse comigo, querendo incluir-me. Nunca esquecerei a emoo 
quando ele apresentava "a minha me... ali... um aplauso para ela"... do palco num concerto. Fazia-me rir 
timidamente.
Fosse como fosse, ele andava ocupado nesses dias. E eu tambm. Os midos voltaram para a escola, e eu 
estava a organizar a minha vida. Tinham-se passado pouco mais de dois meses desde que Tom me deixara, 
e ainda estava triste. Mas estava a tentar levantar a cabea e fazer o melhor que pudesse para ultrapassar a 
situao, tal como Nick fizera. Fora um Vero longo e difcil, e estava feliz por ele ter acabado.
Nick e eu encontrmo-nos para almoar algumas vezes, mas ele no tinha muito tempo, e devamos 
encontrar-nos para almoar em meados de Setembro. Estvamos a dezanove de Setembro, eu tinha uma 
agenda apertada porque ia sair com uns amigos nessa noite e queria ir arranjar o cabelo, o que parecia 
frvolo, mas fazia parte da nova imagem que eu estava a criar de mim e da nova vida que estava pronta a 
iniciar. Telefonou tarde nessa manh, dormira at tarde, estava preguioso em relao ao almoo, mas 
algo na sua voz chamou a minha ateno. 
Parecia-me triste, ou calado, ou s, qualquer coisa, ou talvez apenas ensonado. Perguntei-lhe se estava 
bem e se se sentia s ou triste, e ele riu-se, disse que no e para deixar de me preocupar com ele. Ele viera 
comer ovos mexidos algumas noites antes, por isso eu vira-o. Mas estava muito preguioso para vir 
almoar  baa. Prontifiquei-me a cancelar os meus planos para a tarde, mas ele disse para no o fazer. 
Prometeu vir almoar comigo e os midos no domingo. Era uma tradio que ele quase sempre seguia. 
Costumava vir jantar ao domingo  noite, e mais frequentemente se tinha tempo. Mas nas ltimas semanas 
estivera muito ocupado. Acabara de dar os ltimos retoques na gravao no estdio dois dias antes, e ia 
dar um concerto nessa noite, na sexta-feira.
Descobri, mais tarde, que ele tinha um encontro nessa tarde com uma mulher que vira nas pginas centrais 
de uma revista que comprara. Almoou com ela, e fiquei feliz por isso. Dissramos tudo o que tnhamos a 
dizer. Fiquei contente por ele se ter divertido, e aparentemente estava louco por aquela mulher. Era o seu 
primeiro encontro, e foi um xito. Marcaram novo encontro para a noite seguinte, e depois disso escreveu-
me uma longa carta.Nick tambm fizera alguns convites a John recentemente, contara-me ele no nosso 
ltimo almoo. Tinham boas relaes, mas no eram muito chegados, e no se viam h uns tempos. 
Ambos tinham vidas muito ocupadas, e Nick fora sempre mais chegado a mim do que ao pai, mas falava 
de John com carinho, e combinara um almoo com ele para a semana seguinte. Era uma coisa que no 
faziam com muita frequncia, pois Nick achava que o pai era uma pessoa de conversa difcil. No era por 
falta de amor de parte a parte, s que estvamos mais acostumados a abrir as nossas almas um com o 
outro. Talvez tivssemos mais em comum, e os nossos estilos fossem semelhantes, na forma como nos 
abramos com as pessoas. Os homens parecem abrirem-se raramente uns com os outros. Eu era mais um 
elemento das suas lutas dirias. E, por vezes, ao falar com Nick, ao ouvi-lo, era como olhar-me ao 
espelho, com mais uns retoques de pintura e algumas rugas. Mas havia uma grande semelhana de 
esprito.
Em qualquer caso, no nos encontrmos nessa tarde. Ele saiu com a mulher da revista, e eu fui arranjar o 
cabelo.Nessa noite, cheguei cedo do jantar, e fui para a cama, mas descobri que no conseguia dormir, o 
que no era normal em mim. Geralmente adormeo poucos segundos depois de a minha cabea pousar na 
almofada. Mas, nessa noite, dei voltas e mais voltas, levantei-me e finalmente tomei um banho. Voltei 
para a cama s quatro e meia da manh, e adormeci finalmente s cinco. Nick e eu devemos ter ido para a 
cama nessa noite exactamente  mesma hora, por aquilo que consegui apurar mais tarde. Eu parecia que 
estava a senti-lo perto de mim, como parte integrante da minha alma, atormentado, perturbado. Nunca 
soube por que razo  que no consegui dormir nessa noite, mas estou certa de que uma parte instintiva de 
mim sabia que ele estava com problemas. Estava a pensar nele quando adormeci. E o telefone tocou s 
nove horas da manh seguinte. Era Julie.No chorou. No gritou. A voz parecia perfeitamente normal. A 
nica coisa que ela disse foi o meu nome num tom montono."Danielle." Acho que j sabia antes de ela 
me dizer. "Ele est morto." As palavras saram-me da boca antes de poder det-las."Sim. Est morto." Ela 
pareceu perplexa por eu o saber, mas no sabia. 
"Ests a gozar", foi a nica coisa que consegui dizer. "Ests a gozar.. s podes estar a gozar.. ele no est 
morto... ests a gozar." No consegui deixar de repetir as mesmas palavras vezes sem conta. Devo ter-lhas 
repetido umas cem vezes, sem parar, como uma mquina que no conseguia parar de cuspir todos os 
parafusos e porcas, que estava a ficar avariada, a ficar sem conserto... ests a gozar.. ests a gozar.. ests a 
gozar..
"Ele est morto!!", gritou ela finalmente. "E NO estou a gozar." E contou-me de rajada o que 
acontecera. Tomara uma overdose de morfina. Tinham-no encontrado de joelhos no quarto, a cabea 
tombada sobre a cama, a agulha a seu lado. Morrera instantaneamente, disseram eles. Mas Julie sabia o 
que eu sabia. Nick tinha conhecimento de que j por trs vezes tivera uma reaco anafilctica  mesma 
substncia, e tinham-lhe dito que, se a injectasse de novo, morreria sem sombra de dvida. Por aquilo que 
Julie calculava, ele injectara duas a cinco vezes mais a quantidade que tomara antes. Queria ter a certeza 
desta vez. E teve-a. Paul deixara-o s quatro e meia da manh, na mesma altura em que eu me metia na 
cama nessa noite, depois do banho. Pela primeira vez, Julie fora sair  noite, para ir a uma missa da meia-
noite em Santa Cruz. Nick sabia que desta vez no estaria l ningum para o deter. O marido de Julie, Bill, 
iria dar-lhe uma espreitadela na manh seguinte, entre as seis e as sete, e deu, e foi quando o encontrou. 
Nick sabia que no estava ningum para o deter ou para o salvar. Estava completamente s desta vez, a 
injectar a substncia que ele sabia que o mataria e na quantidade suficiente que lhe dava a certeza de 
conseguir os seus intentos. Era um mtodo de suicdio a que os especialistas chamavam "Nas mos do 
Destino", como a "roleta russa". O objectivo era esse, mas ele desafiara mais uma vez o destino para o 
levar ou para o salvar. E desta vez ele levara-o.
No fazia sentido porque as coisas estavam a correr-lhe bem, e andava to feliz. O concerto correra 
brilhantemente na noite anterior. Ser que dissimulara a depresso ou fora um acto de loucura? Mas fosse 
o que fosse que ele tivesse feito, por mais charme que tivesse, por mais talentoso, por mais bonito, por 
mais amado, por mais desesperadamente que o tenhamos tentado salvar de si prprio, o que era facto era 
que morrera. Ele certificara-se desta vez. No havia, e nunca haver, maneira de sabermos se ele queria 
mesmo suicidar-se desta vez, ou apenas deitar as preocupaes para trs das costas e desafiar os limites, 
um jogo de roleta russa como nenhum outro. Ou ser que ele queria mesmo suicidar-se? Talvez a doena o 
tivesse vencido finalmente, isso e o facto de ter sido forado a encarar as suas prprias limitaes 
enquanto estivera em digresso e abandonara os Link 8O. Mas andava to entusiasmado ultimamente com 
a sua nova banda, os KnowIedge. Que acontecera nessa ltima noite? Que lhe ter passado pela cabea? 
Em que estaria a pensar? Desespero ou loucura? Nunca saberemos, e s posso fazer suposies. MM 
soube recentemente que os manaco-depressivos raramente se suicidam quando se encontram em 
profundas depresses. Eles s o fazem quando se sentem melhor, esto ligeiramente manacos e tm a 
fora para o fazer.
No deixou nenhuma nota, nenhuma pista relativa ao que correr mal. Telefonara a uma dzia de amigos 
entre as trs e as quatro manh, na altura em que eu me sentia agitada. Poderia ter-me telefonado, mas ele 
tambm sabia que eu poderia aperceber-me e tentaria det-lo. E no queria que o detivessem desta vez. 
Providenciou que nem Julie, nem eu, nem Paul, nem sequer o seu amigo Samm the Mick estivessem perto 
dele para o deter. Pousei lentamente o auscultador, ao mesmo tempo que me senti afogar num mar de 
soluos. E, sem motivo, corri pelas escadas abaixo... abaixo... abaixo... a soluar.. em direco a lado 
nenhum... A minhas prprias palavras a ecoarem-me na cabea vezes sem conta.. ests a gozar?... ests a 
gozar?... Desta vez, Deus estava. Acham que fora to resplandecente, que iluminara a minha vida durante 
tanto tempo, extinguira-se subitamente em silncio. Nem sequer m apercebia da escurido que comeava a 
envolver-me. 

Cavaleiro do abismo

Ao caminhares to perto do abismo, desafias o destino que aterroriza todos aqueles que te observam, 
adoras o arfar da multido,  bramido no ar,  terror que causas, o furor que provocas, a histeria aumenta, o 
pnico, a tenso, o terror, ele cair? ele atrever-se-? ele importar-se-? ele morrer? ele viver? 
conseguir? so? salvo? ou ensanguentado? andas perto do abismo, desafias o abismo, zombas  do destino 
pes em risco os nossos coraes e a tua vida, e a que preo glria? rapaz perdido pobre rapaz perdido 
vagueias interminavelmente no labirinto de tua prpria  criao,  a tremer de fria,  terror, ira, andas s 
voltas a tentar apontar Os dedos Para as sombras no nevoeiro, querendo que os fantasmas fiquem com a 
culpa, mas apenas o teu nome ecoa na escurido. Amamos-te

Estamos aqui na escurido,  tua espera, as mos estendidas a tentarem apanhar-te a tentarem abraar-te, a 
apanhar-te do galho quando ele partir, tentando poupar-te interminveis dores de corao, debates-te, e 
gritas, a pensar que ests a cair, a chamar desesperado, mas estamos aqui, Nick, ns preocupamo-nos, ns 
apanhar-te-emos. estaremos l. amamos-te. 

UM MAR DE ROSAS AMARELAS

Algures, naqueles primeiros minutos depois do telefonema de Julie, telefonei a trs amigos ntimos e, 
numa dada altura dessa manh, sei que vieram. Eles eram amigos de Nick e meus, Jo Schuman, Kathy 
Jewett e Beverly Dreyfous. As minhas amigas Victoria Leonard e Nancy Montgomery vieram mais tarde. 
O resto  uma nvoa de rostos, sons, lembranas agonizantes, um sofrimento intenso e lgrimas 
constantes. Sentia-me como se o corao tivesse sido cortado ao meio com uma faca. Nem sequer 
conseguia comear a conceber o que acontecera e o que significaria para mim quando tomasse perfeita 
conscincia da realidade. A perspectiva da sua morte, a tnue realidade era to horrorosa que me estava a 
pr  beira da loucura. Mas, pelo bem dos meus filhos, tinha pelo menos de fingir estar a pensar 
racionalmente e no que tinha de fazer por eles. Tinha de pensar neles agora.
Telefonei a John com as mos a tremer depois de telefonar a Julie, e ficou to perplexo que disse muito 
pouca coisa. Perguntei-lhe se queria vir dizer s crianas comigo, mas achou que era melhor se eu fizesse 
isso antes de ele chegar. Estava no campo, e levaria algum tempo a chegar. Prometeu vir logo que 
fechasse a casa em Napa, e conseguisse chegar  cidade para estar connosco. Acho que Nick teria querido 
que fosse eu a contar aos irmos. Mas eu no conseguia suportar a ideia do que tinha de fazer agora. A 
nica coisa para que conseguia olhar era para os pequenssimos passos que tinha de dar, para toda a agonia 
que tinha pela frente. No conseguia ver nada para alm disso. S sabia, quando os meus trs amigos 
chegaram, e no me lembro como  que eles chegaram, ou porqu, que tinha de contar aos meus filhos. De 
momento, aquelas trs mulheres, Julie, Bill, John e eu eram as nicas pessoas que sabiam o que 
acontecera. Eu sabia que se as crianas vissem rostos chorosos  volta delas, babysitters, governantas, 
todos os que tinham estado comigo durante uma ou duas dcadas, as crianas saberiam instantaneamente 
que a tragdia nos batera  porta. Alternadamente histrica e calma, sentia-me um zumbi, mas tinha de 
pensar neles agora. No ern Nick. Mas nos irmos. O resto teria de esperar para mais tarde.
Duas das crianas tinham passado a noite em casa de amigos, e tinha de as trazer para casa sem levantar 
suspeitas. Telefonei-lhes e disse-lhes que tinham de vir almoar em casa. Ficaram "osas por as forar a vir 
para casa e interromper a brincadeira. Eu ripostei que queria almoar com elas, e elas queixaram-se 
amargamente disso. Entretanto, eu sabia que tinha de esconder das outras.
J passava do meio-dia quando consegui reunir as cinco crianas. Zara, a mais nova, ia fazer dez anos da 
a uma semana. Maxx, onze, Vnessa, doze, Victoria fizera catorze h apenas duas semanas, e Sammie, 
quinze. Idades dificeis para suportar uma perda to grande como esta. E o meu maior receio era com Sam, 
que era unha com carne com Nick. Ela adorava-o, ele era o seu heri. Ele era um heri para todos ns, e 
para todos aqueles que o conheciam. Ele tinha conseguido tanta coisa, tantas vitrias, depois da vida dura 
que passara. Nick no era um derrotado, mas um vencedor.
H uma pequena sala de estar contgua ao meu quarto, uma sala soalheira com uma vista bonita e 
mobilirio com flores amarelas. Esperei por eles l, onde fazemos sempre as reunies familiares, por 
causa do seu tamanho e do seu ar acolhedor. Estavam com ares chateados quando entraram. Eu tinha sido 
prepotente, estragando-lhes o sbado, e disseram-me isso. Eu estava prestes a estragar-lho de vez, e a 
desferir-lhes um soco que eles nunca mais esqueceriam na vida. Sentia-me como um carrasco, a pensar 
neles e no em mim. E riram-se quando lhes pedi para se disporem em crculo e darem as mos. Era uma 
coisa que nunca fizera, mas no consegui lembrar-me de outra maneira para fazer o que tinha a fazer. 
Queria que as nossas mos se tocassem, estivessem apertadas umas nas outras com fora, que formassem, 
um elo indivisvel, para que nos lembrssemos que, mesmo com esta desgraa, o crculo do nosso amor 
nunca seria quebrado. E Nick estaria nele, como sempre estivera, e sempre estaria.
Gracejaram comigo e chamaram-lhe abrao em grupo. Algum disse que era uma coisa sem graa, mas 
quando viram o meu rosto, os meus olhos, devem ter imaginado o que se passara, e ficaram subitamente 
assustados. Com razo. Falei rapidamente, dizendo-lhes que lhes ia contar uma coisa terrvel, to horrvel 
que nunca mais a esqueceriam, e esperava nunca mais ter de lhes contar algo to terrvel. Os olhos de Sam 
cruzaram-se com os meus, a poucos centmetros de distncia, e, quando olhei para os dela, comecei a 
chorar, e ela perguntou-me numa voz vacilante: "Que aconteceu?"
"Foi o Nick ... ", respondi. "O qu... porqu ... " Os olhos aterrorizados das crianas dirigiram-se de 
imediato para os meus e fui directa ao assunto. "Deixou-nos", disse eu com a voz embargada. "Que 
queres dizer com "deixou-nos"?", indagou Sam, em pnico.
"Deixou-nos... deixou-nos... adoro-vos... adoro-vos a todos... tal como o adorei... ele morreu esta manh." 
No havia outra maneira de lhes dizer, outra maneira melhor de lhes desferir um soco mortal como aquele. 
E como se tivesse espetado uma faca em cinco coraes, comearam a chorar em unssono, um som que 
nunca esquecerei... prolongado, hediondo, gritos uivantes de dor, ao mesmo tempo que soluvamos e nos 
abravamos uns aos outros. Nunca esquecerei aquele soco mortal que lhes dei. Sabia que qualquer coisa 
que fizesse desse momento para a frente nunca seria esquecido, teria influncia na vida de cada um e na 
forma como ultrapassassem o problema. Era um fardo impressionante.
Chormos durante bastante tempo, e disse-lhes que o que quer que fizessem agora, o modo como queriam 
encarar isto era escolha deles... se queriam amigos com eles, se precisavam de sair, se queriam ficar 
sozinhos ou comigo... o que quer que fizessem, precisassem ou quisessem era justo e razovel (desde que 
no fosse perigoso para eles). Mas referi-lhes que no havia uma maneira correcta de lidar com a situao, 
e a nica coisa que lhes pedi foi para serem carinhosos uns com os outros.
Da em diante, moviam-se como um corpo uno, indo de sala para sala, a chorar, a soluar, a falar, 
agarrados e abraados uns aos outros. Eu estava to destroada como eles, incapaz de entender e assimilar 
a situao.
A famlia soube da notcia rapidamente, e por todo o lado  minha volta havia um mar de gente a soluar. 
O resto do dia foi uma nvoa de rostos, lgrimas e tragdia. As pessoas entravam e saam. Tive de fazer 
planos e tomar decises. De sbito, estvamos a falar do funeral, e parecia-me um absurdo... a gravata 
dele... a camisa dele... a prancha de skate... o co dele, talvez... os medicamentos dele... os assistentes 
dele... qualquer coisa dele... mas o funeral dele? Era uma loucura. Mesmo agora, custa a acreditar.
O bispo veio falar comigo. A nica coisa que fiz foi chorar. Marcmos o dia para o funeral. John chegou e 
fez os telefonemas por mim. Passei os olhos por listas de pessoas, no falei com ningum, vi se as crianas 
estavam bem, tomei decises. Telefonei a Julie. A sua casa, a sua vida, o seu corao e os seus filhos 
estavam to destroados como os meus. Ela era a sua outra me. A equipa de cuidados maternos acabara 
por falhar. Ele tinha-se escapulido por entre os nossos dedos, embora a culpa no fosse nossa. Ele fizera-o 
sozinho, como um rapaz crescido, um adulto. Perdramo-lo. Ainda no conseguia assimilar a situao, 
nem o que significava para o nosso futuro.
Eu sabia que queria msica no seu funeral. As canes de que ele gostava. As suas prprias canes. John 
ainda fazia tentativas frenticas para contactar os filhos mais velhos, at que os encontrou finalmente. 
Ainda faltava avisar Beatrix e o marido. Anica coisa que sabia era que estavam em Lake Tahoe a passar 
o fim-de-semana. Pela primeira e nica vez em toda a sua vida, ela esquecera-se de me deixar um nmero 
de telefone. E no tinha maneira de entrar em contacto com ela. A nica coisa que podia fazer era esperar 
que ela me telefonasse.
Convidei Julie para vir jantar com toda a sua famlia, e disse-lhe quanto a adorava, quanto  que ela dera a 
mim e a Nick. Ela tinha receio de que eu a culpasse. Como poderia eu fazer tal coisa? Ela dera-lhe a sua 
vida, o seu lar, abrira-lhe o corao em todos os aspectos. Durante cinco anos, ela dera-lhe o que nenhum 
outro ser humano poderia ter. No h nenhuma maneira de eu poder esquecer-me disso, nunca o 
esquecerei.
As pessoas foram contactadas, as flores chegaram, apareceram os rostos.  tudo uma nvoa agora. Eu 
entrava e saa dos quartos dos meus filhos. Soluava a maior parte do tempo, como ainda o fao agora. 
Fui-me sentar no seu quarto e no conseguia acreditar. Sentia como se ele pudesse chegar a casa a 
qualquer momento. Isto foi um truque, uma brincadeira. Ele estava a gozar. Estava tudo to errado, to 
louco. Como poderia eu viver desse dia em diante?
E ento, de repente, algum me ps um auscultador na mo, e ouvi uma voz familiar. Era Tom. Algum 
lhe telefonara. Disse que vinha a caminho. E ao fim de alguns minutos, ele estava comigo, a abraar-me, 
uma presena poderosa, uma fora forte para me apoiar. Eu no estava certa se ele viera por simples 
simpatia, ou por algo mais, por Nick, por mim ou por ele prprio, e talvez ele tambm no soubesse nessa 
altura. Talvez tenha sentido apenas que tinha de l estar. Mas fossem quais fossem as suas razes, fiquei 
grata pela sua presena. Na semana seguinte, nunca me deixou. E tivesse o que tivesse feito anteriormente, 
tivesse o que tivesse acontecido que o assustou, por mais sofrimento que ele me tivesse causado quando 
me deixou, isso j no importava. Ele esteve ao meu lado quando era importante estar, quando eu 
precisava mais dele, tal como Nick sempre dizia que ele estaria. E sei que Nick lhe teria ficado grato, tal 
como eu. Parece que ainda o estou a ouvir: "Cuida, da minha me." E cuidou, Nick, melhor que ningum. 
Fez esquecer todo o sofrimento do Vero anterior. Foi a nica coisa que me deu alento para continuar a 
viver. E tinha de fazer o que podia para ajudar os outros que contavam que eu fosse forte. Todos contavam 
comigo para enfrentar a situao. Desta vez, achava que no seria capaz, mas sabia que tinha de conseguir 
de qualquer forma.
Decidimo-nos por rosas amarelas para o funeral. Telefonei  minha sobrinha Sasha, em Nova Iorque, e 
pedi-lhe para vir e cantar a Ave Maria, como fizera no casamento de Beatrix. Nick teria gostado de saber 
que ela vinha cantar para ele, pois era louco por ela.
Escutmos gravaes das canes dele para escolhermos uma para passar no funeral. As outras pessoas 
faziam telefonemas. Telefonei  melhor amiga da minha me, em Nova Iorque, e pedi-lhe para lhe dar a 
notcia pessoalmente. Pedi a John para telefonar aos pai de Bill. Tinham o direito de saber, tal como ele, 
estivesse onde estivesse. Nick era filho dele. Eu queria que ele soubesse o que acontecer a. E John foi 
gentil e simptico quando ele telefonou. E ainda  tnhamos conseguido contactar Beatrix.
Havia vinte pessoas ou mais na minha mesa nessa noite, e e olhava com ar vazio para os rostos familiares. 
A minha editora e marido, Carole e Richard Baron, tambm l estavam, e Lucy, que tomara conta de Nick 
e o adorara durante dezoito anos, o psiquiatra de Nick, Dr. Seiffied, Julie, o marido, Bill, e os filhos, que 
estava to destroados como ns. Os meus amigos, a minha assistente Heather, e Tom, e sete dos meus 
filhos estavam ali. Os nicos que faltavam eram Nick e Beatrix. E embora lhe tivesse pedido para fica 
John fora para casa por algumas horas para readquirir a compostura Acho que ele no se sentia  vontade 
com Tom ali, embora, depois de dois anos na minha vida, fosse j uma figura familiar.
Beatrix telefonou finalmente quando acabmos o jantar. Acho que no comi. Li a carta de aniversrio de 
Nick  mesa. E quando fale com Beatrix ao telefone, ela disse que me telefonara apenas para dizer que me 
adorava muito. Era injusto recompensar o seu gesto carinhoso com tanto sofrimento, mas no podia 
esperar para lhe dizer A imprensa estivera a telefonar todo o dia, e queria que ela soubesse antes de ouvir 
no noticirio e visse nos jornais. Os seus gritos fizeram-se ouvir dentro do carro, os mesmos gritos que os 
irmos mais novos tinham soltado. Era um som familiar. Mas para Beatrix era talvez ainda pior. Tnhamos 
perdido o "nosso" beb. Ela disse que viria imediatamente, e estaria em casa da a poucas horas. 
Chormos todos sem parar. Era um autntico pesadelo, do qual eu sabia que nunca acordaramos, tal como 
Nick acabara por escolher, fossem quais fossem as suas razes.
No dia seguinte, fomos  casa funerria escolher o caixo, John acompanhou-me, com as minhas duas 
amigas leais Kathy e Jo, a minha assistente Heather e Beatrix. Sem sequer me perguntar, todo o meu 
pessoal optara por trabalhar no fim-de-semana. Todo o pessoal da editora veio ajudar a fazer os 
"preparativos", um termo que eu sempre detestara. E ver os caixes naquela sala abismal, na cave da casa 
fumerria, era uma viso to macabra que mal me contive. Escolhemos um lugar e um caixo para ele, e 
em casa escolhemos um fato. Era importante encontrar a gravata certa, os sapatos certos e mandar passar o 
fato. Era um absurdo as coisas a que nos apegvamos. Os sapatos dele estavam todos espalhados pelo meu 
quarto de vestir, de modo a poder escolher os sapatos certos. Levei dias a arrum-los, como se, se os 
deixasse ali, ele voltasse para os calar ou para ele prprio os arrumar.
Na segunda-feira, fui ao cemitrio, e vi aquilo que eles referiam como a "propriedade" dele. John e 
Beatrix foram comigo, e, enquanto as pessoas no cemitrio me diziam que tambm adoravam muito Nick, 
comecei a sentir nuseas. S por milagre  que no desmaiei. Eu parecia um pequeno melro triste, vestida 
com roupas que comeavam a ficar-me largas. No comera, e no me importava se nunca mais o fizesse. 
Para qu comer? Nick partira.
Fomos todos  casa fumerria pela primeira vez nessa noite, com as crianas e os amigos ntimos, e eu 
tinha de resolver se o queria ver. Queria. Queria abra-lo, t-lo nos meus braos, embal-lo para dormir 
como fazia quando ele era beb, abra-lo pela ltima vez. Mas eu receava que, se visse a realidade, isso 
pudesse matar-me pela certa; como tal, sentindo-me culpada por isso, no o fiz. Os meus trs filhos mais 
velhos viram e ficaram completamente destroados. Julie tambm o fez e mais umas quantas pessoas. Os 
soluos que vinham desse quarto quase me aniquilavam.
Na tera-feira, chegaram centenas de pessoas, enquanto ns estvamos sentados junto do caixo fechado, 
coberto por um manto de rosas amarelas. As crianas estavam l e soluavam, John, Julie e a respectiva 
famlia, os rostos familiares das pessoas que eu conhecia. Algumas encontravam-se entre a multido, mas 
eu acho que estava to profundamente chocada que mal me lembro. Sei que Tom esteve sempre l 
comigo, a apoiar-me, a cumprimentar os amigos e a chorar ao meu lado. Ele tambm adorava Nick. Todos 
o adorvamos. Tom voltou ento para a minha vida, o que teria agradado a Nicky. Talvez seja a sua ltima 
ddiva, reunir-nos de novo, que era o que ele queria.
Fiquei perplexa, a determinada altura, na casa funerria, ao levantar os olhos e ver Bill ali presente, com ar 
hesitante, com os pais. Estava com boa aparncia, e na mesma em muitos aspectos. Estava de fato 
completo, e vi instantaneamente que estava de boa sade, parecia ter corrigido o rumo da sua vida. E, ao 
olhar para ele, s consegui pensar. no elo que Nick fora entre ns. Haviam-se passado quase vinte anos, 
todavia, a ddiva que ele me dera h tanto tempo fora uma das maiores da minha existncia. Encaminhei-
me para ele, abramo-nos, e disse-lhe o quanto lamentava, e fomos juntos at junto do caixo. E o que 
outrora fora amor, depois desapontamento, fundiu-se num sentimento de pesar, e a pouco e pouco tornou-
se amizade, o vnculo que Nick nos oferecera e que nos deixara no final.
Havia tanta coisa que eu queria contar-lhe sobre Nick. Devia-lhe 'tanto, e ele perdera tudo. O seu estilo de 
vida e os seus demnios tinham-no afastado de ns, e agora a mar tinha-o feito dar  costa, demasiado 
tarde para Nick, ou para ele prprio, e a nica coisa que eu conseguia sentir era compaixo e tristeza por 
ele, e gratido por ele ter sobrevivido e ter voltado.
Bill contou-me que, por acaso, entrara num programa de tratamento no ms anterior, e deixara de 
consumir drogas pela prineira vez em vinte anos, e planeara vir visitar Nicky. Foi uma crueldade do 
destino o facto de Nick nos ter deixado antes de ele o conseguir fazer.
Vi-o no dia seguinte, nas escadas da catedral, de um dos lados escadaria, com os pais e um amigo, 
enquanto eu aguardava que caixo e aqueles que pegavam nas borlas subissem as escadas. Abracei-o de 
novo, sem palavras desta vez. Agora, falamos com muita frequncia e encontramo-nos de tempos a 
tempos. Ele ficou a conhecer Nick atravs de ns, e tornmo-nos bons amigos. Espero que Nick seja um 
anjo-da-guarda para ele e o guarde. Uma tragdia  suficiente. Ele mostrou-se extremamente gentil e 
curou uma velha feri da. Mas, sobretudo, deu-me uma grande ddiva que foi Nicky. Ficar-lhe-ei 
eternamente grata por isso, e desejo-lhe muita felicidade.
O funeral foi bonito, numa catedral admirvel, encontravam-se mil e cem pessoas l. Os amigos de Nick e 
os meus, msicos que o conheciam da cena musical, os meus editores, a nossa famlia e amigos. Trevor e 
Todd pegavam nas borlas do caixo juntamente com Bill Campbell, os dois assistentes de Nick, Cody e 
Paul, e dois dos amigos de Nick, Max Leavitt e Sam Ewing (Sammy the Mick), e o seu grande amigo 
Stony. O irmozito de Nick, Maxx, acompanhava-os, e enquanto eles transportavam Nick para o altar, eu 
caminhava lentamente atrs dele, sozinha. Quatro meses antes, ele levara-me pela nave da catedral no 
casamento de Beatrix, e eu dissera-lhe o quanto o amava. Ele estivera l por mim, e agora eu estava ali por 
ele. Eu levava um dos animais com que ele dormira durante toda a vida, um pequeno boneco peludo 
chamado Gizmo. Ele est agora em cima da minha secretria, juntamente com o outro, um pequeno 
cordeiro branco a que Nick chamava Lambie. (Pus cpias deles, que guardara ao longo dos anos, dentro 
do caixo, e fiquei com os velhos.)
A minha sobrinha Sasha cantou a "Ave Maria", passmos uma das canes de Nick, "I Am Ali Alone", 
que destroou toda a gente, e Trevor, Todd, Beatrix e Max Leavitt fizeram os elogios fnebres, enquanto 
as crianas, eu e mil e cem pessoas soluavam.
No final, Vai Diamond cantou "Wind Beneath My Wings" de Beaches, que dizia tudo aquilo que eu 
sentia por ele. "Sabes que s o meu heri?... Fui aquele que teve toda a glria, enquanto foste aquele que 
tiveste toda a fora ... " E por todo o lado para onde olhava via um mar de rosas amarelas. De agora em 
diante, as rosas amarelas lembrar-me-o sempre Nicky.
Quando samos da catedral e descemos as escadas atrs de Nick, virei-me quando cheguei ao fundo das 
escadas, e, ao olhar para cima, vi mais de um milhar de rostos, enquanto as pessoas se mantinham 
imveis, sem moverem um cabelo, em silncio, em pose de respeito, fila aps fila, como esttuas, a 
acompanhar-nos na dor, ao mesmo tempo que os sinos tocavam na torre.
Trezentas pessoas vieram at minha casa depois do funeral, e depois quase tudo terminou. Tnhamos de o 
sepultar no dia seguinte ou, pelo menos, de o deixar no cemitrio. Ficara acordada durante toda a noite na 
vspera, mas veio-me uma ideia  cabea por volta das seis da manh. J no suportava ver os meus filhos 
vestidos nos seus tristes fatos pretos, e sabia que eles j tinham sofrido o bastante. As formalidades j no 
interessavam. S iam estar a famlia e uma mo-cheia de amigos na capela do cemitrio. Telefonei a toda 
a gente ao raiar da aurora e disse-lhes que amos celebrar o "Dia do Mau Gosto" em honra de Nicky. Uma 
vez que ele tivera o mau gosto de nos deixar nestes apuros, tnhamo-nos de nos vestir de forma 
embaraosa para ele. A verdade era que ele teria adorado a ideia. Era o seu estilo de humor, e eu ia fazer 
isso para ajudar as crianas.
Todos se apresentaram com as piores roupas que eu alguma vez vira, lantejoulas, camisas com gravatas 
coloridas, botas de combate s flores e culos  estrela de rock. John excedeu-se com um fato Versace, e 
embora eu no tenha vestido nada a no ser preto desde a morte, vesti algo colorido nesse dia. Os midos 
adoraram. Um amigo msico tocou msicas de espectculos e coisas da Rua Ssamo, havia rosas de cores 
vivas na pequena capela, dois padres rezaram uma rpida orao, e no exterior uma frota de motociclistas 
da polcia aguardava o squito. O mayor autorizara um desfile de automveis, para manter a imprensa 
afastada. No havia olhos secos entre os polcias quando lhes apertei a mo antes de entrarmos na capela.
Acho que tnhamos de nos despedir de Nick ai, mas no consigo perceber porqu. No o deixei ali. 
Trouxe-o comigo no meu corao. Ele estar sempre junto de mim num milhar de formas. Ele faz parte da 
fibra do meu ser. No o posso perder, no o posso afastar de mim, no o posso trair. Ele pertence-me, 
como eu perteno a ele, por causa dos coraes que oferecemos um ao outro, os anos, as lgrimas, as 
derrotas, as alegrias imensas que partilhmos. No posso perder isso, no posso perd-lo. Nunca.
 Mas amar Nick no era ser-se perdedor. Era ser-se ganhador. Era ter esperana e acreditar, tentar, 
descobrir novas avenidas e correr por elas abaixo, e depois tentar outras quando essas falhavam. Nick deu-
me muitas lies importantes, a de como amar, a principal de entre elas. Como dar o corao at ele se 
despedaar, ou at morrer mos, venha o que vier primeiro. As lies que Nick me ensinou eram 
demasiado valiosas para as esquecer, ou para as pr de parte, ou para me distanciar delas. 
Como  a minha vida agora sem ele? As vezes, parece intoleravelmente vazia. Ele deixou um buraco no 
meu corao do tamanho do Texas. Maior que isso. Muito maior. Do tamanho de Nicky. 
Ainda no consigo acreditar que ele partiu. Fao coisas para preencher os dias e as noites, s vezes 
freneticamente, s vezes calmamente. Folheio lbuns e olho para as fotografias. Mando fazer cpias para 
outros membros da famlia. Organizei os seus vdeos, li todos os seus dirios. Telefonei ao advogado, em 
Nova Iorque, para tratar da sada do seu ltimo disco. Eu tenho estado a trabalhar neste livro. E organizei 
um concerto de homenagem com as bandas que ele adorava, e uma fundao.
Quero que a sua memria viva eternamente. Quero que as pessoas se lembrem dele, que o conheam, que 
o amem, que saibam a importncia que teve para mim, o quanto eu o amava, o quanto ele me amava, o 
quanto todos nos amvamos. Quero que elas conheam a pessoa extraordinria que ele era, o quanto ria, a 
alegria que nos trazia, o talento que tinha, como era brilhante e carinhoso. Ser que isso preencher a 
falta? Duvido. Acho que nunca preencher. Haver um buraco no meu corao para sempre, como um 
donut. Os anos que eu lhe dei, com tanta paixo e energia, eram dele, e levou-os consigo. No h nada que 
possa ou alguma vez venha a substitu-los.
Tenho mais oito filhos maravilhosos para amar e cuidar, e para me fazerem companhia, cada um deles to 
infinitamente precioso como Nick. A minha vida pertence-lhes agora, como sempre pertenceu. E sei, ou 
pelo menos espero, que com o tempo venhamos a rir outra vez, a viver de novo. Tenho esperana de que 
venham a acontecer-nos coisas maravilhosas, e, quando elas acontecerem, sei que vou querer contar isso a 
Nick, e terei mais saudades dele do que nunca.  um ciclo de saudades por ele que no ser facilmente 
quebrado. Nick tornou-se no s meu filho, mas tambm o meu melhor amigo. A sua vida no foi apenas 
uma luz radiosa para todos ns, mas um smbolo de amor e esperana para todos aqueles que o amaram e 
para todos aqueles que o conheceram.
O seu quarto ainda est intacto. Tenho-o arrumado como se ele viesse para casa outra vez. No suporto a 
ideia de o desmanchar, ou de me desfazer das suas coisas, embora talvez um dia o faamos. Mas prefiro 
pensar que ele estar ali para sempre. No fui visitar a sua pequena casa em casa de Julie. Seria um 
sofrimento extremo, pelo menos por agora. Irei l na devida altura. Tal como fao aqui, Julie arruma-a e 
senta-se l calmamente s vezes.  a casa, o quarto, o lugar onde morreu. Uma lembrana e uma viso que 
no consigo suportar. Algum disse numa das cartas de condolncias que um dia pensaremos nele como 
algum que viveu, no como algum que morreu. E gosto disso. Ele teve uma vida boa, rdua, com um 
amor, uma paixo e uma emoo infinitos. A vida para ele era um longo concerto, cheio de saltos, 
barulho, luzes e msica.  isso que Nick foi e que continuar a ser.
Para todos os que c ficmos, lembramo-nos, pensamos nele, falamos dele, cada vez com mais alegria  
medida que o tempo for passando. H histrias interminveis dele. E sem ele, agora, alguns dias so 
melhores do que outros.  difcil acreditar que ele partiu. s vezes, por instantes, ainda me esqueo, ou 
quero esquecer. Outros sonham com ele e pensam que o vem. Eu sempre tive a sensao de o ter perto de 
mim. No tenho experincia com estas coisas, e no consigo afirmar se ele est efectivamente perto, a ver-
me, ou se  apenas o forte desejo de o ver. Gostaria de pensar que ele consegue ver-nos, que est de facto 
perto, e que agora est em paz. Espero, sobretudo, que ele esteja feliz. Ele merece, como ns todos.
Isto tem sido infinitamente difcil para ns, mais difcil ainda descobrir uma bno nisto, uma ddiva, 
uma vitria; porm, elas esto l, se estivermos dispostos a v-las. A sua vida acabou por ser uma vitria, 
ele conseguiu tanta coisa em to pouco tempo, e foi uma ddiva para tantos. Deu-nos muita coisa. Deu 
tudo o que tinha.
De alguma forma, a maior ddiva de Nick para mim era a de me dar foras. Ao perd-lo, tive de encarar 
os meus piores receios e o meu maior demnio. Era a perda que eu receava mais em toda a minha vida, e 
que Nick me fez encarar com a coragem que ele sempre esperava de mim. Ele no me deu outra hiptese 
que no a de viver com a sua deciso, o risco que correu, a escolha que fez, e aceit-la. Ainda a combato 
s vezes, e nos dias maus, choro por no conseguir. Mas consigo, tenho de conseguir, tal como ele. No 
posso escapar ao sofrimento, nem  perda, nem s lembranas, nem ao facto de ter saudades insuportveis 
dele s vezes. Tenho de aprender a viver com isso, e tornar as nossas vidas no s boas, mas perfeitas de 
novo.
A alegria voltar outra vez, e tem vindo de vrias formas, com o tempo, e atravs das pessoas que amamos 
e que nos amam, e das crianas. Partilharemos novamente ocasies felizes, e temo-nos uns aos outros. 
Estamos a comear a rir de novo, e vejo as crianas a sorrir. E os Campbell tero novo beb um ano 
depois de Nick morrer. A esperana tem chegado a cada um de ns, de diferentes maneiras, como as 
ddivas finais de Nick. A Primavera vir, e muitos Veres, e haver frias sem ele, e ento recordaremos 
com clareza quando ele estava connosco. Mas as recordaes persistem, o doce perfume de tudo o que ele 
trouxe. Ele deixou a cada um de ns algo, um presente, um sonho, uma recordao, um pouco mais de 
coragem do que tnhamos antes, um sonho maior que poderamos ter tido sem ele.
A vida  acerca de sonhos, esperanas e coragem. A coragem para continuar, mesmo depois de aqueles 
que amamos nos terem deixado. E nos nossos coraes, Nick no morreu. Ele continua a danar, to 
radiante como sempre, a sorrir, a rir, a cantar. Uma estrela-cadente que guardaremos como um tesouro e 
que recordaremos para sempre. Ele deu-me alegria suficiente para dez vidas. Essa nunca ir abandonar-
me.
Amo-te, Nick. Obrigada, e que Deus te abenoe. Voltaremos a encontrar-nos um dia.
No desistas
Quando acho que j no consigo Que fiquei desapontado demasiadas vezes Um da minha banda pe o 
brao  minha volta e diz que se eu no desistir, ento sentir-me-ei bem. s vezes na vida, tenho-me sado 
to bem Passo algum tempo no topo. Tambm j estive de rastos Desmoralizado e destroado.  assim 
que as coisas so. Nunca se pode esperar mais, Metade do tempo ests a ganhar, E o resto ests no cho. 
Este mundo est to cheio de beleza como est de dio,  assim que as coisas so, Algumas coisas nunca 
mudaro. Centra-te no positivo, e usa a cabea. Nunca desistas, e sentir-te-s bem. Alguns gostam de 
drogas, e alguns gostam de lutar. A negatividade inspirou algures todas as noites. Tens de dar exemplos 
para os fracos de esprito. No pares de espalhar o saber at ao fim da vida. Tantas pessoas odiosas, muitas 
so loucas. Podes ter de pagar um tributo por isso, quando a vida fica reorganizada. E o facto provado de 
que consegues o que ds, e podes chocar no modo como a tua vida  vivida.

Nick Traina



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